Light and Dark - INTERATIVA
2 Dois
Notas iniciais
Embora a rainha tentasse esconder sua surpresa (que estava mais para um desapontamento), seus filhos a conheciam. Mas, acima disso, seu marido a conhecia melhor do que ninguém. Enquanto as princesas e o príncipe tinham suas costas tão eretas quanto o possível, segurando o ar e esperando a fala da mulher que andava para frente e para trás pelos últimos vinte minutos, o rei Reuben tinha a testa apoiada nos dedos, esperando as ações drásticas que ele sabia Palome iria ter, sabendo que teria que aguentá-la depois tentando arrumá-las. Finalmente, então, ela parou e deu um pequeno sorriso, como que parabenizando a si mesma por ter chegado a uma conclusão. Virou para seus filhos e respirou fundo.
— Está tudo bem. Vamos seguir com todos nossos planos. Jonah começará a se preparar para os Processos, Harmony e Irene continuarão com suas aulas normalmente, e Annabel... – ela fez uma pausa. A rainha nunca admitiria, mas ela não esperava designar qualquer coisa para sua filha mais velha que não a coroa. – Annabel vai se casar com Edmund.
Foi como se a princesa tivesse tomado um tapa. Até sua postura corporal falhou por um instante, como se tivesse sido atingida em cheio. Edmund. O arquiduque possessivo e mimado que ela nunca considerou se casar, pois, embora ela tentasse ser o mais racional possível, secretamente, ele sempre dissera a si mesma que seria rainha, e ficaria tudo bem. Mas aqui estamos, e ela não era rainha, e não estava tudo bem.
Annabel engoliu em seco e assentiu com a cabeça. Nem Reuben sabia como arrumar isso.
♔
Jonah já tinha ido ao Centro de Equilíbrio um milhão de vezes, mas nunca havia passado pelos corredores onde estava agora. O Centro de Equilíbrio era um prédio gigantesco de pedra cinza, onde todas as decisões importantes de Mesgasch eram feitas, e o príncipe conheciam todos – ou quase todos – os corredores e salas daquele lugar. Menos aquele lugar onde estava agora. A Ala do Conselho. Só os Conselheiros – políticos eleitos de cada uma das províncias –, o rei e a rainha podiam entrar ali.
Quando finalmente Jonah, Palome e Reuben adentraram a Sala de Conselhos, todos os presentes se viraram para eles e fizeram uma reverência e rapidamente tomaram seus lugares, sem antes lançarem os mais variados olhares para o príncipe.
No centro da grande sala estava uma mesa de pedra cinza, com duas versões extremamente simples dos tronos reais – os lugares do rei e da rainha, e, com uma terceira cadeira que tinha os braços lembrando o trono de Jonah, um lugar para o príncipe. Ao lado direito do assento do rei estavam seis cadeiras brancas onde os conselheiros de Lightland sentavam, e, igualmente dispostas ao lado esquerdo da cadeira da rainha, estavam seis cadeiras negras para os conselheiros de Darkand.
Depois de um silêncio desconfortável, o rei tomou a palavra.
— Bom, temos certas coisas a que tratar hoje – disse, colocando seus óculos de leitura enquanto lia o que Jonah deduziu ser uma lista de decisões a serem tomadas de um tablete fino como vidro. – Srta. Tamno, como anda seu projeto de comércio.
Jonah se permitiu ficar orgulhoso de si mesmo por saber do que o pai estava falando. Cola Tamno, a conselheira de Cahya, a província com mais comércio marítimo de Mesgasch, tinha proposto diversas mudanças no relacionamento com o continente para amentar os ganhos do Reino.
— Bom, creio ser cedo para termos um relatório consistente – Jonah viu, pelo canto do olho, Keren Valgus revirar os olhos diante das palavras difíceis usadas por Cola, e o príncipe quase não conseguiu segurar o riso. – Mas nosso aumento de lucro não esconde a eficiência do projeto.
Jonah fez seu melhor para prestar atenção em toda aquela chatice, e ele quase começou a dançar quando a reunião acabou. Não fazia a menor ideia de como faria essas reuniões regularmente sem tentar pular do todo do Centro de Equilíbrio.
O príncipe terminou de recolher suas coisas da mesa e se juntou a seus pais, que conversavam com um rapaz vestido um terno negro. Sam Mjörk, o Conselheiro mais novo que Mesgasch tinha em anos. Muitos – principalmente as irmãs Valgus – não o levavam a sério, mas o rei e a rainha sempre comentavam o quando brilhante Sam era.
—... e as plantações têm estado muito... Ah, Jonah! Esse é Sam Mjörk, você se lembrar dele.
— Lembro sim. –Com um sorriso no rosto, Jonah apertou a mão do rapaz. Sam era poucos anos mais velhos que o príncipe e era uma das poucas pessoas decentes no Conselho.
O rei Reuben voltou-se novamente para o Conselheiro.
— Perdoe-nos, Sam, mas temos várias coisas para resolver, com os Processos começando. Incomoda-se de continuarmos essa conversa depois?
— De forma alguma, Vossa Majestade. Minha casa está sempre aberta — Sam abriu um sorriso charmoso, não que ele tivesse outro.
— Na verdade –a rainha começou – esse é um assunto de certa forma urgente. Por que não comparece ao Palácio hoje? Podemos conversar no escritório.
— Acho uma ótima ideia, Vossa Majestade.
♔
Jonah sentia como se fosse morrer. Os milhares de preparativos para os Festivais não haviam sido o problema, e sim as milhares de entrevistas. Essa era uma das pouquíssimas vezes que ele poderia dar entrevistas que não fosse no Jornal Oficial, e todas as revistas estavam desesperadas por uma palavra sobre A Seleção.
Ele estava prestes a sair para os Jardins Principais, quando deu de cara com um ser. Levantou os olhos e reconheceu Sam.
— Ah, sr. Mjörk! Perdão, não vi o senhor.
O Conselheiro fez uma reverência meio desajeitada, ainda desequilibrado pela batida.
— Eu que peço desculpas, Vossa Alteza. E por favor, me chame de Sam.
— Hum, imagino que tenha vindo para falar com meus pais. – O rapaz assentiu com a cabeça. – Eles ainda não saíram da reunião, mas já devem estar acabando. Eu... eu preciso resolver umas coisas. Mas sinta-se a vontade.
O garoto deu um sorriso e Jonah saiu pela porta. Não importava as boas maneiras que o príncipe tivesse recebido, ele não estava com paciência para bancar o anfitrião de ninguém.
♔
Sam não conseguia parar de tocar o assento do sofá azul onde estava sentado. Era a coisa mais macia que já havia sentido na vida, e seus olhos não conseguiam acompanhar a quantidade de beleza no Palácio. Até que algo chamou sua atenção no meio de tudo aquilo. Através de uma pilha enorme de papeis, o rosto da princesa Annabel era a visão mais perfeita no meio de tudo aquilo. Contra sua vontade e por mais indiscreto que fosse, ele não conseguia para de olhar para ela.
Mas então, numa dobra do tapete maravilhoso daquela sala, a princesa tropeçou e todos os papeis caíram. Sam se levantou imediatamente, e, após se livrar do sorriso teimoso que havia invadido seus lábios por ver o rosto inteiro da princesa, ele foi ajuda-la.
— Não, não! Acabei de arrumar ist... AAH! – A princesa deu um pulo para trás quando deu de cara um rosto em meio a bagunça que acabara de criar. Ela demorou alguns milésimos para reconhecê-lo, e mesmo chegando a uma conclusão, não fazia sentido. – Conselheiro Mjörk? O que o senhor faz aqui?
— Sam, por favor. Perdão Vossa Alteza, não pretendia assustá-la. Vim para me encontrar com seus pais e o Príncipe pediu-me que esperasse aqui.
A esse ponto, metade dos papeis já estavam recolhidos.
— Ah, compreendo. – Annabel olhou nos olhos de Sam. – Obrigada pela ajuda.
Sam sentiu um desconforto absurdo quando a princesa olhou em seus olhos, mas era um desconforto... um desconforto bom. Eles ficaram assim por longos dois segundos, e, mesmo quando Annabel se levantou com alguns dos papeis recolhidos, ele continuou a encarar onde seus olhos estavam. Sam se levantou com o restante dos papeis.
— Ah, não precisa levar isto para mim. Os criados podem me ajuda.
— E por que não ajudaram até agora.
— Bom, porque em demorei muito tempo arrumando isso e não queria que algo acontecesse. Como a besteira que eu acabei de fazer. – A princesa abriu um sorriso, e o Conselheiro sentiu como se seu coração tivesse ido parar em seus pés. Ele precisava parar com isso. Pelos deuses! Era a princesa! Ele não podia ficar achando-a bonita e achando seu sorriso perfeito e... sua boca beijável. Chega, Sam! Você não pode fazer isso! disse para si mesmo.
— Hum, você tem razão. Eu... eu acho que seus pais já devem ter acabado seus reunião. Obrigada pelo seu tempo, Vossa Alteza.
Sam deixou os papeis que tinha em mão na mesa de centro, andando em direção a qualquer lugar longe da princesa, dando graças aos deuses quando uma criada o parou para dizer que o rei e a rainha o esperavam, e deixando Annabel sentindo uma estranha falta do rosto bonito do Conselheiro.
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