​O escritório de Julian Vane nunca parecera tão pequeno. O ar estava saturado com o cheiro de tabaco, o aroma de café forte e a tensão elétrica que emanava de Leo. Lorenzo, ainda pálido e com o braço em uma tipoia, estava sentado em uma cadeira de couro, enquanto Elena permanecia em pé ao seu lado, a mão repousando protetoramente em seu ombro.

​Julian estava atrás de sua mesa, observando os dados no laptop. O dinheiro de Elena era uma fortuna vasta, mas era também um farol que atrairia todos os tubarões do Mediterrâneo.

​— Não temos tempo para debates morais, Leo — disse Julian, sua voz cortante como uma lâmina de gelo. — No momento em que Lorenzo transferiu esses fundos para o nome da Elena, ele pintou um alvo nas costas dela que pode ser visto de Milão até a Sicília. Os Bernardi e os parceiros de Marco Bernardi virão buscá-lo.

​— Então mandamos o dinheiro de volta! — gritou Leo, andando de um lado para o outro como um animal enjaulado. — Nós não precisamos de ouro sujo! Nós temos o nosso próprio império!

​— Não é tão simples — interveio Lorenzo, a voz rouca. — O dinheiro está em um fundo fiduciário bloqueado. A única forma de movê-lo, de usá-lo para pagar as indenizações e calar as famílias rivais, é através de uma união de linhagens. Legalmente, para o mundo exterior, os Rossi e os Bernardi precisam se tornar uma única entidade.

​Julian levantou os olhos e encarou o filho.

— A única forma de garantir que ninguém toque na Elena é se ela não for mais apenas uma Rossi. Ela precisa ser a ponte. Ela precisa se casar com o herdeiro dos Bernardi.

​A Explosão do Patriarca em Espera

​O silêncio que se seguiu foi absoluto, até ser quebrado pelo som do punho de Leo atingindo a parede de madeira.

​— Você está sugerindo... um casamento? — Leo rugiu, os olhos injetados de sangue. — Você quer entregar a minha irmã para o homem que nos traiu? O homem que me mandou para a prisão? Você enlouqueceu, pai? A Isadora concordou com isso?

​— Sua mãe sabe que o mundo lá fora não perdoa fraqueza, Leo — Julian respondeu, mantendo uma calma sobrenatural. — Um casamento de conveniência une as proteções legais. Lorenzo abre mão de qualquer reivindicação ao título e Elena assume o controle das rotas como a nova Matriarca de uma linhagem unificada. É a única forma de evitar uma guerra total que mataria a todos nós.

​Leo avançou até a mesa, inclinando-se sobre o pai.

— Eu prefiro morrer em uma trincheira defendendo esta casa do que ver a Elena no altar com esse rato.

​— E você, Lorenzo? — Julian ignorou o filho e olhou para o jovem ferido. — Você aceitaria se tornar um fantasma no império da mulher que você diz amar? Porque é isso que o contrato diz. Você terá o nome, mas ela terá o poder. Você será o escudo dela, e nada mais.

​Lorenzo olhou para Elena. Não havia hesitação em seus olhos verdes.

— Eu já sou um fantasma desde que saí de Palermo, Julian. Eu aceitaria ser o servo dela se isso significasse que ela estaria segura. Eu não quero o dinheiro. Eu não quero o poder. Eu quero que ela viva.

​A Decisão de Elena

​Elena, que até então ouvira tudo em silêncio, deu um passo à frente. Ela não era mais a menina que soprava velas de aniversário. Ela carregava o porte de Isadora e a frieza estratégica de Julian.

​— Chega, Leo — ela disse, e sua voz, embora baixa, fez o irmão se calar. — Você passou a vida inteira me protegendo de sombras, mas agora as sombras estão dentro de casa. Você odeia o Lorenzo porque ele é o lembrete do seu fracasso, mas ele é também a chave para o meu futuro.

​— Elena, você não sabe o que está dizendo... — Leo tentou interromper.

​— Eu sei exatamente o que estou dizendo! — ela rebateu. — Você quer que eu seja uma Rossi pura e protegida? Pois bem. Eu vou ser uma Rossi que salva esta família. Se para salvar o nosso nome eu preciso carregar o sobrenome Bernardi, eu o farei. Mas não será um casamento de conveniência, Leo.

​Ela olhou para Lorenzo, e a intensidade do olhar deles fez o próprio Julian desviar o rosto.

— Eu vou me casar com ele porque eu o amo. E eu o amo porque ele foi o único que teve a coragem de voltar para o inferno para me pedir perdão, enquanto você prefere queimar o mundo inteiro só para manter o seu orgulho intacto.

​Leo recuou, como se tivesse sido atingido por uma bala física. Ele olhou para o pai, esperando apoio, mas Julian apenas acenou levemente com a cabeça.

​— O contrato será assinado hoje à noite — declarou Julian. — E o casamento será realizado na capela da propriedade ao amanhecer. Sem convidados. Sem festas. Apenas o selo de sangue e lei.

​O Pacto na Penumbra

​Mais tarde naquela noite, Leo encontrou Lorenzo na varanda. Lorenzo tentava acender um cigarro com apenas uma mão. Leo aproximou-se e, em um gesto que nenhum dos dois esperava, acendeu o isqueiro para ele.

​— Se você a fizer chorar uma única vez — disse Leo, a voz tremendo de emoção contida —, eu não vou me importar com contratos, fundos suíços ou com o meu pai. Eu vou te caçar até o fim dos tempos e vou garantir que a sua morte seja a mais lenta da história desta Itália.

​Lorenzo tragou o cigarro, olhando para as videiras escuras.

— Se eu a fizer chorar, Leo... eu mesmo te entrego a arma.

​Leo olhou para o antigo amigo. O ódio ainda estava lá, mas algo novo começava a crescer: um respeito amargo. Eles eram dois homens destruídos pela mesma guerra, unidos agora por uma mulher que era forte demais para ambos.

​Na capela, ao amanhecer, com as luzes douradas da Toscana invadindo os vitrais, Elena e Lorenzo trocaram alianças. Não houve beijo de conto de fadas, mas um aperto de mãos firme e um olhar que prometia proteção mútua até a morte.

​Leo assinou como testemunha, a caneta quase rasgando o papel. O Cálice do Arrependimento fora bebido. Elena Vane Rossi era agora Elena Bernardi. A última herdeira se tornara a rainha de um império construído sobre as cinzas do ódio.