Lightning Hunter
26 Batalha de Titãs
Notas iniciais
O vento estava forte e frio a 240 metros de altura, talvez não estivesse tão frio se não fossem pelas minhas roupas rasgadas. A vista do lugar seria linda se a cidade não estivesse parcialmente destruída, não havia luzes acessas nas ruas e todo o local estaria um breu se não houvesse uma lua cheia no céu ou se a cidade não estivesse em chamas. Tirando isso tudo, seria um ótimo lugar para se ver o por do sol ou o nascer do sol para os mais românticos.
Gaby deixou a sua mão cair do meu ombro, olhou em volta e notei que sua boca tremia, dei um suspiro exausto. É, a coisa não estava bonita, para nenhum de nós, principalmente para mim. A bomba estava a caminho e ainda não havia conseguido uma brecha para usar as injeções.
Algo pingou no meu rosto, toquei onde havia pingado e olhei para cima, nuvens começavam a se formar ao redor da torre.
─ Gaby ─ Falei e ela olhou para mim imediatamente, seus olhos exibiam cansaço e medo, suas roupas estavam rasgadas, havia alguns curativos aqui e lá, provavelmente a equipe de Dana a ajudou, mas ela não parecia tão bem assim. ─ Sabe me dizer quanto tempo meus ferimentos demoraram a se curar quando me tiraram da viga?
─ Hummm ─ Coçou o queixo de forma pensativa e balançou uma das mãos ─ Por volta de uns 2 minutos e meio pra ficar completamente curada.
─ 2 minutos e meio? ─ Coloquei a mão no meu ombro preocupada. Aquilo não era bom.
─ Pela sua cara isso não é bom.
─ Não mesmo, meu corpo já está no limite e não estou nem perto de derrubar Artos ─ Toquei minha testa e senti um pouco de sangue ali. Olhei para as nuvens que se juntavam rapidamente e que já estavam ficando escuras. ─ Mas ele também não está 100%.
─ Você acha que consegue? ─ Escutei sua voz preocupada. Bem, quem não estaria? Eu era a mais forte dali, se eu não conseguisse...
─ Tenho que conseguir ─ Respondi tirando a luva rasgada da minha mão, olhei para os meus dedos sujos e esfreguei a mão na perna calça, apenas para notar que não a tinha mais, tirei a bota e a coloquei no chão, ou melhor, nas barras de ferro que formavam o chão. ─ Fiquem prontos, quando notarem que estou próxima se protejam, talvez eu não seja capaz de controlar meus poderes.
─ Certo ─ Disse ela e deu um tapinha no meu ombro ─ Boa sorte.
Dei um aceno com a cabeça e ela desapareceu, me deixando sozinha na torre. Observei as nuvens ficando mais pesadas, escutei sons de batalha não muito longe e vi uma nuvem de fumaça subir por entre os prédios, era uma fumaça branca resultante do encontro de fogo e gelo. Provavelmente era Ice comprando tempo.
As nuvens cobriram a lua deixando a cidade mais escura, gotas de chuva começaram a cair e logo em seguida o mundo veio a baixo com a chuva grossa. Meus cabelos colaram nas minhas costas, o resto da minha calça e do top ficaram encharcados. Um brilho iluminou o céu e escutei o barulho do trovão em seguida.
O ar estava ficando pesado cada vez mais e olhei outro raio percorrer o céu não muito longe da minha posição. Precisava de mais tempo para captar o raio perfeito. Afastei os meus pés e respirei lentamente.
Contei as batidas rápidas do meu coração até conseguir achar foco total, escutei o barulho da chuva caindo no asfalto metros abaixo de mim, o som de poderes se encontrando, o de batalha, escutei a voz Beatrice gritando para alguém se abaixar, escutei o som de um helicóptero. Meus ouvidos ruíram com o estrondo do ultimo trovão e respirei novamente me mantendo calma. Deixei meu corpo ficar leve e pensei na minha fogueira imaginaria, as chamas azuis estavam fracas, quase se apagando. O que mostrava o quão fraca e cansada eu estava.
Para derrotar Artos eu precisaria de carga total, ser atingida por um raio faria minha energia voltar, e seria basicamente como álcool jogado no fogo, minhas chamas cresceriam me dando uma energia maior, mas como o efeito do álcool diminui com o tempo, o mesmo aconteceria com meus poderes. Ou seja, estava lutando contra o tempo.
Respirei novamente e juntei todas as minhas forças, as chamas azuis cresceram e senti os meus cabelos se arrepiarem. Olhei para o céu e agua escorreu pelo meu rosto, havia uma enorme nuvem ao redor da torre, o vento estava mais frio e bem mais forte do que segundos atrás. Engoli em seco e levantei a mão direita.
─Um...Dois...Três.
Estalei o dedo e lancei eletricidade para cima, em direção a nuvem. Contei até 4 na minha cabeça, meus cabelos se arrepiaram bruscamente e o ar ficou difícil de respirar. Eu sabia o que aquilo significava, abri os braços e levantei a cabeça.
Um relâmpago cortou o céu e me atingiu. Todo o meu corpo formigou, minha pele ficou quente e senti um energia enorme me envolver, nunca tinha sentido nada como aquilo. Imaginei a fogueira e ela estava gigantesca. As chamas azuis estavam agitadas e balançando de um lado para o outro, pronta para queimar quem se aproximasse. Coloquei minhas mãos na barra de ferro e pulei da torre, um vento forte me envolveu e esperei a gravidade fazer o trabalho dela.
A próxima coisa que sinto são meus pés tocando o chão, meus joelhos se curvando levemente com o impacto e um estrondo vindo do asfalto ao meu redor. Abri os olhos e olhei em volta para ver o que tinha sido aquele som. E dei um sorriso de canto satisfeito ao ver que todo o asfalto estava rachado e destruído.
Respirei fundo e não tive dificuldades em localizar a posição de Artos com a super audição. Escutei os seus passos pesados no asfalto, corações batendo aceleradamente e coisas sendo destruídas. Estavam a duas quadras de distancia da minha atual localização.
— Agora é minha vez
Separei meus pés descalços e dei um longo suspiro. Imaginei a fogueira queimando mais e mais alto, imaginei o mundo em chamas, imaginei minha mão destroçando o coração de Artos. E mais rápido do que um raio cortando o céu, senti a temperatura do meu corpo subir, os cabelos do meu corpo ficaram arrepiados, todo o cansaço que eu sentia desapareceu. Estava nova em folha. Por enquanto.
E essa nova Lightning Hunter estava sedenta por sangue.
Chega de mais baixas. Chega desse bastardo pensar que pode vir a minha cidade e fazer o que quiser. Ele iria pagar por machucar Rei. Carlos iria pagar pelo o que ele fez com meu pai. Ira matar cada um deles que tramaram contra mim com minhas próprias mãos.
Uma aura azul envolveu meu corpo. Comecei a andar em direção a localização deles e o chão ao meu redor se rachou e as coisas de metal se agitaram. Estava perdendo o controle dos meus poderes, mas eu estava contando com isso.
Olhei para as nuvens carregadas e para a chuva que me envolvia, mas que por algum motivo não me alcançava. Fechei os punhos e comecei a andar mais rápido e menos de 1 segundo estava correndo. Passei por entre os prédios destruídos e atravessei a primeira quadra em um borrão. O tempo parecia ter parado e os sons diminuíram de velocidade, mas consegui localizar Artos, e iria pega- lo de jeito.
Me movi rapidamente, mais rápido que um relâmpago cortando o céu, podia sentir o calor quando meus pés tocavam o chão, provavelmente estava deixando uma trilha de fogo enquanto corria. Mas a chuva daria conta de apagar.
Escutei corações batendo em câmera lenta e notei que eles estavam do outro lado da rua, atrás de uma loja de sapatos já meio destruída. Como se alguém tivesse apertado o play, o mundo voltou a velocidade normal e os corações bateram em ritmo acelerado, quase desesperadamente.
Movi a cabeça de lado para escutar melhor e comecei a identificar quem era quem. Ice e Jake estavam parados um ao lado do outro, Beatrice estava na frente dos dois montando uma barreira entre eles e o fogo de Artos. Gaby estava agachada no chão, com uma mão na cintura de Mika, que estava sangrando pela cabeça. Richie estava inconsciente no chão. Não vi sinal de Dana, nem de Rei, mas escutei o som das helices do helicóptero.
Olhei para Artos atacando o grupo e dei um longo respiro, afastei meus pés, canalizei toda a minha raiva e corri. Passei por entre os destroços e a parede que sobrava da loja de sapatos e bati de frente com Artos. Meu ombro se chocou com o seu corpo e o joguei varios metros de distância para longe do grupo.
O mundo desacelerou novamente e consegui ver a expressão de choque de Beatrice ao me ver. Artos estava rolando pelo asfalto, a chuva caia mais devagar. Jake e Ice abaixaram as mãos lentamente quando me viram, Gaby e Mika deram um sorriso de canto exausto.
Senti a chuva caindo sobre nós e a água escorrendo pelos meus ombros, escutei um chiado quando a mesma tocava meu corpo e olhei na direção que Artos estava.
─ Vão para onde estão Rei e os outros ─ Falei para o grupo sem olhar na direção deles, Artos ainda deitado no chão, olhava para mim com espanto. ─ Ice e Gaby fiquem prontos.
─ Qual é o sinal? ─ Perguntou Ice me olhando e mexendo a mão.
─ Um raio em direção ao céu, assim que o verem se dirijam para lá ─ Ordenei e eles fizeram que sim com a cabeça. Artos se levantou e me encarou e eu cerrei os punhos ─ Essa palhaçada termina agora.
E dito isso, corri na direção dele, meus pés descalços tocaram no asfalto levemente e concentrei minha força nos punhos, acho que me movi mais rápido do que Artos esperava, pois cheguei na sua frente e ele ainda não tinha esboçado reação nenhuma, sua pele estava coberta por uma camada de concreto e aproveitei a oportunidade para deferir um belo de um soco naquela cara.
Meu punho acertou o seu rosto, a camada de concreto se rachou e ele tombou para o lado, o tempo voltou ao normal e ele caiu no chão com um baque, então estava na hora de derramar minha raiva e poder como a chuva derrama a água.
Bati novamente contra o seu rosto, de novo e de novo até que ele conseguiu me empurrar com os braços e se levantou com um pulo, seus olhos estavam com uma expressão de medo e era exatamente isso que eu queria, sua pele mudou para diamante e lançou gelo na minha direção.
Antes do gelo chegar ate mim ele derreteu por causa do calor que me envolvia. Então Artos lançou fogo na minha direção e eu levantei a barreira de eletricidade, então vendo que nada disso tinha funcionado, ele partiu para luta física. Eu estava na minha maior força física possível, não tinha resquícios dos meus ferimentos e nem cansaço. Então quando ele veio, seus golpes não foram tão bons quanto já foram.
Desviei de um soco seu e entrei no seu espaço pessoal, e apontei minha mão para o seu peito e dispersei uma onda de eletricidade, seu corpo foi para trás alguns passos, mas não havia sinal de lesão em seu corpo, o que mostrava que apenas força física iria atravessar aquela carapaça de diamante. Mas quanto a isso já tinha pensado em um plano.
Estalei meu dedo e mais eletricidade percorreu meu corpo e atingiu ele, Artos deu um passo para trás com o impacto e ficou muito próximo de um prédio já destruído e sorri. Diminui o espaço entre nós em segundos e dei um chute no seu peito, ele atravessou a parede e caiu de costas no chão e lançou gelo na minha direção, a barreira dispersou o ataque e ele tentou de novo. Dei um sorriso de canto com o seu leve desespero e o derrubei no chão com uma rasteira.
─ Acho que alguém esta ficando cansado ─ Zombei e dei um chute no seu peito, quando estava indo chuta-lo novamente, ele segurou minha perna e me derrubou no chão, montou em mim e desviei de um soco dele, sua mão passou a centímetros do meu rosto e entrou em contato com o chão, depois ele tentou com a outra mão e consegui desviar novamente. Ele tentou mais algumas vezes e durante isso, eu estava com uma cara de deboche vendo as suas tentativas, ele já estava a beira do seu limite, isso eu podia ver através de seus olhos dourados nervosos. Aposto que ele estava contando com a minha morte. Mas acho que ele não sabia que eu só morreria quando não tivesse mais um coração ou quando minha cabeça não estivesse mais colada ao corpo. E se eu era assim, ele era o mesmo, por isso que explodiria ele de dentro para fora.
Gelo voou na minha cara e senti o meu nariz ficar gelado e vista ficou branca por um segundo e levantei a barreira, então um punho acertou o meu rosto e antes que eu respondesse, outro me acertou, senti a temperatura do lugar cair drasticamente e estalei o dedo, eletricidade acertou ele no peito e ele foi para trás. Me coloquei de pé e olhei ao redor, aquele lugar era uma imobiliária, melhor, foi uma. Estava tudo branco, o chão estava coberto de gelo, as paredes e os moveis era tudo um branco gélido, fumaça começou a sair do meu corpo e olhei para Artos.
Andei na sua direção e ele acendeu um inferno, chamas envolveram o seu corpo e a temperatura aumentou, todo o frio deu lugar agora ao calor e ele atacou, desviei das chamas rapidamente, ele estava com raiva e estava vindo com tudo para cima. Segundos depois estávamos na rua novamente, chamas e eletricidade entravam em contato.
Ele veio para cima e desviei do seu chute, virando o corpo para o lado rapidamente, me abaixei e um de seus socos passou por cima da minha cabeça, fechei a mão esquerda e bati no seu queixo com força, ele deu um passo para trás e eu avancei, dei um chute no seu joelho com força e ele se inclinou, levantei o meu joelho e deferi um golpe no seu peito, meu joelho latejou com o impacto, mas deu para ignorar a dor.
Ele se equilibrou e me aproximei, sua mão de gelo passou a centímetros do meu rosto e vi uma bola de fogo vindo da outra direção, me inclinei para trás e senti minha perna congelando, a puxei com força do chão, me soltando e quando levantei os olhos do chão, o punho de diamante passou pela minha barreira e me acertou no rosto com força, caí no chão e vi a lua em meio as nuvens, uma careca entrou na minha linha de visão e rolei para o lado, senti as chamas as minhas costas e estalei o dedo, eletricidade bateu contra o seu corpo, mas nada aconteceu.
Girei o meu corpo e fiquei em guarda.
─ Para alguém que ressuscitou dos mortos você está muito bem ─ Disse ele andando ao meu redor.
─ Para alguém que não morreu você está uma merda ─ Comentei dando de ombros e um sorriso debochado. Não muito longe escutei o barulho de hélices diminuindo a velocidade, provavelmente o helicóptero já havia pousado. Respirei fundo e senti o meu poder, ainda tinha carga o suficiente para seguir como planejado, então não adiaria mais do que o necessário.
─ O helicóptero era para ser seu resgate? ─ Perguntou ele inclinando a cabeça na direção do som das hélices.
─ Nah, não preciso de ajuda para chutar a sua bunda ─ Falei dando um sorriso.
─ Não foi o que pareceu minutos atrás ─ Disse dando um sorriso e continuando a se mover ao meu redor. Se fosse outra pessoa no meu lugar, esta pessoa provavelmente estaria intimidada com os dois metros e meio de altura e com a quantidade de músculos nele. Na verdade, até agora não sei como que aguentei esse tempo todo de luta contra ele.
─ Sabe, estou ficando cansada disso aqui ─ Apontei para gente, insinuando a nossa luta. ─ Que tal terminarmos isso e decidir de vez quem é o mais forte entre nós dois?
─ Finalmente falou algo que concordo ─ Artos ficou em posição de guarda e estralou os ombros ─ Vamos nessa.
E se deu inicio a luta final entre os titãs.
Corremos em direção um ao outro, estendi meu punho a minha frente e virei meu corpo pegando velocidade e meu punho bateu de frente com o seu, uma onde de energia se espalhou ao redor e nós dois demos passos para trás com o impacto.
Artos colocou as mãos no chão e a terra começou a tremer, uma rachadura se abriu abaixo dos meus pés, e me afastei, já havia caído nesse truque antes então agora não ia funcionar. Sua pele estava em volta de diamante, então só força bruta para quebrar.
Coloquei minhas mãos no chão e afastei meus pés, que nem a posição inicial de uma corrida e concentrei poder nos meus membros posteriores, foquei minha visão em Artos e soltei um suspiro. Quando dei o primeiro passo o chão abaixo de mim se rachou, mas eu não estava mais lá para ver o estrago. Atravessei o espaço entre nós dois em alta velocidade e girei meu corpo dando um chute com toda a minha força no peito de Artos, senti a energia atravessando o meu corpo e atingindo o dele. Meu pé ruiu com o impacto, mas foi muito satisfatório vê-lo voando para trás sem nenhuma resistência.
Corri para onde ele estava no chão e parei em cima dele, concentrei minha energia nos punhos e soquei o seu rosto, eletricidade percorria minhas mãos e a envolviam como se fosse uma luva azul. Bati novamente no seu rosto rapidamente, cada soco ressoava na rua vazia, senti meus punhos doendo e troquei de mão, acertando o outro lado do rosto.
Artos tentou me puxar para o lado e dei um soco no meio do seu ombro, seu braço esquerdo caiu no chão. Sorri de canto com aquilo, ele estava ficando fraco. Fechei o meu punho com mais força e soquei o seu rosto novamente, foi quando escutei algo rachando.
Encarei a sua bochecha esquerda que estava com uma rachadura e Artos colocou a mão sobre ela quase que imediato, seus olhos dourados se estreitaram com ódio e senti o seu joelho batendo contra minhas costas, fui para frente levemente e vi algo vindo na minha direção, levantei minha barreira, mas fui pega de surpresa.
A mão dele passou pela barreira sem resistência e logo em seguida o punho dele foi envolvido por uma camada de gelo, senti o impacto gelado no chão e rolei no asfalto. Coloquei meus pés no chão rapidamente e me levantei, só para ser atingida novamente na cara.
Fui jogada para trás e antes de bater contra uma parede vi um brilho a minha frente, mal tive tempo de levantar a barreira quando um jato de fogo me envolveu. Um calor imenso me envolveu, senti meu corpo semi nu ardendo, cai de joelhos no asfalto com a parede as minhas costas e estalei o dedo, lançando eletricidade na mesma direção do fogo.
O fogo cessou por um segundo e olhei para frente a procura de Artos, mas não encontrei nada. Então que escutei um ruído atrás de mim, atrás da parede, demorei muito para entender que era ele ali atrás, até que sua mão atravessou os tijolos e agarrou a minha cara. E só sei que no momento seguinte eu estava de costas no chão sendo socada seguidamente.
Artos deu um soco no meu rosto e até tentei me proteger com a barreira, mas sua pele tornava as coisas muito difíceis. Senti a minha boca sendo cortada por dentro e sangue escorrer pelos meus lábios, levantei a mão para estalar o dedo e ele socou o meu ombro da mesma maneira que eu tinha feito, meus ossos ruíram de dor e cerrei os dentes, apenas para ser atingida por outro soco.
Se eu não tinha deixado ele com raiva antes, agora eu tinha conseguido. Se ele fosse um cachorro ele provavelmente estaria babando raivosamente uma hora dessas, não que eu pudesse ver claramente né. Sangue escorreu pelos meus olhos e senti o meu corpo sendo ferido e ao mesmo tempo se regenerando. Não podia mais ficar ali gastando minha energia em regeneramento.
Um outro soco me acertou no peito e senti o ar escapar de mim. Fechei os olhos rapidamente e vi as chamas da minha fogueira queimando. Elas estavam agitadas e muito altas, o que indicava que ainda tinha energia o suficiente. Imaginei as chamas crescendo mais e mais, uma energia imensa me envolveu e abri os olhos, bem na hora que Artos acertou meu rosto.
Mas não virei o rosto com o impacto e estalei o dedo, Artos flexionou os músculos a espera do impacto e nossos olhos se encararam, vi um dourado sem vida nos seus e logo quando vi um brilho azul refletido, Artos foi atingido na lateral por alguma coisa e foi jogado na rua. Me levantei rapidamente e olhei na direção dele.
Um carro havia o atingido.
E escutei uma explosão de sons e chiados diferentes, vindo de todas as direções. Eram sons de metais, corações pulsando, o som do ar passando por entre os prédios, escutei o som de chamas, alguém falando, água pingando, o som de estática. Era como se estivesse escutando pela primeira vez. Era como se todos os sons do mundo estivessem amplificados.
Olhei para meus pés descalços e percebi que estava perto de uma poça de água, encarei o meu reflexo lá e abri minha boca. Havia uma aura azul me envolvendo, que se parecia com as chamas azuis da minha fogueira, e como um estalo dentro da minha cabeça senti a energia pulsando no meu corpo na mesma velocidade do meu coração e todos os sons se cessaram, exceto o som de metais e do ar.
Levantei os olhos da poça e olhei para o céu, onde antes havia nuvens ao redor da lua, agora haviam metais flutuando. Olhei para aquilo curiosa e me movi, então todos os metais se moveram.
Abri e fechei minhas mãos, os metais se mexeram para frente e para trás no ar. Já havia dominado o metal nas lutas anteriores, mas aquilo era diferente, era quase como se eu tivesse pleno controle de tudo.
Artos estava de pé, olhando tudo com muita cautela para os metais, observei seus olhos encarando as barras de ferro, placas de metal, pedaços de carro, facas, talheres, vigas e varias outras coisas flutuando, até que seus olhos dourados se encontraram com os meus azuis. Senti não apenas ódio como também pena. Pena por ele ter tido a infeliz ideia de querer se tornar quem é por motivos tão fúteis e egoístas, destruindo a vidas de inocentes e principalmente por ajudar um cara que matou meus pais.
Não que eu pudesse dar lição de moral, mas ele era tão ruim quanto eu, tínhamos nossos motivos e escolhas, mas a diferença entre nós era que eu não matava inocentes e nem tentava dominar a cidade ou se tornar a pessoa mais forte dela. Ter esses poderes, era um fardo que eu tinha ganhado e aprendido a viver com isso, e mesmo quando não estava esperando nada em troca, conheci uma pessoa que me ajudou e gostou de mim por quem realmente era. E esse bastado teve a ousadia de machuca-la.
Pensei em Rei e flexionei o maxilar. Iria vinga-la.
Senti a energia pulsar dentro de mim e abri os braços, os metais se mexeram e Artos avançou contra mim, gelo voou na minha direção e levantei um campo de força a minha volta. Inclinei a cabeça para o lado e uma viga de metal acertou Artos na cintura, ele caiu de joelhos e movi minha mão na sua direção. Vigas e placas voaram na direção dele e ele tentou se defender com tudo que tinha, usando gelo e fogo para impedir que o metal o tocasse.
Enquanto ele era atacado por metais, andei ate a esquina e levantei os braços, tudo que era de metal se sacudiu, não importa o que fosse, se tivesse metal no meio, ela se debatia para se soltar e depois flutuava. O céu tinha se fechado e relâmpagos passavam por de trás das nuvens, iluminando a cidade.
Os metais então foram para cima e me seguiram, conforme eu ia andando até Artos, ele estava puto, eu podia ver na sua expressão física e facial, mas não dei a mínima, aquilo iria acabar agora.
Coloquei as mãos a frente do meu corpo, os metais se aproximaram entre si, o vento estava mais forte e escutei Artos falando alguma coisa, mas ignorei. Fechei as mãos com força e senti uma energia como nunca antes me envolver, e então vi a mágica acontecer.
Os metais se chocaram entre si, causando um som ensurdecedor e flexionei o maxilar e as mãos, e liberei a energia dentro de mim. Os metais então explodiram e a terra estremeceu.
Agora no céu havia uma nuvem negra.
Mas eu sentia que aquela nuvem era especial, movi minha mão devagar e a nuvem veio em minha direção, abri minha mão para tocar a nuvem e fiquei surpresa ao ver que o que estava pegando era nada mais que pó.
De alguma maneira eu havia desintegrado todos aqueles metais e transformado naquele pó negro.
Artos abriu a boca pela primeira vez em muito tempo e deu uma risada.
─ Então é só isso? Só isso que você pode fazer? ─ Disse debochadamente.
Movi meu corpo na sua direção e estalei o dedo, eletricidade percorreu a nuvem e ela pulsou em resposta. E tudo aquilo fez sentido. Abri meus braços novamente e imaginei como se estivesse com um arco e flecha nas mãos. Imaginei a flecha sendo traçada para trás pela corda, e a nuvem se moveu ao meu lado, ganhando o formato de algo pontudo.
Puxei a flecha imaginária para trás o máximo que meu braço podia ir e soltei. Quando o fiz, energia pulsou entre mim e a nuvem, e ela voou em direção a Artos. Uma lança acertou em cheio o seu peito e uma explosão aconteceu. Uma onda de energia se espalhou ao redor e tudo perto ou voou ou tremeu.
Artos estava deitado no chão vários metros de onde estava, andei até lá e ele se colocou de pé, e vi uma rachadura no seu pescoço. Ele lançou fogo e gelo na minha direção, mas nada me atingia por causa da barreira, levantei os braços novamente e lancei outra flecha. Outra lança voou na direção dele e ele criou uma barreira de gelo a sua frente. Mas como a lança era feita de pó, ela simplesmente atravessou a parede e outra explosão aconteceu.
Seu corpo foi jogado para trás e entrou dentro de uma loja. Andei para ele novamente e atirei, a lança acertou o seu peito e ele atravessou a loja e entrou na outra rua. Corri por entre os destroços da loja e lancei outra flecha.
Artos que estava tentando se levantar do chão foi atingido nas costas por outra lança e seu corpo bateu com força contra o asfalto, rachaduras apareceram ao seu redor e escutei um track vindo do seu corpo, olhei para suas costas e havia uma longa rachadura na sua carapaça de diamante.
Ótimo, estava dando certo.
Dei um passo na sua direção, enquanto ele se levantava e senti a minha energia enfraquecer, não iria conseguir prolongar por mais tempo, tinha que dar o golpe final para quebrar a carapaça. Levantei os braços e concentrei meu poder naquele ultimo tiro. Respirei fundo e puxei o braço para trás, senti a energia ir junto com a flecha, a lança voou em sua direção e quando ele ficou em pé totalmente, foi atingido no peito, a rachadura da sua pele se expandiu e a explosão aconteceu.
Por um segundo o mundo ficou silencioso e respirei lentamente, o poder imenso que eu sentia tinha desaparecido e meu corpo tremeu de exaustão. Artos não se mexeu e então levantei minha mão para o céu e estalei o dedo, lançando um raio para cima.
Vi os dedos de Artos se moverem lentamente e olhei ao redor de algo para usar como uma arma, até que achei um pedaço de ferro, segurei-o e andei até Artos e o olhei rapidamente, seu corpo estava vermelho e estava começando a tornar sua pele em alguma coisa. Metade do seu corpo estava na sua pele normal e a outra estava ficando cinza.
─ Nem pensar ─ Falei e meti o pedaço de ferro na sua barriga de pele normal, ele chiou com a dor e tentou arrancar o ferro, e enfiei ainda mais o pedaço o imobilizando.
Não demorou muito e Gaby e Ice se teletransportaram, olharam para nós dois no chão, eu ajoelhada sobre o corpo de Artos.
─ Corram! ─ Gritei segurando o ferro, podia sentir ele querendo se mexer.
─ Mas que diabos ─ Disse Ice ao ver o corpo de Artos, que por sinal estava devera estranho, a metade do seu rosto, um dos deus braços, metade do peito e as duas pernas, estavam pretas da cor do asfalto, já o resto estavam no tom rosa. Havia conseguido atrasar a sua absorção com muita sorte.
─ Coloquem no peito ─ apontei para o peito descoberto dele e os dois se posicionaram ao lado, segurei o braço de Artos com força e acenei para eles aplicarem as injeções. E assim o fizeram, colocaram as pistolas sobre o peito dele e puxaram o gatilho, o soro deixou as pistolas rapidamente e entraram em Artos.
Demoraria poucos minutos para fazer efeito.
─ Se afastem ─ Ordenei e Gaby agarrou o meu braço e nos teleportou para mais longe dele.
Artos agarrou a ponta do ferro e puxou com força para fora de sua barriga, o metal caiu no chão com um estalido e pôs as mãos no chão para se levantar. Mas quando o fez deu um passo para frente tonto e olhou para o seu corpo.
As partes pretas começaram a sumir até que todo o seu corpo ficou com aparência normal. Ele olhou para os braços e depois para nós, podia-se ver confusão em seus olhos e então ele levantou as mãos na nossa direção e tentou lançar alguma coisa.
Mas nada aconteceu, como também o seu ferimento demorou a se cicatrizar. Dei um sorriso com aquilo, missão meio completa.
─ O que você fez comigo?! ─ Gritou ele vindo em nossa direção.
─ Vou distrair ele, enquanto vocês preparam a bomba, ok? ─ Sussurrei e eles concordaram. ─ Só não demorem, eu estou exausta.
─ Pode deixar ─ Disseram os dois e teletransportaram.
Artos parou na minha frente e olhou para mim com fúria nos olhos.
─ O que você fez?!
─ Só dei um pouco do que realmente você é ─ Falei dando de ombros. ─ Um fracote sem poderes.
Ele avançou contra mim e seu punho passou a centímetros do meu rosto, desviei do seu chute e girei, chutei o seu joelho e depois o seu estomago, ele foi para trás e corri. Eu estava morta, não ia aguentar mais lutar, cada fibra do meu corpo estava doendo, ao menos correr doía menos do que lutar. Ele correu atrás de mim por um bom tempo, até que ele me alcançou em uma esquina.
Senti o se pé chutar minhas costas e cai no chão, seu punho acertou o meu rosto e senti sangue escorrer pela minha testa, chutei o seu peito e o afastei de mim. Fiquei em posição de luta e avancei contra ele, desviei do seu punho e desferi um golpe no seu estomago, depois um no seu queixo, recebi um nas costelas e depois um no joelho, escutei ele estralando e cai no chão de joelho e recebi uma joelhada na cara. Meu nariz se quebrou e tentei me levantar, sua mão agarrou o meu cabelo e me puxou para trás.
Levei mais um soco no estomago e rolei no chão com dor, seu pé veio em direção ao meu rosto e levantei os braços na minha frente, seu pé se chocou com o meu braço e senti os meus ombros queimando de dor, mas mantive o pé dele afastado de mim, suspenso acima da minha cabeça.
Escutei uma arma destravando e antes q eu pudesse se quer saber de onde vinha o som, meus ouvidos ruíram com o barulho dos tiros. Artos foi atingindo em cheio por uma chuva de balas, o peso sobre meus braços sumiu e eu rolei para trás. O peito de Artos estava cheio de furos, sangue escorria por ele, mas ele ainda estava de pé. O desgraçado era difícil de cair.
Senti duas mãos me puxando do chão e vi que era Beatrice, Dana e um dos soldados era quem tinha atirado em Artos. Passei o braço por entre o pescoço de Beatrice e me coloquei de pé.
─ Vocês estão bem? ─ Perguntei olhando para Beatrice que estava enfaixada em vários cantos.
─ Melhor do que você ─ Disse ela dando um sorriso. ─ Ainda bem que chegamos a tempo.
─ E a bomba? ─ Perguntei e outra sequencia de tiros acertou Artos que se protegeu ficando atrás de uma parede.
─ Está aqui ─ Disse Dana virando uma mochila nas costas em minha direção. Tirou de lá uma pequena esfera de metal e um dispositivo quadrado com um botão e uma antena. ─ Esse é o controle e a esfera é a bomba.
─ Eu vou te matar Sora! ─ Gritou Artos atrás da parede.
─ Como vamos colocar isso dentro dele? ─ Perguntou Beatrice, Dana me entregou uma garrafa d’água e segurei com as mãos tremendo, nunca pensei que ia sentir tanta saudade do gosto de água, bebi rapidamente e senti os meus ferimentos na boca arderem.
─ Richie e Ice conseguem lutar? ─ Perguntei quando sequei a garrafa.
─ Não por muito tempo ─ Respondeu Dana, seus olhos dourados me olharam com preocupação ─ O que você tem em mente.
─ Preciso que eles imobilizem Artos, enquanto eu me aproximo ─ Falei, e o soldado trocou a munição da arma.
─ Você é uma mulher morta, Sora! ─ Gritou Artos novamente.
─ Acha que eles conseguem? ─ Perguntei, Dana fez que sim com a cabeça e pegou o comunicador da cintura.
─ Gaby ─ Disse ela.
“ Dana? Me diz que não deu nada de errado”
─ Ainda não, traga Ice e Richie até aqui ─ Disse Dana acenando com a mão acima da cabeça. Foi então que notei que estávamos na mesma rua que eles, só que eles estavam no começo da rua, enquanto nós estávamos quase no final dela.
Consegui ver os cabelos vermelhos de Rei e sorri ao vê-la em pé. Graças aos deuses ela estava bem. Gaby segurou a mão dos dois homens, e logo em seguida sumiu e apareceu a minha frente.
─ O que houve? ─ Perguntou Richie olhando para Dana e depois para mim. Ele estava bem machucado.
─ Preciso que vocês dois distraiam e imobilizem Artos, enquanto eu coloco a bomba ─ Falei tirando o braço ao redor de Beatrice. Eles olharam para mim com surpresa e eu levantei a sobrancelha sem entender. ─ Sei que estou uma merda, não precisa olhar assim.
─ Está mesmo ─ Disse Ice ─ Mas não é isso que estamos olhando.
─ E o que é? ─ Perguntei.
─ Sua tatuagem aumentou ─ Respondeu Dana apontando para o meu pescoço e depois para minha coxa. Olhei para minhas pernas nuas, porque as calças tinham se tornado um short durante a batalha, e vi que era verdade, minha tatuagem tinha se expandido a ponto que estava na metade da minha coxa direita.
─ Meu pescoço também?! ─ Perguntei em choque levando as mãos ao pescoço, eles acenaram com a cabeça. Bem, que surpresa. Respirei devagar e passei a mão na testa. ─ Deixando isso de lado.
─ Certo ─ Concordaram eles.
─ Vocês dois distraiam ele, ok? Ele estava fraco agora, preciso apenas de uma brecha para colocar a bomba no peito dele ─ Olhei ao redor, aquele lugar era péssimo para explodir uma bomba. ─ Beatrice, ainda consegue usar a barreira?
─ Não, já estou no meu limite ─ Disse ela e olhou para o chão derrotada.
─ Tudo bem, então. Temos que levar ele para um lugar mais afastado dos prédios principais ─ Falei notando que estávamos perto do centro e que aquela rua era cheia de prédios.
─ Que tal aquele em construção? ─ Disse Ice apontando para um terreno, que tinha apenas as vigas e metade do prédio em construção.
─ Se a bomba não matar, o prédio vai ─ Disse Dana concordando com a ideia.
─ Então levamos ele para lá, o imobilizamos, saímos e explodimos ─ Resumiu Richie e todos nós acenamos com a cabeça. ─ Acho que consigo.
─ Então vamos nessa ─ Disse Ice levantando o punho na direção de Richie e ele bateu contra o de Ice.
─ Fique bem, ok? ─ Disse Dana colocando a esfera na minha mão e me dando um rápido abraço.
─ Vou tentar ─ Falei dando um sorriso cansado. Olhei para uma faca na cintura do soldado e puxei-a para mim, ele olhou para mim e fez um ok com o polegar. Dana, Beatrice e o soldado tocaram Gaby e eles sumiram de perto.
─ Lightning Hunter!!! ─ Gritou Artos furioso saindo de trás do muro após perceber que os tiros cessaram. Seus olhos me encararam com raiva e veio correndo na minha direção, então Richie que estava mais ao lado, veio correndo e empurrou Artos para o lado com força. Ele bateu na parede de lado e olhou para Richie. ─ Mas que...
Então Richie atacou ele, seu punho acertou a parede a trás de Artos e este o deu um soco no estomago. Richie foi para trás e Ice entrou em cena. Lançou gelo na direção de Artos e ele desviou, passou por entre Richie e Ice e deu um soco na costela de ice e um chute no joelho de Richie.
Observei eles trocarem socos e comecei a me mover, Artos notou isso e tentou vir para cima de mim, mas os meninos o seguravam no lugar. Assim, logo começamos nosso jogo de corre e pega. Eu corria na frente, Artos vinha atrás e Richie e Ice evitavam Artos de chegar até a mim. Ficamos nisso por longos minutos até que chegamos no terreno do prédio que escolhemos.
Parei na base do prédio, perto de algumas vigas de ferro e observei eles lutando. Richie deu um soco no rosto de Artos que deu um passo para trás, mas conseguiu desviar do chute de Ice, deu uma cotovelada na cabeça de Ice e depois um chute no peito de Richie, os dois caíram no chão e Artos foi para cima de Richie, quando eu assoviei chamando sua atenção.
Ele olhou para mim e deu um sorriso maligno. Fiquei em posição de luta e ele veio para perto. Desviei de um chute seu e virei o corpo de lado evitando um soco, dei dois socos rápido na sua barriga e depois um no joelho, ele chiou de raiva e eu desviei de outro golpe. Vi Ice e Richie se levantando e fiz um ok com a mão.
Então Artos me deu um soco na cabeça, senti minha testa se abrindo e sangue escorrendo, Quando ele foi me chutar, Ice congelou suas pernas e Richie socou sua cabeça com o máximo de força que tinha, seus punhos se cortaram com o golpe e o nariz e a boca de Artos se cortaram. Puxei a faca da minha cintura rapidamente e enfiei no peito de Artos, ele agarrou o meu braço e Richie puxou o seu braço para trás e deu um chute, escutei o osso se partindo e enfiei a faca ainda mais profundamente aumentando o buraco.
Peguei a esfera com a mão direita e enfiei com todas as minhas forças no peito dele. Artos gritou quando a esfera entrou, senti os músculos, seu coração batendo, o calor e o sangue do seu corpo na minha mão e soltei a esfera. Artos gritou de dor quando o seu corpo começou a curar, fechando a esfera lá dentro. Ice congelou o seu corpo na vigas e então nos afastamos.
Apontei minha mão para cima e estalei o dedo, sinalizando que era para Gaby nos tirar dali, segundos depois senti a mão dela no meu ombro e dei uma ultima olhada em Artos, seus olhos dourados mostravam desespero e medo puro.
Aparecemos do lado do helicóptero, na outra extremidade da rua, senti braços me envolvendo e olhei para o lado, Rei me abraçou forte e eu a abracei de volta.
─ Você voltou ─ Disse ela colocando o rosto no meu pescoço. Abracei-a com mais força, com medo de tudo aquilo ser um sonho.
─ Conseguiram? ─ Perguntou Beatrice.
─ Sim ─ Disse Ice.
─ Agora explodam aquele cara de uma vez ─ Richie disse se esforçando para ficar em pé.
Dana segurou o detonador nas mãos e olhou para mim, fiz que sim com a cabeça, confirmando o fim de toda aquela batalha. Rei segurou minha mão e Dana apertou o botão. Contamos os segundos para escutar a explosão, mas quando se passaram 10 segundos, que era o tempo máximo, e a bomba não explodiu, todos nós engolimos em seco.
─ Isso não era para explodir?! ─ Mika comentou já desesperada.
Me sentei no asfalto e engoli em seco. Aquilo tinha que funcionar, não tinha mais forças para lutar com ele, muito menos força para arrancar um coração ou uma cabeça. Rei me abraçou com força e escutei eles conversando e discutindo entre si, até que Dana puxou o radio e mudou de frequência.
─ Comandante?! ─ Chamou Dana pelo Rádio, vi que sua mão estava tremendo e todos os outros se calaram para ouvir.
“ O que aconteceu? Ficamos esperando por uma explosão e nada!” ─ Respondeu a comandante no radio.
─ Eu quem pergunto, O QUE DIABOS ACONTECEU! Porque a bomba não explodiu? ─ Dana praticamente gritou. ─ Cadê o oficial?
Esperamos por uma resposta, mas tudo o que veio foi uma estática. Depois de um longo minuto a espera, o radio deu um estalido e uma voz sem ser a da comandante saiu.
“Aqui quem fala é o oficial, aparentemente alguma estrutura está influenciando na transmissão do detonador, se ele não funciona, a outra maneira que programei para ela explodir, foi para ser ativada após entrar em contato com algum impacto ou energia”.
Ouvimos o que o soldado quis dizer e suspirei cansada. Ótimo, era só o que me faltava. Eles discutiram mais um pouco, Richie podia ir, acertar Artos no peito e Gaby o tirava de lá. Ice podia tentar também. Mika e Jake estavam calados, talvez era porque nenhum dos dois tinham mais energias. Apertei a mão de Rei e ela olhou para mim, encarei os seus lindos olhos castanhos e beijei seus lábios, e me levantei.
─ Eu vou ─ Falei e Rei se levantou com um pulo e levantei a mão na sua direção. ─ Ice não tem força o suficiente, Richie irá morrer no caminho e Gaby talvez vá junto no meio, eu consigo atingir ele com um raio a uma distancia segura da explosão, ninguém precisa morrer além daquele bastardo.
─ Você tem certeza? ─ Perguntou Beatrice, fiz que sim com a cabeça.
─ A bomba vai alcançar tudo em até 15 metros ─ Disse Dana colocando uma mão no meu ombro. ─ Não se aproxime mais do que isso.
─ Pode deixar ─ Falei e senti Rei segurando minha mão, olhei para ela e ela me abraçou.
─ Tome cuidado, tudo bem? ─ Disse me dando um beijo na bochecha.
─ Pode deixar ─ Confirmei e beijei sua testa.
Gaby me teletransportou ate metade da rua, estava a uma distancia de 50 metros do prédio em que Artos estava preso. Ele ainda estava lá tentando se soltar, sem nem se quer sair do lugar.
Fechei meus olhos, respirei fundo e me concentrei. Aquele golpe seria o ultimo do dia, pois eu não tinha mais energia para lançar eletricidade para matar ninguém. Afastei meus pés e braços, senti o ar a minha volta e o chão aos meus pés. Respirei profundamente e senti o meu poder se formando e se juntando na minha mão direita, escutei eletroestática e dei um sorriso, finalmente tudo ia acabar.
Soltei a respiração e estalei o dedo, um jato de eletricidade atravessou a rua e acertou onde Artos estava. Meus joelhos fraquejaram quando a energia me deixou e cai no asfalto, contei os segundos na minha cabeça e quando estava no 2, senti uma mão me agarrar.
Pensei que era Gaby, me pegando para assistir a explosão junto com os outros, mas quando olhei para cima me deparei com os olhos castanhos de Carlos. Então o mundo desacelerou rapidamente, vi o seu rosto me dando um sorriso maligno de canto e logo em seguida eu estava de frente para Artos. Ele olhou para mim sem entender nada, mas pude ver o medo nos seus olhos e quase pude ver o meu medo refletido junto. Escutei meu coração batendo desesperadamente e me abaixei, envolvi meu corpo com o máximo de eletricidade que ainda conseguia e chorei quando a explosão me envolveu.
Me desculpe, Rei.
—--------------------------------------------------------------
Vi Sora se posicionando no meio da avenida, ela estava acabada, doía meu coração vê-la machucada e lutando desse jeito. Não vi a hora de Artos ser morto. Observei a eletricidade de Sora envolvendo o seu corpo e se dirigindo para a palma da sua mão. Seus longo cabelo preto estava balançando a sua costa, eles estavam maiores do que eu lembrava, sua tatuagem também tinha aumentado, era difícil não perceber quando você está acostumado com a pessoa.
Então ela liberou o seu poder e um jato de eletricidade foi na direção do prédio em construção onde Artos estava preso. O seu cabelo sacudiu as suas costas e quando pisquei, Carlos estava ao seu lado e logo em seguida desapareceu com ela, e agora estava muito próxima de Artos, fiquei em pé com um salto e abri minha boca para falar para Gaby se teletransportar, quando a bomba explodiu, envolvendo e destruindo tudo em um raio de 15 metros.
A onda de impacto se espalhou por todo o canto, o chão tremeu e todos nós se abaixamos para se proteger contra a onda, o prédio foi abaixo, escutamos metais e pedaços de concreto caindo, uma nuvem de poeira se levantou e envolveu toda a área da explosão. Tudo ficou em silencio por alguns segundos.
Sora tinha sido pega na explosão.
Meu corpo ficou paralisado, tentei abrir a boca, mas tudo que eu conseguia fazer era escutar e sentir meus coração batendo rapidamente. Vi Richie e os outros pulando de alegria e comemorando com a explosão. Dana se aproximou de mim, colocou as mãos no meu ombro e ela tava falando alguma coisa, mas meus ouvidos e mente não estavam processando o que ela estava dizendo.
Sora era muito mais forte do que todos aqui, mas com o estado que ela estava quando foi ativar a bomba era impossível ela sair ilesa da explosão. Eu não queria acreditar no que estava acontecendo, cada fibra do meu corpo gritava para se mexer e procurar ela, mas minha mente parecia que estava travada. Olhei para Dana e meus olhos se encontraram com os delas, engoli em seco e forcei meu corpo a responder aos meus comandos. Eu precisava avisar eles, tínhamos que procurar por ela, tínhamos que ir salva-la.
─ S..ora ─ Consegui sussurrar e Dana cerrou as sobrancelhas. Ela me encarou firmemente e vi o momento exato que sua mente associou o que eu estava dizendo, seus olhos mudaram de um alegre para um terrivelmente assustado e então ela me soltou e virou de frente para a explosão.
─ Onde está Sora?! ─ Disse ela bem alto, todos pararam de comemorar imediatamente e olharam para onde Sora estava, a nuvem de fumaça não permitia ver muita coisa.
─ Sora??! ─ Gritou Beatrice olhando em volta.
─ Onde está ela? ─ Perguntou Gaby olhando para todos os cantos. Engoli em seco novamente e respirei lentamente tentando recobrar o controle do meu corpo.
─ Sora!!! ─ Gritou Richie e Ice ao mesmo tempo.
Esperamos a fumaça se dissolver para localizar ela, esperamos que ela aparecesse dando um sorriso cansado ou até mesmo deitada no chão, mas conforme os segundos se passavam, percebi que ela não iria aparecer e que as chances dela estar soterrada nos escombros do prédio eram muito altas.
Fechei os olhos e forcei meu corpo a obedecer a minha mente, então meus dedos se mexeram e eu consegui fechar as mãos, então senti o link entre o meu corpo e mente de volta.
─ Sora foi pega pela explosão ─ Falei finalmente, todos olharam para mim com choque nos olhos.
─ Como assim?
─ Eu tenho certeza que deixei ela em uma distancia segura ─ Disse Gaby batendo o pé no chão e abrindo uma das mãos, vi o medo em seus olhos, o medo de ter sido a culpada da morte da minha namorada.
─ Carlos ─ Olhei para Dana e ela abriu a boca.
─ Você tem certeza? ─ Disse ela e olhei para ela sem entender. Não fazia ideia que ela o conhecia.
─ Você o conhece? ─ Perguntei
─ Quem é Carlos? ─ Perguntou Ice sem entender nada, Mika e Jake sentaram no chão e olhavam para cima de um lado e de outro para acompanhar a conversa.
─ Sora me contou sobre ele em um dos interrogatórios ─ Respondeu Dana olhando para Ice
─ Ele tem o poder de Teletransporte, que nem Gaby ─ Falei.
─ Como assim? ─ Perguntou Gaby surpresa por saber que havia mais alguém com o mesmo poder.
─ Foi ele quem arquitetou e criou Artos ─ Falei olhando para eles e todos entenderam agora. E foi ele quem matou os pais de Sora, pensei. ─ Ele queria Sora morta custe o que custar. Segundos antes da explosão eu vi ele agarrar Sora e a teletransportar para perto de Artos.
─ Puta merda ─ Disse Ice se virando e andando para longe, os outros agentes se mexeram nervosos e olharam para o chão.
─ Tenho certeza disso? ─ Perguntou Dana me dando um olhar de duvida, seus olhos dourados estavam sem emoção alguma, balancei a cabeça afirmando. Ela colocou a mão no rosto e suspirou ─ É, agora fodeu.
“Dana, está tu..do bem por aí?”, escutamos a voz da comandante pelo rádio.
─ Comandante? Sim, sem sinal do N2, a bomba parece ter funcionado perfeitamente ─ Respondeu Dana para o rádio, encarei ela e sussurrei o nome de Sora.
“Graças aos deuses, estamos enviando ajuda na sua direção...
─ Comandante, temos um problema
“ Que tipo de problema?”
─ Sora foi pega na explosão ─ Disse Dana rapidamente. O rádio ficou em silêncio por alguns segundos e todos nós olhamos para Dana, até que o rádio estalou e a comandante falou novamente.
“Estamos indo na sua direção, resolvemos assim que chegar”.
E o rádio ficou mudo.
─ Resolvemos assim que chegar?! ─ Falei indignada andando para trás. ─ Ela está de sacanagem comigo?
─ Calma, ok? ─ Disse Dana vindo na minha direção com uma das mãos estendidas e eu dei um tapa na sua mão. Seu braço foi para trás com a força.
─ Não me venha com calma! Sora se sacrificou para salvar as suas malditas bundas!
─ Rei, fique calma ─ Disse Ice se colocando ao lado de Dana ─ Tenho certeza que a comandante vai organizar uma equipe de busca e tenho mais certeza ainda que Sora não se deixou vencer por uma bomba.
Escutamos o som de helicópteros e sirenes e encarei os olhos azuis de Ice, havia hematomas e cortes em todas as partes do seu corpo, sua camisa estava só os fiapos e havia sangue seco no seu pescoço. Me afastei deles e andei de um lado para o outro tentando controlar a minha raiva, e a espera do resgate.
Minutos depois carros de ambulância e militares pararam ao nosso redor, o helicóptero do exercito pousou logo atrás de todos. Médicos vieram ao nosso encontro e vi a comandante Carter correndo na nossa direção, junto com alguns soldados.
Ela estava usando um uniforme preto militar, seus cabelos castanhos estavam amarrados em um rabo de cavalo e os óculos prateados ainda cobriam os seus olhos verdes. Passou por mim e parou ao lado de Dana, que a cumprimentou.
─ Então como estamos? ─ Perguntou Carter a Dana, mas olhou em volta rapidamente. Ice estava sentado em uma maca sendo atendido por alguém, Richie e Beatrice estavam em uma ambulância sentados, Gaby estava no chão sentada, alguém estava limpando o corte na sua cabeça, Mika e Jake estavam deitados dentro de uma ambulância.
─ Estamos bem, a missão foi um sucesso ─ Respondeu ela e olhei pra ela com os olhos cerrados. ─ Apenas Sora foi pega na explosão.
─ Como isso aconteceu?
─ Ela estava a uma distancia segura quando lançou a energia para ativar a bomba, porém quando a bomba foi ativada, Sora desapareceu.
─ Como assim? ─ Disse Carter mudando o peso do corpo de uma perna para outra.
─ Rei disse que Sora foi teletransportada para perto de Artos no momento da explosão.
─ Por quem?
─ Aparentemente o tal de Carlos que Sora comentou no interrogatório tem poderes iguais aos de Gaby ─ Respondeu Dana.
─ Então Carlos estava observando toda essa luta e esperou alguma oportunidade para acabar com Sora? ─ Disse Carter passando a mão pelo queixo.
─ Não tem outra explicação ─ Dana deu de ombros sem saber.
─ Espero que você esteja pensando em juntar uma equipe para realizar o resgate dela ─ Falei em alto e bom som, enquanto andava em direção a elas duas. As duas se viraram e Dana cruzou os braços.
─ Você tem certeza do que viu? ─ Perguntou Carter.
─ Absoluta ─ Respondi a encarando.
─ Então você sabe que se ela estava perto do N2, as chances dela estar viva são poucas ─ Comentou ela me encarando com os olhos verdes através da lente dos óculos. Ela não parecia feliz com isso, mas não parecia também que se preocupava muito com Sora.
Alias, acredito que para ela tanto faz se Sora tinha morrido ou não, afinal tinha sido ela que prendeu Sora por todos aqueles dias, sabe-se lá o que mais ela pode ter feito com ela. Sora havia sacrificado cada fibra do seu corpo para manter aquelas pessoas seguras e era assim que eles queria recompensa-la?
─ Mas eu tenho certeza que ela está bem ─ Comentei batendo o pé e a encarando. ─ Ela não seria derrotada por uma bomba assim, ela é forte, muito mais forte do que vocês pensam.
─ Nós sabemos, mas sabemos também que as chances são baixas.
─ Não me interessa se as chances são baixas ou não! ─ Gritei com raiva. Me aproximei de Carter mais ainda ─ Sora não desistiu de vocês nem por um segundo, mesmo sabendo que seria muito mais fácil fugir comigo e deixar vocês se lascarem com Artos. Mas sabe o que ela fez? Ela apanhou, lutou, se feriu várias e várias vezes, para manter essa sua bunda ai inteira ─ Apontei para Carter.
─ Sim, ela sabia dos riscos quando assinou o contrato com a gente ─ Disse Carter dando um passo para trás.
─ Não me interessa nenhum contrato! ─ Gritei novamente ─ A única coisa que me interessa é você organizar uma equipe de busca para resgatar a minha namorada.
─ Rei, se acalme ─ Disse Dana segurando meu braço com força, senti o seu poder me envolver e virei o rosto na sua direção. E então eu senti raiva. Ela se dizia amiga de Sora, mas não fazia esforços para me ajudar. ─ Me solte!
Gritei com raiva e empurrei ela para longe, sua mão me soltou e eu fechei minhas mãos. Se não iam ajudar por bem, iriam por mal.
Todos eles caíram no chão e escutei gritos de dor. Carter caiu no chão a minha frente e eu abri as mãos, senti o meu poder acordando e olhei para baixo. Sangue começou a escorrer pelo nariz e olhos de Carter, o mesmo acontecia a todos.
Senti o sangue deles pulsando em suas veias, o seu coração batendo. O fluxo sanguíneo estava chiando em meus ouvidos como se fosse uma musica.
─ Você vai sim organizar uma busca por Sora, por bem ou por mal ─ Ordenei e movi minhas mãos novamente, vi Carter, Dana e todos os outros se curvando no chão com as mãos na cabeça. Me abaixei e agarrei a camisa de Carter, a coloquei de pé a força e encarei seu olhos verdes cheios de medo e dor, sangue escorria por suas bochechas e ela agarrou a minha mão. ─ Se não eu mato cada pessoa nessa cidade.
E soltei o seu corpo no chão e dispersei o meu poder, todos eles tossiram e choraram de dor no chão. E aos poucos foram voltando ao normal.
Carter e Dana se afastaram de mim assim que puderam. E eu observei e esperei.
Muitos minutos depois, vi que a minha ameaça tinha funcionado muitíssimo bem, pois uma grande equipe de bombeiros e soldados com cães se dirigiram para a área da explosão. Dana e Carter ficaram para observar e ajudar no que podiam, os agentes que estavam em combate foram levados para o hospital para os cuidados.
Então nas horas que se seguiram foram uma busca incessante por Sora. Apesar do meu estado físico estar uma lastima, não descansei nem um minuto durante a busca, aparentemente o meu amor e esperança me davam forças para continuar. A explosão tinha sido muito mais forte do que imaginávamos. De forma que foi estressante e cansativo retirar a quantidade de concreto, vigas de metal, poeira e equipamento destruídos da área.
Os agentes de resgate ficaram com receio da minha ajuda no começo, mas logo me deram instruções de como eu poderia ajudar.
O primeiro sinal que encontramos de que alguém esteve lá, foram 5 horas depois da explosão. E o que vimos foram manchas de sangue em um pedaço de concreto, mas nem um sinal de corpo. Apesar do meu estomago e mente chorarem de dor e medo por aquele sangue ser de Sora, forcei todos a continuarem a busca, pois aquele sangue podia muito bem ser de Artos.
Meia hora depois foi quando senti um formigamento na nuca.
Parei imediatamente o que estava fazendo e fechei os olhos. Não fazia ideia do que podia ser aquilo e muito menos conseguia me concentrar com todo o som de pessoas e maquinas se movimentando. Respirei fundo e dei um longo e alto assovio. Todos olharam na minha direção.
─ Façam silencio por um minuto ─ Gritei, e como todos ainda estavam com medo de mim, obedeceram sem nem pensar.
Senti novamente a nuca se arrepiando e um chiado no meu ouvido. Virei o rosto na direção do chiado e andei alguns passos para perto de onde estava um pedaço grande de concreto. Então eu senti o cheiro de sangue e o chiado nos meus ouvidos ficaram claros, iguais ao som de sangue correndo nas veias. Meu coração começou a bater rapidamente e me abaixei, coloquei a mão sobre o concreto e respirei profundamente tentando controlar a ansiedade.
Escutei o som de sangue fluindo, se havia sangue fluindo queria dizer que ou Sora ou Artos estavam vivos, e o fato de eu sentir o cheiro de sangue queria dizer que a pessoa estava sangrando a muito tempo. Me concentrei mais ainda e esperei escutar o som que eu queria.
Tum-tum
Abri os olhos em choque ao escutar o som que tantas noites eu escutava enquanto dormia. O coração de Sora.
─ Aqui! ─ Gritei o mais alto que podia. Senti meus olhos enchendo de lagrimas. ─ Ela está aqui!
Os bombeiros correram na minha direção, trouxeram as maquinas e equipamentos e começaram o processo de abrir caminho no concreto. Vários minutos depois, abriram uma passagem, avisei a todos que eu entraria primeiro e ninguém discordou, amarram uma corda de segurança em mim e me deram uma lanterna e um radio, e eu entrei no buraco.
─ Tenha cuidado ─ Disse um bombeiro quando passei.
O lugar estava escuro, havia poeira em todo o canto, o pedaço de concreto tinha formado quase um teto sobre onde eu estava, e o pouco de luz que tinha era provinda do buraco que tinham feito. Eu estava com os joelhos dobrados, quase acocada no meio do que se parecia uma pequena caverna. Liguei a lanterna para ver melhor e vi mais poeira, havia um outro pedaço de concreto no meio do lugar, dei a volta por ele e estanquei no lugar.
Sora estava lá.
Havia sangue em todo o lugar a sua volta. Uma placa de metal estava caído ao seu lado, havia marcas de amassado nele, quase como se ela tivesse usado ele como escudo. Sangue saia da sua cabeça cortada, sua pele nua estava vermelha e queimada. Encarei o seu peito e vi quando ela deu uma longa e lenta respiração. Um de seus braços estava quebrado em uma posição nada agradável, uma fratura exposta. Ela estava terrível, o cheiro forte de sangue estava queimando meu nariz. Mas o que fez realmente meu coração parar e o estomago revirar foi quando olhei para a sua perna.
Havia um pedaço de viga de metal sobre as suas pernas, mas apenas a perna esquerda tinha sido atingida. De forma que a sua perna esquerda tinha sido decepada e esmagada pela viga. A maior parte do sangue vinha daquele ferimento, era incrível como ela ainda estava viva.
Engoli em seco e puxei o radio.
─ Sora está aqui, está muito ferida e respirando.
“Estamos a caminho”, disse alguém.
Assim que sai do buraco, fui para um canto e vomitei. Os bombeiros realizaram o trabalho de resgate e minutos depois eu estava dentro da ambulância junto com Sora. Apartir dai em diante, tudo se passou como um filme na minha cabeça.
Os médicos levaram ela para a cirurgia, fizeram uma bateria de exames nela. Anne a médica que tanto nos ajudou me ajudou com os meus ferimentos e ficou me trazendo noticias de como estava indo a cirurgia. Sora estava muita mais machucada do que eu imaginava. Horas e horas se passaram, perdi a conta de quantas vezes dormi no banco de espera da UTI.
Depois de dois dias levaram Sora para um quarto de repouso, onde poderia receber visitas. O laudo medico tinha sido pessimista, mas como sempre Sora ia ficar bem. Vários órgãos tinha sido danificados durante a explosão e se não tivessem agido rapidamente ela teria tido um nível grave de hemorragia interna. Seu braço e seus ferimentos começaram a se curar, porém ela havia perdido por completo a sua perna esquerda. O que mostrava que o seu poder de cura não regenerava membros, o que nós dava certeza sobre a morte de Artos.
A cidade começou o seu processo de reconstrução, as pessoas puderam sair do abrigo, tudo começou a tomar os seus eixos normais.
Beijei a testa de Sora e sentei na poltrona ao lado da sua cama. Meu corpo estava bem melhor do que antes, Anne se certificou de me ver comendo e tomando os remédios. Os meus exames mostraram que eu tinha um grau de anemia muito alto, os meus ferimentos estavam se curando mais devagar do que o normal.
Anne realizou exames em mim e me chamou a atenção novamente para os meus órgãos. Praticamente me deu uma intimação para nunca mais usar os meus poderes da forma que usei. Sora não iria gostar de saber que meu corpo estava mais fragilizado do que nunca. Porra, ela não iria gostar de saber sobre a sua perna.
Gray e os outros agentes visitaram Sora, apesar de eu preferir que não viesse ninguém.
Sora não acordou pelo resto da semana. Na segunda feira da semana seguinte, não havia uma cicatriz se quer no seu corpo, suas tatuagens pretas se destacavam na sua pele branca, ela era linda, e apesar de estar faltando um membro seu eu a amava mais do que tudo. Segurei a sua mão durante o sono até que ela deu um gemido.
Me aproximei e vi suas pálpebras tremendo, meu coração começou a bater de emoção e eu apertei o botão da enfermaria, assim como fui instruída. Logo, Anne, July, a medica dos agentes, entraram na sala.
Esperamos Sora abrir os olhos, meu coração deu um salto quando seus olhos cinzas me encararam, ela piscou varias vezes para limpar a vista e eu dei um enorme sorriso.
─ Rei? ─ Sussurrou ela levando a mão ao rosto.
─ Sim, sou eu ─ Respondi dando um abraço nela e sentindo as lágrimas se formarem ─ estou aqui.
─ O que... o que aconteceu? ─ Perguntou confusa. ─ Onde estou?
─ Estamos no hospital ─ Respondi me afastando e limpando a lagrima do rosto. ─ Viemos para cá depois que derrotamos Artos.
─ Artos?
─ Você se lembra dele? ─ Perguntou July se aproximando, Sora olhou para ela sem entender por um tempo, ate que coçou a nuca e fez que sim com a cabeça.
─ Me diga que ele morreu, por favor ─ Chorou ela.
─ Sim, sim, nós o derrotamos ─ Falei para ela, ela olhou para mim e sorriu.
Como eu amava esse sorriso.
July e Anne fizeram uma serie de perguntas para ela, para checar a sua memoria e ela respondeu tudo corretamente. Atualizamos ela sobre tudo que tinha acontecido e ela escutou tudo silenciosamente. Então chegou a parte de dizer sobre o que aconteceu com o seu corpo.
July foi quem explicou para ela sobre os danos.
Sora parecia não ter notado que estava faltando algo, pois quando ouviu a noticia puxou o lençol da cama sem hesitar, ela encarou a sua perna amputada em choque. Vi raiva, medo e então tristeza em seus olhos, a abracei com força e senti as suas lágrimas escorrendo pelo meu braço enquanto ela gritava.
—-------------------------------------------------------------
Muitos meses se passaram desde o dia que Sora acordou no Hospital. A cidade estava totalmente reconstruída e as pessoas viviam sua vida o mais normal possível.
Rei e Sora se formaram na escola High Royal, apesar de não terem comparecido mais nenhum dia do ano. Carter tinha dado um jeito de conseguir o diploma delas, depois de ver que por causa dos esforços físicos das duas durante a batalha, elas precisavam de uma folga para se recuperar e Sora se acostumar com a ausência da sua perna esquerda.
A maior ironia do universo para Sora foi notar que a perna que tinha sido destruída tinha sido a que nunca lhe deu problema, enquanto a que sobrara era justamente a que lhe deu dor durante muitos dias. Suas tatuagens eram maiores, agora além de estar em quase todo o seu torso e braço, estavam na sua coxa direita e em volta do seu pescoço.
Rei usou o dinheiro que tinha para reformar o deposito onde estava o cofre deixado pelo pai de Sora. Agora o deposito era uma bela casa, com direito até de uma mini academia dentro. Grey foi convidado a morar com elas, mas prontamente recusou o convite.
Dinheiro nunca foi o problema dos três. Assim, sempre que precisavam Sora com ajuda de Rei, ia até um caixa próximo e Sora usava os poderes para sacar dinheiro. Não demorou muito para as duas recuperaram os milhões que perderam. E apesar de Sora ser agora uma agente do governo, velhos hábitos dificilmente morriam.
A saúde de Rei não melhorou tanto com o tempo, muitos dias ela tinha recaídas e ficava bastante doente de modo que fazia visitas recentes ao hospital. Sora e Anne discutiram muito sobre como poderiam trata-la ou amenizar os seus problemas, até que Sora pensou uma maneira que poderia curar Rei de uma vez por todas.
Sora organizou uma equipe de médicos confiáveis junto com Anne, e muitos dias depois realizaram um transplante de medula óssea e células tronco. A melhora de Rei foi quase de imediata, curando todos os sinais de danos nos seus órgãos e células, assim como também, por carregar o DNA de Sora, teve seus poderes aumentados.
Os dados da cirurgia foram todos destruídos ou guardados no cofre de segurança máxima, junto com as ultimas doses da droga de Rider, o diário e livros deixado pelo pai de Sora.
Grey havia sido contratado para trabalhar no CPT – Centro de Pesquisa Tecnológico, ao menos lá poderia desenvolver uma prótese que prestava para Sora.
Construir uma prótese para Sora se tornou uma missão muito difícil, a maioria das próteses projetadas eram facilmente destruídas pela sua força, velocidade ou até mesmo eletricidade. O que deixava Sora com um mau humor pelo resto dos dias. Era comum vê-la gritando e descontando a raiva no quintal ou em algum saco de boxe.
Depois que Grey entrou no CPT, construir uma prótese que pudesse se adequar aos poderes de Sora foram bem mais fácil. Depois que encontraram uma maneira de deixar a prótese intacta, foram apenas aperfeiçoando cada vez mais.
Hoje Sora usa uma prótese preta com detalhes azuis, que responde aos estímulos nervosos dela, doía quando era removida, pois a perna se conectava na base da sua coxa, mas o período de manutenção era apenas de 6 em 6 meses.
Sora e Rei estavam sentadas no sofá da casa nova, assistindo um filme juntas e comendo pipoca. Depois de quase 1 ano de transição, reformas, adaptações, pode se dizer que suas vidas estavam muito melhores do que jamais foram.
Porém, um único pensamento ficava na mente de Sora.
Onde quer que Carlos esteja, ela iria encontra-lo e mata-lo.
FIM
Fale com o autor