Linha do Tempo

5 5 - Karo Haru - Parte 2


— E Nao Mitsu é o próximo.

De repente, algo se passou pela minha mente.

"O próximo será um residente desse bairro". As palavras de Davi começaram a tomar forma quase na minha frente.

"Me mudei para cá há poucos dias."

No final, não era Bruno, mas Nao. Eu tinha de fazer alguma coisa, antes que fosse tarde.

Karo olhou para mim com o canto do olho.

— Interessante.- Ele murmurou.

Nao aproveitou a pequena distração de Karo para se levantar. O movimento acabou assustando o caçador. Ele deu um pulo para trás, mas logo voltou a sorrir.

— Não adianta fugir do destino- disse ele.- Se não for hoje, será outro dia.

— Não me importa- Nao disse.- Se quer lutar, venha. Mesmo sem arma, eu consigo me livrar de você.

Karo riu. Ele guardou sua espada em uma bainha que levava em sua cintura.

— Eu sei como te atingir sem nem ao menos encostar em você- disse o caçador.- Sinto muito lhe decepcionar, mas eu preciso ir.

De repente, ele desapareceu. Senti um vento passando rapidamente por trás de mim e uma mão repousando em meu ombro. Eu me virei e tive um grande susto ao ver Karo atrás de mim.

Eu dei um passo para trás. Ele sorriu.

— Venha, quero te mostrar uma coisa- disse ele.

Ele pegou meu braço e começou a desaparecer. Olhei para meus pés e vi que também estava desaparecendo. Nao tentou me alcançar, mas assim que estava prestes a me tocar, tudo sumiu.

Por uns instantes, nada aconteceu, além da escuridão, não havia nada. De repente, uma luz começou a aparecer em minha frente. Eu comecei a sentir os dedos de Karo em meu braço esquerdo.

Finalmente, pude ver onde fomos parar. Karo me levou para cima do prédio onde eu morava.

— Você me intriga- disse ele.

— Como?- Eu não havia entendido direito.

Karo me soltou e se sentou no chão. Um vento sacudia seus cabelos brancos. Ele me olhou.

— Existem viajantes que não seguem os padrões- ele começou a explicar.- Eu sou um deles. Acho que você também tem esse dom, e, se eu estiver certo, você é mais preciosa do que pensa.

Ele voltou a olhar para o horizonte, depois de um tempo, fechou os olhos. Era a oportunidade perfeita. Eu já estava na minha casa, de certa forma, e ele não estava olhando. Eu podia fugir.

Comecei a me distanciar dele.

— Nunca te ensinaram que é falta de educação sair quando alguém está falando com você?- Ele me perguntou.

Eu me surpreendi e fiquei sem reação. Ele, então, abriu novamente os olhos. E me olhou.

— Acho que ambos temos perguntas à fazer, não?- Ele perguntou.- Eu tenho um objetivo em minha vida, mas, por hora, te deixarei em paz. Pergunte o que quiser e eu lhe responderei.

Era frustante! Eu não sabia o que ele estava planejando e nem muito menos se podia confiar nele.

Karo Haru é o primeiro de dez caçadores, muito conhecidos entre os viajantes, de modo geral, por servirem em risca as ordens dos Conselheiros. A maior parte das vezes, suas missões acabavam em morte.

Ponderei se deveria ou não ficar. Se tentasse fugir, Karo iria me alcançar. Ele confirmou essa minha tese com um sorriso.

Eu suspirei.

— Você quer começar com as perguntas?- Perguntei.

— Não- ele respondeu.- Prefiro que vocêcomece.

Eu pensei um pouco antes de perguntar:

— Por que você persegue os outros viajantes e os mata?

— Ossos do ofício- disse ele.- Somos fiéis aos Conselheiros e devemos honrar seus nomes. Caso alguém os desobedeça, devemos fazer com que seu destino sirva de lição aos outros. — E concluiu: — Matar não é a nossa missão, mas é a forma mais prática de se executá-la.

Ele olhou para mim e, ao ver que estava admirada por sua resposta, sorriu.

— Não pense que nossos corações são moles — disse ele. — Seu amigo ainda vai ser meu prêmio.

Ele falava de Nao.

— Minha vez de perguntar. — Karo disse. — Você tem namorado?

Eu fiquei vermelha e surpresa.

— O-o que você quer dizer com isso? — Perguntei.

— Não me entenda mal. — Disse ele. — Só quero saber por saber.

Não sei o que me impulsionou a responder, mas eu disse:

— Sim, um viajante dimensional.

Sua expressão não alterou em nada.

— E você confia nele? — Ele perguntou.

— Mas que tipo de pergunta é essa? — Perguntei. — É claro que confio!

Ele riu com desdém.

— Sim, sim. — Disse. — Vamos, faça a última pergunta. Depois, irei embora.

Me concentrei e perguntei o que não saía da minha mente.

— Por que você vai me poupar?

Ele se levantou e ficou na ponta do prédio, seus pés estavam a ponto de falharem e caírem. Se virou para mim.

— Existem dois tipos básicos de viajantes — ele explicou o que desde sempre eu sabia -, os dimensionais, como eu, e os do tempo, como você. Porém, existem poucos viajantes que conseguem se locomover com liberdade em qualquer lugar ou época, sem depender de distância ou árvore genealógica. — E completou: — Eu sou um deles, e acho que você também é uma. Só preciso de uma confirmação e, acredite — Karo abriu os braços em forma de cruz -, eu terei essa confirmação.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa a respeito disso, Karo se jogou do prédio. Tentei correr para segurá-lo, só que, assim que cheguei, ele tinha desaparecido.

Comecei a sentir meu corpo pesar. Me sentei no chão e respirei fundo. Minhas pálpebras pesavam e comecei a fechar os olhos. Antes que pudesse realmente desmaiar, vi Bruno aparecer do nada.

— Karen! — Ele exclamou. — O que aconteceu?

Não consegui responder.