POV BELLA

O que é isso? Onde estou? Tudo o que eu via ao meu redor era uma névoa escura e densa que me deixava meio tensa, apesar de me sair bem com zumbis e tudo o mais, eu morria de medo de histórias de fantasmas e coisas assim.

Era algo como um cemitério na colina, cinza e esquisito, não estava gostando nem um pouco disso, percebi realmente que estava sonhando quando vi na minha frente a minha mãe e ela estava como me lembrava na infância: os cabelos castanhos quase ruivos desgrenhados, os olhos azuis estavam rodeados de olheiras profundas por causa da bebida, a roupa suja de vômito e uma garrafa de whisky na mão.

–-- Então você realmente não serve para nada, não é mesmo Isabella? --- ela disse com escárnio.

–-- Isso vindo da bêbada com casamento fracassado que só espancava os filhos porque não quis dar atenção ao marido.

–-- Não sabe nada sobre o Charles! --- praticamente rosnou pra mim, continuei impassível encarando aquela imagem na minha frente --- Não sabe o que tive que passar com ele, me controlando sempre com aquele jeito de militar autoritário.

–-- Eu me lembro de um homem firme, mas também carinhoso, que me apoiava como eu sou, um pai memorável. Agora você?! Nunca fui o que você quis e por isso me detestava tanto, era por isso que abusava mais de mim do que meus irmãos? Me espancava mais quando eles não estavam por perto e não podiam me proteger?

–-- Você nunca fez nada direito na vida! Sempre uma imprestável inútil, não sabe nem ser mulher!

–-- Eu sou uma mulher! E uma bem melhor que você. --- comentei irritada avançando para cima dela, não deixaria ela ganhar novamente.

Renée me agarrou pelos ombros e chacoalhou, lutei com todas minhas forças para livrar de seu aperto de aço quando acordo num susto e me deparo com o rosto do Rob acima do meu, ele me olhava preocupado, colocando um pano molhado na minha testa.

–-- Daryl. --- disse com a voz rouca pela falta de uso --- O que aconteceu com o Daryl? O que eu estou fazendo aqui? --- me deparei com um quarto simples que antes deveria ser para bagunça ou algo assim, tinha uma cama meio enferrujada, um guarda-roupa pequeno, e algumas bugigangas ao redor da cama. --- Robert, o que houve?

–-- Você sofreu várias lesões por causa de uma queda provavelmente, levou um tiro de raspão no pescoço, desmaiou e só chamou pelo Daryl. --- ele entortou a boca --- Não acabou com seu ímã pra perigo?

Senti uma dor absurda no pescoço praticamente me impedindo de falar muita coisa, aquilo poderia deixar uma cicatriz e eu estava preocupada com o Daryl, por mais que eu não quisesse admitir, aquele caipira me salvou. A última coisa que eu me lembrava era dele levar um tiro na cabeça.

–-- Rob, o caipira morreu? --- perguntei rouca e confusa, me sentindo culpada não sei por qual motivo, ele não era responsabilidade minha.

–-- Não, o tiro nele foi de raspão também. Acho que temos sorte pela Andrea não saber atirar muito bem ainda.

–-- Maldita Andrea, tentou matar a nós dois, tento ajudar a achar a garota e o que eu levo? Tiros no pescoço, costelas quebradas por cavalos malditos.

–-- Você andou a cavalo? --- ele perguntou genuinamente surpreso e eu corei um pouco, dando de ombros --- Mas...

–-- Sim, eu sei. Mas eu não tive escolha né?! Para procurar em longas distâncias é bom ir a cavalo, só que esse maldito assustou com a cobra, ok os cavalos. Foi assim que o caipira e eu levamos um belo capote.

–-- Vou te falar, vocês realmente tiveram muita sorte, pensamos que perderíamos vocês. Principalmente você, não sabia se ia sobreviver ou se isso ia tirar sua habilidade de falar, temos tão poucos recursos aqui.

–-- Hum, olha aí o poderoso médico tomando conta de mim. --- sorri meio sem forças --- Quero água e sair daqui um pouco. --- senti uma dor forte nas costelas, no lado do corpo e a mais aguda dor no pescoço.

–-- Não devia abusar muito. --- reclamou, mas me entregou a água e me ajudou a levantar, foi meio difícil engolir, mas muito bem vinda a água.

Cambaleei pelo corredor até o quarto ao lado, Daryl estava lá sem camisa com a cabeça enfaixada e com pontos no lado do corpo onde a flecha o perfurou. Estava deitado de lado, me olhou por um momento e virou o rosto para o lado, pensei por um breve momento ter visto ele corar de vergonha.

–-- Você está bem? --- perguntou com a voz arrastada ainda e ouço ele bufar como resposta.

–-- Estou sim e você? --- tenta esconder a preocupação só que eu a percebo --- Er... Obrigado por me ajudar pirralha, não precisava, mas agradeço por isso. Soube que você ficou pior para se recuperar.

–-- O que? Pera aí. Eu fiquei quanto tempo apagada?

–-- Um dia e meio se não me engano, esses remédios me deixam grogue, odeio essa merda.

–-- Bom, apesar de tudo, achamos uma boa pista da Sophia. --- dou um sorriso de leve porque sei que ele parece menos rabugento tanto que se virou para ver melhor --- Ela pode estar por perto, acha mesmo que vamos encontrá-la? Ainda me sinto culpada por tudo.

–-- Deixe de besteira, pirralha. --- revirei os olhos quando ele me chamou assim --- Vamos achar a garota e ela estará bem, não se sinta culpada. Estou vendo que é bem forte, agüentou a nós dois durante boa parte do caminho. Que merda eu to falando? Parecendo um mariquinha, ignore o que eu disse, não serei sempre bonzinho com você.

–-- Aí está o antigo caipira Dixon, você também ajudou muito, apesar dessa casca grossa sei que você é bom.

Então totalmente sem jeito e surpresa para nós dois, eu o beijei na bochecha. Ele me encarou com seus olhos azuis, beijei novamente no canto de sua boca e colei nossos lábios em um selinho demorado. O porquê de eu ter feito aquilo, não tinha a menor idéia. Talvez sejam os remédios mas o gosto da boca dele era muito bom para se ignorar.