Linhas da Vida
3 Noite de natal
A noite de natal nunca mais seria a mesma… Depois que a época passa, há aquela mágica que não existe mais, ela se perde, ela se desnutri, ela fica sem vida, sem anseios, sem magia, é um dia como qualquer outro, uma história como qualquer outra. Às vezes, pelo ao contrário, é uma noite que pode deixar uma cicatriz, uma ferida, um medo, uma vontade de ter feito diferente, de ter erguido o próprio orgulho contra si mesmo e simplesmente ter decidido que não mais aceitaria não viver a mágica.
E você sofre quando não se teve mais mágica, você se perde quando não tem aquilo que sempre esperou, que sempre fez a sua vida naquele dia ser diferente, você simplesmente abandona, você se culpa… É estranho, quando se tem sentimento ambíguos, sensações, querer se sair melhor, do que você mesmo quis impor. Não era você, era a sua realização do que tentou fazer.
A noite de natal nunca mais foi a mesma, você cresceu, você não é mais criança, sabe das lutas do dia-a-dia, sabe como é difícil estar ali, sabe como queria ter sido diferente para agradar quem você gostaria que quisesse aquilo por você. Sabe quanto foi duro, foi querer ver a alegria no olhar do outro, querer ter novamente o mesmo acolhimento que todos tivemos quando, antes, éramos somente vários, hoje somos nenhum. O sentimento morreu, mas para outros, ele nunca existiu.
A noite de natal sempre foi estranha, ela deixou de ser delicada, deixou de ser imponente, ela deixou de marcar as memórias boas e afetivas, ela deixou de ser o que o natal representou. Para alguns, nunca foi; para você, deve ter sido algum sentimento delicado e gostoso de sentir no passado, uma cantiga, uma risada, você lembra de como era se sentir abraçado.
E quando você não tem isso? Você se perde, falta ar, quer se apertar, se arranhar, se arrancar do que mais é seu ser, seu corpo, seu prazer, sua luxúria. Você se entregou a uma luxúria diferente, quis se mostrar a ele, mas acabou com olhos de outros, e os outros sentem inveja, os outros não querem que você tenha o que você tem, que é um natal. É curioso que histórias não batem, que aquele natal que tivemos, não é mais aquele natal de casa cheia… Afinal, o barulho esconde o que o silêncio ecoa, uma casa cheia não expõe os barulhos que os nossos segredos contam, o barulho escondo o que mais há de pior naqueles que não querem que o natal seja natal.
E quando a noite de natal não é mais natal, ela deixa de ser presente, e volta a ser passado, contigo sabendo que haverá futuro, e você sente que precisa reiniciar, sente que precisa falar, sente que o medo dela se tornar um cotidiano, ela bate em sua porta, ela adentra sua janela, ela é a chuva que não te causa calmaria e mansidão, é a chuva que te olha fundo e te atormenta, te deixa resfriado, te deixa com os pés gelados, te deixa sem rumo, sem chão. É aquele abraço que não conforta, é aquele sorriso sem emoção, é a sensação de vazio que te corrói por dentro, aquele que te faz se sentir solitário. Entre dentes e segredos, e talvez risadas, paira a culpa, há um odor denso, e há um sentimento insípido de não poder o natal ser natal novamente.
A noite de natal talvez volte, no futuro, a ser algo que você decidiu reinventar para si: uma noite não mais comum, uma noite alegre, farta, sem desavenças, sem tentativas de querer não ser aquilo que você é, aquela necessidade em não abaixar a cabeça para que tanto você disse que não ia dar braço a torcer, ser aquela noite em que você se lembre da primeira noite de natal que você recebeu abraços, conforto, carinho, ser a noite em que você possa sentir a primeira vez que está em um lar, um conforto, um aconchego.
E assim, que a noite de natal possa ser a noite de natal novamente.
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