Livro I - A viagem a Netuno

6 VI – Como ir pra Califórnia com seu lindo irmão


Notas iniciais
Narradora: Alice Localização: planeta Terra

Era sexta-feira. Haviam-se passado três dias desde o recebimento da convocação de nosso pai. Agora, nos preparávamos para partir.

Estávamos Eddie, Fred e eu na sala esperando Yasmin que é uma princesa para se arrumar e uma lesma para arrumar sua mala. Suas malas. Havia sido decidido que nos dirigiríamos em duplas até a Califórnia. Como as duplas ainda não tinham sido definidas, isso implicava a permanência de todos nós em nossos aposentos até que o último se aprontasse.

– Por que a Yasmin tem que levar tantos bagulhos, meu regente? — indagou Fred — Tá certo que mina sempre leva mais coisa, mas a Alice vai levar só essa mochila. — Apontou, enquanto concluía, andando de um lado para outro — Ela tá nos atrasando. — Parou repentinamente — Querem saber? Vou lá apurar ela.

Eu refletia sobre o fato de que nós nunca tínhamos tempo de responder Frederico antes que ele saísse por aí, agindo como louco. Eddie estava sentado no sofá, enquanto eu estava em pé, perto da porta de entrada para os quartos. Fui sentar-me ao seu lado e media as palavras para começar a implorar-lhe que fosse ele a ir comigo, mas antes que eu pudesse dizer algo, Frederico e Yasmin irromperam pela porta já em meio a outra discussão.

– Eu não sei quanto tempo vou ficar lá, Fred. Não sei como é o clima lá. Não sei o que vamos fazer lá. E não sei como se vestem lá. — Yasmin miava.

Eddie começou a rir. Eu não tinha captado as palavras dela. Como assim? Como se vestem lá? Lá em Netuno?

– Acho que não deve se preocupar com a forma a qual os serviçais extraterrestres de nosso pai vestem-se, Yasmin — não deteve-se Eddie. — Já está pronta?

– Estou.

– Bom, nós nos encontraremos na baía de San Diego. A partir do momento em que sairmos do Metrô, não devemos mais nos encontrar até nosso destino. Será mais seguro. Fred, Yasmin, se vocês forem juntos, não irão se matar no caminho?

– Tá achando que nós somos crianças, Eddie? — Yasmin pareceu irritada com a preocupação notória de Eddie. Eu dei um risinho. Fiquei aliviada ao perceber que Eddie pretendia ir comigo. Aliviada e grata.

Frederico e Yasmin saíram primeiro e levaram nosso mapa. Ficamos para trás. Iriamos encontrar mestre Olaf e solicitar um segundo mapa. Eu também queria me despedir do mestre antes de partir.

Nos dirigimos a Quavultesse. É incrível como me surpreendo a cada vez que entro nela. Fazem anos que eu me sento na sala da casa de minha mãe. Antigamente, essa sala era um borrão para mim.

Mestre Olaf, estranhamente, não estava lá. Ele já havia ouvido Eddie. Iriamos esperar.

– Eddie — sussurrei.

– Sim?

– Onde você está?

– Estou no meu quarto.

– Como ele é?

– Ele é pequeno, tem luz fraca e não tem janelas. Estamos sentados na minha cama. Ela tem uma colcha dos Vingadores — nós sorrimos. — Acho que faz um bom tempo que não volto pra casa.

Houve um breve silêncio. Eddie observou minhas feições. Eu já estava ficando nervosa com aquilo. E vermelha.

Ele apontou para a porta.

– Aquilo é uma escada. As paredes são cinzentas. Eu tenho um aquário e ali — ele apontou para a televisão — ali ficam meus livros.

– Ali está a televisão da sala da minha mãe. Ainda passa o mesmo filme que assisti com Rachel.

– Sua outra irmã?

– Sim.

A conversa aos poucos ia me trazendo nostalgia. Mestre Olaf chegou bem a tempo de me impedir de transbordar em lágrimas.

– Me perdoem tê-los feito esperar. Fui buscar outro mapa. Vi que estavam precisando e não havia mais nenhum aqui no Metrô. — Essa foi uma fala de quatro segundos. — Eu disse que falaria mais devagar, Alice. Não tenho conseguido.

Eu dei um sorriso de compreensão. Depois de mil anos, deve mesmo ser difícil se adaptar a algo novo.

– Eu não sou velho — mestre Olaf retrucou meus pensamentos. Com o mapa, deu uma leve batida na cabeça de Eddie, antes de entrega-lo em mãos.

– Não quis dizer isso. Nossa, mestre Olaf! O senhor sempre me faz parecer cruel. — Ele deu uma risada. Pude ver o quanto se divertia me zoando em frente a meu irmão. Quando sorria, mestre Olaf realmente parecia muito jovem.

Eddie observava o mapa aberto sobre o sofá da casa de minha mãe, que era sua cama. Com meu pouco conhecimento sobre geografia, pude apenas decifrar que se tratava de um mapa dos Estados Unidos. Não devíamos estar indo tão longe, portanto.

Ambos nos despedimos de mestre Olaf e eu percebi que, talvez, Eddie também quisesse este momento.

Enquanto voltávamos ao nosso dormitório para buscar as mochilas, perguntei a Eddie onde findavam as coordenadas.

– No Pacífico — ele respondeu.

– Eu imaginava. Qual o ponto de encontro?

– A baía de San Diego.

– Tem um plano?

– Sempre tenho. — Então Eddie abriu aquele sorriso de filme. Ele podia fazer um filme. Nossa! Verdade. Eu tenho um irmão muito bonito.

– Alice? — percebi que estava parada em frente a entrada do nosso dormitório o observando de boca aberta. Que vergonha! A fechei imediatamente. Se bem que meu imediatamente não foi tão imediatamente assim. Ah, Alice! Pega tua mochila de uma vez.

Nós partimos.

Ao sair do Metrô, pegamos um ônibus na Neptune Avenue. Depois deste, ainda foram necessários um metrô, um trem e um trem elétrico para chegarmos até o John F Kennedy International Airport. Levamos quase duas horas para concluir o trajeto de nosso abrigo até o aeroporto. Foram duas horas de silêncio mútuo.

Demoraríamos mais de cinco horas para chegar até a Califórnia e era em pleno voo que nos encontrávamos nesse momento.

– Alice, está dormindo? — Eu abri os olhos.

– Você também deveria estar.

– Não acha que isso tudo está sendo muito fácil?

Eu não tinha parado pra pensar nisso. Ele me acordou pra me preocupar com coisas que não estão acontecendo? Sério isso? Maus ares que levaram Netuno até dona Lisa.

Mas agora, parando pra pensar, desde que saímos de casa, nada de estranho aconteceu mesmo. O que por si já é estranho.

– A última vez que eu visitei a minha mãe, tive que lutar com algo que parecia uma Tartaruga Ninja. — Eu dei uma risada. Não achei graça. Droga! Não consigo parar de rir. — Ele tava no meu banheiro. — Acrescentou Eddie.

Eu me sinto uma retardada quase cem por cento do tempo que passo com meu irmão. A maior parte desse tempo gasto sendo uma. Eu, finalmente, parei de rir.

– Quando eu visitei mamãe e Rachel, tinha tinha alguém a meu encalce. Era um metamórfico.

– Alice, você já viu um... Já lutou contra um metamórfico? — Eddie estava incrédulo. — Por que nunca me contou isso?

– Isso não é uma experiência a qual eu gostaria de sair compartilhando por aí. — Fiz uma pausa. Ele estava pensativo. — Olha lá, a amaldiçoada! — Agora eu falava em tom de brincadeira. Eddie riu.

Mas que verdade! Eles não ensinam mais isso para os recém chegados, mas antigamente, se acreditava que só amaldiçoados fossem perseguidos por metamórficos.

Na verdade, verdade mesmo, o motivo pelo qual não contei a Eddie não era o medo de que ele fosse se afastar de mim por pensar que eu sou uma amaldiçoada. Eddie pensa parecido comigo a ponto de concordar que Plutão tem mais o que fazer do que ficar amaldiçoando filhos de Netuno. O motivo era a forma que o metamórfico havia adquirido.

Quando cheguei a casa de minha mãe, lá estava ele, lá estava o Eddie sentado na sala de estar. Eu estranhei, troquei algumas palavras com a criatura e corri para o abraço, quando aquela coisa sorriu.

A primeira vez que me falaram sobre metamórficos, me disseram que o sorriso deles era algo inesquecível, inconfundível. Estavam certos. Pensei que aquele bicho havia mastigado piche. Ele tinha dentes afiados e sua boca, como um todo, era escuríssima. Parecia que tinha baba preta.

Não foi fácil me livrar dele. Esse tipo de monstro possui tem seus poderes influenciados pelos quatro elementos. Nesse caso, quem se fode são os filhos de Mercúrio, Júpiter e Netuno.

Só lembro de ter estourado o encanamento do banheiro quando o metamórfico colocou fogo nas cortinas da sala de estar.

Acredito que, por ele ter assumido a forma de Eddie, tenha me seguido por muito tempo. Eu estava com meu irmão quando sai do Metrô Mestiço. Só me separei dele no aeroporto. Tenho medo de que, como reza a lenda, o metamórfico ainda esteja me seguindo e eu realmente seja uma amaldiçoada.

Não conversamos mais e eu acabei pegando no sono novamente.

Quando desembarcamos no Brown Field Municipal Airport, pegamos um táxi que, em pouco mais de meia hora, nos deixou no Shoreline Park. Se ainda estivéssemos em Nova York, já estaria quase escurecendo. Porem, com o fuso horário atrasado em três horas, aqui o sol ainda estava forte. Eu estava cansada e precisávamos encontrar nossos irmãos antes de partir mares a dentro. Não tinha ideia de como encontraríamos Frederico e Yasmin. Mas...

– É o Fred? — perguntei surpresa ao ver um garoto extremamente sujo sentado na areia, olhando para nós como se fossemos comida.

– Parece que sim. — Eddie tentou correr até nosso irmão, mas no meio do caminho desistiu, apoiando-se com os braços no joelho para respirar. Estávamos todos exaustos pelo visto.

Frederico levantou-se e veio de encontro a nós. Quando alcançou Eddie, ambos desabaram sentados na areia. Pude ouvir Eddie perguntá-lo sobre o que havia acontecido.

Ao juntar-me a eles, Eddie começou a contar.

– A gente já tinha chegado aqui, quando a guria falou que ia ir no banheiro. Ela foi sozinha, né brow. Lógico. Daí eu esperei, esperei, esperei. Tipo, esperei muito mesmo. Esperei tempo pra caralho. A gente tava ali no aeroporto, tá ligado? Uma velhinha ia entrar no banheiro, pedi pra ela ver se a mana tava bem. Quando a mulher saiu de lá Disse que o banheiro tava vazio. — Ele fez uma pausa. Nossa descrença nos impediu de responde-lo. — Eu não podia acreditar.

– O que você acha que aconteceu? Acha que algum demônio a atacou? Ou acha que ela te deixou pra trás e foi sozinha?

Eddie tá mesmo perguntando isso? Nós três conhecemos a irmã que temos. Por favor. Yasmin é ingrata e ambiciosa desde sempre.

– Ela tava quieta pra caramba. E me perguntou se eu achava que íamos ser bonificados — ele fez aspas no ar — ou algo desse tipo se chegássemos primeiro. Yasmin é louca. Eu aposto que ela foi sozinha.

O silêncio predominou enquanto eu matava Yasmin mentalmente de várias formas diferentes.

– Então, qual é o plano? — perguntei, me atirando para trás para deitar na areia.

– Gostariam de se juntar a minha tripulação, marujos?

Eu dei um grito e no segundo seguinte estava de pé a quatro passos de distância.

– De onde tu saiu, assombração? — perguntei sem pensar.

Parado em minha frente estava a replica mais perfeita de um pirata que eu já pude ver com meus próprios olhos. Ele era de uma estatura mediana. Tinha cabelos compridos e desgrenhados, negros. Barba e bigode. Seus olhos esbugalhavam-se. Vestia uma calça que eu chamaria de bombacha e uma camisa daquelas que se vê em filme de pirata mesmo, com colete de pirata.

– Que falta de educação, bela donzela — disse o homem e nos atordoou com o cheiro de Rum. Cheiro de pirata.

Ele apoiou o braço em torno do pescoço de Fred que, como eu e Eddie, já estava posto de pé.

– Vê aquele navio? — ele apontou e eu e meu outro irmão também nos viramos procurando o indicado. — É meu Pérola, ele partirá em duas horas. Se quiserem ser parte do navio, juntem-se a nós.

Frederico parecia horrorizado com a ideia, mas eu, pela primeira vez, pareci pensar como meu irmão mais velho. O homem deu uma risada de bêbado e largou Fred.

– Que direção vocês tomarão? — Eddie quis saber.

– Vamos a favor da correnteza. Não temos rumo. — Ele procurava algo em suas vestes. — Onde está minha bebida? — De olhos arregalados, olhou para todos os lados. — LOUIS! VENHA JÁ AQUI, MARUJO INGRATO! ONDE ESTÁ MINHA BEBIDA?

Observei-o sair correndo atrás de um senhor barbudo que segurava uma vara de pesca. Ambos corriam engraçado.

– O que vamos fazer? — Fred parecia estar com medo da resposta.

– Parece que é nossa única opção — Eddie deu o veredicto.

Decidimos ir comer alguma coisa. Levamos quase vinte minutos para encontrar uma lancheria que parecesse ter licença sanitária e tivesse comida barata. Ficamos preocupados, precisávamos chegar a tempo de embarcar em um navio com um bêbado doido que pensa ser sei lá quem. Quando nosso pedido chegou, engolimos a comida o mais rapidamente possível, pagamos, guardamos o que tínhamos pedido para a viagem e saímos disparados de volta ao local em que o homem havia nos convidado a fazer parte de sua tripulação.

Ao chegarmos na prainha novamente, não houve surpresa: o que esperávamos nos esperava.

– Capaz que a gente ia sair do planeta sem algum troço desse vir encher o saco — reclamou Frederico vendo a criatura que nos aguardava na beira do mar.

Que tipo de monstro marinho era aquele? Eu não lembrava o nome. Devia ter uns seis ou sete metros de comprimento tranquilamente. Típico monstro marinho. Com escamas e tudo. Uma baita de uma calda. Tinha até chifres. Uns dez. Era de um tom de verde.

– Alice, você vai ficar aí olhando, de boca aberta? — Arremessei minha mochila contra as rodas de um caminhão estacionado não muito distante de onde eu estava. Que droga! Eu sempre preciso de alguém para me acordar.

Corri em direção ao monstro que estava dando conta de Eddie. Eu nunca reparei onde Eddie as guardava, mas ele sempre tinha uma estaca quando a briga apertava. Ele a cravou contra algo que seria o pescoço daquela ameba. Aquilo grunhiu. O bicho desafogou sua calda e a enrolou em Eddie. Essa é uma coisa que jurava que nunca, jamais veria em minha vida fora dos desenhos animados.

Eu me aproximei, tentando faze-los lembrar de quem somos filhos. O mar se revoltou. Frederico assumiu o controle. Eu iria resgatar Eddie.

– Alguém avisa pro Sol que seus monstros estão ficando velhos — provoquei. A fera me olhou. De repente, fogo saia pela sua boca. Eu me esgueirei. Que demônio de monstro era esse? Abafei um palavrão. Uma série deles.

Arranquei a estaca de Eddie do animal, não com facilidade, e corri até sua calda da qual meu irmão ainda não havia se livrado. Cravei a estaca na mesma. Ouviu-se outro grunhido. Ele soltou Eddie que me abraçou enquanto o monstro soltava fogo pelas ventas. Sentia calor. Meu irmão me soltou e juntou-se a Fred. A criatura estava embaixo d'água. Isso não funcionaria.

– Netuno tenha compaixão! — Exclamei, tendo em vista a falta de criatividade de meus dois irmãos.

Então eu vi novamente o bêbado. Ele brincava com uma espada quando nos viu também e parou, em estado de choque. Corri até ele, que por alguns instantes se manteve imóvel. Só alguns. Logo que me notou, saiu correndo na direção oposta.

– Reunir tripulação! — ele gritava — Iremos partir!

Eu corria mais depressa. Puxei uma onda que o derrubou. Trapaceei, mas foi por uma boa causa.

Com a espada do louco em mãos, corri para a criatura novamente. Uma onda me ergueu até a altura da dela, onde montei, me afirmando aos chifres. No segundo instante, eu estava cravando a espada em sua cabeça, ela grunhia e se contorcia. Eu a rasguei. Sério que esse bicho tem um cérebro?

Meus irmãos não deixaram de conduzir as ondas sequer um segundo. A fera, exausta, se rendeu, desmaiada na beira do mar.

Sorte minha foi o pirata não ter retirado o convite após eu ter pego emprestado sua tão valiosa espada. Meus irmãos me matariam. Fora o sermão de "só com nossas habilidades daríamos conta".

– Sim, marujo. Derrotei um monstro marinho. — vangloriava-se o doido a nossas custas. Ele nem sequer me emprestou a droga da lâmina. Tive que correr.

Ao menos nos deu um lugar no reservatório de Rum para dormirmos um pouco. Dormimos muito.