Live or Die

1 À primeira vista


Notas iniciais
Olá, muito prazer! Espero que gostem do capítulo e não se esqueçam dos reviews. Ficou muito parecido com O Sol da Meia Noite, tomara que não seja irritante para quem já leu o livro. Boa leitura!

E D W A R D

Aquela era a hora do dia em que Edward desejava poder dormir: ensino médio. Ou purgatório seria uma definição melhor? Mesmo após todos aqueles anos, nada nunca fora tão entediante quanto a escola.

Ele encarou a parede sem ver e tentou bloquear a multidão de vozes que se aglomerava em sua cabeça num jorro. A maioria delas falava sobre a mesma coisa: os dois novatos, Beaufort e Isabella Swan. Beau e Bella; eles corrigiam todos que os chamavam pelo nome inteiro.

Edward já os vira, claro. Estavam em todas as mentes naquele dia, todos curiosos e ávidos por alguma maneira de prender a atenção deles. Metade dos rapazes já se imaginava apaixonada pela jovem, enquanto várias meninas haviam ficado vidradas nos olhos azuis do garoto. Era irritante; todas aquelas pessoas agindo estupidamente por causa de dois desconhecidos, como crianças ao ganharem brinquedos novos. Típico dos humanos, e quando se tratava da mente deles, Edward já ouvira de tudo e mais um pouco.

Havia apenas cinco vozes que ele bloqueava mais por cortesia do que por desinteresse: seus irmãos. Eles estavam tão acostumados à falta de privacidade que mal pensavam nela agora, exceto, talvez, Edythe. A garota era o mais novo membro do clã Cullen, tendo se juntado a eles há apenas alguns anos atrás, ainda no Alasca. Mesmo sem conhecê-los, Edythe já seguia sua dieta "vegetariana", então foi fácil misturá-la no meio dos humanos. Ela fora transformada com 14 anos segundo seu relato, mas parecia um pouco mais velha do que isso, portanto passava-se por alguém de 16. Ela na verdade tinha pouco mais de cinquenta anos, mais nova do que qualquer Cullen.

A menina também tinha um dom como os de Edward e Alice que ainda escondia alguns segredos, mas por enquanto era considerado apenas extremamente peculiar. Edythe podia absorver as habilidades de outras pessoas — ou outros vampiros. A teoria de Carlisle era que a menina já era muito sensível à força vital daqueles a seu redor antes de sua transformação.

Aquele talento, embora muito útil, de certa forma fazia de Edythe a mais frágil da família. Bastava pouca coisa para arruinar qualquer situação; um toque acidental em um humano e sua força e velocidade diminuíam drasticamente. Embora ela ainda fosse mais rápida e mais forte que uma pessoa normal, aquilo era pouco para os padrões deles. Isso e as coisas irritantes que vinham junto: se ela tocava em um vampiro muito forte, mas muito sedento, ficava com uma parcela de sua força e uma de sua sede. Se tocava um humano, o que ela tentava evitar, sua pele tornava-se menos fria e logo a fome vinha no lugar da sede. A garota tocava-os quando queria adiar alguma viagem de caça, sendo capaz de ignorar sua sede por alguns dias, mantendo-se apenas com comida humana ocasionalmente. Mas, logicamente, ela nunca poderia ter o dom retirado para sempre, e ele se esvaía após algumas horas.

Naquele momento, a mais nova Cullen tentava decidir se devia ou não comer o que estava em sua bandeja. Flashes do contato acidental com a bibliotecária faminta passaram por sua cabeça e ela encarou a maçã que colocara em seu prato, cedendo e dando uma mordida. Edward fez uma pequena careta; comida humana era repugnante para o resto deles.

Rosalie estava pensando, claro, em sua beleza. Ela vira o reflexo de seu perfil refletido em um copo à distância e agora meditava sobre sua perfeição. A mente da loura era como uma piscina rasa com poucas surpresas.

Emmett estava com raiva por ter perdido uma luta para Jasper na noite passada e iria orquestrar uma revanche até o fim do dia. Edward nunca se sentiu muito intrusivo lendo os pensamentos do irmão porque ele nunca pensava nada que não fosse fazer. Se a mente de Rosalie era uma piscina rasa, a de Emmett era uma lagoa sem sombras.

Jasper estava... sofrendo. Edward segurou um suspiro.

Edward. A voz de Alice soou em sua cabeça como se ela houvesse acabado de chamá-lo em voz alta. Ele não se virou para olhá-la; ambos eram muito bons nessas conversas particulares. Como ele está aguentando?, perguntou Alice. Edward notou que ela observava Jasper furtivamente pelo canto do olho. Há algum perigo?, perguntou-lhe ela. O garoto olhou para o lado, então suspirou e voltou o olhar para a frente. Apenas sua irmã sabia que ele estava balançando a cabeça. Ela relaxou. Me avise se piorar. O garoto mexeu os olhos para cima e então para baixo novamente. Obrigada por estar fazendo isso, disse Alice. Edward ficou contente por não ter que responder. O que ele diria? O prazer é meu?

Aquele não era o caso. Ele não gostava de ouvir as lutas internas de Jasper. Era mesmo necessário forçá-lo àquele ponto? Por que ele simplesmente não admitia que não tinha autocontrole suficiente para lidar com situações como essa e tentava trabalhar com suas limitações? Pra quê flertar com o desastre?

Uma garota parou em uma mesa próxima para conversar com uma amiga, passando os dedos nos cabelos cor de areia. Os aquecedores jogaram o cheiro em cheio na mesa dos Cullen e Edward olhou para seus irmãos pelo canto do olho.

Edythe continuava comendo sua maçã e pensando amenidades, mal notando o odor que pairava por ali. Emmett, Rosalie e Alice se mexeram desconfortáveis, mas nenhum deles pulou na menina.

Jasper, no entanto, estava deixando sua imaginação separar-se dele. Ele pensou em levantar-se do lugar onde estava sentado entre Alice e Edythe. Pensou em chegar perto da garota e abaixar-se como se estivesse prestes a falar algo em seu ouvido e então cravar os dentes no arco de sua garganta. Imaginou como seria sentir o fluxo de sangue e a pulsação em sua boca... Edward chutou a cadeira dele.

O loiro o olhou envergonhado após alguns segundos.

— Desculpe — murmurou.

— Você não ia fazer nada — assegurou Alice. — Eu vi.

Edward escondeu a careta que teria denunciado a mentira da garota.

— Ajuda se você pensar neles como seres humanos — continuou ela, a voz baixa e musical muito rápida para que qualquer humano entendesse. Edythe assentiu.

— O nome dela é Whitney — informou, prestativa. — Ela está na minha aula de espanhol.

— Ela tem uma irmãzinha que a adora — completou Alice. — A mãe dela convidou Esme para aquela festa de jardim, você se lembra?

— Eu sei quem ela é — interrompeu Jasper.

Edythe comprimiu os lábios e afastou a franja ruiva do rosto com a ponta dos dedos. Ela estava pensando em como era grata por ter o dom que tinha e não ficar rabugenta com a sede como os outros. Alice deu um suspiro curto e estendeu o braço por cima de Jasper até tocar o pulso de Edythe, então levantou-se. O que os outros entenderam como um gesto de "adeus", era na verdade um pedido - fique de olho.

Enquanto Alice se afastava, Edythe baixou a cabeça para sua bandeja, as visões jorrando em sua cabeça. Ela tentou ordená-las e deixou as que continham Jasper de lado, focando-se em Edward, Rosalie e Emmett, tentando achar algum perigo no futuro imediato.

Edward Cullen.

A cabeça do garoto virou-se por reflexo de ter ouvido seu nome, apesar de ele não estar sendo chamado, só pensado. Seus olhos se prenderam por uma fração de segundo em outro par cor de chocolate que o encarava. Ele a reconheceu dos pensamentos que ouvira hoje, onde o rosto estivera presente. Aquela era Isabella Swan, a filha do xerife.

É claro que ela já está se apaixonando pelos Cullen, continuou a voz. Naquele momento, Edward percebeu que a voz não vinha de Bella, mas sim de sua vizinha, Jessica Stanley. Grande bem que isso vai fazer pra ela. Ela não é nem bonita, não sei por que Eric continua olhando tanto pra ela... ou Mike. Jessica deu um suspiro mental ao pensar no último nome. Sua paixão genericamente popular, Mike Newton, era praticamente inconsciente dela, embora parecesse interessado na garota nova. Isso colocou uma pontada maligna nos pensamentos de Jessica, mesmo que ela fosse externamente cordial com Bella. Ela agora lhe explicava os conhecimentos comuns sobre os Cullen, e Edward presumiu que a recém-chegada devia ter perguntado sobre eles.

Hoje todos estão olhando para mim também, pensou Jessica. É uma sorte ter duas aulas com ela, aposto que Mike vai perguntar...

Edward tentou bloquear a tagarelice mental da garota porque essa já começava a irrita-lo.

— Jessica Stanley está dando à garota Swan todos os podres dos Cullen — comentou ele para Emmett querendo se distrair.

Espero que ela esteja fazendo isso direito, pensou Emmett, gargalhando por baixo do fôlego.

— Nah, nenhuma fofoca interessante. Estou desapontado — brincou Edward.

E a garota nova, está desapontada também?, perguntou Emmett.

Edward tentou ouvir o que a menina achava deles. Aquela era meio que sua obrigação, saber o que os humanos pensavam sobre os Cullen. Ele agia como um espião por falta de palavra melhor, sempre atento ao que os humanos viam quando os olhavam. Se alguém começasse a suspeitar demais, ele avisava a família e logo estavam bem longe dali. Os pensamentos quase nunca iam na direção correta, mas era bom prevenir.

Ele não ouviu nada vindo do lugar onde a garota estava sentada, embora Jessica não houvesse parado de falar. Que estranho, teria a menina ido embora? Ele olhou em sua direção um pouco desequilibrado por ter de checar seus ouvidos extras.

Ela continuava lá, os olhos castanhos encarando-os. Logo, um vermelho quente e convidativo subiu por seu rosto em forma de coração, e Edward presumiu que ela estivesse com vergonha. No entanto, não podia ouvir nada, nem mesmo um sussurro de onde ela estava sentada.

O garoto se preocupou; aquilo não era algo que acontecia com frequência. Havia algo errado com ele? Edward decidiu escutar mais e todas as vozes que ele esteve bloqueando jorraram em sua cabeça de repente.

Mike Newton estava se perguntando de qual música Bella deveria gostar, encarando-a a duas mesas de distância. Eric Yorkie estava revoltado com a atenção exagerada que o loiro dava à garota, enciumado. Lauren Mallory também estava com raiva de toda a atenção que Bella recebia, embora por uma razão diferente da de Eric. Angela Weber, uma garota de pensamentos anormalmente gentis, refletia sobre as coisas que teria de fazer quando chegasse em casa; ela era a única na mesa que não parecia fixada na recém-chegada.

Edward, chamou Edythe antes que o garoto prosseguisse para examinar a mente de Beau, que conversava com um garoto chamado Jeremy. Ele não olhou na direção da irmã, apenas desviou os olhos para as rachaduras no teto para indicar que estava prestando atenção. O que você está olhando?, perguntou ela.

E então eles começaram com seu pequeno joguinho. Edythe podia ter visões como Alice agora, então bastava o garoto decidir que ia falar que ela veria e ele não precisaria responder em voz alta. Ele pensou em sua resposta. Não consigo ouvir a garota Swan, era o que diria. Abriu a boca para tomar fôlego e proferir a frase, mas antes que pudesse, Edythe apenas sussurrou um Ah mental.

A garota estendeu a mão num convite, imaginando se não conseguiria ouvir também. Eles estavam sentados lado a lado, então Edward apenas teve de esticar um pouco a mão para tocá-la.

Edythe franziu o rosto enquanto o jorro de vozes invadiu sua cabeça, mas, como fez com as visões, apenas empurrou a maioria delas para longe. Ela olhou na direção de Bella, porém se perdeu no meio do caminho, distraída. Edward sabia o que ela estava vendo. Um par de olhos azuis encarando-a com curiosidade e logo com vergonha por terem sido flagrados. Aquilo trouxe à tona toda a saudade que Edythe sentia do céu azul que fora privada de ver por anos. Ela empurrou aquele pensamento para o fundo da mente, infantilmente zangada com Beaufort Swan por trazê-los à superfície.

Finalmente, ela focou-se em Bella, franzindo a testa com o silêncio.

O que você acha que é?, perguntou para Edward. Antes que ele pudesse respondê-la, ambos ouviram a mesma vozinha dizer:

— Quem é o garoto de cabelo avermelhado? — perguntou Bella para Jessica.

Oh, boa sorte idiota!, pensou Stanley. Edythe franziu a testa pela rudeza da menina.

— Aquele é Edward Cullen. Ele é bonito, claro, mas não perca seu tempo; ele não namora. Aparentemente ninguém aqui é boa o suficiente para ele.

— Talvez ele seja gay — disse Jeremy após ter entreouvido a conversa.

— Cara — repreendeu Allen, outra pessoa naquela mesa com pensamentos gentis demais. Jeremy deu de ombros.

— Podia ser. Devíamos dizer pra ele que isso aqui é um lugar seguro para se expressar.

Edythe riu alto. O trinado se sua gargalhada chegou na mesa que eles vigiavam e Edward a reprimiu em pensamento, logo juntando-se a ela como se houvesse dito algo muito engraçado.

— Quem é a garota que está rindo? — perguntou Beau em voz baixa para Jeremy. Edward aproveitou que sua irmã continuava distraída com a mente de Bella para prestar atenção na conversa. Naquele momento, os pensamentos de Jeremy foram quase gêmeos aos de Jessica.

É, pode ir apostando nisso, o garoto pensou antes de responder.

— É Edythe Cullen.

— Ela está com o cara ruivo? — questionou Beau. Jeremy balançou a cabeça.

— Eu nunca a vi com ninguém.

Edward observou o garoto, Beau. Ele parecia com Bella; ambos tinham a mesma pele pálida, o mesmo cabelo escuro e até o mesmo nariz. Ele estava um pouco mais à vontade do que sua irmã, mas mesmo assim mantinha os ombros tensos, como se esperasse ser empurrado a qualquer momento. Seus olhos pousaram em Edythe novamente, que tornara a se distrair com visões do futuro imediato.

Foi estranho. Focar-se em entrar na cabeça de Beau era como olhar em um espelho. Edward tentava desvendar os pensamentos do garoto, mas só o que podia ouvir eram os seus próprios.

Por algum motivo que ele não compreendia, os pensamentos dos dois novatos lhes eram ocultos. Ele conseguia ver claramente que eles estavam nervosos por sentarem perto de desconhecidos e serem o centro das atenções, mas não ouvia suas mentes. Por quê?

— Vamos? — murmurou Rosalie.

Edward sentiu-se aliviado por ter uma desculpa para parar de vigiar aqueles dois – ele não queria continuar falhando naquilo. Ele não devia se importar tanto, claro. Mas mesmo assim, acharia um jeito de ouvir os Swan, e quando o fizesse, provaria a si mesmo que os pensamentos deles eram triviais e bobos como os de qualquer outro humano.

— Então, a novata já está com medo de nós? — perguntou Emmett. Edward apenas deu de ombros e lançou um olhar furtivo para Edythe, advertindo-a para ficar de boca fechada. Emmett não estava interessado suficiente para pressioná-lo por mais informações, e logo todos eles estavam fora dali.

Emmett, Rosalie e Jasper estavam fingindo ser do último ano e foram para suas aulas. Já Edward, Edythe e Alice estavam fingindo ser um ano mais novos que eles. Ao chegar no corredor, Edythe lançou um sorriso amigável ao garoto e seguiu para sua próxima aula pensando quanto tempo teria até as visões se dissiparem. Edward tinha biologia do nível médio e preparou sua mente para a hora tediosa enquanto caminhava até lá.

Como sempre, ele se adiantara. Sentou-se em seu lugar habitual e deixou os livros espalhados pela mesa. Ele era o único que tinha uma carteira só para si porque, embora os humanos não fossem espertos suficiente para saber que tinham medo dele, não chegavam perto por instinto.

Edward encarou a paisagem através da janela sem ver enquanto o resto da turma voltava do almoço. Os pensamentos de Angela Weber, no entanto, lhe chamaram a atenção.

Bella parece ser tão tímida, refletiu a garota. Aposto que hoje foi difícil pra ela. Queria poder dizer algo...

Isso!, o grito mental de Mike Newton a interrompeu. O loiro olhava para Bella imaginando como começaria uma conversa com ela. Edward quis rolar os olhos. Ele ouvia todos naquela sala perfeitamente, menos Swan, e isso o deixou frustrado e enervado.

Pobre garota, teria de sentar a seu lado. Seria um longo semestre para ela, pelo menos naquela aula, mas talvez fosse a oportunidade perfeita para o rapaz tentar desvendar seus pensamentos. Ele limpou o espaço da mesa que seria dela e a observou enquanto passava no corredor a seu lado para chegar à mesa do sr. Banner. E, quando isso aconteceu, os aquecedores jogaram o cheiro de seu sangue diretamente em Edward.

Não houve imagem violenta suficiente para traduzir a força do impacto que aquele momento teve sobre o rapaz. Naquele momento ele não era nada parecido com o humano que já foi um dia, era um predador e aquela menina era sua presa. Esqueça o mistérios que envolvia seus pensamentos; Bella não pensaria por muito mais tempo. E de repente não havia mais nada. Não havia mais uma sala cheia de testemunhas ou qualquer traço da faixada humana dos Cullen. Edward sabia que no segundo em que a garota sentasse ali, ele teria de matá-la.

Os outros naquela sala seriam um problema e também não poderiam mais viver depois de ver o que estava prestes a acontecer. Edward estimou que poderia morder quatro ou cinco pescoços por segundo e pegaria o lado direito primeiro. Não haveria tempo para o caos ou a gritaria. Ele deixaria Bella por último.

Enquanto ele decidia os detalhes de sua estratégia, alguém fechou um fichário ali perto, lançando uma lufada de ar puro em Edward, e ele pensou claramente por alguns segundos. Não podia fazer aquilo. Nunca em sua vida inteira ele matara pessoas inocentes como planejava fazer agora, seu monstro interior não podia ser tão forte.

Mas a garota Swan não poderia viver, aquilo era fato. Enquanto ela se sentava a seu lado toda travada e o olhava discretamente, seu cheiro tornou a embriagar o cérebro dele, tornando difícil pensar coerentemente.

Edward teria de pegá-la sozinha então. Seu monstro interno sorriu enquanto ele formulava o plano.

Notas finais
Novamente peço para comentarem, assim eu vou saber se devo continuar ou não. Caso haja algum erro, por favor me avisem. Beijos!