​O silêncio que se seguiu à ordem de Julian foi subitamente estraçalhado. Não por um tiro de Leo, mas por uma rajada de fuzil que atravessou as paredes de madeira da cabana, estilhaçando os vidros e fazendo a terra saltar do chão.

​— Todos no chão! — gritou Julian, derrubando Isadora e Elena para trás da antiga prensa de vinho feita de pedra.

​Leo, cujos instintos de soldado foram reactivados instantaneamente, esqueceu a sua fúria contra Lorenzo. Ele mergulhou para o lado da janela, espiando entre as frestas. Lá fora, três SUVs pretos cercavam a clareira. Homens armados com tácticas militares avançavam de forma coordenada.

​— Não são os Rossi — sibilou Leo, recarregando a sua Beretta. — E não são os homens do porto.

​— É o espólio do meu pai — disse Lorenzo, a voz sombria enquanto pegava numa barra de ferro do chão, já que estava desarmado. — São os antigos parceiros dele de Milão. Eles acham que eu escondi o dinheiro que o meu pai desviou antes de morrer. Eles não vieram para conversar.

​Uma Aliança de Sangue

​Julian olhou para Leo e depois para Lorenzo. A situação era suicida: eles estavam encurralados numa cabana de madeira contra um pequeno exército.

​— Leo! — Julian chamou, a sua voz de comando cortando o barulho das balas. — Dá-lhe uma arma!

​Leo hesitou por um segundo que pareceu uma eternidade. O homem à sua frente era a razão da sua ruína. Mas, ao olhar para Elena, encolhida e aterrorizada nos braços de Isadora, ele soube que não tinha escolha. Ele tirou a arma reserva do tornozelo e lançou-a para Lorenzo.

​Lorenzo apanhou-a no ar com a destreza de quem já conhecia o peso do chumbo. Os dois ex-amigos trocaram um olhar rápido — um pacto silencioso de que as contas pessoais seriam resolvidas apenas se sobrevivessem àquela noite.

​— Leo, cobre a esquerda! Lorenzo, comigo na direita! — ordenou Julian, assumindo a liderança da batalha.

​O Resgate sob Chamas

​A luta foi brutal. A cabana começou a arder quando uma granada incendiária atingiu o telhado. O fumo negro preenchia os pulmões, tornando a visão quase impossível. Leo e Lorenzo lutavam lado a lado, as costas um do outro protegidas enquanto disparavam contra os mercenários que tentavam invadir a porta principal.

​Num momento crítico, um dos atacantes conseguiu contornar a prensa de pedra e apontou o fuzil directamente para Elena.

​— Não! — gritou Elena.

​Lorenzo não pensou. Ele atirou-se sobre ela, usando o próprio corpo como escudo. O som de dois disparos ecoou quase simultaneamente. Leo abateu o atacante com um tiro na cabeça, mas Lorenzo soltou um gemido abafado, caindo sobre Elena.

​— Lorenzo! — Elena gritou, sentindo o calor do sangue dele molhar o seu vestido.

​A Fuga do Inferno

​— Temos de sair agora! — rugiu Julian, enquanto o teto começava a colapsar.

​Leo ajudou Lorenzo a levantar-se, passando o braço do seu inimigo pelo pescoço. Pela primeira vez em oito anos, Leo sentiu o peso de Lorenzo Bernardi, mas não era o peso do ódio, era o peso de um homem que acabara de salvar a sua irmã.

​Eles atravessaram a cortina de fogo e saíram para a mata, onde os reforços da mansão Rossi, chamados por Isadora via rádio, finalmente chegavam para dispersar o resto dos mercenários.

​Horas depois, na biblioteca da mansão, Lorenzo estava deitado no sofá, com o ombro enfaixado e o rosto pálido. Elena não saía do lado dele, segurando a sua mão com uma força que desafiava qualquer ordem de Leo.

​Leo estava parado à janela, observando o amanhecer sobre as ruínas da cabana. Ele sentiu uma mão no seu ombro. Era Julian.

​— Ele podia ter deixado que ela fosse atingida, Leo. Mas não deixou — disse Julian em voz baixa.

​Leo olhou para as próprias mãos, ainda sujas de pólvora e do sangue de Lorenzo.

— Isso não apaga o passado, pai.

​— Não apaga — concordou Julian. — Mas o futuro não se constrói sobre cinzas, constrói-se sobre o que sobreviveu ao fogo.