Little Bird
1 Capítulo Único - Little Bird
Notas iniciais
Com os olhos marejados, eu pude vê-lo se afastar ao longo da praia. Ir pela areia, caminhando devagar, sem olhar para trás. Simples e calmos passos, que nada mais eram que a representação de uma decisão importante.
Talvez fosse a determinação que dominara seu corpo tão de repente, ou então o fato dele nem mesmo hesitar quando as ondas do mar tocaram seus pés e o vento frio do inverno atingiu suas costas, mas algo em Do Contra revelava uma grande mudança. Algo que finalmente o sustentava por dentro e o ajudava a seguir em frente, profunda e permanentemente.
Não tremia, ainda que há apenas alguns minutos sua voz estivesse falha enquanto insistia em falar que finalmente entendia. Respirava em um ritmo desacelerado mesmo que, instantes antes, estivesse nervoso o suficiente para suspirar profundamente. Agora, carregava uma leveza consigo porque finalmente abandonara a paixão que corroera sua alma e esmagara seu coração. Não chorava ou cambaleava mais porque aquela situação, tão semelhante a uma gaiola de pássaros, finalmente acabara e a busca constante e agonizante por liberdade chegara ao fim.
Em suma, deixar-me para trás poderia ser doloroso, talvez o matasse por dentro, mas fora a chave que destrancara a grade e permitira que saísse. Esquecer aquela paixão letal era o suficiente para trazer sua felicidade novamente.
Vê-lo partir, no entanto, era mais doloroso do que jamais imaginei que seria.
Do Contra falara com cuidado, um discurso que durara apenas alguns minutos, mas tão cheio de sentimentos: sua voz carregava uma dor que trouxe um nó a minha garganta, e seus olhos, tão nublados quanto o horizonte, revelaram horas de choro. Ele não gritou ou perdeu a concentração e jamais deixou de me olhar diretamente nos olhos. Uma palavra após a outra, cada uma libertando os pensamentos que tanto sufocara. Uma frase após a outra, esvaziando sua mente da névoa que aquele veneno deixara.
Não cobrava nada além de uma boa ouvinte, e foi isso que dei a ele. Escutei com atenção e absorvi suas palavras. Assenti em silêncio quando disse que estava indo embora e que não me procuraria mais. Fechei os olhos quando desejou que eu fosse feliz com o Cebola e que entendia minha escolha.
Eu o julgara mal, afinal, ao ignorar o peso revelador que ele segurara nos ombros por anos. Precipitara-me quando neguei com tanta insistência suas demonstrações de carinho em atitudes inusitadas que tantos declararam desnecessárias. Errei ao não acreditar que aqueles lábios finos eram os que eu queria beijar, e que aquele olhar, escuro e cheio de um desconhecido amor, não era tudo que eu realmente precisava.
E, com um aperto no coração e lágrimas escorrendo por meu rosto, enquanto Do Contra se libertava como um pequeno pássaro, entendi que ele não era mais meu.
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