​A noite de núpcias foi brutalmente interrompida às três da manhã. O som não foi de tiros, mas de uma explosão ensurdecedora que jogou os portões de ferro da mansão para dentro do jardim como se fossem feitos de papel. Os alarmes gritaram, e as luzes de emergência tingiram as paredes de um vermelho pulsante.

​Lorenzo saltou da cama, ignorando a dor aguda no ombro. Elena já estava de pé, puxando um robe e correndo para o cofre de parede.

​— Eles estão aqui — disse Lorenzo, a voz fria e calculista. — Os clãs de Milão e os remanescentes de Vittorio. Eles não esperaram o amanhecer.

​Na sala de controle, Leo já estava operando as câmeras. Ele parecia um demônio de guerra, colete tático sobre a camisa, verificando o carregador de seu fuzil. Quando Lorenzo e Elena entraram, Leo mal olhou para eles.

​— Eles cercaram o perímetro norte e sul — disse Leo. — São pelo menos trinta homens. Eles querem o dispositivo de acesso ao fundo fiduciário e querem a cabeça do Lorenzo numa bandeja.

​Julian apareceu nas sombras, entregando um fuzil de assalto a Lorenzo. O silêncio que se seguiu foi pesado. Leo olhou para a arma na mão do pai, depois para o homem que ele odiara por oito anos.

​— Se você for atirar pelas costas, Leo, faça agora — disse Lorenzo, sem desviar o olhar das telas. — Porque se sairmos por aquela porta, eu só vou olhar para frente.

​Leo deu um passo à frente, o rosto a centímetros do de Lorenzo. Ele viu o medo, mas viu também uma determinação que espelhava a sua.

​— O passado morreu naquela cabana, Lorenzo — disse Leo, sua voz rouca de emoção. — Se você proteger a minha irmã hoje, o resto... o resto a gente enterra junto com esses bastardos lá fora.

​Ele estendeu a mão. Não era um gesto formal; era o pacto de dois lobos defendendo a mesma matilha. Lorenzo apertou a mão de Leo com força. Naquele aperto, oito anos de dor foram reduzidos a cinzas. Eles não eram mais o prisioneiro e o traidor. Eram, novamente, os irmãos de armas que costumavam ser.

​A Batalha pela Toscana

​— Elena, Maya, Isadora! Para o bunker debaixo da adega! Agora! — ordenou Julian.

​— Eu não vou me esconder enquanto vocês morrem! — Elena protestou, segurando uma pistola com firmeza.

​— Você é o motivo de estarem aqui, Elena! — Leo gritou, segurando o rosto da irmã. — Se eles te pegarem, a guerra nunca acaba. Vá!

​Assim que as mulheres foram protegidas, o inferno se abriu. Vidros estouraram sob uma chuva de balas. Leo e Lorenzo saíram para a varanda lateral, flanqueando os invasores.

​— Como nos velhos tempos em Nápoles? — gritou Lorenzo por cima do barulho dos disparos.

​— Nos velhos tempos eu era melhor que você! — rebateu Leo, abatendo dois homens que tentavam escalar o muro.

​Eles se moviam em sincronia perfeita, uma coreografia de morte que só anos de amizade e treinamento poderiam produzir. Lorenzo cobria as recargas de Leo; Leo eliminava os alvos que tentavam cercar Lorenzo. Eles eram uma parede de chumbo que os mercenários não conseguiam transpor.

​O Fim dos Chefes

​No centro do jardim, cercado por seguranças, estava Valerio, o líder do clã de Milão que orquestrara o ataque. Ele gritava ordens, desesperado ao ver seus homens caírem um a um diante da resistência feroz dos Vane Rossi.

​— Acabe com isso, Leo! — Lorenzo gritou, lançando uma granada de luz para cegar os seguranças de Valerio.

​Leo correu entre as estátuas de mármore, movendo-se com a agilidade de um predador. Ele saltou sobre a fonte, disparando em pleno ar. Os seguranças de Valerio caíram. Lorenzo surgiu pelo outro lado, bloqueando a fuga de Valerio.

​O chefe milanês caiu de joelhos, olhando para os dois homens que deveriam estar se matando, mas que agora o cercavam.

​— Isso... isso não faz sentido! — gaguejou Valerio. — Lorenzo, você deveria nos entregar o acesso! Nós tínhamos um acordo com seu pai!

​— Meu pai está no inferno — disse Lorenzo, apontando a arma para a testa de Valerio. — E ele está esperando por você.

​Leo colocou a mão no cano da arma de Lorenzo, baixando-a levemente.

— Não. Ele não merece uma bala rápida.

​Leo olhou para as luzes da polícia que começavam a brilhar ao longe, chamadas por Maya.

— Ele vai passar o resto da vida numa cela onde o sol não entra. E ele vai contar para cada rato naquela prisão que os Rossi e os Bernardi agora são uma só família. E quem tocar em um, será caçado pelo outro.

​O Amanhã de Sangue e Paz

​Quando o sol começou a despontar, iluminando o jardim repleto de cápsulas de balas e corpos caídos, Leo e Lorenzo sentaram-se nos degraus da entrada, exaustos, sujos de fumaça e sangue. Leo ofereceu um cigarro a Lorenzo, as mãos de ambos ainda tremendo pela adrenalina.

​— Você luta como um Rossi — admitiu Leo, soltando a fumaça.

​— E você protege como um Vane — respondeu Lorenzo, sorrindo de lado. — Estamos quites, Leo?

​Leo olhou para a porta da mansão, onde Elena saía correndo do bunker para se jogar nos braços de Lorenzo. Ele viu Maya vindo em sua direção, ilesa.

​— Quites — disse Leo, levantando-se e estendendo a mão para ajudar Lorenzo a subir. — Mas amanhã, você ainda vai ter que me ajudar a limpar esse jardim.

​A guerra acabou. Os inimigos foram eliminados e a amizade foi restaurada com fogo.