Lithium
2 Capitulo 1
Notas iniciais
Estava frio, o vento de outono balançava as arvores e fazia com que as poucas folhas restantes nos galhos se desprendessem. O clima estava frio, mas agradável. O cheiro no ar era algo inebriante, pesado com humidade, mas o cheiro característico de outono, folhas secas e madeira.
Adam amava as sensações do outono. A melancolia que trazia também era enorme. Ele estava em seu local preferido, sentado sob uma arvore após a escola. Ele odiava ter que frequentar um lugar cheio de adolescentes retardados que eram muito barulhentos. Para piorar, seus sentidos ficavam loucos com o excesso de estímulo.
Ele sabia que estava no espectro, apesar de não ser tão grave quanto outros, mas ainda assim, o estímulo constante era enlouquecedor em certos momentos.
Sua mãe lutava trabalhando no hospital, para conseguir seus remédios e manter os dois de forma razoável. Ele não sabia o que havia acontecido com seu pai, mas a julgar pelo fato de sua mãe nunca falar sobre ele, Adam imagina que ele tenha ido embora. Bem, boa viagem. Se alguém não pode lidar com eles, então não merece estar na vida deles.
Adam tinha apenas dezesseis anos, mas sabia que as coisas não estavam fáceis. Ele não estava mais suportando estar na escola, com o barulho constante, as provocações dos idiotas que habitavam os corredores do High School e estar constantemente sendo perseguido por ser diferente. Ele estava encolhido de baixo de sua arvore, balançando levemente enquanto ouvia em seus fones de ouvido um suave piano, tentando acalmar suas emoções fora de controle. Ele odiava tudo em sua vida. Sua mãe era a única coisa boa que ele tinha, mas tirando isso, era difícil pensar em motivos para estar aqui, vivo, respirando. Sua mente estava acelerada, seus próprios pensamentos estavam traindo sua tensão, suas mãos tremiam e sua respiração estava acelerada. Ele começou a contar de 100 para 1, respirando lentamente, tentando controlar a ansiedade que crescia em seu peito. Quando chegou a 1 ele estava mais calmo, mas ao mesmo tempo seu corpo doía por causa da crise nervosa.
Ele se sentou, sentindo lentamente seus músculos afrouxarem, respirou fundo e soltou suavemente. Fechou os olhos e se forçou a diminuir a velocidade dos próprios pensamentos. Devagar, retomou o controle de si mesmo. Quando abriu os olhos percebeu seus dedos apertando suas palmas, marcando meias luas sangrentas.
Adam olhou para cima, vendo alguns pássaros nas arvores, desejando apenas ser um deles. Ser livre e poder voar, sem ter que se preocupar com mais nada, ser leve e poder ir para onde o vento o levar.
Levantando lentamente ele olhou ao redor, ele tinha que voltar para as aulas e sinceramente ficou tentando descobrir motivos para entrar em seu inferno pessoal, que era a escola, mas não encontrou um motivo qualquer.
Ele pegou sua mochila, colocou novamente no ombro e saiu andando seguindo o rio em direção a sua casa. Era uma longa distância, mas não estava com pressa de chegar em uma casa vazia. Os olhares estranhos que recebia de alguns que passavam olhando para sua aparência magra, pele branca e olheiras sob os olhos turquesa, dos quais herdou de seu pai pelo que sabe, o deixavam com um ar meio fantasmagórico, tudo isso debaixo de seu moletom preto e azul favorito realmente o fazia parecer provavelmente um delinquente.
Estava distraído enquanto caminhava olhando para o rio ao lado da estrada, que não reparou alguém correndo em sua direção. O impacto o derrubou fazendo com que seu corpo caísse pesada e dolorosamente no chão.
“Vejamos o que temos aqui”. Disse uma voz zombeteira acima dele. Adam se forçou a abrir os olhos e olhar para seu agressor. Era Kyle e seus amigos encrenqueiros. Tudo o que ele não queria encontrar no dia de hoje. Olhando ao redor, havia quatro deles. Ótimo. Quatro contra um. O dia não iria terminar bem para ele.
“Olha oque eu achei pessoal, o retardado perdeu o caminho de casa”. Kyle disse puxando Adam para cima pelo braço. A força usada no movimento fez Adam estremecer, iria ficar um belo tom de roxo ao redor de seu pulso isso ele tinha certeza. Tentando se livrar do aperto ele sacudiu um pouco o braço, na esperança do idiota notar a dica para soltar o toque indesejado. Kyle nunca foi a faca mais afiada da gaveta com certeza, já que não entendeu a dica.
A carranca no rosto de Adam pareceu divertir todos eles mais ainda, pois começaram a soltar risadinhas com suas tentativas de se soltar.
Kyle o puxou com mais força e ficou cara a cara com ele, bem cara e peito, já que o idiota era um maldito gigante e Adam batia na altura de seu peito. Malditos idiotas e suas pernas compridas.
“Achei que você estava na escola Kyle, atras das garotas, implorando por uma chance talvez, quem sabe milagres não acontecem”. Adam disse não olhando para o rosto do garoto maior.
“Ou talvez sua irmã possa ter convencido todas as amigas dela de que você é um desperdício de espaço, assim como seu pai era”. Ele disse não sabendo de onde as palavras vieram exatamente. Ele sabia por experiencia que provocar os agressores só causava mais dor, mas ele não conseguia evitar, o filtro entre seu cérebro e sua boca pareciam permanentemente desligado.
Ele esperava a dor, seu cabelo encaracolado sendo puxado com uma violência que o lembrou vagamente dos motivos pelos quais sair de casa era uma má ideia.
“Quer ser espertinho Gray, tudo bem por mim”. Kyle disse com uma raiva na voz que era surpreendente por seu controle. “Pessoal, vamos ajudar o retardado a chegar em casa não é mesmo”. Ele disse com um sorriso assustador em seu rosto.
Adam tentou se livrar do aperto desesperadamente, mas não conseguia e o aperto se tornou dolorosamente forte, um aviso para parar de se debater. Ele acompanhou os outros calmamente, olhando ao redor procurando rotas de fuga, uma maneira de correr ou pelo menos um lugar que pudesse se esconder e não ser pego.
Ele foi repentinamente jogado no chão, raspando no cascalho na borda do rio, parece que eles andaram mais do que ele percebeu, pois estavam em um local mais afastado, onde a corrente do rio era mais forte e parecia ser mais fundo. Um soco acertou o lado esquerdo de seu rosto atordoando um pouco seus pensamentos. O aperto no seu cabelo voltou e abrindo os olhos tonto ele olhou para os olhos castanhos do garoto maior. Havia apenas desprezo e fúria naqueles olhos, um rosto com algumas marcas da adolescência, mas haviam duas cicatrizes que eram bem marcantes, uma acima da sobrancelha e outra que descia pelo lábio superior. Seus pensamentos voltaram quando ele foi jogado novamente no chão raspando as mangas do casaco no cascalho grosso, sentindo algumas pontas afiadas espetando seu corpo. Ele definitivamente teria uma coleção enorme de hematomas.
“Eu não sei quem anda dizendo coisas para você Gray, mas eu acho que você vai se arrepender amargamente de ter dito essas palavras. Vou fazer você engolir cada uma delas uma por uma.” Kyle disse num sussurro mortal com o pé no peito de Adam.
Adam aproveitou a posição e empurrou o pé do garoto maior, o fazendo se desequilibrar e levantou rapidamente, já tendo se acostumado a dor, que agora era rotineira. Ele correu pela margem do rio esperando voltar por onde veio e pedir ajuda, mas não foi muito longe. Quando pisou em uma pedra em um local mais alto um par de mãos o puxou para baixo de volta o fazendo desequilibrar por um instante, antes de se recompor e tentar revidar com o cotovelo mirando o rosto do outro garoto, que por um milagre foi atingido no nariz, soltando seu aperto e desequilibrando seu corpo. Adam deu um passo para trás, depois outro tentando ficar ereto, apenas para sentir seu pé pisar em falso na borda da rocha em que estava. Ele sentiu seu corpo todo esfriar totalmente com a sensação de queda e tentou proteger a cabeça para o que sabia que seria uma queda extremamente dolorosa. A água estava fria e a correnteza veloz. Ele empurrou seus músculos para mantê-lo na superfície, mas era difícil.
Ele foi jogado de um lado para o outro, tentando respirar, batendo nas rochas. Distante ele podia ouvir gritos, não sabendo se eram os outros garotos tentando ajudar ou se eram seus próprios gritos de desespero. Ele estava cansado. Seu corpo deu uma pancada forte em uma rocha e tudo ficou preto.
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