Light at the End of the World
2 Frete noturno
No dia seguinte, o movimento da praça de alimentação do Starcourt Mall voltou a se espalhar diante da Scoops Ahoy. Pessoas passaram pelas mesas carregando sacolas, bandejas e copos coloridos, enquanto conversas, música ambiente e o ruído das lojas se misturaram sob as luzes do shopping.
Dentro da sorveteria, Robin aproveitou um intervalo entre os pedidos para se afastar do caixa. Ficou junto ao balcão dos fundos, com um livro aberto entre as mãos e os fones de ouvido cobrindo as orelhas. O uniforme azul-marinho e listrado continuou acompanhado pelo lenço vermelho e pela gola branca larga, mas o pequeno chapéu de marinheiro ficou abandonado em algum lugar fora de vista.
Ela virou uma página sem perceber a chegada das quatro meninas.
Erica Sinclair parou diante do caixa, acompanhada pelas amigas. Usava uma camisa xadrez em tons pastéis sob um macacão claro, com as alças de uma mochila rosa presas aos ombros. Duas das garotas se alinharam atrás dela, enquanto a menor se aproximou da vitrine refrigerada e pressionou o rosto contra o vidro para observar os recipientes de sorvete.
Erica acompanhou Robin por alguns instantes, pressionando o sino de atendimento repetida vezes sem constrangimento até que o som ultrapassasse a gravação nos fones de ouvido e chamasse atenção de Robin.
Robin levantou os olhos do livro.
Encarou Erica e as outras meninas, reconhecendo imediatamente o grupo que já havia passado tempo demais diante do balcão sem comprar nada. Fechou o livro, deixou-o sobre a superfície atrás de si e retirou os fones das orelhas e os acomodou ao redor do pescoço. Depois se virou completamente e se apoiou no balcão atrás dela, com as mãos descansando sobre a borda.
Erica abriu um sorriso educado demais para esconder a satisfação.
— Eu gostaria de provar o de chocolate com manteiga de amendoim, por favor.
— Não. Chega de amostras por hoje.
O sorriso de Erica permaneceu no lugar, embora uma pequena incredulidade surgisse no rosto.
— Por quê?
— Porque vocês estão abusando da política da empresa.
A amiga à esquerda de Erica observou Robin por cima do caixa, sem esconder a irritação. A garota junto à vitrine continuou olhando para os sorvetes através do vidro, aparentemente mais interessada nas opções disponíveis do que na discussão.
Erica inclinou a cabeça, como se Robin tivesse acabado de acusá-la de uma infração inventada apenas para aquela ocasião.
Ela olhou ao redor do interior da sorveteria e voltou a atenção para Robin.
— Onde está o marinheiro?
Um sorriso curto apareceu no rosto de Robin.
— Desculpe, ele não pode ajudar vocês. Está ocupado.
Erica estreitou os olhos.
— Ocupado com o quê?
Um sorriso discreto apareceu no rosto de Robin.
— Espionagem.
Em outra parte da praça de alimentação, Steve e Dustin estavam agachados atrás de um conjunto de vasos grandes.
As folhas largas das plantas esconderam parte dos dois, embora o uniforme azul e vermelho da Scoops Ahoy dificultasse qualquer tentativa real de Steve se misturar ao ambiente. Ele manteve um binóculo diante dos olhos e observou o movimento do shopping através dos espaços entre as folhas.
Dustin permaneceu ao lado dele, abaixado o suficiente para não ultrapassar o topo do vaso. O boné verde e amarelo do Acampamento Know Where continuou preso sobre os cabelos cacheados, enquanto o olhar acompanhava a direção do binóculo nas mãos de Steve.
Pessoas atravessaram o campo de visão em todas as direções. Funcionários carregaram bandejas entre as mesas, famílias caminharam pelos corredores e grupos de adolescentes se reuniram diante das lojas.
— Está vendo alguma coisa? — Dustin perguntou.
Steve moveu lentamente o aparelho de um lado para o outro. Pessoas atravessaram seu campo de visão, surgindo e desaparecendo entre folhas, mesas e colunas.
— Eu acho que não sei exatamente o que estou procurando.
Dustin virou o rosto para ele.
— Russos malignos.
Steve não afastou os binóculos.
— É, exatamente. Eu não sei como é a aparência de um russo maligno.
Dustin respondeu como se a descrição fosse óbvia.
— Alto, loiro e sem sorrir.
— Aham?
— Procure também por fones de ouvido, roupas camufladas, bolsas de lona, esse tipo de coisa.
Steve assentiu lentamente.
— Certo. Entendi. Bolsas de lona.
Continuou examinando o movimento do shopping.
Dois homens sentados diante de uma mesa atravessaram seu campo de visão. Steve passou por eles sem parar. Outros clientes surgiram em seguida, parcialmente escondidos pelas folhas ou pelo trânsito constante da praça de alimentação.
Então os binóculos subiram em direção ao piso superior.
Steve interrompeu o movimento.
Do outro lado das lentes, Anna Jacobi conversava com Mark Lewinsky diante da Activewear Outlet. Lewinsky segurou os braços dela enquanto os dois permaneceram próximos demais para que a conversa parecesse casual.
— Não pode ser.
Dustin virou o rosto para ele.
— O quê?
Steve continuou observando o casal.
— Anna Jacobi está conversando com aquele imbecil do Mark Lewinsky.
Dustin franziu a testa.
— Se você não vai se concentrar, me dá o binóculo.
Steve ignorou o pedido.
Continuou observando o casal, visivelmente ofendido por uma situação que não tinha qualquer relação com a transmissão russa.
— Jesus Cristo. O que aconteceu com os padrões?
Lewinsky gesticulou exageradamente enquanto falava com Anna.
Steve acompanhou o movimento com a boca entreaberta.
— O Lewinsky nunca nem saiu do banco de reservas.
Dustin encarou-o por alguns segundos.
— Cara, você é o pior espião da história. Sabia disso?
Estendeu a mão para o binóculo.
Steve afastou o objeto.
— Para. Ei. Para.
Dustin segurou a alça.
— Me dá isso.
Os dois puxaram o binóculo em direções opostas, escondidos de maneira cada vez menos convincente entre as plantas. Steve tentou preservar o controle por mais alguns segundos, mas Dustin conseguiu arrancá-lo das mãos dele.
Steve permaneceu ao lado, ainda contrariado pela perda do equipamento.
O garoto ajustou a distância entre as lentes e voltou a observar a praça de alimentação.
— Eu não entendo por que você fica olhando para outras garotas — comentou sem baixar o binóculo. — Tem uma perfeita bem na sua frente.
Steve virou o rosto devagar.
— Sério, se você disser Robin outra vez...
— Robin.
— Não. Não faça isso.
Dustin manteve as lentes diante dos olhos.
— Robin, Robin, Robin.
Steve gesticulou diante dele, tentando interromper a provocação.
— Pare. Não, não, não.
— Robin. Robin.
Steve inclinou-se em sua direção.
— Não, cara. Ela não faz o meu tipo.
Dustin continuou observando o movimento do shopping.
— Ela nem sequer...
Steve ergueu uma das mãos e completou com firmeza:
— Ela não chega nem perto do que é o meu tipo, está bem?
Dustin baixou o binóculo apenas o suficiente para olhar para ele.
— Qual é mesmo o seu tipo? Alguém que não seja incrível?
Steve respondeu ironicamente a provocação com um sorriso de satisfação fingida.
— Obrigado.
Dustin soltou um breve som de confirmação e voltou a olhar pelas lentes.
Steve percebeu o que ele quis dizer. A expressão satisfeita desapareceu.
— Para sua informação, ela ainda está no colégio. E ela é estranha.
Dustin continuou a busca sem demonstrar qualquer impacto.
Steve enumerou os problemas verbalmente, como se organizasse uma lista perfeitamente razoável.
— Ela é uma esquisita. E é hiperativa.
Fez uma pequena pausa, como se a característica exigisse uma avaliação própria.
— Eu não gosto que ela seja hiperativa.
Dustin moveu o binóculo para outro ponto da praça de alimentação.
— E ela fez teatro — Steve continuou. — Isso pega mal.
Ele pareceu se lembrar de mais alguma coisa e acrescentou, com o mesmo peso das objeções anteriores:
— E toca numa banda? — Perguntou retoricamente antes de adicionar a própria resposta balançando a cabeça negativamente. — Não.
Dustin finalmente afastou o binóculo do rosto.
Por alguns segundos, apenas observou Steve, como se esperasse que ele próprio escutasse o absurdo da lista que acabou de apresentar.
— Certo. E a outra garota incrível e bonita que apareceu bem na sua frente?
Steve franziu a testa, mas entendeu a referência antes que Dustin precisasse dizer o nome.
— A Wolf? Não.
A resposta saiu rápida demais para parecer resultado de qualquer reflexão.
Steve voltou a gesticular, agora iniciando uma segunda lista.
— Ela também é outra esquisita. Também toca. — Steve continuou. — E é mais velha. Não.
Steve sustentou o olhar como se as três razões encerrassem completamente o assunto.
Dustin continuou encarando-o.
A repetição das mesmas objeções pareceu confirmar exatamente o que ele pretendia demonstrar.
— Agora que você saiu do ensino médio, o que significa que tecnicamente é um adulto, não acha que está na hora de superar construções primitivas como popularidade?
Steve franziu a testa.
— Construções primitivas?
Dustin colocou novamente o binóculo diante dos olhos.
— Isso é alguma porcaria idiota que você aprendeu no Acampamento... — Steve moveu uma das mãos no ar, tentando encontrar o nome. — Saber... Nada?
Dustin afastou os binóculos e corrigiu imediatamente:
— Acampamento do Saber, na verdade.
Dustin continuou antes que ele respondesse.
— E não. É uma porcaria que aprendi com a vida.
Steve desviou os olhos para o movimento do shopping.
Dustin continuou.
— Em vez de sair com alguém pra parecer descolado, por que não sai com alguém com quem gosta de estar?
Ele gesticulou com a mão livre entre os dois.
— Como eu e Suzie.
Steve desviou os olhos para Dustin.
— Ah, a Suzie.
Steve assentiu lentamente, fingindo compreender de forma provocativa.
— Você quer dizer a garota mais gata que a Phoebe Cates. — Steve continuou. — É. Essa Suzie.
Dustin tornou a observar a praça de alimentação.
Steve permaneceu quieto por alguns segundos.
Então levou a mão até a lateral da cabeça e tocou a própria têmpora com o indicador.
— E vamos pensar um pouco. Como, exatamente, você conseguiu conquistar essa namorada linda?
Dustin continuou olhando através das lentes.
Steve não esperou pela resposta.
— Ah, é. Com os meus conselhos.
Dustin não respondeu.
Steve apontou para ele.
— Porque é assim que isso funciona, Henderson. Eu dou os conselhos e você coloca em prática.
Depois apontou para si mesmo.
— Não o contrário, certo, cérebro de ervilha?
Dustin não respondeu. Apenas abaixou o binóculo e lançou um olhar indignado para ele, enquanto Steve permaneceu agachado ao lado dele, convencido de que havia encerrado a discussão.
A indignação de Dustin durou apenas alguns segundos.
Ele voltou a erguer o binóculo e retomou a busca entre as pessoas que atravessavam a praça de alimentação, deixando Steve ao lado das plantas com a satisfação de quem acreditava ter encerrado a discussão. As lentes percorreram o corredor, passaram por grupos de adolescentes, famílias carregadas de sacolas e funcionários das lojas até encontrarem uma figura que se destacava no meio das cores vibrantes do Starcourt.
Dustin interrompeu o movimento.
Um homem alto caminhava pelo piso superior, avançando contra o fluxo de pessoas sem olhar para os lados. Os cabelos loiros caíam até os ombros, óculos escuros escondiam os olhos e nenhuma expressão atravessava o rosto sério. Vestia preto da cabeça aos pés e carregava sobre um dos ombros uma bolsa de lona azul grande o bastante para acomodar muito mais do que roupas.
A boca de Dustin se abriu.
— Alvo adquirido.
Steve se virou imediatamente.
— Onde?
Dustin não afastou o binóculo.
— Dez horas. Em frente à Sam Goody’s.
Steve se aproximou das folhas e tentou acompanhar a direção indicada, mas o movimento constante do shopping tornou impossível distinguir o suspeito entre as pessoas.
— Me dá isso.
Arrancou o binóculo das mãos de Dustin e o levou aos olhos.
Levou apenas um instante para encontrá-lo.
O homem loiro continuou caminhando com a mesma postura rígida, os óculos escuros presos ao rosto apesar das luzes internas do shopping. A bolsa de lona balançou contra as costas dele a cada passo.
Steve ficou imóvel.
— Merda.
A atenção de Dustin se intensificou.
Steve ajustou o foco.
— Bolsa de lona.
Os dois se entreolharam.
— Russo maligno — disseram ao mesmo tempo.
Steve se levantou depressa demais, empurrando uma das folhas para o lado e quase expondo o corpo inteiro acima dos vasos. Dustin saiu logo atrás dele, recuperando o equilíbrio enquanto os dois abandonavam o esconderijo improvisado.
O homem loiro já se afastava pelo corredor.
Eles avançaram entre as mesas, desviando de pessoas com bandejas, crianças e sacolas que surgiam no caminho. Steve manteve os olhos presos à bolsa azul, usando a altura para acompanhar o suspeito acima da multidão, enquanto Dustin precisou acelerar os passos para não ficar para trás.
— Devagar — Dustin pediu.
Steve não diminuiu.
— Estamos perdendo ele.
O homem dobrou um corredor.
Steve e Dustin fizeram o mesmo alguns segundos depois, quase colidindo com duas garotas que saíam de uma loja. Steve contornou as duas sem se desculpar, procurando novamente pelos cabelos loiros e pela bolsa azul até localizá-los adiante.
O suspeito entrou numa loja.
Steve puxou Dustin para perto da parede antes que fossem vistos. Os dois se esconderam ao lado da entrada e espiaram o interior aos poucos, primeiro Dustin e depois Steve, com os rostos surgindo um acima do outro.
O letreiro colorido da Jazzercise ocupou a parede acima da fachada aberta. Lá dentro, mulheres usando collants, polainas e faixas de cabelo se distribuíram sobre tapetes em tons vivos. Algumas permaneceram sentadas, alongando as pernas, enquanto outras se levantaram ao som da música animada que preenchia o espaço.
O homem loiro atravessou o salão.
A bolsa de lona caiu no chão perto da parede.
Ele retirou os óculos escuros, posicionou-se diante da turma e ergueu os braços acima da cabeça. As mulheres acompanharam o movimento quando ele iniciou uma sequência de alongamentos, conduzindo a aula com a segurança de quem repetia aquela rotina todos os dias.
Steve e Dustin permaneceram escondidos junto à entrada.
Dustin encarou o instrutor.
A incredulidade dominou seu rosto enquanto todas as características que formaram o suspeito perfeito se desmontaram diante dele. O homem alto, loiro, sério e carregando uma bolsa de lona não era um agente russo infiltrado. Era apenas um professor de exercícios trazendo um grande aparelho de som dentro da mala.
Steve, por outro lado, deixou de observar o instrutor quase imediatamente.
O olhar dele percorreu a turma conforme as mulheres começaram a se movimentar ao ritmo da música. A decepção pela investigação fracassada perdeu espaço para um interesse muito mais contemplativo, e ele inclinou um pouco mais o corpo para fora da parede.
Dustin percebeu.
Virou o rosto na direção dele e encontrou Steve acompanhando os movimentos da aula com a boca ligeiramente aberta.
A expressão de Dustin se fechou.
Steve não demonstrou qualquer pressa em ir embora.
Nos fundos da Scoops Ahoy, Robin permaneceu sentada sobre uma das superfícies próximas à parede, com o caderno apoiado sobre as pernas. O copo azul e branco da sorveteria ficou preso em uma das mãos, enquanto o dicionário russo-inglês e as páginas cobertas por anotações se espalharam ao redor dela.
A voz gravada já havia sido traduzida, mas as frases continuavam sem oferecer qualquer sentido imediato. Robin percorreu as palavras com o olhar, tentando encontrar uma estrutura escondida sob a combinação aparentemente aleatória de imagens.
Leu em voz baixa:
— O gato prateado se alimenta quando o azul encontra o amarelo no oeste.
Os olhos passaram para a linha seguinte.
— Uma viagem à China parece interessante se você andar discretamente.
Robin franziu a testa.
Repetiu o final mais devagar.
— Andar discretamente...
Deixou o copo ao lado do corpo e pegou o dicionário. As páginas viraram depressa sob os dedos enquanto ela conferia mais uma vez os significados, embora já soubesse que o problema não estava na tradução. As palavras estavam certas. Era a mensagem que parecia construída para não dizer nada.
Robin voltou ao caderno e bateu a ponta do dedo sobre a última frase.
Um som seco veio da porta dos fundos.
Ela interrompeu o movimento.
Outra batida atravessou o pequeno cômodo.
Robin fechou o dicionário, deixou o caderno sobre a superfície e saltou para o chão. Caminhou pelo fundo da loja até a porta de serviço, afastou a trava e abriu.
Um entregador esperava do outro lado.
O homem usava uniforme escuro, acompanhado por um boné preto e uma identificação vermelha sobre o peito. Atrás dele, o corredor de serviço seguia vazio sob a iluminação fria, separado das cores, da música e do movimento da praça de alimentação.
— Entrega para você.
Robin recebeu a encomenda.
— Obrigada.
O homem recuou um passo.
— Tenha um bom dia.
— É, você também.
O olhar dela passou pelo uniforme dele sem interesse, inicialmente, mas retornou antes que ele se afastasse completamente.
As letras vermelhas impressas no boné e sobre o peito formavam o mesmo nome.
LYNX TRANSPORTATION.
O olhar de Robin ficou fixo nas palavras.
O entregador se afastou pelo corredor, sem perceber que ela continuava observando.
O nome se repetiu dentro da cabeça dela. Não era apenas o nome de uma transportadora. Era um animal. Um felino de pelagem clara, quase prateada.
Os olhos de Robin se arregalaram.
— Gato prateado. — Ela murmurou.
Steve e Dustin retornavam à Scoops Ahoy naquele momento.
Caminhavam lado a lado entre as pessoas, embora Dustin avançasse alguns passos à frente, ainda ofendido com o resultado da perseguição. Steve seguia atrás dele, sem demonstrar a mesma frustração depois dos minutos que passou observando a aula.
— Você não vai acreditar em quem o Dustin achou que era russo — Steve anunciou para ninguém em particular, como se já preparasse a história que contaria ao chegar à sorveteria.
Dustin virou a cabeça sem parar de andar.
— Você também achou.
— Não, eu não achei.
— Achou, sim.
— Não achei.
A entrada da Scoops Ahoy apareceu adiante.
Alguém esperava diante do balcão vazio.
Wolf permaneceu próxima à abertura da sorveteria, com as duas mãos guardadas nos bolsos da jaqueta de couro. A trança escura descia pelas costas, quase imóvel apesar do movimento dela. Ela observava o interior da loja, aparentemente tentando decidir se deveria esperar mais alguns minutos ou simplesmente ir embora.
Dustin reconheceu-a antes de Steve.
A irritação desapareceu do rosto dele.
— Ei, Wolf. Você voltou!
Wolf se virou imediatamente ao ouvir a voz familiar.
Uma risada breve escapou antes que ela retirasse uma das mãos do bolso e fizesse um cumprimento pequeno na direção dos dois.
— Não consegui pregar os olhos esta noite. Minha cabeça ficou presa naquela mensagem. Não consegui fazer mais nada.
Dustin abriu um sorriso, satisfeito demais com o retorno dela para disfarçar.
Steve, porém, diminuiu os passos, parando diante dela e lançando um olhar rápido para o interior vazio da sorveteria antes de voltar a encará-la.
— Você não tem algum tipo de trabalho?
O tom pareceu casual, mas havia satisfação suficiente na pergunta para denunciar que ele acreditava ter encontrado uma falha na rotina adulta de Wolf. Ela havia passado a noite pensando numa transmissão russa e retornado ao shopping no meio da tarde, enquanto pessoas comuns, na lógica de Steve, deveriam estar ocupadas com responsabilidades reais.
Wolf não desviou o olhar.
A outra mão permaneceu dentro do bolso da jaqueta. Ela inclinou ligeiramente a cabeça, absorvendo a provocação sem demonstrar qualquer incômodo.
— Eu trabalho de casa. Compondo.
Fez uma pausa curta.
— A hora que eu quiser.
Uma das sobrancelhas se ergueu.
O sorriso que apareceu em seguida foi pequeno, mas convencido o bastante para completar a resposta sem precisar mencionar o uniforme de marinheiro.
Steve fez uma careta. Um som abafado preso entre a garganta e os lábios acompanhou o gesto. Ele desviou os olhos por um instante, claramente insatisfeito com o resultado da própria provocação.
Dustin observou os dois, o sorriso dele só aumentou.
Antes que pudesse comentar, passos rápidos atravessaram a passagem lateral da Scoops Ahoy.
Robin surgiu no corredor e passou pelos três quase correndo. O cabelo se moveu junto ao rosto e a atenção permaneceu presa a alguma coisa que apenas ela conseguia enxergar naquele momento.
— Gato prateado — murmurou.
Steve virou-se para acompanhá-la.
— Robin?
Ela não parou.
Atravessou o movimento da praça de alimentação e seguiu pelo corredor do Starcourt, desviando das pessoas enquanto procurava algo entre as lojas e os letreiros.
Os três se entreolharam.
Wolf retirou finalmente a outra mão do bolso e acompanhou Robin com os olhos até que ela desaparecesse no meio da multidão.
Nenhum dos três recebeu qualquer explicação.
Steve foi o primeiro a se mover.
Atravessou a entrada da Scoops Ahoy com Dustin logo ao lado, os dois seguindo Robin entre as pessoas da praça de alimentação. Wolf foi atrás deles num passo mais contido, sem pressa aparente, mas sem perder o pequeno grupo de vista. À frente, Robin cortava o corredor como se tivesse deixado de enxergar qualquer coisa que não fossem as palavras girando dentro da própria cabeça.
Ela segurava o caderno contra o corpo e repetia a frase em voz baixa, como se precisasse ouvi-la outra vez para mantê-la inteira.
— Uma viagem à China parece interessante...
Desviou de uma mulher com bandeja, passou por um casal parado diante de um mapa do shopping e continuou até a área central da praça de alimentação. Então subiu num dos bancos ao lado do canteiro, ganhando altura suficiente para olhar por cima das pessoas e das folhas largas das plantas ornamentais.
Steve diminuiu os passos.
Dustin quase esbarrou nele antes de parar também.
Wolf ficou um pouco atrás dos dois, observando Robin no alto do banco, com o rosto já tomado por aquela concentração febril que não tinha nada a ver com o trabalho entediante na sorveteria.
Robin girou devagar, os olhos correndo pelas fachadas, pelos letreiros luminosos e pelo piso superior.
— Uma viagem à China parece interessante... — repetiu, agora mais firme.
O olhar travou de repente num ponto da praça de alimentação.
Do outro lado, o letreiro do Imperial Panda brilhava em vermelho e violeta acima do balcão do restaurante. Entre as palavras, a figura de um panda segurando um galho completava a fachada. Robin ficou imóvel por um segundo.
Os olhos saltaram imediatamente para a linha seguinte das anotações.
— Se você andar discretamente...
A testa se franziu de novo, mas só por um instante. Robin ergueu o rosto, buscando em volta alguma coisa que se encaixasse na frase. O olhar subiu até o piso superior e encontrou o letreiro de Kaufman Shoes recortado em letras douradas na madeira da fachada. A palavra bastou.
Andar discretamente.
A boca dela se abriu num pequeno sobressalto.
— Meu Deus...
Dustin lançou um olhar rápido para Steve.
Steve não entendeu nada.
Robin mal percebeu a aproximação dos três. Continuou girando no banco, agora procurando a última parte da mensagem. O caderno tremia um pouco entre os dedos.
— Quando o azul encontra o amarelo no oeste...
Ela repetiu a frase mais devagar, acompanhando com o olhar a extensão da praça de alimentação até o lado oeste do shopping.
Então encontrou.
Na parede elevada do átrio, um grande relógio redondo se destacava sob a janela arqueada. O mostrador verde-claro parecia simples à primeira vista, mas os ponteiros saltavam aos olhos. Um era azul. O outro, amarelo. E, daquele ponto do shopping, os dois se encontravam exatamente no lado leste.
Robin ficou paralisada por um instante.
Depois os olhos se arregalaram de vez.
A expressão inteira se iluminou com a violência repentina de quem finalmente via a figura escondida no meio do quebra-cabeça.
Steve ficou diante dela.
— O que você está fazendo?
Robin virou o rosto para os três ainda em cima do banco.
Havia um brilho quase incrédulo nos olhos dela, como se mal conseguisse acreditar que a resposta estava ali o tempo todo, espalhada pelo shopping inteiro.
— Eu decifrei.
Steve piscou.
— Decifrou o quê?
Robin desceu do banco sem tirar os olhos deles.
Um sorriso curto, elétrico, apareceu no rosto dela.
— O código.
Dustin endireitou o corpo imediatamente. Steve continuou sem entender, mas o tom dela foi suficiente para apagar qualquer resquício da discussão anterior. Wolf, logo atrás, estreitou levemente os olhos, já ansiando mentalmente pela descoberta de Robin.
Horas depois, a chuva caiu com força sobre o Starcourt Mall.
A água atravessou a escuridão em linhas inclinadas, atingiu o telhado e escorreu pela mureta que cercava a área elevada sobre o cais de carga. Abaixo, lâmpadas externas lançaram uma luz amarelada sobre o concreto molhado, as portas metálicas e as pilhas de paletes distribuídas ao redor da doca.
No interior do shopping, os ponteiros azul e amarelo do grande relógio se encontraram no lado oeste.
Um caminhão da Lynx Transportation entrou no cais de carga.
No telhado, quatro cabeças surgiram com cautela acima da mureta.
Wolf ocupou a extremidade esquerda, seguida por Dustin, Steve e Robin. Os três mais novos estavam protegidos por capas de chuva improvisadas sobre as roupas. Robin vestia uma capa vermelha por cima do uniforme da Scoops Ahoy, Steve usava uma jaqueta clara e Dustin havia puxado o capuz escuro sobre o boné do Acampamento Know Where.
Wolf não carregava nada parecido.
A jaqueta de couro ficou encharcada em poucos minutos. A água escorreu pelos ombros, percorreu as mangas e pingou do queixo, enquanto a trança pesada permaneceu colada às costas. Ela manteve o corpo abaixado atrás da mureta e ignorou o desconforto, com os olhos presos ao movimento abaixo.
Dustin ergueu o binóculo.
Através das lentes, encontrou o funcionário da Lynx que assobiava enquanto empurrava um carrinho carregado de caixas. Dois homens vestidos de preto aguardavam próximos às portas. Um deles era alto e calvo. Ambos carregavam rifles.
Robin se inclinou um pouco na direção de Dustin, sem levantar a voz acima do ruído da chuva.
— Procure pelo Imperial Panda e pela Kaufman Shoes.
Dustin moveu o binóculo.
As caixas empilhadas no carrinho passaram pelo campo de visão. Algumas carregavam o desenho de um panda e o nome do restaurante chinês. Outras tinham Kaufman Shoes impresso nas laterais.
— Estão com aquele cara que estava assobiando — murmurou. — Dez horas.
Wolf estreitou os olhos.
As embalagens confirmaram as referências encontradas por Robin, mas foram os homens armados que mudaram completamente o peso da descoberta. Um deles falou alguma coisa em russo para o outro. A resposta veio no mesmo idioma, curta e profissional.
Wolf compreendeu as palavras entrecortadas pela chuva.
A expressão dela se fechou.
Aquilo não se parecia mais com uma transmissão estranha interceptada por acaso nem com uma investigação improvisada dentro de um shopping. Havia uma entrega organizada, acesso restrito e homens com armas automáticas protegendo a operação.
Steve se aproximou de Dustin para tentar enxergar melhor.
— O que você acha que tem aí dentro?
Dustin continuou acompanhando o carrinho.
— Armas? Bombas?
Robin observou as caixas de onde estava.
— Armas químicas?
Dustin deslocou o binóculo até o segurança calvo, que manteve o rifle apoiado diante do corpo enquanto vigiava a doca.
— Seja lá o que for, eles estão armados até os dentes.
Steve fechou os olhos por um instante e passou a mão molhada pelo rosto.
— Ótimo.
A chuva continuou batendo contra a mureta.
— Isso é ótimo — completou.
O entregador empurrou o carrinho até as portas metálicas. Um dos homens retirou um cartão, passou-o por um leitor instalado ao lado da entrada e aguardou a luz mudar. As portas se abriram, revelando um corredor iluminado atrás delas.
O carrinho desapareceu no interior.
Dustin ajustou novamente o foco, tentando acompanhar o movimento através da abertura.
— Ei, o que tem lá dentro? — Steve perguntou.
— Só mais caixas.
Steve estendeu a mão.
— Deixa eu conferir.
Dustin afastou o binóculo.
— Não. Eu ainda estou olhando.
— Deixa eu ver.
Steve segurou uma das laterais do aparelho.
Dustin puxou de volta.
Wolf virou imediatamente para os dois.
— Ei.
Lançou um olhar rápido para o cais.
Os guardas continuavam em suas posições.
Ela voltou a encará-los quando Steve tentou puxar o binóculo outra vez.
— Ei. Ei. Parem com isso!
A voz saiu num sussurro firme, comprimido entre os dentes.
Dustin prendeu o binóculo contra o rosto.
— Espera!
Steve tornou a puxá-lo.
Wolf olhou outra vez para os homens abaixo.
Um deles se moveu perto da porta.
Quando ela voltou o rosto, a alça do binóculo já havia escapado das mãos de Dustin. O aparelho bateu contra a borda da mureta e caiu para o outro lado.
O ruído atravessou o cais.
Os quatro congelaram.
O segurança calvo virou a cabeça na direção do som.
— Abaixem! — Robin sussurrou.
Todos desapareceram atrás da mureta.
Wolf se encolheu ao lado de Dustin, mantendo a cabeça baixa. Steve caiu entre ele e Robin, e o movimento fez a mão dele encontrar a dela no concreto molhado. Os dedos dos dois se fecharam por reflexo.
Steve olhou para as mãos unidas.
Robin também percebeu.
Eles se soltaram quase imediatamente.
Wolf não viu. Ela acompanhava os sons do cais, imóvel, enquanto a chuva escorria pelos cabelos e atravessava a gola da jaqueta.
Abaixo deles, os homens falaram novamente em russo.
Um recebeu a ordem de permanecer onde estava e vigiar a porta. O outro segurou o rifle com as duas mãos e seguiu em direção à entrada que levava ao telhado.
Passos desapareceram dentro do prédio.
Robin ergueu os olhos.
Steve respirou pela boca, tentando não produzir som.
Dustin permaneceu comprimido contra a parede, com o rosto parcialmente escondido pelo capuz molhado.
Wolf voltou o olhar para a porta de acesso no outro lado do telhado.
Ela não precisou dizer nada.
Os quatro começaram a recuar agachados, afastando-se da mureta antes que o homem chegasse. Correram até a entrada de serviço, atravessaram a porta e a fecharam atrás de si sem permitir que ela batesse.
Segundos depois, o guarda russo surgiu no telhado vazio.
Ele parou sob a chuva, apontou o rifle para os cantos escuros e avançou alguns passos, procurando qualquer sinal de quem havia feito o barulho.
No interior do Starcourt, Wolf, Dustin, Steve e Robin atravessaram o corredor de serviço.
A água escorreu das roupas dos quatro e deixou um rastro irregular pelo piso. Robin retirou o capuz vermelho enquanto andava, respirando depressa. Steve passou a mão pelos cabelos encharcados e olhou para trás, embora a porta de acesso já tivesse desaparecido depois da curva.
Dustin soltou o ar que parecia ter prendido desde o telhado.
Somente então diminuíram os passos.
Robin se virou para os outros.
A respiração ainda estava descompassada, mas um sorriso surgiu no rosto dela, impossível de conter. Os olhos permaneceram arregalados, acesos pela adrenalina e pela satisfação de quem havia seguido uma sequência de palavras absurdas até encontrar uma entrega clandestina escondida dentro do shopping.
— Bom, acho que encontramos seus russos.
Dustin encarou-a por um instante.
A tensão no rosto dele cedeu espaço para uma incredulidade quase entusiasmada. Desde que interceptara a transmissão, tentava convencer os outros de que havia alguma coisa real por trás daquela voz. Agora existiam caixas, portas protegidas e homens falando russo para provar que ele estava certo.
Steve ainda recuperava o fôlego. Olhou para Robin, depois para Dustin, como se tentasse reorganizar tudo o que acabara de testemunhar numa explicação que fizesse algum sentido.
Wolf foi a última a parar.
A água escorreu das pontas da trança e atravessou a gola da jaqueta. Ela observou por um momento o brilho no rosto de Robin. Reconheceu a satisfação da descoberta, a excitação de ter montado cada peça e encontrado a resposta escondida diante deles.
Mas não conseguiu compartilhá-la.
O olhar de Wolf voltou para o corredor atrás do grupo.
As imagens do cais ainda estavam nítidas: os rifles presos às mãos dos homens, o cartão que abriu as portas, as caixas empilhadas e as ordens trocadas em russo com a naturalidade de uma operação repetida muitas vezes.
Quando voltou a encarar os três, a leveza das provocações daquela tarde havia desaparecido completamente. A voz saiu baixa e controlada, mais séria do que alarmada.
— Isso aqui está muito além de uma baderna comum de adolescentes.
Por alguns segundos, nenhum deles falou. O ruído distante da chuva atravessou as paredes do corredor, acompanhado pelo eco abafado de alguma porta metálica fechando atrás deles.
Fale com o autor