Notas iniciais
Narrador: Ezra Localização: planeta Terra

Minha primeira semana no metrô foi simplesmente incrível. Além de dividir o quarto com um monte de adolescentes que partilham do meu perfeito gosto para tudo (músicas, livros, filmes, jogos, etc) ainda aprendi um pouco sobre como usar o fogo que circula por dentro de meus poros. Não gosto de me aparecer, mas todos ficaram dizendo que para um novato eu já sabia usá-lo muito bem.

A melhor parte veio na segunda semana. Olaf me chamou numa quarta-feira, disse para visitá-lo naquela sala com um nome estranho, Quavultesse, onde eu me enxergava dentro da sala de estar da minha casa. Senti falta da minha mãe, mas resolvi não tocar no assunto, nem pensar muito sobre isso. Não queria Olaf me ajudando com problemas como aquele. Mas ela já deveria ter me visitado de acordo com o histórico de mãe superprotetora que ela tinha.

Entrei na sala e ele já me esperava, sentado no meu sofá lendo alguns papéis meio amassados. Olaf era estranho porque, apesar de ter dois mil e vários anos, tinha aparência de um jovem, não parecia ter mais de vinte anos. Vê-lo lendo papéis antigos me fez pensar no quão chato ele seria se realmente tivesse a idade que aparenta ter. Isso sem falar na hiperatividade dele que me deixava tonto.

– Sente-se – disse ele, ainda com os olhos vidrados no papel. Sentei-me no outro sofá, o que ficava mais próximo da televisão. Passava um filme antigo com o Charlie Sheen que eu me lembro de ter assistido com minha mãe mais de dez vezes. Eu morria rindo em todas. Fiquei olhando o filme enquanto Olaf parecia fingir que eu não estava ali. Cada vez que o espiava seu rosto estava mais próximo dos papéis amarelados. Pigarreei. Ele pareceu sair de um transe, largando os papéis no sofá de imediato.

– Quase esqueci que você estava aí – sorriu. Não acreditei muito naquilo, mas ele não quis responder meu pensamento de “aham, sei”. – Você sabe por que foi chamado?

– Se eu soubesse o que você quer comigo não precisaria vir até aqui, Olaf – aquela foi uma tremenda pergunta idiota. Este é o sábio que toma conta de tantos adolescentes em perigo de morte iminente...

– Eu só estava puxando assunto, seu idiota – devo admitir que pensar perto dele sabendo que ele pode ler meus pensamentos é algo pior que perguntas idiotas de acordo com o Gráfico sobre coisas idiotas do Ezra. – Então, já que você não sabe por que o chamei aqui, precisarei contá-lo. Agora cale a boca e me escute.

– Ok senhor Olaf – ironizei. Ele fez cara feia, achei até que ia mostrar a língua. Não duvido muito dele quando o assunto é infantilidade.

– Enfim, você foi convocado para uma missão – missão? Ele disse missão? – Sim, eu disse missão. E não é uma das fáceis. Nem mesmo a companhia vai ser fácil – ele suspirou, olhando para baixo.

– O quê? Quem mais vai? – perguntei, falando mais rápido do que queria.

– Adivinha – ele sorria como uma criança. Eu queria atear fogo nele.

– Fala logo! – eu gritei.

– Ah, não. Adivinha, vai – disse ele, ainda sorrindo, empolgado.

– Olaf, por favor, deixe de ser infantil – eu fechei os olhos e contei até dez para que não o incendiasse acidentalmente como fiz com o unicórnio sanguinário.

– Ok, ok... A Sarah e o Jack. Vocês vão para Netuno. Não é legal? – meu sorriso deve ter sido um daqueles de cobrir metade do rosto. Se batesse um vento talvez eu virasse o coringa para sempre (isso se aquela história que minha mãe contou uma vez sobre “não faça caretas no vento, seu rosto vai ficar desse jeito para sempre” fosse verdade). E então eu pensei sobre os perigos que ficavam fora do Metrô.

– Vamos usar algum tipo de teletransporte até Netuno, não é?

– Não, mas não se preocupe, o Jack vai estar com vocês. Até eu tenho medo daquele rapaz. Não vão ter problemas com monstros.

Na noite anterior à da missão fiz uma coisa que nunca faço: dormir cedo, mas não deu muito certo, já que eu estava extremamente ansioso. Fiquei a madrugada inteira me revirando na cama e ouvindo o ronco de um dos meus irmãos. Não faço ideia de quem era o roncador, mas agradeci a Mercúrio, Netuno, Júpiter e todos os outros regentes quando ele parou.

Seis horas da manhã era o horário estipulado por Jack, e seis horas da manhã lá estava eu. Acho que foi a primeira vez em toda minha vida que eu não me atrasei nem cheguei muito antes do combinado em algum lugar. Não que fosse difícil ser assíduo quando se acorda a alguns andares do ponto de encontro.

Para minha surpresa eu não era o único a apresentar tremendas olheiras. As de Sarah estavam ainda piores que as minhas, seus olhos estavam quase se fechando e ela não parava de bocejar. Jack tinha olheiras naturais, ele não conta. O rapaz usava sempre a mesma jaqueta preta e simples, toda surrada, que combinava com os cabelos longos negros e lisos, também da mesma cor dos olhos, aqueles olhos... Eu tinha até medo deles.

Eles também haviam chegado à hora certa, me esperavam no meio do saguão. Aproximei-me deles, ainda coçando os olhos e murmurei um “olá” baixinho. Por milagre Sarah não fez cara feia para mim nem me mandou para o inferno. Devia estar com sono demais até para isso.

– Antes de irmos, quero lhe dar um presente – Jack tinha um jeito de falar muito... Certinho. Podia ter usado uma palavra mais ofensiva, mas não quero arranjar encrenca com ele. Acredite em mim, você também não ia querer. Pensei que fosse tirar algo do bolso, mas não. Ele saiu andando e nem fez questão de se certificar de que eu o estava seguindo.

Sempre pensei que o dormitório de Jack fosse um tipo de local escuro e cheio de velas negras, com fotos de demônios e alguns rituais satânicos por acabar. Ele me provou do contrário. O quarto era possivelmente o mais bem organizado de todo o Metrô Mestiço. Claro que a iluminação era fraca e a cor preta prevalecia na maior parte do ambiente, mas estava mais para um pub do que para um centro de satanismo, o que, para os padrões Jack, era ótimo. Ele tirou uma chave do bolso e abriu uma gaveta, de onde tirou um fundo falso e começou a procurar por algo no meio de várias quinquilharias. Objetos realmente interessantes, mas não vou citá-los, não são importantes. A não ser é claro o que ele me entregou.

– Aqui – ele disse. – Pegue – e me entregou uma manopla negra (óbvio que era negra, era um presente de Jack) daquelas que têm uma luva na ponta, porém a luva só ia até metade dos dedos e tinha um furo bem no centro da palma da mão. Não era uma daquelas manoplas de armaduras, era de couro e nada escandalosa, assim que a coloquei, ela se ajustou ao meu pulso magro e ficou exatamente do tamanho que deveria ser.

– Mas o que é isso...? – falei, mais para mim do que para ele.

– É algo que eu encontrei certa vez numa missão. Foi numa luta contra um servo de Mercúrio para ser mais específico. Esta manopla chama-se Ignis, ela faz com que seus disparos sejam mais rápidos e precisos, economizando energia na hora de utilizar o seu fogo interior. Vai lhe ser muito útil daqui para frente.

– Mas-mas eu não entendo... Por que você seria legal comigo? – eu estava realmente confuso. Supostamente Jack era um cara mal que se importava apenas com a própria pele, agora ele estava me dando um presente incrível e provavelmente importante.

– Porque agora somos parceiros. Além disso, eu não teria como usar as manoplas, pois elas foram feitas para quem lida com as chamas.

– Bem... Então, obrigado pelo presente – dei o sorriso mais convincente que pude. Este era um dos raros casos em que alguém conseguia me fazer ficar constrangido. Eu estava em choque.

– Me agradeça matando muitos monstros com ela – Jack sorriu. – Ah, e se um dia você encontrar a manopla direita pode pegar para você. – Era óbvio que se eu encontrasse o par ficaria com ele para mim. Sou ambidestro, usar duas manoplas de controle de fogo seria a coisa mais incrível a fazer. Eu havia gostado até mesmo do nome, Ignis. Minha filha mulher vai se chamar Ignis, vou anotar isto.

O dia estava frio, e nós estávamos do lado de fora do Metrô, às seis e meia da manhã. Nenhum monstro havia aparecido, mas eu já estava preparado. Mexia na manopla vez ou outra só para ter certeza de que ainda estava ali. Era tão confortável que não era como se eu realmente estivesse usando uma. Havia escondido grande parte da Ignis com meu suéter preto, mas a luva era visível. Sarah não quis perguntar, mas eu percebi os olhares curiosos que ela lançava para mim. Provavelmente tinha inveja do fato de que eu havia ganhado um presente de Jack e ela não. Ela tinha um arco incrível, caso começasse uma discussão sobre presentes eu diria “Ah, calada. Olhe para seu arco. Eu não tinha nada para me defender além do meu fogo”. Claro que meu fogo vale muito mais que qualquer flecha dela, mas não gosto de ficar me gabando. Além disso, devo minha vida a ela, aquele unicórnio teria me partido em dois se ela não tivesse aparecido e matado ele no maior estilo “faço isso o tempo todo”.

Jack agora havia pegado uma moeda dourada e raspava o chão do asfalto com ela. Eu e Sarah nos entreolhamos, procurando uma resposta um no outro, mas ambos apenas fizemos cara de quem não entendia nada e voltamos a observá-lo.

– Ãhn, Jack, o que exatamente você está fazen... – Sarah parou no meio da frase, quando um buraco se abriu no asfalto, e uma escadinha totalmente vertical apareceu na ponta. Entramos naquilo que parecia uma passagem de esgoto logo atrás de Jack, que ainda não havia começado a explicar o que diabos estava acontecendo. Assim que todos descemos e o asfalto se fechou sobre nossas cabeças, Jack virou para nós, e disse:

– Este é o esgoto dos regentes. Achei que seria mais seguro chegar até o trem por aqui.

– Que trem? – perguntou Sarah, assustada.

– O que vai nos levar ao nosso destino, obviamente. Escolhi este caminho porque dizem que ele é protegido por alguns dos regentes e, por isso, incidentes com monstros são mais raros aqui do que nas ruas de Nova York.

– Ok, mas que trem é este do qual você falou antes? – disse Sarah.

– Você vai saber quando for hora. Agora andem. – e, como sempre, saiu na frente sem olhar para trás.

Andamos por bastante tempo. Os esgotos eram escuros e esverdeados, e nem queira saber sobre o estado em que a água (se é que posso chamar aquilo de água) se encontrava. Por sorte, não tivemos que pisar naquele líquido nenhuma vez, pois havia algumas pequenas pontes de concreto que podiam ser usadas para atravessar as ruas daquela Veneza fedorenta. Algumas tubulações estavam ligadas à parte superior do concreto, levando sabe-se lá o quê para sabe-se lá onde. O cheiro podia não ser tão horrível assim, mas a ideia de imaginar um monstro saindo a qualquer momento daquelas águas escuras arrepiava minha espinha. Resolvi apertar o passo e andar sempre o mais próximo de Jack possível. Segundo Jason, Jack podia matar monstros apenas com o poder da mente. Algo sobre levá-los de volta ao mundo dos mortos com a ajuda de Plutão. Se bem que eu duvido que um regente perca tempo ajudando o filho. Mesmo ele sendo filho único, regentes, pelo que sei, são narcisistas e ocupados demais cuidando de suas próprias vidas místicas.

Depois do que me pareceram três quilômetros de esgoto, finalmente, um monstro apareceu. Era uma coisa gosmenta e verde, combinando com o esgoto. Pobre monstro... Não teve nem tempo de chegar perto de nós, deu dois passos lentos, soltando emplastro pelo corpo todo, antes de explodir e desaparecer bem diante de nossos olhos. Jack deu um sorrisinho de satisfação e seguiu andando. Atravessou mais uma ponte e disse:

– Vamos, agora não falta muito.

– Aquele parecia fácil. Podia ter deixado para mim – brinquei, seguindo-o.

– Cale a boca, garoto – resmungou Sarah, me empurrando com força pela ponte.

– Obrigado por me lembrar de que sou um garoto. Esqueço-me desse detalhe sempre que não posso ver minha genitália. Deixe-me checar – me virei de costas para ela e fingi que estava olhando para dentro da cueca. A propósito, eu só uso a palavra “genitália” se for ironicamente. Não pense que eu vou usar uma palavra estranha dessas com seriedade. Ela me deu um soco no braço e bufou, soprando os longos cabelos ruivos para longe do rosto.

Devo admitir que era um tanto difícil estar na presença de dois mestiços tão experientes e habilidosos quanto eles. Nada de tão ruim havia acontecido ainda, mas no fundo eu sabia, que se algo realmente difícil acontecesse, eu me sentiria inútil. Jack podia explodir monstros sem mover um dedo, Sarah era muito boa com o arco e lutava muito bem. E eu? Eu soltava fogo pelas mãos. Ok, incendiar coisas pode parecer muito perigoso, mas eu ainda não sabia controlar essa habilidade. Além disso, e se minha energia se acabasse? E se eu não pudesse mais usar o fogo? Eu não teria nada. Claro que a situação de Jack não era muito diferente, mas convenhamos, ele podia matar monstros com o olhar. Eu deveria ficar feliz por gente poderosa me defendendo, mas eu sou orgulhoso.

– Aqui. Chegamos – Jack parou em frente a uma porta verde de metal que parecia pesada e indestrutível, com uma pequena alavanca do lado esquerdo. – Antes de entrarmos quero explicar algumas coisas a vocês – disse ele, olhando para Sarah depois para mim, com uma expressão que revelava certa preocupação. Tirou alguns fios de cabelo que haviam se deslocado para cima de seu olho esquerdo e seguiu falando. – Nós estamos prestes a entrar em um metrô mestiço.

– Na verdade nós saímos do metrô mestiço já faz um bom tempo – sim eu estava sendo sarcástico.

– Não Ezra, é sério. Um metrô, com um trem – ele me olhou com tanta seriedade que tudo que pude fazer foi baixar a cabeça e resolver não abrir mais a boca até que alguém pedisse. – Esse trem não tem a mesma proteção dos esgotos. Na verdade, é muito comum que monstros utilizem este meio de transporte. Era usado pelos mestiços para viajar de casa para o Metrô Mestiço em segurança até que, durante a segunda guerra mundial, os monstros se aproveitaram da completa desordem que nosso planeta se encontrava e invadiram o trem. Éris, que é a regente responsável pela magia, não conseguiu retomar o controle desde então. Sei que não deveria expô-los a tanto perigo, mas é o jeito mais rápido e fácil de ir para a baía de San Diego. Na verdade é o jeito mais rápido e fácil de ir para qualquer lugar.

– Tem certeza de que quer fazer isso? – perguntou Sarah. – Você sabe... Nós temos um novato...

– E desde quando você se preocupa comigo? – sim, era uma pergunta retórica. Eu ficava irritado quando supunham que eu precisava de proteção especial.

– Não me preocupo com você, garoto. É só que você é responsabilidade minha, e eu não quero parecer irresponsável – essa doeu.

– Parem de discutir. Ezra sabe se cuidar, eu o vi treinando com Jason na semana passada. Não acho que deva se preocupar tanto assim com ele, Sarah – foi bom ouvir aquilo de Jack.

– Não me preocupo com ele – repetiu ela.

– Tá bom, que seja – disse ele, revirando os olhos. – Peguem essas capas – tirou três capas enormes do bolso da jaqueta, todas escuras e com capuzes. Como ele fez para guardar tanta coisa em um bolso interno da jaqueta? Não faço ideia.

Depois de os três estarmos vestidos Jack começou fazer força para puxar a alavanca, mas ela parecia emperrada. E então o grande Ezra entrou em ação. Pedi a Jack que se afastasse e encostei a mão na base da alavanca, esquentando-a, e então a puxei para baixo. Foi fácil. Jack me olhou e fez sinal de aprovação, eu virei para Sarah e disse:

– E agora? Quem aqui precisa de proteção? Eu abro portas, você só mata unicórnios malditos – e entrei logo atrás de Jack, antes que ela resolvesse me bater novamente. Só mais tarde fui perceber que matar um unicórnio maldito talvez fosse mais difícil que abrir uma porta.

O outro lado da porta revelou uma escadaria escura e vazia à esquerda. Não havia outra saída a não ser subir, para o outro lado tudo que se podia ver era escuridão e mais escuridão. O silêncio era tão grande que os únicos sons eram nossos passos tímidos e respirações pesadas. Provavelmente Sarah e Jack estavam nervosos, assim como eu. Ao fim dos degraus havia uma bilheteria e, à esquerda da bilheteria, dois homens que pareciam medir mais de dois metros vestidos em ternos pretos bem passados estavam parados em frente a uma porta de madeira emoldurada com desenhos estranhos e uma maçaneta de bronze enferrujado.

Não pude ver quando estava longe, mas ao me aproximar da bilheteria junto de Jack e Sarah, percebi que o responsável por vender as passagens era um monstro verde, igual ao que havia nos atacado no caminho do esgoto. Jack tirou algumas moedas prateadas dos bolsos e atirou-as no balcão, fazendo um gesto para indicar que queria três tickets. O monstro verde lentamente pegou três cartões já todos melecados e trocou com Jack por suas moedas. Assim que pegou os cartões, pude vê-lo fazendo a cara de nojo mais discreta possível por baixo do capuz. Fez que sim com a cabeça do jeito mais espalhafatoso para que o monstro percebesse que estava agradecendo, e o monstro, atrapalhado e com um terço de cérebro dentro da meleca que era seu corpo acenou com a mão vagarosamente, fazendo voar emplastro pelos balcões. Sarah abafou um riso e tudo que eu consegui pensar foi “É, eu poderia ter matado aquela coisa verde e burra lá no esgoto”.

Um dos homens enormes de terno recolheu nossos cartões da mão de Jack, com tanto nojo quanto ele, enquanto o outro abria a porta. Devo me sentir agradecido por eles não terem nos revistado, já era muito doloroso levar um daqueles socos que os seguranças normalmente dão nas partes íntimas dos rapazes, imagine então se o segurança tiver mais de dois metros de altura.

Atravessar aquela porta foi como passar por uma máquina do tempo. Estávamos de volta aos anos quarenta. A estação de trem, apesar de subterrânea, o que não era normal naqueles tempos, tinha o design todo de acordo com a época (o que era normal, considerando o fato de que ela não era reformada por Éris desde então). Pilares laterais de madeira rústica seguravam o teto, com cartazes de procurados como os usados nos desenhos ambientados no velho oeste. Passamos pelo meio dos pilares e todos os olhos pareciam postos em nossas costas. Havia muitos homens de terno, pareciam integrantes da máfia, com chapéus-coco e charutos, assim como em O Poderoso Chefão. Mas não era composta apenas de humanos a plataforma... Havia grupos de criaturas verdes emplastradas espalhados pelos cantos menos iluminados da estação, assim como dois unicórnios malditos como o que me atacou no outro dia e algumas coisas estranhas, que me pareciam cruzas de animais, assim como humanoides.

Paramos em um canto que ficava onde provavelmente a primeira porta do trem encostaria, ainda usando os capuzes para esconder nossos rostos – e como seriam úteis. Uma criatura estranha, com corpo de homem e cabeça de peixe verde (aquilo me lembrou de Bob Esponja) passou por nós, com um charuto muito mais grosso que o convencional enfiado na boca gigantesca. Andava vagarosamente, um pé depois do outro, e o terno azulado não se encaixava perfeitamente em sua metade peixe, os minibraços se esticando ao máximo para tirar o charuto dos lábios, com as mangas do terno dobradas mais de dez vezes para não escondê-los. Depois que ele desapareceu em meio aos pilares e criaturas enxerguei um foto de Jack em um dos cartazes de procurado.

– Jack, você é procurado por esse tipo de gen- coisas – sussurrei, seriamente, o que era uma raridade.

– Eu sei. Da última vez que passei por aqui havia um cartaz da Sarah também, e outro de Jason. – Jack sussurrou de volta. Não respondi, prezando por nossa segurança. Ser silencioso combinava com ser discreto, e ser discreto poderia ser a chave para garantir nossa sobrevivência ali, no meio de tantos inimigos. Se qualquer um deles descobrisse que estávamos ali seriamos massacrados. Talvez até lutassem entre si para descobrir quem ficaria com nossas cabeças.

Logo o trem chegou, era antigo, movido a carvão, o famoso Maria Fumaça. Todo negro e com o nome “Metrô Mestiço” entalhado ao lado no metal, mas a palavra “mestiço” estava deformada e era possível enxergar a palavra “monstro” em seu lugar, malfeita. O trem foi parando devagar, e de perto percebi que o buraco de onde deveria sair fumaça não funcionava, o que era bom, já que a fumaça teria enchido a estação. Entramos na primeira porta do trem, primeiro Sarah, depois eu, e por último Jack, olhando para todos os lados, cauteloso.

Estávamos no primeiro vagão, dividindo-o com os homens da máfia e o peixe verde, que mesmo dentro do trem, fumava seu charuto enorme e grosso, soltando fumaça no rosto dos homens de chapéu coco, que pareciam respeitá-lo, sei lá por quê. Os bancos eram de madeira, com encostos confortáveis de pelúcia acinzentada, com uma mesa de madeira entre cada dupla de bancos, que ficavam virados em direção à mesa. Sentamos a primeira mesa, no lado oposto da porta de entrada, para que pudéssemos ficar de olho no restante do vagão e não ter olhos sobre nossas costas novamente. Num banco onde deveriam caber dois, estávamos os três, espremidos como sardinha em lata. Falando em sardinha, aquele peixe começava a me irritar, seus olhos gigantes de peixe pareciam focar meu rosto, mas talvez fosse só meu psicológico me lembrando de que peixes gigantes com corpo de homem são estranhos e provavelmente nada amistosos (ou seja, eu devia sentir medo, e sentia).

Começava a suar frio por baixo da capa, e minha maior vontade era de tirar aquele capuz e respirar livremente. Ele cobria meu rosto completamente em sombras, e eu mal conseguia ver sem empinar um pouco o nariz. Sarah também parecia nervosa, sentada entre nós dois, balançava a perna num movimento contínuo e rápido, se era mesmo nervosismo ou só tédio, não faço ideia.

– Eles sabem – sussurrou Jack.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.