Linhas da Vida
12 Pirilampos que são areia
Era eu apenas uma sombra que se projetava diante das chamas das poucas velas, eram traços esbranquiçados diante do breu que me acobertava, eu não tinha sentidos, não tinha emoções, somente acariciava as minhas próprias pernas, não tinha um gato para ronronar para mim, não tinha um cão para me acalentar, era somente eu e as labaredas que fluiam por mim, criando uma valsa crepitante. Eu encarava com ardor as pequenas chamas, éramos somente eu e elas… Se eu não contasse com meus próprios pensamentos, são tantos, pesados, fartos, com força o suficiente para criar caminhos.
Caminhos?
Trajetos?
Eu apenas sentia que minha vida estava estática, era somente uma grande alternativa para resolver o marasmo que adentrei em minha vida, não encarar as pinturas, as quais eu mesmo comprei para decorar minha própria solidão, éramos somente nós três, chamas, pensamentos e minha própria sombra, sem força o suficiente para levantar ou sair do meu próprio eixo. Nada mais era distante do que simplesmente ver o futuro fugir pelas palmas das minhas mãos.
Era uma visão tão quente, confortável, eu sentia a melodia que me abraçava e acariciava meu couro cabeludo, me fazendo ficar sentido com a presença de mim mesmo, tudo tinha um tom alaranjado, eu sentia o calor, uma areia que perpassava pelas minhas digitais, o vento fresco de uma manhã ensolarada, eu somente sentia o odor delicado das flores nascendo, das nascentes gotejando, do próprio orvalho evaporando com o sol aquecendo o meu corpo e meu pensamento.
Poderia ser um acalentador silvestre, de um momento embaixo de copas frondosas, somente permitindo que a cantorias dos pássaros me deixassem mais calmo, seria somente a própria natureza me confortando, com cânticos serenos sem pressão, com instantes de fantasia, em que dançava-se diantes dos arbustos, com formas alegres e vivas.
Mas tudo escurecia, como uma tempestade que me segurava com força, era uma chuva torrencial que afligia meu rosto, criava lacerações profundas de granizo pontiagudo e insensato, era uma dor que eu já me acostumava, de somente aceitar a imensidão diante de mim, com aquele êxtase falecendo diante de mim, do abraço não dado, do beijo não beijado, do suor frio que escorria pela minha nuca. Era como abrir um livro e já saber o final, não era por mero clichê, contudo pela aceitação de acreditar ser eu somente um ator das minhas próprias imaginações e pensamentos… Paranoias..?
Ainda estavam em minha frente, crescendo e diminuindo, eram chamas que bailavam conforme a música do ar que adentrava, eu não sabia mais o que eram sombras, ou o que eram tristezas, ou se eram minhas lágrimas caindo no chão ou a chuva que lavava o jardim, o pobre coitado que sempre foi meu sonho em florescer, porém foi perecendo diante dos meus próprios olhos, eu via as minhas sombras lutando para cobrir cada escavação do solo que seria uma flor, virando uma cova para minhas desilusões, eu via cada adubo desaparecendo em terrenos alheios, em que eu me entreguei mais do que em meu próprio jardim.
Eu também podia ouvir minhas próprias sensações pregando peça em mim, eu conseguia sentia o mistério que elas me comandavam aguardar, saber que poderia ser nada, mas como poderia ser tudo, eu conseguia ouvir as areias da ampulheta escorrendo perna abaixo, ouvindo minha mente diluída em solidão se esvaindo pela mesma fresta que toda ampulheta passa de um pólo ao outro. E assim… Eu sei que sou somente mais um pouco de tempo perdido…
Eu facilmente lia as linhas da minha própria história, eu enxergava os erros do passado que me perseguiram como lobos famintos à espreita da raposa, aquela que tentou se sobressair, eu narrava a minha própria perda dos sentidos para os caminhos inóspitos que eu jamais consegui alcançar, eu revia a saudade que senti das páginas que ainda não escrevi, eu somente estava congelado diante da própria peça de teatro… Eu era o autor e eu era o diretor e eu era o ator e eu era o principal personagem. Eu era tudo, mas no fim, eu era nada, não tinha espectador, não tinha salva de palmas, havia somente silêncio.
Era o silêncio cruel, o silêncio que julga, o silêncio que anseia o desespero, não eram músicas, nem melodias, não eram sons ambientes, era somente minha própria servidão das promessas que fiz a mim mesmo, eu mesmo me coloquei nesse terreno fértil sem forças para florescer. Todavia, teria vida…Eu sabia dos pirilampos, eles eram guias.
Eu via os vagalumes colorindo a escuridão, iluminando cada instante que dançavam ao redor das chamas, eu via eles sendo a pouca respiração que habitava o cômodo, eram como areias, que manavam de um pólo ao outro, eram eles que deixavam tudo num equilíbrio, esse equilíbrio que eu não via, nem existia, que somente vivia. Eles eram tudo o que eu era e o que serei, o que eu sou… Eu deixo para depois… Não sou mais areia que flui, ou somente pirilampo que voa, sou vigia da minha própria sombra, sou jardineiro do meu próprio túmulo, sou aquele que não deveria respirar além da normalidade, sou apenas um servo dos próprios desejos vazios.
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