Like I'm Gonna Lose You
25 Capítulo 23 - We Are Friends Now
Notas iniciais
Isabelle Lightwood me deixaria louca.
Era a trigésima vez que ela me ligava na última hora. E nem sequer havia passado da hora do almoço. A capinha do meu celular já estava manchada de tinta, pois eu já havia perdido a paciência para limpar a mão toda vez que ela me ligava.
— Izzy, se você continuar a me ligar eu vou desligar o telefone. — Anunciei quando atendi o celular. Ouvi o seu suspiro do outro lado da linha.
— Eu vou aparecer na sua casa, então. — Foi a minha vez de suspirar. Apoiei o pincel sobre a paleta que estava usando para evitar me sujar ainda mais. — Se bem que não é uma má ideia! Posso?
— Não! — Respondi imediatamente. — Isabelle, relaxe! Hoje é domingo! Assista à um filme, uma série, durma um pouco, saia com o Simon, só não pense no que vai acontecer! Você não vai sentir dor, só vai nadar com um bando de Sereias do seu lado! Então, trate de relaxar! Você está me fazendo entrar em desespero! — Ela começou a gargalhar do outro lado da linha. Que bom que ela achava aquilo engraçado.
— Tudo bem! Tudo bem! Eu vou tentar relaxar! Uma última pergunta. — Eu suspirei e revirei os olhos. — Que roupa eu devo usar?
— Isabelle, você vai usá-la apenas para chegar a praia! Por acaso você lembra que para fazer a transformação precisa estar nua? — Ela ficou em silêncio. — Sim, respondendo a sua pergunta, todos estaremos nus. Inclusive você! Então, se você for de pijamas não vai fazer diferença.
— É sério que fica todo mundo pelado?
— Você se acostuma depois da primeira década. — Murmurei em resposta. Era mentira, daqui há poucos meses ela já estaria saltitando feliz e contente e nua pela praia.
— Década?! Clary…
— Foi uma piada, Isabelle! Agora trate de relaxar! Eu te vejo mais tarde! — Encerrei a ligação sem dar oportunidade para que ela falasse mais alguma coisa.
Voltei a colocar o meu celular no bolso da minha jardineira. Voltei a focar no desenho que estava pintando, e parei alguns segundos para observá-lo. Eu havia sonhado com aquela imagem há algumas noites, em um sonho particularmente peculiar. Eu não costumava ter sonhos… tão relacionados a Sereias. Quero dizer, eu era uma Sereia, mas não era algo com o qual eu costumava sonhar sempre.
Eu não lembrava muito do sonho, mas lembrava de estar no meio de uma tempestade, e então alguém me estendia a mão, lembro de sentir um corpo perto do meu, lembro do calor e da sensação do toque, e então eu emergia da água. Mas não lembrava com quem eu estava, ou o lugar. Mas lembrava da calda que havia visto e sabia que aquela era a minha calda real, embora não lembrasse totalmente dela.
No meu desenho atual, eu estava com a cabeça curvada para trás, parte do meu rosto estava fora d’água, e os meus cabelos estavam espalhados pela água, e uma parte da minha calda aparecia. Mas eu não lembrava a cor dela. Lembrava que era clara, mas não conseguia lembrar a tonalidade exata.
— Clary. — Ouvi a voz da minha mãe ao longe. Ela abriu a porta e observou o desenho. — Interessante. — Abri um meio sorriso. — Venha almoçar, querida.
— Já vou. — Ela sorriu e voltou a fechar a porta.
Deixei o meu avental pendurado no gancho ao lado da porta de correr. Caminhei preguiçosamente até a mesa em que o almoço já estava disposto. Minha mãe estava terminando de colocar uma jarra de suco sobre a mesa quando eu me sentei no meu lugar de costume. O Sebastian estava sentado a minha frente e lia um livro atenciosamente, e a Maryse estava sentada ao seu lado, e estava vendo algo no celular.
— Vocês vão comer ou estão ocupados demais? — Minha mãe perguntou ao se sentar. Automaticamente o meu irmão fechou o livro que lia, e a Maryse guardou o telefone. — Bem melhor.
— Qual gororoba temos no cardápio de hoje? — Perguntei à Maryse e a mesma abriu um sorriso sem mostrar os dentes ao me entregar uma vasilha. Ao abrir tinha algum tipo de pasta esverdeada dentro, não contive uma careta ao pegar o garfo e mexer naquilo, o gosto parecia terrível. — Ainda não vou querer saber?
— Não. — Respondeu enquanto se servia da salada que a minha mãe havia feito. Felizmente, durante aquele tempo que eu estava impossibilitada de comer qualquer coisa normal, a minha mãe não fazia nenhum tipo de comida que eu gostasse muito, como por exemplo, salmão. — Isabelle está ansiosa?
— É uma das definições. — Dei de ombros ao comer uma garfada da gororoba. Era menos pior do que as anteriores. — Ela vai surtar até a noite. — Minha mãe soltou uma risada nasal. — Mas eu não estou me preocupando com ela, na verdade é Alec quem me preocupa.
— Por quê? — A Maryse perguntou.
— Por causa do meu pai. — Dei de ombros enquanto dava outra garfada. — Sabemos como Valentim Morgenstern é com Tritões homossexuais. — Maryse parou o que estava fazendo. Ao observar a sua expressão eu soltei o meu garfo e desejei poder ter retirado o que havia dito. — Você não sabia. — Murmurei me sentindo culpada.
— Ah… não. — Ela apoiou os cotovelos sobre a mesa e cruzou as mãos sob o queixo. — Isso pode causar uma situação ruim à noite. — Balancei a cabeça em afirmação. — Você sabe… — Ela engoliu em seco. — Você sabe se ele… se ele já se apaixonou? — Bebi um gole de água.
— Acho que não é algo que eu deva contar, Maryse. E não sei se ele vai lhe contar.
— Clary, por favor. — Respirei fundo.
— Sim, ele já se apaixonou. Um amigo de família pelo que eu sei. Hodge os apresentou. — Maryse estreitou os olhos.
— Hodge?
— Sim, você não o imbuiu de cuidar dos seus filhos? — Ela assentiu e bebericou o copo com suco. — Pelo que sei Alec e Magnus estão… — Parei de falar ao vê-la arregalar os olhos e quase engasgar com o líquido. — Maryse, você está…
— Magnus Bane?! — Ela perguntou alterada.
— Você o conhece? — Me vi perguntando. Ela não respondeu, apenas se levantou e começou a se dirigir para o corredor. — Maryse… — Comecei ao me levantar.
— Deixe-a. — Minha mãe pediu colocando uma mão sobre a minha. — Apenas deixe-a.
(…)
O Cardume estava completo. Por conta da apresentação da Izzy e do Alec, todos vieram conhecer os filhos da Maryse. Essa que havia sido indiciada por seus crimes, entre eles o abandono de seus filhos; e até o presente momento, estava aguardando o julgamento e participando dos eventos com o Cardume, embora algumas Sereias e alguns Tritões, principalmente os Tritões, não estivessem lidando com isso muito bem.
Avistei o carro do Jace parar e comecei a me dirigir até eles, pois sabia que Isabelle estaria mais do que ansiosa, então, acalmá-la seria uma boa opção. Ao me aproximar percebi que ela e o Herondale já haviam saltado do carro, mas continuavam parados perto do carro, aparentemente conversando. E mesmo que pudesse ser indelicado da minha parte, eu resolvi me aproximar.
— Tudo bem, aqui vai a minha teoria. — Ouvi a voz do Jace ao me aproximar do carro. — Você estava neurótica à procura de uma roupa que parecesse perfeita hoje a tarde, quando na verdade o que está te preocupando é o fato da Maryse estar presente. Não apenas ela como o seu pai também. — Parei no lugar em que eu estava. Eu não havia pensado naquilo. Robert estaria presente, e ele não conhecia os filhos, afinal, ele os havia rejeitado. — Você já conhece a Maryse, mas… Você não tem ideia de quem seja o seu pai. Não sabe qual a aparência dele, ou como é a personalidade dele, nem como ele vai reagir ao vê-la. — Eu queria ir até a Izzy e abraçá-la, mas sentia que aquele era um momento entre irmão que eu não poderia atrapalhar. — Estou certo?
— Eu estou com medo porque sei que ele não me queria. — Vi as mãos da Isabelle se fecharem em punhos. — Não é como se eu esperasse que ele mudasse a opinião, mas… Não sei se estou preparada para uma rejeição. — Ela suspirou e apoiou-se no carro. — E se ele não gostar da gente? Quero dizer… Vamos ser parte do mesmo Cardume, Jace. E… Eu não sei como isso funciona, mas… É estranho!
— Não consigo imaginar como você deve estar se sentindo. — O loiro aproximou-se dela e acariciou o rosto da irmã. — Passou a sua vida inteira achando que eles estavam mortos, e agora… Eu não teria estruturas para isso, Isabelle. E fico orgulhoso com a forma que você está lidando com isso. — Ela abriu um meio sorriso. — E se ele não gostar de você, Izzy. Ele com certeza será o maior idiota do mundo, pois é impossível não gostar de você Isabelle Lightwood. — Assisti emocionado quando a Izzy enlaçou o pescoço do Jace e o puxou para um abraço.
— Obrigada. — Abri um pequeno sorriso com a cena. — Eu gosto mais de você assim, quando não está sendo um idiota.
— Okay, vamos mudar de assunto. — Eles riram e se afastaram. Os olhos da Izzy encontraram os meus e eu acenei pedindo para que ela não percebesse que eu havia ouvido parte da conversa.
— Hey! — Me aproximei deles. — Pronta? — Ela balançou a cabeça em afirmação. — Venha conhecer o Cardume. — Acenei para a praia e a minha amiga arregalou os olhos.
— Clary, quantas pessoas têm ali?
— 217. — Ela arregalou os olhos. — Vamos, Lightwood. — A puxei em direção a areia, e a mesma quase caiu pois tropeçou na areia e no próprio vestido, pois esse era longo.
Apresentei a Izzy para algumas pessoas que eu conhecia melhor e que eu sabia que não torceriam o nariz ao vê-la. Isabelle conseguiu ganhar o coração das pessoas com facilidade, pelo menos da maioria; e estava sendo simpática o tempo inteiro.
Estávamos conversando com o Will, a Tessa e o Jem, que a Isabelle lembrou que estudaram conosco no início do semestre, e eles engataram em uma longa conversa sobre a minha pessoa, principalmente momentos constrangedores. Eu não me importei, afinal, o sorriso no rosto da Izzy valia aqueles momentos constrangedores.
Em determinado momento eu dei falta de uma certa pessoa que deveria estar junto a nós. Procurei-o com olhos por alguns segundos, até encontrá-lo um pouco afastado do grupo com as mãos nos bolsos encarando a cena de longe. Nossos olhares se encontraram e eu soube que ambos estávamos lembrando do momento que havíamos tido na casa dos pais dele. Não havia ocorrido nada demais, apenas uma conversa e risadas, talvez algumas lágrimas da minha parte, mas nós tivemos um momento.
Naquela sala empoeirada nós fomos sinceros e verdadeiros com o outro. Fomos nós mesmos sem medo de repreensão e rimos das coisas mais bobas possíveis, e agimos como pessoas normais. Sem toda essa tensão que existia entre nós quando estávamos em público. E eu havia amado aquele momento.
— Opa! — Quebrei o contato visual e olhei para a Isabelle. Um garotinho esbarrou na Isabelle e quase a derrubou.
— Desculpa moça. — Ele disse e ofereceu um sorriso para a morena ao meu lado. Eu achei que a Isabelle derreteria naquele momento. — Oi, eu sou o Max! — Ele estendeu a mão para a Izzy após consertar os óculos. Ela riu e aceitou a mão que o rapazinho oferecia.
— Olá, Max, meu nome é Isabelle. — O sorriso do menino morreu e em questão de segundos ele saiu correndo na direção que havia vindo. — Mas… — Ela se virou para mim. — Você o conhece? — Desviei o olha rapidamente para os meus amigos e eles me lançaram um sorriso triste, ofereci o mesmo sorriso para a Izzy e balancei a cabeça em afirmação. — Quem ele era? — Ela perguntou.
— Quem era quem? — Olhamos para o homem que surgiu ao nosso lado. Alec tinha o rosto um pouco corado, como se tivesse corrido para chegar até ali. — Desculpa o atraso. Eu… Eu precisei resolver um assunto. — Ele me lançou um olhar que me fez corar. Maryse, com certeza, havia ido até o Magnus. — Mas é uma história para outro momento. Você está bem?
Isabelle não teve tempo de responder, pois fomos cortado pela chegada do Ciclo. Emergindo como se fossem as pessoas mais importantes dos dois mundos, tanto do submundo quanto o mundo mundano. E liderando-os estava o meu pai. Valetim Morgenstern em toda sua glória de líder do Ciclo, o grupo de Tritões mais temidos pelos sobrenaturais. Eles ficaram parados dentro d’água submersos da cintura para baixo, nos encarando como se fossemos menos que eles. Eu os odiava.
— Onde está a sua mãe, Clarissa? — O encarei. Exatamente como eu me lembrava, os cabelos platinados que lembravam os do meu irmão, assim como os olhos que eram tão parecidos. Mas a semelhança acabava por aí, enquanto o meu irmão era a pessoa mais próxima de mim no mundo inteiro e alguém que eu não poderia imaginar viver sem; o meu pai era uma pessoa que eu ficava feliz em quase nunca ver.
— Eu estou aqui, Valentim. — Minha mãe surgiu entre a multidão e lançou um olhar de desprezo para o grupo. Se havia uma coisa que eu e a minha mãe concordávamos, era no desprezo sobre aquele grupo.
— Não temos a noite inteira. Onde estão essas crianças? — Olhei para Isabelle e percebi que Alec havia colocado a mão sobre o seu ombro, tanto como forma de apoio quanto de proteção.
— Olá, pai. É sempre um prazer revê-lo. — Sebastian se manifestou, ele havia chego atrasado também, porque até então eu não havia o visto.
— O que eu perdi? — Olhamos para trás e vimos o Simon ofegante ao nosso lado. Ele olhou em volta e viu que todos o encaravam, como se ele fosse uma peça de carne jogado aos lobos, eu e o Sebastian paramos na frente dele e encaramos os Tritões do Ciclo. Pois bem, nem todos os Tritões lidavam muito bem com a nova dieta com carne humana uma vez por ano, alguns caçavam por conta própria. E os do Ciclo eram esse tipo de Tritão. — Gente…? — Isabelle deu um passo para trás e esticou a mão procurando pela mão do Simon, ele uniu as mãos deles em questão de segundos.
— Seus filhos trouxeram um aperitivo, Robert. — Meu pai disse sorrindo e o Tritão ao seu lado finalmente olhou para os filhos. Tanto Isabelle quanto Alec tornaram-se pálidos ao meu lado, mudos e mal pareciam respirar. Já Robert, não havia mudado em nada as feições.
Se Isabelle era a cópia fiel da mãe, Alec era do pai, embora fosse bem mais pálido que Robert. Isabelle poderia ter herdado os longos cabelos de Maryse, mas Alec havia herdado os cabelos negros de ambas as partes e os olhos azuis de Robert. Eu não precisava conhecer muito nenhum dos dois para saber, que assim como mãe e filha, as semelhanças entre pai e filho terminavam ali.
Alec jamais seria uma pessoa tão fria quanto Robert. E jamais faria algo tão absurdo quanto o Ciclo. Mesmo se ele quisesse, Isabelle não permitiria que ele fosse tão longe. Ela daria alguns tapas nele se fosse preciso.
— Vamos criança, não seja tímida. Jogue-o na água, cace-o e nós o comemos. — Meu pai continuou e sorriu.
— O que?! — Isabelle pareceu ter acordado de um transe e se colocou na frente do Simon. — Ninguém vai encostar nele. — Olhei em volta à procura do Jace. Ele estava parado ao lado do Alec, e haviam Sereias olhando para ele, provavelmente haviam sentido cheiro do sangue humano dele. Mas ele estava perto de nós. Ambos os humanos estavam seguros.
— Você não é parte desse Cardume, é uma intrusa e não conhece as regras. — Alguém rebateu, mas eu não reconheci pela voz.
— Se as regras dizem que o meu namorado vai ser o jantar de vocês, eu fico feliz em não fazer parte desse Cardume. — A Izzy cuspiu. Eu respirei fundo e apoiei a minha mão no ombro livre dela.
— Pai, não viemos aqui para discutir. E não estamos em período de caça, e o senhor deveria saber disso. — Eu disse, parecendo mais calma do que eu realmente me sentia.
— Clary está certa, Valentim. — Minha mãe voltou a falar. — Nós viemos para nadar, e fazer a iniciação de dois novos membros, se você e os seus vieram para causar problemas, eu sugiro que nadem para bem longe daqui. Essas crianças já passaram por coisas demais, e não será você que vai estragar a noite eles. — Meu pai a fuzilou com os olhos. Veja bem, existem casais que terminam e tem um bom relacionamento, outros que nunca mais se veem e outros que vivem em pé de guerra, e existe os meus pais.
Quando a minha mãe percebeu que o meu pai era um louco que queria comandar os sete mares, ela se separou. Ela não o amava o suficiente para ficar ao lado dele e assistir calada enquanto o poderoso Valentim Morgenstern transformava a vida pacífica que tínhamos no Mar em uma governo Fascista. Ela se separou e continuou a vida normalmente, afinal, ela nunca precisou dele para ser uma Sereia respeitada. Até porque, ninguém havia comandado um Cardume por tanto tempo quanto Jocelyn Fairchild, eram 900 anos de liderança.
A paz entre eles durou cerca de uma década. A única guerra já vista entre Sereias e Tritões foi motivada pela loucura do meu pai. Algumas Sereias se aliaram aos Tritões, e alguns Tritões aliaram-se as Sereias. Foi um banho de sangue. Embora o meu pai tenha aceitado a derrota, todos sabem que ele guarda ressentimento da minha mãe por tê-lo derrotado, e como uma boa Sereia que é, ela deixou uma cicatriz no peito do meu pai, sua espada atravessou o peito dele. Embora ele pudesse ter se curado no Mar, ele optou por deixar a cicatriz, minha mãe disse que servia para ele se lembrar que ele só estava vivo porque ela permitiu.
Até o presente dia, eles não tinham a melhor relação do mundo. Na maioria das vezes eles não passavam das provocações. Mas eu e o Sebastian já havíamos precisado separar algumas brigas dos dois.
— Vamos para o Mar. — Minha mãe declarou sem desviar o olhar do meu pai. — E vamos fazer uma iniciação tranquila. — Aos poucos as pessoas começaram a se afastar e despirem-se. Desviei os meus olhos para o Sebastian e o mesmo assentiu.
— Vamos, Izzy. — Murmurei. Mas a Izzy parecia estar fervendo de raiva. — Tente ficar calma, okay? Vamos ficar bem. Meu pai é assim mesmo; não se preocupe com ele. — Ela assentiu, mas ainda não havia desviado os olhos do Robert, que também mantinha os olhos nela.
— Tudo bem. — Ela murmurou e se virou para mim. — Eu já o odeio. — Murmurou.
— Hey, Iz… — Ela olhou para o Simon. — Não ligue para ele, okay? Vai lá, vire um Sereia e quando vocês terminarem de dar a volta ao mundo, eu vou estar sentado aqui esperando por você. — Ela o observou por alguns segundos antes de balançar a cabeça em afirmação com um suspiro.
— Vocês trouxeram um feiticeiro para a iniciação? — Nós olhamos para o Robert. E o mesmo encarava alguém que estava atrás de nós.
Parado há pucos metros de nós, junto ao Jace, estava Magnus Bane. Eu não havia percebido que ele estava na praia, mas deveria saber que para a presença dele seria importante para o Alec. Então, era lógico que ele estivesse presente durante a iniciação do Lightwood mais velho. Mas… Feiticeiro?
Com a maior calma do mundo, o homem virou-se para os demais e abriu um sorriso enquanto ajeitava o blazer, que de longe me parecia roxo. Magnus abriu um sorriso e voltou o seu olhar para o Robert. Bom, por conta do Clico, Sereias e Tritões não eram bem recebidos pelos demais seres do submundo. Todos eles achavam que nós éramos malucos que seguiam as leis ao pé da letra. O que não era verdade. Mas aparentemente, Magnus era um dos poucos que não se importava com aquilo. Me perguntei como não havia descoberto que ele era um Feiticeiro quando o vi pela primeira vez.
— Olá, Robert. — Ele saldou sorridente e começou a se aproximar. — Que magia andou fazendo para lhe render esses fios brancos? — Provocou ao parar ao nosso lado. — É sempre bom revê-lo.— O Tritão rosnou.
— O que está fazendo aqui? — Perguntou com a voz calma demais. Magnus trocou um olhar rápido com Alec e voltou a olhar para o Tritão na água. Mas antes que o Feiticeiro pudesse responder alguém o fez:
— Ele veio comigo. — Olhei surpresa para o Alec e sorri quando o mesmo parou ao lado do Magnus e uniu suas mãos. — Algum problema? — Os olhos de Robert se estreitaram e uma expressão sombria tomou o seu rosto.
— Nós precisamos de Tritões, Tritões de verdade. Não Tritões como você. — Alec abriu um pequeno sorriso, o que surpreendeu a todos.
— Ótimo! Boa sorte tentando achar Tritões assim, mas dessa vez seja responsável e não o abandone. — Se ele parecia afetado com algo que o pai havia dito, não demonstrava, pois eu nunca havia visto sua voz tão firme quanto naquele momento. — Eu passei os últimos dezoito anos sem nenhum de vocês, e acredite em mim, não me fez falta alguma. Tenho certeza que posso passar os próximos anos sem vocês também. — Ele deu de ombros me fazendo sorrir. — Você não tem direito de falar comigo, com a minha irmã ou com o meu namorado assim.
— Robert, deixe o menino em paz! — Marise interveio. — Você não acha que já fez o bastante na vida deles?
— Não fui eu quem os abandonou. — Rebateu. Deu para ver que Maryse ficou afetada com aquilo, mesmo que tentasse não demonstrar.
— Eu sei dos meus crimes, Robert, e vou enfrentar as consequências deles. Mas não ache que eu vou me manter calada quanto a sua parte neles. — O homem rosnou. — Você é tão culpado quanto eu! E eu não vou permitir que fale assim com os meus filhos! Eu ainda sou líder desse Cardume, você queria ou não, obedeça ou saia!
— Não será por muito tempo.
— CHEGA! — Todos desviaram o olhar para a Isabelle.
Ela não parecia perceber, mas ela havia descoberto o Dom. Dons assim eram raros, eram poucas as Sereias que conseguiam controlar algum elemento ou criar alguma coisa. A maioria dos Dons acabam sendo uma forma de influenciar o outro. Tanto que as Sereias que possuíam algum Dom diferente estavam em extinção. Existiam apenas mais três no mundo, até Isabelle Lightwood aparecer.
Os sentimentos da Izzy deveriam estar tão confusos dentro dela, brigando para de alguma forma serem postos para fora, que acabaram por ser o impulso que ela precisava para descobrir o Dom. Da ponta dos dedos dela, pequenas correntes elétricas dançavam como e esperassem para serem libertas. Iluminando a noite escura, e trazendo toda a atenção para ela.
Enquanto os presentes estavam encarando suas mãos encantados, a própria Isabelle não parecia perceber o que estava acontecendo.
— Vocês dois nos abandonaram. Assumam isso! — Ela continuou. — E nenhum dos dois tem direito de agir como se fossem nossos pais, porque vocês não são! Não precisamos da aprovação de vocês. Não podem querer nos dizer o que fazer ou não fazer, quando passaram dezoito anos nos fazendo acreditar que estavam mortos! Meu namorado é um nerd humano e Alec namora um Feiticeiro, e se, qualquer um de vocês, têm algum problema com isso, é melhor guardar para si mesmo! Ninguém, nunca mais, vai me dizer quem eu devo ou não amar, e nem fazer o mesmo com o meu irmão. — Ela respirou fundo. E finalmente pareceu notar o que estava acontecendo.
Isabelle arregalou os olhos e ergueu as próprias mãos abismada. As correntes elétricas estavam dançando pelos seus dedos de acordo com os movimentos que ela fazia. E em determinado momento ela riu, na verdade gargalhou, como se aquele movimento fizesse cócegas nela. E então, desapareceu. O sorriso da Izzy morreu e ela encarou as mãos confusa.
— Elas voltarão a aparecer, não se preocupe. — A Maryse garantiu com a voz embargada. E então voltou-se para o Robert. — Nós vamos nadar, e essas crianças passarão pela iniciação, Robert Lightwood! Lembre-se que eles são seus filhos além de tudo. — Robert abriu um sorriso maldoso.
— Eu tenho um único filho, Maryse. — Eu engoli em seco e lancei um olhar para o pequeno Max que, até então, estava escondido nas pernas da Tessa. — E ele não vai ficar perto deles.
— Mas ela parece ser legal. — O pequeno protestou atraindo a atenção de todos, o que o fez se encolher ainda mais. Consegui notar, mesmo de longe, as suas bochechas coradas.
— Max, querido, venha aqui, por favor. — Maryse pediu se ajoelhando na areia. Levou alguns segundos para o mais novo de todos nós chegar até a mãe. — Você já conheceu a Isabelle? — Ele lançou um olhar rápido e tímido para a Izzy, antes de assentir com a cabeça, a própria Izzy tinha os olhos marejados e era amparada tanto pelo namorado quanto pelo irmão mais velho. — E o Alec? — Dessa vez ele balançou a cabeça em negação rapidamente.
— Por que o papai estava brigando com ele? — Perguntou em um tom baixo, mas como estávamos todos em silêncio, era fácil ouvir a vozinha dele. — Só porque ele é amigo de um feiticeiro? Eu sou amigo de um vampiro, e o papai não briga comigo. — Encarei o Robert por alguns segundos. — Feiticeiros não são ruins, eles são legais. — Maryse sorriu e limpou uma lágrima que escorreu em seu rosto e beijou a cabeça do filho.
— Querido, o que você acha de ajudar os seus irmãos na iniciação? — O pequeno sorriu, mas então desviou os olhos para o pai por alguns segundos.
— O papai não vai brigar?
— O seu pai pode dar as ordens no clube dele, meu amor, mas no meu Cardume mando eu. — Ela sorriu e olhou para os filhos mais velhos, que até então estavam estáticos. — Vai lá. — O pequeno sorriu e caminhou até os irmãos, ao parar na frente do Alec ele o observou por alguns segundos, o que nos pareceram horas. Até que sorriu e esticou a mão.
— Oi, eu sou o Max. — Alec levou alguns segundos para aceitar a mão que o pequeno oferecia. — Minha mãe disse que você é meu irmão. Você é um irmão legal ou um irmão chato? — Todos explodiram em risadas. Isabelle aproximou-se do pequeno e ajoelhou-se ao seu lado.
— Ele é o irmão mais chato do mundo. — Alec a encarou incrédulo. — Eu sou muito mais legal. — O Lightwood caçula sorriu.
…
Quando saí da água já era manhã. Havíamos passado a noite inteira na água, e ainda tínhamos aula naquela manhã. E quanto a mim, não era importante, mas Alec e Izzy ainda tinham dezoito anos, eles ainda precisavam se formar. Caminhei com cuidado até o local onde havia deixado as minhas roupas e comecei a me vestir, quando terminei de passar o vestido pela minha cabeça, eu me assustei com um toque no ombro.
— Jace! — Ele abriu um sorriso sem graça.
— Desculpa, não quis te assustar. — Balanço a minha cabeça em afirmação e enquanto trançava os cabelos. — Eu queria conversar.
— Agora? Preciso ir em casa antes de ir para a escola, podemos conversar…
— É rápido, eu juro. — Parei o que estava fazendo e o encarei. — Só acho que… Com tudo isso que está acontecendo, principalmente pela sua proximidade com os meus irmãos… Acho que… Talvez… — Ele coçou a nuca. — Pensei que talvez nós pudéssemos tentar ser amigos. — Arregalei os meus olhos. — Quero dizer, pelo menos ter uma boa convivência sem brigas ou… coisas estranhas. — Eu acabei rindo. — O que me diz?— Que mal poderia fazer?
— Por que não? — Ele sorriu.
...
Assim que sentei-me na cadeira senti o meu corpo agradecer por tal, afinal, as minhas costas doíam, as minhas coxas estavam latejando, o meu pescoço estava dolorido, pelo menos essas eram as partes que mais doíam, porque o meu corpo todo doía. Havíamos passado a noite inteira na água, e havíamos ensinado algumas coisas para Izzy e Alec, e depois agido com crianças, empurrando um ao outro dentro d’água, o que me rendeu algumas partes do corpo bastante doloridas.
Enquanto colocava o meu material sobre a mesa, sentia que realizava aqueles movimento forçadamente, pois na verdade, tudo o que eu queria era voltar para o Mar. Eu teria uma prova de cálculo no dia seguinte, e embora eu soubesse a matéria, sempre era bom revisar; mesmo que lá fundo eu soubesse que não precisava.
Depois de alguns minutos estudando, a biblioteca começou a ficar vazia, pois já estava próximo do horário de fechar, e o senhor responsável pelo lugar não costumava ser muito paciente quando pedia para retirar as pessoas do recinto.
Ao erguer a minha cabeça para massagear o músculo cansando do pescoço, avistei uma cabeleira loira há algumas mesas à minha frente. Particularmente, me parecia que ele estava a ponto de brigar com o próprio caderno, e eu suspeitava ter visto fumaça pairando sobre sua cabeça. Contrariando todos os meus instintos eu juntei o meu material e caminhei até a sua mesa em silêncio.
Ao me aproximar, notei que, assim como eu, ele também usava fones de ouvido para estudar. Puxei um lado de seu fone antes me sentar ao seu lado, chamando a sua atenção. Abri um sorriso amigável ao ver sua expressão de cansaço, mas logo ele me ofereceu um sorriso.
— Você está bem? — Ele desviou o olhar para o livro e começou a nuca antes de balançar a cabeça em afirmação. — Consigo ver a fumaça saindo da sua cabeça. — Comentei enquanto me ajeitava na cadeira e colocava a minha mochila sobre as minhas pernas. O Jace se manteve em silêncio, então eu mesma olhei rapidamente para o livro que ele lia. — Cálculo? — Perguntei voltando a olhá-lo.
— Infelizmente. — O Jace respondeu enquanto fazia uma careta. — Preciso estudar para a prova de amanhã.
— Oh! Se eu estou te atrapalhando… — Comecei enquanto levantava da cadeira, mas parei assim que senti a sua mão sobre o meu pulso.
— Não, é só que… — Ele balançou a cabeça em negação, fazendo alguns fios claros caírem sobre o seu rosto, ele sequer pareceu ligar; minhas mãos coçaram em vontade colocá-los para trás. — Fui muito mal no primeiro teste, e se eu me ferrar novamente agora, vou bombar no bimestre, o que significa vai acabar me deixando no banco até que a minha média volte a subir.
— Oh… Ah… — Clarissa, não faz isso consigo mesma. Isso não vai te ajudar em nada, sequer vai te fazer bem. — Eu… — Respirei fundo e decidi ir contra todos os meus instintos. — Se você quiser, eu posso te ajudar. — Ele me encarou surpreso. — É só cálculo, Jace. — Dei de ombros.
— Se fosse “só cálculo”, eu não estaria nessa situação. — Acabei rindo enquanto colocava a minha mochila sobre a mesa.
— Ninguém é perfeito em tudo. — Só percebi que tinha dito aquilo em voz alta depois de vários segundos de silêncio. Automaticamente senti as minhas bochechas esquentarem ao olhá-lo. — Eu não quis dizer que… Não que… Quero dizer… — Ele riu da minha confusão.
— Tudo bem, Clary. — Voltei-me para a minha mochila à procura do meu caderno e de um lápis.
— Sobre o que você tem dúvida? — Ele riu e se acomodou melhor na cadeira.
— É mais fácil você perguntar se tem algo que eu não tenha dúvida. — O encarei. O Jace abriu um sorriso sem graça diante do meu olhar, a única coisa que eu consegui pensar foi que teríamos uma tarde bastante longa. Acabei rindo da situação enquanto abria o meu caderno. — Obrigado. — Olhei em seus olhos. Aqueles olhos dourados pelos quais eu me apaixonei já não existiam mais, apenas um pequeno pedaço; o que hoje os humanos chamavam de heterocromia; mas eu já havia viso aqueles olhos dourados, e eram lindos.
— Nós somos amigos agora, certo? — Perguntei em um tom mais baixo. — E amigos ajudam o outro a não ficar preso na matéria. — Completei rapidamente.
— Sim. Somos amigos agora. — Ele respondeu abrindo um sorriso sincero e ajeitou-se na cadeira.
Fale com o autor