Livro I - A viagem a Netuno
1 I – Conheço um unicórnio muito fofo
Notas iniciais
– EZRA, ACORDA! – estou acordando atrasado, mais uma vez. A pessoa que grita como uma gralha neste exato momento é Lillian, uma senhora baixinha raivosa e hiperativa a quem costumo chamar de mãe.
O motivo pelo qual sinto tanto sono e mal consigo abrir os olhos é o de sempre: fiquei até tarde jogando World of Warcraft.
Murmurei um “já vai” enquanto sentava na cama, tateando em busca do celular para ver se alguém havia me ligado ou mandado uma mensagem de texto. Tinha uma mensagem de Peter – meu melhor amigo – que dizia:
“Não precisa me esperar, meu pai vai me levar de carro para a escola hoje.”
Ter que ir sozinho até a escola seria potencialmente entediante, a não ser que algo de legal acontecesse no caminho.
Meu vício por aparelhos tecnológicos é algo apavorante. Não consigo passar uma noite sem ficar na internet até tarde, e isso faz com que eu durma muito pouco, e acorde atrasado sempre.
Apesar de atrasado, não costumo ter pressa, aprendi nesses quinze anos – e onze dias – de pura falta de destreza que a pressa me faz andar de modo mais atrapalhado ainda. Contudo, não me culpo por caminhar desastradamente, afinal, não é qualquer pessoa que lida com pernas finas como gravetos sem perder certa porcentagem da coordenação motora.
E sou desastrado só da cintura para baixo. A coordenação motora incrível das minhas mãos me fez ambidestro. Escrevo praticamente com a mesma destreza com a suposta mão errada, que na verdade nem sei qual das duas é.
Levantei e reparei na bagunça em que meu quarto se encontrava. Havia roupas pelo tapete, restos de doce na mesa do computador, quadrinhos e revistas atiradas aos quatro cantos do cômodo; uma zona. Fico feliz de ver minha toca assim, gosto da bagunça. Vivo na bagunça porque essa é minha vontade.
Os móveis do meu quarto são rústicos importados da Alemanha. Arranhei o guarda roupa acidentalmente quando tinha doze anos, minha mãe quase enlouqueceu naquele dia. Desde então, tirou de mim o canivete que o tio Harold tinha me dado de presente de aniversário.
Tive o canivete só por duas semanas, o que achei injusto, já que normalmente não estragava nada. E aquele canivete era muito legal.
–Se eu não tomasse conta dele esta casa já teria explodido há muito tempo – minha mãe recitava esta frase sempre que algo se quebrava, mesmo que não fosse culpa minha.
Caminhei lentamente até o banheiro, praticamente cambaleando. Percebi que minha mãe havia estragado a fechadura novamente e a consertei em menos de dois minutos, com uma chave de fendas que ficava sempre na gaveta da cabeceira.
Ao escovar os dentes vi que meus olhos haviam mudado de cor. Continuavam sendo os mesmos olhos negros de sempre, porém, pupilas vermelhas, escuras como se misturadas ao negro dos olhos, habitavam o lugar das convencionais.
Isso era estranho.
Decidi não dar importância por ora, afinal, estava atrasado.
Já havia perdido o ônibus e a companhia de Peter no caminho até a escola, não me importava mais com o horário, mas minha mãe sim. Ela continuava gritando insultos que iam de “vagabundo” a “imprestável” da cozinha, no andar debaixo. Já acostumado com as ofensas, fingi não ouvir.
Minha mãe é chata, mas é a única pessoa que tenho. Não tive tempo de conhecer meu pai, que sumiu antes que eu completasse um ano.
Não sinto falta de ter um pai, estou acostumado a ficar sozinho e, apesar de minha mãe reclamar muito, a gente se dá bem. Até olho televisão com ela quando ela decide ver algum seriado engraçado no canal da Warner.
Dei alguns tapas nos cabelos – odeio meus cabelos, odeio eles com todas as minhas forças, eles são cacheados. Existe algo mais horrível que ter cabelos cacheados? –, vesti qualquer roupa das que estavam atiradas pelo tapete e saí.
Desci as escadas correndo para que minha mãe não me visse saindo de casa. Ela sempre insistia para que eu levasse um sanduíche de geleia de banana. Eu simplesmente odeio aqueles sanduíches
Ao sair de casa vi o ônibus na parada que ficava antes da minha. Será que hoje é meu dia de sorte? Espero que a resposta seja sim.
Seria meu primeiro dia como estudante do ensino médio, e, apesar de continuar na mesma escola, acredito que este seja um ano de mudanças. Esperei pela mudança por muito tempo, estou cansado de não ter vida social. Pra falar a verdade: queria comer alguém. E não estou falando sobre virar canibal.
Entrei no ônibus me arremessando na frente de uma senhora que estava na minha frente. Eu não tinha visto ela e pedi desculpas, porém, a velhinha me encheu de críticas mesmo assim.
Sempre sofri de falta de atenção e sempre fui criticado por isto, estou tão acostumado com situações como esta que já ajo com indiferença.
Sentei perto da janela em um banco no fundo do veículo, de onde poderia observar a todos que entrassem ou saíssem. Queria rir um pouco.
Meus desejos foram atendidos, uma gorda com pernas minúsculas quase ficou trancada ao passar a roleta. Se ela estivesse vestida de vermelho eu poderia jurar que ela era uma pokébola. Ri alto demais.
Todos me olharam com expressões de susto, como se tivessem visto o conteúdo por baixo da cartola do Slash – que devia ser aterrorizante, realmente –, a não ser a moça gorda, que me fuzilou com o olhar.
Sei que todos tinham vontade de rir e se continham, perguntava-me por que. Pessoas riem de outras pessoas pelas costas diariamente, por que todos insistem em esbravejar sempre que possível e guardar sorrisos a maior parte do tempo? Nada fazia sentido.
Passei o restante do caminho me concentrando apenas nas músicas, para que não passasse por mais um episódio daqueles.
Desci do ônibus com toda a calma do mundo e com a mesma calma caminhei até a escola. Chegaria para a metade da primeira aula, entretanto, ainda não sabia o cronograma, portanto, não sabia onde deveria ir. Isso significava que eu teria de falar com a orientadora, Mandy, para que ela me desse os papéis que indicavam os horários e locais de cada aula.
Gosto de ter motivo para ver a orientadora. Ela é jovem, loira e sorridente, ou seja, agradável, mas tem uma característica que, em minha opinião, vale mais que qualquer outra: peitos enormes.
Ela me deixava praticamente hipnotizado, eu não entendia sequer metade das coisas que ela dizia. Tinha sorte por receber o papel com as informações importantes.
Entrei na sala da orientadora com um sorriso falso de “estudante esforçado que havia se atrasado por motivos maiores”.
Não sabia fingir muito bem, mas sabia que a orientadora cairia nisto. Comecei dizendo:
– Olá Mandy, eu me atrasei porque eu tive que ficar cuidando do meu irmão mais novo e gostaria de saber o cronograma da turma duzentos e três.
– Ah, que fofo! Qual é o nome dele? – ela estava mesmo caindo nesse papo. Como é que ela conseguiu esse emprego?
– O nome dele? É... Ele se chama... Chucky. É, Chucky – quem seria idiota o bastante para chamar o filho de Chucky?
– Seu pai gostava de Chuck Norris então? – ela acabara de transpassar a linha entre imbecil e muito imbecil.
– Não, é de Chucky, O Boneco Assassino.
– HAHAHA. Seus pais têm muito senso de humor.
– É, pode ter certeza que sim... Principalmente minha mãe.
Meu objetivo era terminar de matar o primeiro período – que era de matemática – conversando com Mandy e depois ter uma aula de educação física, segundo o cronograma.
Terminei minha conversa com Mandy e fui dar uma volta pelos corredores nos meus cinco minutos de folga restantes.
Lembrei-me da escolha de armários e isso me fez lamentar não ter chegado à escola na hora certa. Provavelmente alguém havia pegado o armário que fica do lado do bebedouro e, certamente, não haviam sobrado armários lado a lado, para eu poder ficar com o armário do lado do de Peter. A vida é feita de escolhas e eu, infelizmente, havia escolhido jogar até tarde. Mais um erro para minha coleção.
O tempo de descanso chegou ao fim.
Cheguei ao ginásio no exato momento em que meus colegas entravam. Avistei Peter caminhando sozinho, focado na professora, que falava sobre o quão importante era a aula dela.
Fui me aproximando lentamente a fim de assustar Peter, porém fui notado muito antes de chegar perto o bastante. Até parece que esse maldito tem sexto sentido. Sorri para ele e o cumprimentei do mesmo jeito de sempre: soco e explosão.
– A aula de matemática foi tão chata que eu preferia ter ficado conversando com você – Peter disse aquilo com os olhos muito abertos, o que queria dizer que não era exagero. Não era normal ele preferir conversar a fazer qualquer outra coisa que não exigisse abrir a boca, como assistir a uma aula de matemática.
– Sinto muito, cara. Eu me atrasei porque não ouvi o despertador.
– E não ouviu o despertador porque foi dormir três horas da manhã, como sempre.
– Façam silêncio, pretendo dar uma aula aqui – reclamou a professora.
Era Sharon, a mesma professora autoritária e exigente dos anos anteriores. A matéria parecia besteira, e era, para a maioria dos estudantes, até mesmo para alguns dos professores, contudo, aquela professora levava tudo muito a sério. Exigia que todos passassem por testes físicos um tanto quanto pesados. Alunos acima do peso eram mais cobrados ainda, como se ela quisesse emagrecê-los à força, em um dia. O que, obviamente, não acontecia. Mas ninguém discutia com ela. As garotas: por medo. Os garotos: sério, que homem seria capaz de discutir com ela?
Eu, particularmente, só brigaria com ela se essa briga tivesse alguma possibilidade de acabar na cama.
Ela tinha corpo atlético e cintura fina. Era uma mistura de beleza e terror; o rosto era perfeito, os olhos cor de ouro brilhavam como se um pirata tivesse se esquecido de buscar o tesouro, os cachos castanhos pulavam durante os movimentos. Até mesmo a expressão que ela levava noventa por cento das vezes era linda, um sorriso que parecia sincero. Parecia.
Não era nem um pouco verdadeiro. Era o tipo de pessoa que não se deixa conhecer.
Quando alcançava um teor de raiva incontrolável, mostrava o lado sargento que tanto tentava esconder, mas para chegar a este ponto a situação tinha de passar, e muito, do limite.
E assim, fizemos todos os testes físicos, terríveis, como das outras vezes. Na metade do tempo todos já tinham uma expressão do tipo: “isso não vai acabar nunca?”.
Alguns gemiam de dor, outros mancavam. O sofrimento nos acompanharia duas vezes por semana até o fim do ano novamente. No caminho para os vestiários consegui ouvir Susan, uma garota mesquinha da qual não gosto, sussurrando para a amiga:
– Ela só é assim porque nunca teve um namorado.
Esta garota é o principal motivo pelo qual odiei mulheres até chegar à puberdade. Ainda a odeio, mas só porque além de chata é gorda.
Contudo, agora, depois de quase nove anos de convivência, Susan entrou em uma academia e está começando a modelar as curvas, já quase consigo achá-la atraente. Depois que ela cruzar a linha que separa “gordinha” de “gostosa” pretendo começar a ser legal com ela.
Depois de tomar banho, eu e Peter fomos para o corredor da sala do professor de física.
Era o mesmo cara estrábico com dentes enormes que piscava e lambia os lábios o tempo todo. Era minha aula favorita porque podia zoar o professor de muitos jeitos diferentes.
Chegada a hora do almoço, eu e Peter nos deslocamos rapidamente até a cantina para que pudéssemos ocupar a mesma mesa de sempre, que ficava perto do bar.
A cantina era muito legal. Era uma réplica de alguma daquelas lanchonetes antigas em que havia sofás de couro vermelhos ao redor das mesas. Só faltavam as moças com vestidos curtos patinando pelas mesas.
Estava conversando entusiasmado com Peter sobre o que poderíamos fazer à noite, no seu jantar de aniversário, quando, de repente, alguém me cutucou.
Virei rapidamente e dei de cara com a garota mais linda que já vi em todos os meus quinze anos de vida.
Os cabelos ondulados castanhos esparramados sobre o corpo, e que corpo... Era magra, mas não esquelética. Tinha corpo de atriz; se fosse corpo de modelo, seria esquelética, de fato. Olhou para mim com olhos cor de mel que faziam parecer que ela gostaria muito de me estrangular. Foi então que saí do transe e consegui ouvi-la.
Ela disse:
– GAROTO – gritou para mim. – Seu amigo é surdo? – indagou, virando-se para Peter, que apenas fez que não com a cabeça, timidamente.
– Desculpe – consegui, enfim, pensar em algo para dizer.
– Tudo bem, isso acontece o tempo todo. O que você vai querer? – só agora percebia o bloquinho amarelo que ela trazia consigo.
– Você à milanesa... – que foi que eu disse? Não planejava dizer aquilo e aquela frase era muito diferente de “macarrão e coca-cola”, não podia ser um problema fonoaudiólogo. Eu me sentia realmente confuso.
– Ei, me respeite! – ela parecia prestes a me estrangular de novo.
– Eu... Eu não queria dizer aquilo, escapou...
– Ah, sei... Só faça seu pedido de uma vez, garoto – a ênfase que ela deu à palavra garoto foi um pouco cruel, mas preferi não dizer nada a respeito.
– Um macarrão e uma coca-cola.
– Ok. E você? – Peter apenas fez sinal negativo novamente.
A garota já estava atendendo uma mesa do outro lado da lanchonete e eu ainda a observava boquiaberto. Só consegui parar de olhar para ela quando ela entrou na sala onde ficava a cozinha.
Virei para Peter, que mantinha a expressão vazia de sempre, e disse:
– Que garota é aquela cara?
– É a Catie – Peter disse aquilo como se saber o nome dela fosse a coisa mais comum de todas.
– Mas... O quê? Como é que você sabe o nome dela?
– Estava escrito no uniforme dela, bem grande “C-A-T-I-E” – ele falava comigo como se eu fosse uma criança de cinco anos.
– Agora você vai me zoar porque não percebi isso... Ok... Mas ela era incrível, não era?
– Sim.
– Eu mal conseguia falar com ela... E você menos ainda. É normal você falar pouco, mas é educado demais para não responder alguém quando lhe fazem uma pergunta. Que aconteceu com você, Peter? – achei a timidez dele engraçada.
– Eu não sei... Parecia que ela tinha algo de anormal. Não sei explicar.
Agora que ele falava, fazia sentido. Era loucura, mas pareceu até magia. O jeito que ficamos na presença dela. Principalmente eu, que falava muito e tentava fazer piada com tudo. Embora a história de “você à milanesa” tenha sido engraçada... Ia anotar aquela frase no meu ainda não existente bloco de anotações chamado: Cantadas para usar em garçonetes.
Não consegui manter o foco em nenhuma das aulas seguintes. Tudo me fazia lembrar Catie e perder a concentração.
Eu espero não estar apaixonado por aquela garota, seria um desastre. Ela era nota dez enquanto eu não passava de cinco no quesito beleza. Seria a primeira vez em que alguém partiria meu coração.
Peter também parecia desligado do mundo, assim como também parecera abalado pela presença de Catie na lanchonete. Será mesmo que estávamos fadados a sofrer pela mesma mulher?
Era um dia calmo e ensolarado, perfeito para andar pelo Central Park. E era para lá que eu estava indo.
Fiquei deitado na grama por mais de uma hora ouvindo música no meu iPod. Depois, caminhei sem rumo pelo parque, apreciando cada detalhe daquele lugar magnífico – principalmente as loiras peitudas que costumavam fazer cooper por ali.
Quando me dei conta, já estava ficando escuro.
Na metade do caminho de casa o sol já havia se posto e os becos estavam uns mais escuros que os outros. Tinha medo de ser assaltado, mas prossegui.
Quando estava passando por um dos becos ouvi um ruído estranho, parecia o trotar de um cavalo. Um cavalo em um beco? Anormal.
Voltei dois passos e vi uma coisa que não podia ser real. Um unicórnio. Isso mesmo: U-N-I-C-Ó-R-N-I-O. Aquele cavalo fofinho que tem um chifre no meio da testa.
Mas não existem unicórnios. Todo mundo sabe que é só um tipo de criatura fofinha criada para garotas.
Fui entrando no beco para chegar perto dele e tocar seu chifre para retirar e provar que era só um minicavalo com um chifre de mentira e... SANTO DEUS.
Aquele bichinho fofinho tinha olhos vermelhos, e tinha sangue saindo deles. Os dentes daquela coisa eram do tamanho das pilhas de um controle remoto e adivinha? Tinha sangue neles também!
Devo admitir: estava apavorado de verdade. Não é todos os dias que se acha o gêmeo mal da Uni de Caverna do Dragão.
E pior ainda foi quando notei os três cachorros mortos no canto do beco. Todos os três estavam estraçalhados. Aquilo me deu vontade de vomitar.
Eu estava no meio de um beco escuro com um unicórnio assassino de cachorros. Mas não pretendia ficar mais tempo ali.
– Ah, adeus, Uni, vou sentir saudades.
Saí correndo o mais rápido que pude olhando para trás para não perder o unicórnio de vista. Ele não saiu do lugar. Quando resolvi olhar para frente ele já estava na saída do beco, parado, me encarando.
– Como é que você chegou aqui tão rápido? – gritei para o animal. Eu estava preso.
– Sabe Uni, nós deveríamos resolver isso numa boa... Eu não quero ter que te machucar – a quem eu estava enganando com esse papo de machucar? Aquele monstro fofinho é que ia me estraçalhar.
Foi então que aquela coisa começou a falar:
– Não esperava encontrá-lo, mas agora que sinto sua onda de poder irradiando, não posso deixar de perceber que é filho de Mercúrio. Vou matá-lo – a Uni tinha a voz do Morgan Freeman. Como era possível que um unicórnio falasse? E ainda mais: como era possível que um unicórnio falante tivesse a voz do Morgan Freeman? Não fazia sentido.
– Você é Deus em forma de unicórnio? – tem um unicórnio carnívoro dizendo que vai me matar e eu faço uma piada... Estou ficando mais idiota a cada dia.
– Não sei de qual deus você está falando, mas, se quer saber, foi o Sol quem me mandou para seu planeta.
– Sol, Mercúrio... Você fala como se os astros dessa galáxia fossem seres vivos – ele era um unicórnio falante e eu me preocupei com o que ele falava. Como se já não fosse o bastante encontrar um unicórnio maligno com a voz do Morgan Freeman.
Tentei passar pela sua esquerda, mas ele foi para o lado. Tentei a direita, ele foi para o outro lado. Senti-me um idiota por tentar aquilo.
Os olhos da Uni agora estavam amarelos, e já não havia sangue escorrendo deles, nem de seus dentes.
– Preciso beber seu sangue, garoto, meu estoque interno acabou agora mesmo. Você deve ser delicioso.
Aquilo fez o meu estômago girar como se eu estivesse em uma montanha russa. Mas até que o noticiário de amanhã seria engraçado: “garoto é devorado por unicórnio com voz idêntica à de Morgan Freeman”.
Claro que eu não queria ser devorado por um unicórnio, mas, se acontecesse, seria a morte mais engraçada de todas. Depois, é claro, do cara gordo que se engasgou com uma Ruffles.
Não. Chega de pensar sobre morrer. Eu não vou morrer.
Corri para o fundo do beco, onde estavam as escadas anti-incêndio. Empurrei um dos containers até ele ficar debaixo da escada e tentei subir, mas o unicórnio correu contra mim e eu tive de desviar daquele chifre antes que ele me perfurasse bem no meio do estômago.
– Desista moleque – aquela coisa não desistiria.
Tentei a última coisa que me restava: implorar. Ajoelhei-me e comecei a forçar um choro.
– Por favor, senhor unicórnio, não me mate. Eu te levo até o maior canil da cidade e você come quantos cachorros tiver vontade. Talvez até exploda. Misericórdia, por favor, misericórdia.
– Desculpe garoto, mas, não vai haver misericórdia para você. E pense pelo lado positivo: posso lhe matar com uma chifrada no coração, e então devorá-lo quando já estiver morto. Quase nem sentirá dor. Se eu fosse você agradeceria por não ter encontrado um monstro pior.
– Monstro pior? – já parecia terrível saber que existia um unicórnio carnívoro por aí, agora saber que havia outros monstros...
O unicórnio simplesmente correu em minha direção apontando o chifre para o meu peito, eu ergui as mãos como em modo de defesa e... FOGO.
Saiu FOGO das minhas mãos, acertei o chifre do unicórnio em cheio e ele se desintegrou, deixando apenas um cavalo pequeno de olhos amarelos.
Ele berrou de dor, e de raiva. Eu ainda teria de me preocupar com os dentes enormes que ele tinha e, quando tentei soltar fogo pelas mãos novamente, simplesmente não funcionou.
Por sorte, alguém acertou uma flecha na cabeça do unicórnio, que se desintegrou por inteiro, deixando apenas a flecha num monte de gosma verde. Mas quem? E se esta pessoa quisesse me matar também?
Fiquei sentado, apavorado, esperando que o arqueiro saísse das sombras para me matar – ou para ser meu melhor amigo, caso não me matasse.
Era uma garota ruiva e alta, devia ter uns dezoito anos. Olhou para mim com a mesma expressão que alguém que acabara de ver dois gorilas dividindo um prato de fezes. Eu não devo ser tão feio assim.
Consegui tomar coragem e perguntei:
– Você vai me matar?
– Não. Apesar de você ser um frouxo que merece ser morto, não vou – não me incomodou ser desprezado por ela. Já fui desprezado por tanta gente que ser desprezado por uma garota ruiva alta que matava unicórnios carnívoros era mais que normal.
– Quem é você?
– Me chamo Sarah, e você tem que me seguir, filho de Mercúrio. Não é seguro para você ficar andando por aí à noite – ela era sexy, eu a seguiria mesmo se estivesse indo caminhar em cacos de vidro.
Nunca uma garota tão bonita tinha me convidado para algo. Era minha chance. Hoje tem.
Antes que eu pudesse reagir, ela me puxou com uma mão e me levou até um táxi, igual aos outros de Nova York, só que: quatro vezes maior. Acho que poderiam caber umas vinte pessoas naquele veículo confortavelmente. Porém, só estávamos no carro eu, Sarah e um cara baixinho de óculos escuros que era o motorista.
O motorista me observava com um enorme sorriso no rosto, teria me sentido mal com aquela situação se não tivesse acabado de entrar num táxi enorme logo após lutar com um unicórnio carnívoro.
Não esperava por esta. O cara de óculos escuros pisou fundo no acelerador – ainda me olhando –, andávamos a mais de trezentos quilômetros por hora.
Tinha agora mais uma dúvida na Lista Enorme de Dúvidas do Ezra: Para onde eles estavam me levando?
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