Little Souls Almas Pequenas
3 Primeiro Capítulo.
Donatella.
O irritante som do meu alarme fez-me revirar na pequena cama de casal que ,quase por um triz, não ocupava o meu quarto nestes últimos 20 anos. A noite tinha sido um completo desastre, não que tenha saído, para mim uma boa noite é passada a dormir no vale dos lençóis bem quentinha sem preocupações. Esta noite tinha sido cheia de completa ansiedade. Não sabia o que esperar daquilo que estava prestes a acontecer. Teria sido assim tão tola ao ponto de me atirar de cabeça para esta ideia ridícula de viajar? Sabia que sim, mas agora não havia nada a fazer a não ser levantar-me de cabeça erguida. Não poderia dar a minha mãe o gozo de me dizer que estava certa quando à menos de duas semanas tinha defendido a sua ideia de o quão perigoso seria para uma menina tão bonita como eu sair nesta altura sozinha.
Sempre ouvia a minha avó dizer que " a boniteza não se põem na mesa", e não poderia estar mais certa.
Apesar de me sentir inquieta, levantei-me e agarrei num elástico preto e fino, aproveitando-me deste para prender o meu cabelo num alto rabo-de-cavalo. Não era um look que me agradasse , mas era necessário para que pudesse realizar a minha rotina matinal sem fios de cabelo a tapar-me a visão ou até mesmo a entrar na minha boca.
Percorri o pequeno corredor de minha casa em direção a casa de banho e depois de entrar na mesma observei o meu rosto ao espelho. Mantinha-se inexpressivo. Os meus olhos pareciam pequenos, a sua cor azul, esbatida, aparentando não terem vida, não existia nada naqueles olhos, nada era transmitido através destes. O meu cabelo cor de chocolate não tinha brilho e a minha pele esbranquiçada mostrava que precisava de apanhar sol o mais rápido possível. A rapariga que se encontrava naquele espelho precisaria de imensa maquilhagem para que o seu oval rosto se torna-se na principal atracão do seu corpo alto e esguio. Seria facilmente comparada a uma pessoa com problemas de alimentação, e quem sabe que outros tipos de distúrbios. O problema é que essa rapariga sou eu.
Como sempre, tratei de mim da forma mais rápida que era possível, sendo que o som de armários a abrir e a fechar, assim como tachos e panelas a bater eram ouvidos por toda a casa, e não era difícil perceber que a minha mãe estava a preparar o nosso pequeno almoço.
No momento em que acabei a minha perfeita maquilhagem passei à roupa. Optei por umas calças ,a imitar couro, pretas, as mesmas abraçavam e encaixavam-se nas minhas longas pernas perfeitamente. Agarrei numa camisola branca, um pouco translucida e rapidamente a enfiei cabeça a baixo podendo ajeita-la ao mesmo tempo que me verificava ao espelho. Estava minimamente apresentável, e penso que isso seria o mínimo a pedir.
Mesmo descalça desci as enormes escadas que me davam aceso ao andar inferior onde estava a minha mãe. Sabia que teria de levar com mais um dos seus "incríveis" argumentos durante o pequeno almoço.
A minha mãe. Uma mulher nos seus 45 anos mas em perfeito estado. Ao contrario de mim era de estatura baixa, os seus cabelos loiros falsos batiam exactamente a cima dos seus ombros, e ela fazia questão de os alisar todos os dias.Outra coisa em que também seriamos opostas era em questão de pele, a dela estava devidamente bronzeada e hidratada. Os seus olhos azuis como o mar tinham sempre uma pequena linha a cima dos mesmos, colocada cuidadosamente e obviamente simétrica a outra, para que ninguém pudesse comentar o quão a sua maquilhagem estava imperfeita. Eu considero-me a pior filha que ela poderia ter. Sou a filha da perfeição.
Mal podia acreditar ao ver a última caixa ser colocada no banco de trás do taxi. Aquilo que sempre desejará estava prestes a acontecer mesmo à minha frente. Não posso deixar de sentir um leve nervosismo misturado com toda a nostalgia de infância que me consome desde ontem à noite. Foi aqui que nasci, foi aqui que me criaram, é para fora daqui que anseio ir.
Portugal, um país soberano localizado no sudoeste da Europa, banhado pelo oceano Atlântico por todos os lados exceto por um. Território povoado continuamente desde os tempos pré-históricos, ocupado por celtas, galaicos, lusitanos e muitos mais. Um país passado pelas mãos da monarquia, da ditadura. Um país histórico que aos poucos deixou de me dizer algo. Ser portuguesa, é algo que encaro com orgulho, porém, ultimamente, sinto-me sufocada neste pequeno, mas rico,país.
O desejo por descobrir mais tomou conta de mim. Aventurar-me em novos países, encontrar novas culturas, juntar-me a diferentes pessoas, pessoas com formas diferentes de encarar a vida que me podem levar a dar mais valor a mesma, fazendo-me querer viver para crer. Mas também, o desejo por me encontrar, saber quem sou, o que realmente pretendo vir a ter num futuro longínquo. Ter vontade de trabalhar para algo produtivo.
Tendo em conta todos estes factores, deixar o meu país a procura de "mais", não parece ser algo tão duvidoso, tão...inadequado.
Abandonar o meu local de nascimento aparenta ser o mais acertado a fazer.
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