Light-Moor
4 Confissões de segredos.
Notas iniciais
Já era de manhã e Kurthee esperava do lado de fora da porta do seu quarto. Pelo visto, saíra mais cedo que seu amigo hoje. Ele estava escorado na parede, aguardando pacientemente. Ontem fora um dia especial, principalmente por terem se enturmado mais. Os novos colegas de classe não eram exatamente o que ele imaginava ter como amigos, mas caíram muito bem, e estava bem satisfeito. O garoto estava cansado pois na noite anterior tentara praticar magia na forma completamente humana, dentro da floresta cercada, porém sem muito sucesso. Conseguira mover alguns gravetos mas nada surpreendente. "Que fracasso." Pensou suspirando.
Como combinado, todas as manhãs os dois amigos seguiriam juntos até o local de aula. Ao sair do quarto Rito encontra seu amigo de cabelos albinos o esperando. "Estou atrasado?" Perguntou com aquele tom tedioso que sua voz normalmente tinha. Da mesma forma que todos os outros dias, o seu uniforme não estava bem arrumado e sua mochila estava apoiada em apenas um dos seus ombros. Aquele seu olhar amarelado e calmo era confortante para qualquer um que o encontrasse a essa hora do dia.
"Bom dia" Cumprimentou Kurt sorrindo e desencostando da parede. "Não, acho que eu que estou adiantado mesmo." Respondeu coçando a cabeça. Kurt estava vestido como o dia anterior: com o uniforme sem jaqueta e sua boina favorita.
Os dois andam normalmente pelo corredor. Um ato que se tornaria rotineiro na vida daqueles dois. "Esperou muito?" Perguntou ainda no mesmo tom. Apesar dele quase nunca mudar a expressão, ele se mostrava atencioso e preocupado.
"Não esperei. Na verdade nem vi o tempo passar." Kurt respondeu. Depois de arrumar o cabelo, ele pergunta sorrindo: "Como você dormiu?" Levemente envergonhado, ele olha pra baixo. Aquilo não era muito normal de se perguntar.
"Bem." Respondeu brevemente observando o rosto do companheiro. Seu rosto era bem desenhado e aqueles olhos azuis cor do céu combinavam bem com aquela sua pela branca. Quando percebe que estava reparando demais no colega, Rito tratou de se voltar a olhar para frente. "Hoje é aula de exatas, não? Como é esse tal de Professor Sephro? Você sabe?"
Kurt percebeu o olhar do colega, mas nada disse. "Já ouvi falar dele." Respondeu sem olhar pro garoto alto. O elevador parou no terceiro andar. Aparentemente, seus colegas não tiveram a sorte de acordar no mesmo horário que eles, para poder acompanhá-los. "Dizem que é um professor sinistro. Talvez o mais rígido da escola. Como pode ver, nossa escola é bem diversificada em relação a professores. E alunos também."
"Professor rígido, hm?" Pensou o cachorro. Finalmente alguém que merecia ser digno de respeito por aqui. Não vamos nem comentar daquele diretor excêntrico que fez uma ótima abertura dizendo coisas desconexas. "Sim, você tem razão." Concordou o rapaz. Com um movimento de ombros, ele retira a mochila de suas costas e mete a mão em um dos bolsos procurando alguma coisa. Ao encontra-la, estende a mão oferecendo o achado para o amigo. "Quer uma?" Em sua mão haviam vários chicletes de sabores diferentes. De morango, laranja, uva e tutti-frutti.
Kurthee parou, pensativo. Acabou pegando um chiclete de morango, o mesmo que o deixara enjoado a dias atrás. Agora, por algum motivo, isso não fazia efeito. "Obrigado." Agradeceu sorrindo. Estava alegre. Porquê? Não sabia dizer. Eles subiram as escadas do prédio que acabaram de chegar. Estavam no horário, ainda bem. Não seria bom levar uma bronca do professor chato de primeira, pois, como dizem, "A primeira impressão é a que fica".
Um pouco antes deles chegarem a sala, foram interceptados de forma inesperada. Uma voz familiar chama pelos dois as suas costas, fazendo os dois garotos se virarem no mesmo momento. "Sonnan. Kurthee. Preciso falar com vocês." Foram as palavras que saíram daqueles lábios delicados pintados de vermelho sangue. A Srta. Niber era ainda mais bonita de perto. Possuía um aroma sutil das flores que carregava em sua cabeça entra as mexas loiras. Observou os dois garotos mais altos que ela por cima dos óculos vermelhos com atenção.
Kurthee se surpreendeu. O que será que uma das pessoas mais importantes da escola poderia querer com eles? Não era possível que na primeira semana de aula já estariam encrencados. "S-sim senhorita Niber, o que podemos fazer por você?" Perguntou, se aproximando, seguido por seu colega.
"Srta." Cumprimentou Rito ao se curvar em sinal de respeito a superiora.
"Podem me fazer o favor de explicar o que houve antes de ontem? Mal chegaram na instituição e caçaram briga?" Apesar de ser menor do que os dois, ela era assustadoramente durona e rígida. Era obvio que não iria liberar os dois até saber o que realmente aconteceu.
"Podemos explicar." Respondeu sério Rito. Ele estava acostumado com conversas sérias. "Fomos atacados por 4 meninos e em um ato de autodefesa eu derrubei 2 deles. Peço desculpas pelo acontecido, porém gostaria de especificar que somente nos protegi." Daquela maneira até parecia que ele tinha treinado aquela fala durante horas. E para quem era sempre de poucas palavras, aquele discurso foi surpreendente.
O garoto de cabelos brancos ficou calado, ouvindo seu colega falar. Concordou levemente com a cabeça. "Sim senhora, não tivemos escolha. Se não tivéssemos feito nada, nós é que estaríamos agonizando até agora. Eles nos atacaram sem motivo algum, acredito que simplesmente pelo prazer de aterrorizar os alunos... Nos desculpe por isso, não vai acontecer novamente." Completou apesar de estar receoso com o que viria a seguir.
"Hmm..." Soltou a estilosa mulher. "Entendi." Respondeu seca, como se estivesse prestes a terminar o seu julgamento. "O menino que foi nocauteado demorou um dia para acordar, porém não ficou com sequelas. Os outros 3 vieram reclamar mas acabaram pegando suspensão pois descobrimos que eles realmente eram malfeitores." Ela passava as informações com calma. Ao terminar de falar, suspira aliviada e abre um pequeno sorriso. "Graças a vocês, eles foram detidos. Obrigada. Mas peço que da próxima vez chame algum funcionário para se responsabilizar do assunto. E..." Notavelmente ela segurou a risada. "Tente não nocautear mais seus colegas, Sonnan."
Surpreendente. Eles não levaram nenhuma advertência ou suspensão... E mais do que isso, receberam um obrigado da coordenadora. Não tinha como o dia ficar melhor. "De nada..." Respondeu levemente confuso o cachorro. Ele acaba olhando para o seu colega como se perguntasse o que tinha acabado de acontecer ali.
Vendo a mulher ir embora, Kurt sorriu. "Isso foi estranho." Falou respondendo o olhar do amigo com outro. "Vamos, acho que passamos tempo demais aqui fora." Ao terminar de falar, pega na mão de Rito e segue caminhando para a escada do prédio. Ele pensou no que havia feito naquele dia... Um simples ato, que mudou sua vida naquela escola. Se ele não tivesse defendido Rito, provavelmente não estaria agora segurando a mão do colega.
"Oh.. Ok." Soltou baixo o garoto do undercut. Se fosse qualquer outra pessoa, ele reclamaria muito por terem pegado em sua mão, mas por ser o Kurt estava tudo bem. Os dois se apressaram até chegar na sala de aula. Seus colegas do dia anterior já estavam sentados na carteira ao lado. Assim que eles sentam aquela figura sinistra denominada de professor Sephro entra em sala.
Ele era alto e tinha uma compostura de dar inveja. Sua franja era dividida ao meio com as mexas maiores que o resto do cabelo. Seus fios negros tinham o mesmo tom dos seus olhos, compatível com sua cara de poucos amigos. Suas vestes eram as de um professor comum: calça e sapatos sociais, um colete cinza por cima da camiseta e uma gravata azul, tirando o fato de que usava uma capa preta que se arrastava ao chão.
"Bom dia classe." Cumprimentou pomposamente.
"Que professor sinistro" Pensou Kurt. Ele arrumou seu material e esperou para ouvir o professor. Ao mexer em um caderno, algo caiu. Era o bilhete de seu pai. Kurthee olhou aquilo e pensou no tal homem, lembrando pouco de sua aparência. Várias vezes, Kurt sonhara com seu pai e sempre o mesmo sonho. Ele nunca conseguia ver seu rosto mas via o corpo musculoso, sem camisa, segurando um pequeno Kurthee no colo e voando. Os cabelos eram cinza claro, assim como as asas. Nunca dizia nada, simplesmente voavam em uma direção indefinida. Kurt guardou o bilhete e percebeu que o professor começara a falar.
"Primeiramente." Continuou parando a frente da classe. "Já deixando bem claro que qualquer tipo de mau comportamento não será tolerado." Sua compostura era de meter medo. Ele observava todas aquelas cabecinhas por cima, com o nariz levemente empinado. "Exatas é essencial para o desenvolvimento intelectual de qualquer lecionando." Automaticamente ele segura sua capa negra e a joga para o lado de forma habitual, apenas a ajeitando de forma agradável.
"Professor carrasco?" Comentou Rito baixinho ao pé da orelha do seu colega. Ele já imaginava que seria algo do gênero, porém aquilo superou suas expectativas.
"Ele tem fama de ser o mais rígido da escola inteira." Disse Kurt. Com certeza aquela seria uma aula entediante e os alunos precisariam se empenhar muito para não serem expulsos da classe. "Estou pensando em ir nas piscinas depois da aula... Quer me acompanhar, Sonnan?" Convidou, baixinho, dando um leve empurrão no colega com os ombros.
"Tudo bem." Respondeu curioso para aquele convite inesperado. Os dois estavam falando baixo mas mesmo assim não escapou do olhar atento do tirano.
"Não admito que conversem enquanto eu estou falando." Ao falar isso lançou um olhar fulminante a mesa dos dois. Aquilo era mais do que o suficiente para deixa-los com a boca fechada durante todo o resto do dia.
Depois de aturar aquela aula, que parecia ter demorado muito mais do que todas as outras aulas até agora, os garotos saíram seguindo o caminho para a área sudoeste da escola, onde ficavam as várias piscinas. "Você deve saber nadar, não? Aposto que na sua antiga casa havia uma grande piscina. Eu nunca tentei aprender. As vezes venho aqui observar a água, mas sem entrar."
"Sei sim." Respondeu andando com as mãos nos bolsos, como sempre. "Eu entrei em uma escola de natação por um tempo." Rito aproveitou o poder aquisitivo de sua família para aprender muitas coisas diferentes. Além de escolas de luta e esportes, também sabia tocar vários instrumentos e falar outras línguas. Porém aquela sua expressão vazia nunca o denunciaria disso.
Estavam quase chegando a área de piscinas. Alguns alunos se encontravam no local, se divertindo ou simplesmente por serem descendentes de animais aquáticos. "Nadar é algo que eu não vejo o porquê de aprender. Prefiro as alturas."
Com as piscinas a vista, o som daquele grupo brincando e se divertindo era claramente audível. Ao observar melhor os indivíduos, um deles em especial o chama a atenção. Um pequeno jovem de cabelos brancos levemente ondulados. Ele estava de costas e vestia apenas uma sunga vermelha. No mesmo instante, a sua cabeça, passa novamente a imagem do seu antigo amigo. Aqueles cabelos levemente ondulados que formavam voltinhas nas pontas, eram reconhecíveis em qualquer lugar. Mas não poderia ser ele. Fazia alguns anos que não o via, ele deveria ter mudado muito. Rito demorou um pouco para responder o amigo. "... É importante saber um pouco de tudo. Nunca se sabe quando vai preci...." Mas antes mesmo que terminasse de falar, aquele garoto que estava encarando se virou. Aqueles olhos vermelhos sangue e seu sorriso com caninos afiados revelou o que ele mais temia: Aquele realmente era o seu antigo amigo. O jovem do undercut simplesmente paralisa, parando de falar e andar, apenas observava boquiaberto aquele menino a alguns metros.
"Rito? Rito?! Tá tudo bem?" Kurt parou alguns passos a frente, depois de perceber que o garoto havia parado bruscamente. "Ritooo! O que houve?" Tentou acompanhar o olhar do colega, mas tudo que vira era um grupinho de garotos na piscina.
"Eu..." Soltou sem pensar. O que estava acontecendo ali? Não era para ele estar naquela escola. Não era para os dois se verem novamente. E por que justo agora? Justo agora que ele estava quase o esquecendo... Rito fechou a mão em punho e engoliu seco. "Não estou me sentindo bem. Vou pro quarto." E com um movimento decidido, ele deu as costas ao amigo e partiu para a direção contraia das piscinas.
Kurt ficou preocupado. O que teria acontecido? Apesar de perplexo, logo foi atrás de Rito. "Ei, me espera. O que aconteceu? Poxa, você sabe que pode se abrir comigo, talvez eu possa ajudar." Estava quase correndo para alcançar os passos largos do garoto que estava a frente. Ele só queria ajudar o amigo.
"Não aconteceu nada." Continuou o garoto em um ritmo acelerado. Quanto mais longe melhor... Quanto mais longe do seu passado, menos ele iria sofrer... Ele estava determinado a chegar o mais rápido possível ao seu quarto e se trancar ali sem se preocupar com a realidade. Os dois continuaram o caminho as pressas até chegarem aos dormitórios. Nunca o caminho de volta havia sido tão rápido. Rito estava tão incomodado que parecia que ele havia se assombrado por um espírito das trevas, mesmo com a insistência do amigo, ele definitivamente não queria tocar no assunto.
"É claro que aconteceu, senão você não teria agido assim." Quando chegaram à porta do quarto, Kurt teve uma ideia. Sendo mais rápido que o colega, ele abriu seu próprio quarto e empurrou Rito para dentro, o derrubando no chão. Não sabia como conseguira toda aquela força, mas funcionou. Antes que o garoto pudesse se levantar, Kurthee trancou a porta e colocou o cartão dentro da própria calça. "Tudo bem, Rito Sonnan. Só sai daqui quando me contar tudo." Disse cruzando os braços.
Inesperadamente, Rito foi empurrado para dentro do quarto. Por ter sido pego de surpresa, caiu com certa força no chão mas não chegou a se machucar sério. Caiu de lado, em cima do seu braço esquerdo. Enfurecido, ele o encara com o olhar cheio de ódio. O garoto de undercut se levanta rapidamente e avança no menino que acabara de o empurrar segurando a gola de seu uniforme, o erguendo de leve e o empurrando contra a porta. "Isso te interessa?! Por que quer tanto saber?!?" Disse rosnando na cara do amigo. Os dois estavam com os rostos bem próximos e aqueles olhos amarelos vivos estavam queimando de raiva.
Kurt se surpreendeu com aquilo e ficou com um pouco de medo. Porém o modo que Rito o tratou naquele momento ferira seus sentimentos. Ele só queria ajudar. Será que o amigo estava realmente bravo com ele? Talvez só estivesse assim porquê nunca tivera alguém que se importasse com ele. Com um olhar sério, o encarou diretamente nos olhos. "PORQUE EU ME PREOCUPO COM VOCÊ!!" Gritou e no mesmo instante seus olhos começaram a se encher de lágrimas. Ele se segurou para não deixar nenhuma cair. "Não quero te ver mal, não quero te ver machucado, nem fisicamente e nem psicologicamente. Talvez você não ache, mas eu posso ajudar. Talvez você só precise de uma pessoa pra te ouvir. Eu posso ser essa pessoa, Rito."
O garoto do undercut ainda estava segurando o menino pela gola da camisa mas o seu olhar estava totalmente diferente agora. Ele estava espantado com o que acabara de ouvir... Nunca ninguém havia falado aquilo para ele. Sua mão livre se fechou em punho, segurando a raiva, mas ele acabou cedendo as palavras daquele pequeno que estava a sua frente.
"Tch." Escapou. O cachorro abaixa a cabeça e respira fundo, em uma forma de se recompor. "Não se arrependa depois...." Disse ao soltá-lo e se distanciar. Rito estava a alguns passos a frente de Kurt e era notável que seu rosto estava levemente corado. "Me desculpe."
Kurt abriu um sorriso de lado. "É claro que não vou me arrepender. Todos nós temos segredos, não? Mas é sempre bom compartilhar com uma pessoa de confiança." Ele também tinha segredos mas nunca compartilhara com ninguém. Era difícil ser, provavelmente, o único existente de uma espécie. Se o mundo soubesse disso, poderia ser o seu fim.
O garoto, visivelmente mais calmo, acabou deixando a mochila dele encostada na parede e se sentou na cama. "Isso é meio embaraçoso de falar..." Seu olhar voltou a aquele olhar tranquilo de novo e seu rosto continuou corado. "Eu acabei vendo uma pessoa que não deveria estar aqui." Seu tom era de chateado. Desenterrar toda aquela historia depois de anos não seria nada fácil...
Kurt não entendeu. "Uma pessoa? Como assim? Porque ela não deveria estar aqui? Quem é?" Perguntou, rapidamente. Um de seus defeitos era a grande curiosidade. Será que essa pessoa tinha feito algo com o garoto? E seria esse o motivo de ele ser tão fechado? Eram muitas perguntas que se formavam em sua mente, mas ele não deveria pressionar o colega, pois parecia ser um assunto delicado.
Rito voltou a olhar feio para o garoto que o encheu de perguntas mas suspirou outra vez. "Seu nome é Dangelo Bardosa. Ele também é descendente de uma família pura de cachorros, assim como a minha. E elas são inimigas mortais." Falou com a mesma tranquilidade de sempre. "Quando eramos menores..." O garoto deu uma pequena pausa se lembrando de algo que não deveria. "... Eramos melhores amigos. Mas assim que a família dele descobriu, ele foi mandando para a Austrália. Desde então não tive mais contato dele." Era a primeira vez que ele dizia sobre o seu passado para alguém. Isso era incomodo mas sentiu que o Kurthee era digno de ouvir.
Isso estava ficando cada vez mais confuso. "Se ele era seu melhor amigo, não deveria ficar feliz em revê-lo? Porque não foi falar com ele? Reencontrar os amigos é muito bom. Tem tempo que vocês não se vêem, então, devem ter muito o que conversar." Falar essa última parte fez o coração do pequeno doer e um aperto. Se os dois fossem colocar o papo em dia, Kurt não teria muito mais tempo com Rito.
"Eu..." Falou incerto. "Não sei nem se ele se lembra de mim... E tenho medo de que nossa família descubram novamente. Isso não vai dar em boa coisa..." Complementou com toda a sinceridade que ele tinha. Era realmente um assunto delicado e ele iria tomar todas as medidas para não acontecer outra coisa ruim novamente.
"Bom..." Começou Kurt ao se sentar na cama, onde o outro garoto já estava, se aproximou e passou um braço por cima dos ombros do colega. "Seja como for, saiba que eu vou estar aqui pra te apoiar." Completou sorrido. "Como eu disse, você não é o único com segredos. Posso compartilhar o meu maior segredo com você? Mas, tem que me prometer que não vai deixar ninguém ficar sabendo." Perguntou em um tom sério.
Rito olhava tranquilamente para o rapaz. Ele iria compartilhar um segredo também... Eles estavam se tornando mais íntimos? Depois de tanto tempo sem ter alguém em quem confiar, aquilo era muito estranho. "Acho que você percebeu que eu não tenho muitos amigos..." Comentou olhando para frente. "Então não teria o por que dizer para outra pessoa."
Aquilo foi como se tivesse levado um soco no estômago. Ele estava sentindo algo forte por Rito, provavelmente seria pena. Logo se recuperou e começou a contar o segredo que escondera a vida toda. "Se lembra na aula do Bermas, que eu disse ser de uma família de Águias? Bom... Aquilo não era verdade. Não sei se consigo dizer exatamente o que sou, nem eu mesmo sei direito. Mas posso mostrar." Ele se levantou e ficou a frente da cama. Verificou se as cortinas estavam fechadas e respirou fundo. Então, tirou a boina da cabeça, a blusa, a calça. Ficou de costas para o colega e tirou a cueca. Então algo começou a acontecer. A transformação foi rápida e em poucos segundos, um unicórnio-alado se encontrava a frente do garoto que estava sentado na cama.
Perplexo, o garoto cachorro não sabia para onde olhar. A forma do seu amigo era incrível. Um cavalo alado? Com chifre? Que mistura louca. Ele realmente não tinha palavras para explicar o que estava sentindo. Uma boa forma de interpretar o que ele queria dizer era sua expressão boquiaberta de surpresa. "Nossa..." Foi a única coisa que saiu de sua boca.
Kurt usou sua magia para fazer alguns objetos flutuarem pelo quarto. Logo depois, ele se virou de costas, voltando a forma humana com a mesma velocidade. Ele se vestiu rapidamente e quando se virou, seu rosto corado era perceptível. "Bom.. Eu nunca tive certeza. Mas, creio que minha mãe era uma unicórnio. Meu pai, que cuidou de mim por pouco tempo, era um pégaso. É provável que não exista ninguém como eu. Eu posso ser uma espécie única, e isso me traz problemas. As pessoas podem me considerar uma aberração ou sabe-se lá o quê. Por isso, é melhor que eu me esconda de todos. Você é a única pessoa que eu já contei sobre isso."
"Oh..." Soltou espantado de novo. Seu rosto se cora mais ainda e ele desvia o olhar virando um pouco o rosto. "Obrigado pela confiança... Você é uma boa pessoa." Um momento de silencio tomou conta do lugar até ele deixar a vergonha de lado e olhar novamente para seu amigo. "Não precisa se preocupar. Eu vou te proteger. Não há mais o que temer, certo?" E para a surpresa de Kurt, pela primeira vez de todo o tempo que eles estavam juntos, Rito sorri tranquilamente. Era um sorriso bonito e calmo, sem mostrar os dentes. O jovem estava muito feliz pois ele havia encontrado alguém em quem podia confiar novamente.
Kurt fica muito vermelho, podia ver isso pelo espelho do guarda-roupas. "M-muito obrigado." Agradeceu coçando a cabeça. "É bom poder me abrir com alguém." Ele estava feliz por ter colocado aquilo para fora. Nunca tivera ninguém para conversar sobre isso, sempre teve medo do que poderia acontecer e do que as pessoas pensariam. Mas, Rito era diferente. Algo dentro de Kurt dizia que ele poderia confiar completamente no novo amigo.
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