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​Livro 3: O Cálice do Arrependimento


​A noite na Toscana era um veludo cravejado de estrelas. Sob o pergolado de glicínias da mansão Vane Rossi, a mesa de jantar estava posta com o melhor cristal e a prata que Isadora trouxera de Nápoles. Era uma noite de triunfo: o aniversário de vinte e um anos de Elena.

​Julian Vane, agora com os cabelos grisalhos mas o olhar tão afiado quanto o de um falcão, levantou sua taça. Ao seu lado, Isadora exalava a elegância de uma rainha que sobreviveu a todas as guerras.

​— À nossa Elena — disse Julian, sua voz de barítono ecoando no pátio silencioso. — Que o mundo lhe dê a paz que seu pai e seu irmão lutaram para conquistar.

​Leo, sentado à frente com Maya, ergueu o vinho em concordância. Ele era agora o patriarca em espera, um homem de trinta anos que carregava a cicatriz da prisão no espírito, mas a luz da liberdade nos olhos.

​— À minha irmã — completou Leo, sorrindo para a jovem à sua esquerda. — A única de nós que nasceu sob o sol e nunca teve que temer as sombras.

​Elena sorriu, mas era um sorriso contido. Ela tinha a beleza etérea da mãe e a obstinação silenciosa do pai. Ela estava prestes a agradecer quando o som de pneus esmagando o cascalho da entrada interrompeu a harmonia. Um sedã cinza, discreto e coberto pela poeira da estrada, parou diante da escadaria.

​O corpo de Julian reagiu antes da sua mente; ele se levantou, a mão repousando instintivamente no local onde costumava carregar sua arma. Leo seguiu o movimento, os olhos estreitados.

​Quando a porta do motorista se abriu, o tempo pareceu congelar.

​Lorenzo Bernardi saiu do veículo. Ele não era mais o jovem de ternos caros e sorriso cínico. Estava magro, vestia roupas escuras e simples, e uma cicatriz profunda marcava o canto de sua boca — um lembrete eterno da noite no porto. Ele caminhou até o limite da varanda, as mãos abertas e visíveis, como um prisioneiro se entregando ao carrasco.

​O Retorno do Inimigo

​Leo saltou da cadeira com tamanha violência que sua taça de vinho tombou, manchando a toalha branca como uma ferida aberta.

​— Você tem exatamente cinco segundos para dar meia-volta e sumir deste solo antes que eu termine o que comecei oito anos atrás — a voz de Leo era um rosnado baixo, carregado de um ódio que nem o tempo conseguira diluir.

​— Leo, por favor — Lorenzo parou, a voz rouca, sem o brilho da arrogância de outrora. — Eu não vim para lutar.

​— Você veio para quê, Lorenzo? — Julian interveio, sua voz gélida como o aço de uma adaga. — Para desonrar nossa casa mais uma vez? Para tentar roubar o que não lhe pertence?

​— Eu vim entregar isto — Lorenzo tirou um envelope pardo de dentro do casaco, movendo-se devagar para não causar um disparo por reflexo. — Meu pai morreu no mês passado. No leito de morte, ele confessou. Foi ele quem armou para que Vittorio nos colocasse um contra o outro. Ele queria as rotas do porto, e nós éramos apenas peças no tabuleiro dele.

​Lorenzo colocou o envelope sobre o parapeito de pedra.

​— Ali estão as provas, os registros bancários e a confissão assinada. Eu limpei o nome da sua família, Leo. Eu vendi tudo o que os Bernardi possuíam para pagar as dívidas que meu pai deixou com as pessoas que ele traiu.

​O Julgamento de Leo

​Leo avançou, pegando o envelope e rasgando-o diante do rosto de Lorenzo, os papéis voando como cinzas sob a luz da lua.

​— Você acha que papéis apagam o fato de que eu passei três anos em uma cela por sua causa? — Leo gritou, segurando Lorenzo pela gola da camisa e prensando-o contra o carro. — Você acha que isso apaga o que você tentou fazer com a Maya? Não existe perdão para você, Lorenzo. Existe apenas a ausência.

​— Eu não espero perdão — Lorenzo respondeu, olhando nos olhos de Leo, sem recuar. — Eu espero apenas que você saiba que eu não sou mais o homem que você odeia. Aquele homem morreu em Palermo. O que sobrou dele está aqui, pronto para aceitar o castigo que você quiser dar. Mas, por favor... não deixe que a mentira do meu pai continue sendo a verdade da sua vida.

​— Saia — sibilou Leo, soltando-o com um empurrão que o fez cambalear. — Saia desta terra e nunca mais olhe para trás. Se eu te vir de novo, Lorenzo, eu não vou chamar a polícia. Eu vou usar as mãos que você ajudou a sujar de sangue.

​O Despertar de Elena

​Lorenzo assentiu silenciosamente. Antes de entrar no carro, ele desviou o olhar para a varanda. Por um segundo infinito, seus olhos encontraram os de Elena.

​Elena estava parada, as mãos trêmulas segurando o guardanapo de linho. Ela viu no olhar de Lorenzo algo que ninguém mais naquela mesa viu: uma solidão tão vasta que parecia um oceano. Ela viu o homem quebrado, o pária, o herdeiro de nada.

​Enquanto o carro de Lorenzo partia, deixando apenas uma nuvem de poeira para trás, o silêncio que caiu sobre a mesa de jantar era diferente. O brinde fora esquecido. A paz fora estilhaçada.

​— Ele está mentindo — disse Leo, voltando para a mesa, a respiração pesada. — É apenas mais um jogo.

​— Ele parecia estar falando a verdade, Leo — Elena disse, sua voz pequena mas firme, fazendo todos se calarem.

​— Você não sabe nada sobre ele, Elena! — Leo rebateu, a fúria se voltando para a irmã. — Ele é o veneno desta família.

​— Talvez — ela sussurrou, olhando para a estrada escura por onde Lorenzo desaparecera. — Mas ele é o único homem que eu já vi que parece carregar o mundo inteiro nas costas e ainda assim pede desculpas pelo peso.

​Naquela noite, Elena não dormiu. Ela sentia que o cálice do arrependimento fora servido à mesa, e algo lhe dizia que, antes que a safra terminasse, todos eles seriam forçados a bebê-lo.