Living a Dream
3 This is Crazy
Notas iniciais
— Acho que ela vai morrer — disse Percy, enquanto enchia a mão de pipoca e comia todas de uma vez.
— Não importa se ela morrer — eu o respondi. — Se a pipoca acabar, você vai fazer mais.
Estávamos vendo "A Hospedeira" em meu quarto e certamente já era tarde. Percy estava sentado no chão, de frente para da televisão; e eu deitada na cama, apoiando os braços enfrente a mim para conseguir também ver o filme.
Depois daquela cena no Starbucks, Percy me trouxe de volta para minha casa e me obrigou a contar tudo o que estava acontecendo na maior calma. E assim eu o fiz.
Ele passou o dia inteiro aqui, só foi embora tomar um banho e depois voltou. Acho que ele estava totalmente preocupado comigo, porque sempre me encarava do nada e apenas perguntava se eu estava bem.
Tive fortes dores de cabeça durante o dia de hoje, mas como eu já disse, era normal.
Depois de uns dez minutos, finalmente o filme acabou.
— Que filme mais... — ele se virou para mim. — Estranho.
— Eu achei bonitinho — soltei uma risada enquanto levantava para desligar a televisão.
— Annie, posso te perguntar algo?
— Acabou de perguntar — me virei para ele e sorri. — Pode. O que foi?
Ele se levantou do chão e sentou em minha cama. Caminhei até a mesma e também me sentei, perto dos travesseiros, de frente para ele.
— Você confia em mim?
Senti um incomodo enorme ao ouvir ele me perguntar isso. Percy nunca foi de falar sobre esse tipo de coisa. Sentimentos e emoções eram bem claros entre nós, mas nunca tocávamos diretamente no assunto.
— Claro que confio — respondi. — Mas por que está perguntando isso?
— Eu estive pensando numa... Possibilidade — ele passou a mão por seus cabelos. — Se é que posso chamar assim.
Pelo modo que ele estava agindo, eu pude ter certeza de que ele estava nervoso. Eu conhecia Percy há muito tempo, conseguia distinguir quando ele estava nervoso e quando ele estava calmo. Mas a pergunta era: por que ele estava nervoso?
— Aonde você quer chegar? — acabei perguntando, já sem paciência. Ele sabia mais que qualquer um que odeio quando enrolam para falar algo, mesmo eu tendo enrolado bastante para lhe dizer sobre meu câncer.
— Eu estive pensando seriamente hoje sobre algo bem importante — me encarou. — Não quero que pense que estou fazendo isso por pena ou coisa do tipo.
— Vá logo ao ponto, Percy.
— Tudo bem, tudo bem — respirou fundo. — Eu quero te levar pra conhecer o mundo, ou parte dele, antes que você...
Ele não precisou terminar de falar para eu entender aonde queria chegar. Meu melhor amigo queria realizar meu sonho antes que eu morresse.
Fiquei em dúvida entre sorrir, xingar, chorar, ou dar um tapa no garoto em minha frente. Meu corpo estremeceu completamente. Ele estava falando sério?
— Isso é... — tentei perguntar algo, mas me esqueci o que. Droga.
— Se é pra valer? — ele ergueu as sobrancelhas. — Óbvio!
Senti lágrimas se brotando em meus olhos, e logo elas começaram a cair. Não pude evitar, e pulei no moreno, o abraçando. Ele retribuiu o abraço e envolveu suas mãos em volta de mim, me apertando mais contra si, porém de forma uma carinhosa.
— Eu topo, com certeza — disse ao meio das lágrimas.
— Hey, hey — ele se afastou um pouco e me olhou. — Não precisa chorar.
— Nem sei direito porque estou chorando — sorri. — Meu Deus, que loucura.
— Eu sei que é loucura — ele devolveu o sorriso.
— Mas temos que organizar muitas coisas — falei depois de ver que não era tão simples assim. — Passaporte, os países que vamos, o tempo em cada lugar, o dinheiro...
— E o mais importante — ele ficou completamente sério. — Seus pais.
...
Eu nunca havia percebido que a cerâmica da escada de minha casa tinha uma cor parecida com um branco rachado, e não um cinza completo. Era estranho notar esses pequenos detalhes sendo que a vida é tão corrida, mas na posição em que eu estava, sentada no degrau do meio da escada e ouvindo toda a conversa entre Percy e meus pais, essa era minha única visão: a cerâmica.
— Não, não mesmo — ouvi minha mãe. — Vocês são só dois adolescentes!
— Na verdade — foi a vez de Percy. — Eu tenho mais de 18, senhora Chase.
— Olha Perseus — meu pai o chamou. — A situação de Annie é difícil. Se ela se sentir mal, ou acontecer algo indesejado durante a viagem, pode ser perigoso para ela.
— Eu sei que pode — Percy o respondeu. — Mas eu vou estar lá. Eu e Annie somos amigos faz tempo, e eu nunca deixaria algo acontecer com ela.
O silêncio tomou conta do lugar.
— Você não está nos entendendo, queremos um tempo com ela — murmurou minha mãe. — Antes que ela se vá.
Assim que ouvi isso, meu coração deu um pulo. Minha mãe me aturou por dezessete anos e agora, quando vou morrer e Percy me dá a oportunidade de realizar um sonho, ela vai dizer que precisa de mais tempo comigo?! Não aguentei e me levantei do degrau, terminando de descer as escadas.
— Como a senhora pode pensar assim? — eu disse encarando-a.
Os três sentados na mesa principal olharam surpresos para mim.
— Mãe, Pai — eu olhei para os dois com uma expressão triste, não querendo começar uma briga com minha mãe. — É o meu sonho. Eu vou morrer daqui a dois meses e poucos dias, nunca mais terei a chance de realizá-lo se você não deixarem.
— Querida, vocês não podem ir sozinhos...
— Por que não? — ergui os braços em revolta. — É o Percy, mãe! A senhora o conhece muito bem. Ele nunca deixaria nada acontecer comigo, como ele acabou de dizer! Somos responsáveis.
Atena se virou para meu pai e o encarou. Eles “conversaram” apenas com o olhar, como se estivessem se decidindo.
Olhei para Percy por um instante, que tinha um pequeno sorriso no rosto. Eu sorri de volta.
— Annabeth, vá para seu quarto, por favor — disse meu pai num tom sério. Eu pensei em negar, mas achei melhor obedecer. — Iremos terminar a conversa com Perseus.
Suspirei e me voltei para as escadas, indo em direção ao meu quarto.
Entrei no mesmo e fechei a porta, logo depois me jogando em minha cama. Céus, eu parecia uma garotinha mimada que acabou por não conseguir o que queria.
Soquei meu rosto no travesseiro e pensei como seria essa viagem se meus pais aprovassem. Já pensou? Eu caminhando pelas ruas de Londres, na Inglaterra; ou na França, tirado fotos na torre Eiffel; ou na Itália, de frente ao Coliseu; ou admirando a estátua do Cristo Redentor, no Brasil. E não era só isso. Se Deus quiser, tudo vai dar certo e vou poder ir a vários outros lugares.
Um bater na porta interrompe meus pensamentos. Acho que meu coração estava acelerado.
— Pode entrar! — exclamei com um tom de voz alto.
Tirei meu rosto do travesseiro e encarei Percy entrando em meu quarto com uma expressão indecifrável. Ele caminhou até mim com as mãos nos bolsos e parou a poucos centímetros de distância da cama.
— Péssima notícia — ele abaixa a cabeça e depois volta a erguê-la, mostrando um sorriso. — Você vai ter que fazer suas malas, sozinha.
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