Ligando os pontos
1 ligando os pontos
1906
Leta Lestrange sempre ouvira sua mãe falar sobre como ela não podia deixar sua pele ficar manchada como a de seu pai. Desde pequena, a Sra. Lestrange colocava enormes chapéus em sua cabeça e passava cremes com cheiros fortes em seu rosto, mas de nada adiantou: não tardou até pequeninos pontos começassem a aparecer em seu nariz e na área abaixo de seus olhos. Sardas, seu pai dizia e sua mãe corrigia: manchas.
A garota detestava olhar para a pele escura do Sr. Lestrange e vê-la salpicada de sardas, detestava saber que aquele seria o seu destino, aquelas manchinhas. Odiava olhar a pele clara e lisa da Sra. Lestrange e saber que nunca teria aquilo. Se pudesse, arrancaria sarda por sarda, pinta por pinta até se ver livre de todas elas.
1908
Newt Scamander tinha o rosto mais sardento que Leta já havia visto e, quando o viu pela primeira vez no Expresso de Hogwarts, se sentiu bem e aliviada ao saber que sua pele não era tão ruim quanto a dele. O menino sorriu tímido e desviou o olhar quando disse que ela podia se sentar com ele caso não achasse outro compartimento no trem e ela, ainda fascinada com aquele rosto manchado, aceitou.
1910
“Você sabia que a Dama Cinzenta tem sardas?” perguntou Newt certa vez, no terceiro ano, quando a vira com um livro de magia de beleza nas mãos, pesquisando sobre um feitiço para desbotar manchas da pele.
“Você está inventando coisas,” ela falou, torcendo o nariz e não erguendo os olhos da página.
“Preste atenção da próxima vez que a ver,” o menino falou, logo antes de sorrir e acenar para o tentáculo enorme da Lula Gigante que acabara de aparecer na superfície do Lago Negro. “Olá, Augustus!”
Alguns dias depois, enquanto estudava na biblioteca, Lestrange conseguiu ver a Dama Cinzenta de perto e se surpreendeu ao perceber que o rosto sério e fantasmagórico era salpicado de sardas. Se Newt estivesse ali, ele estaria sorrindo feito um bobo.
1912
Leta não gostava de assistir as partida de Quadribol, mas gostava de ver Newt treinar sozinho. Ela encantava a goles para levitar através do campo como se estivesse sendo jogada por bruxos, enquanto o amigo corria atrás da bola para tentar fazer gols. Depois que ele terminava, os dois iam se sentar no gramado e dividir as guloseimas que a garota carregava nos bolsos de suas vestes.
Quando estava calor, Scamander arregaçava as mangas do uniforme amarelo e preto da Lufa-Lufa até os cotovelos, expondo os braços sardentos, ou simplesmente tirava a camisa até se sentir mais fresco (para alguém tão retraído, ele tinha muita facilidade de descartar um colete ou uma camisa quando estava com calor ou quando alguma criatura se grudava em suas roupas). Nessas horas, Leta aproveitava para observar as sardas que marcavam os ombros do rapaz, descendo pelas costas e pelos braços dele. Era engraçado como aquelas manchinhas haviam se tornado algo tão comum de se ver nele e era impossível imaginar Newt Scamander sem suas sardas. Elas eram como velhas amigas.
Sempre tímido, Newt não parecia se importar quando ela decidia cutucar sarda por sarda, às vezes ligando uma à outra com as pontas dos dedos... Ele simplesmente abaixava a cabeça e continuava a comer as balas de goma que ela havia trazido. Volte e meia, a garota se permitia marcar um pouco a pele dele com as unhas, fazendo pequenos traços esbranquiçados entre uma sarda e outra, desenhos quase invisíveis que apenas ela, Leta, iria ver. Nunca pressionava demais até machucar, mas sempre o suficiente para fazer o rapaz se arrepiar.
1913
Newt era um pesquisador nato, sempre observando tudo com muita calma e atenção. O rapaz pegava tronquilhos nas mãos e observava seus movimentos delicados até entender como deveria se movimentar para não assustá-los; ele se escondia atrás de árvores no meio da Floresta Proibida para ver como os centauros faziam os seus arcos e flechas, anotando tudo em seus cadernos. Scamander tinha uma curiosidade tão inocente e genuína, algo digno dos melhores pesquisadores e professores.
Leta sabia que era por isso que ele a observava daquele jeito, com os olhos claros sempre atentos a todo e qualquer movimento. Era por conta dessa atenção aos detalhes que o amigo às vezes traçava as suas feições com tanto cuidado, quando eles se deitavam ao lado do lago para aproveitar um dia de sol. Os dedos de Newt em seu rosto eram sempre leves e vagarosos, contornando seu nariz ou pulando de sarda em sarda.
“O que está fazendo, Sr. Scamander?” ela perguntou uma vez, tentando parecer séria.
“Brincando de ligar os pontos,” ele explicou, sorrindo de lado e fazendo algumas sardas sumirem por entre as pequenas rugas que se formavam no canto de seus olhos. “Quem sabe consiga alguma resposta se conseguir ligá-los certinho.”
“E que tipo de resposta que o senhor procura?”
“Todo tipo de resposta, Leta.”
“Hm.” A garota sorriu, erguendo uma mão para tocar uma pequenina mancha que o outro tinha no lábio superior, logo antes de deslizar o dedo até uma sarda e então para outra e outra e outra. “Se eu ligar os seus pontos, será que encontro alguma resposta?”
“Depende do que queira saber.”
“Quero saber por que você não desvia o olhar quando fala comigo,” ela murmurou, tocando de leve no canto do olho esquerdo dele. “Por que a sua voz muda quando conversamos?” Os dedos dela desceram até a garganta do rapaz, sentindo o sobe e desce do pomo-de-adão deste quando ele engoliu em seco. Depois, tocou a covinha que aparecia na bochecha do rapaz por conta de um sorriso. “E por que esse sorriso aparece quando você tenta ligar os meus pontos.”
“Minha voz não muda-“
“Muda sim,” Lestrange o interrompeu, sentindo-se satisfeita ao ver o rosto dele ganhar um tom avermelhado. “Fica mais firme, mas continua gentil. É igual quando você fala com as nossas criaturas.”
“Desculpe,” ele murmurou, finalmente desviando o olhar e se focando na grama verdinha abaixo deles.
“Mas eu sei o quanto você ama as nossas criaturas,” disse Leta, baixinho, enquanto se apoiava nos cotovelos e erguia o rosto para ir de encontro ao dele. “Por isso não fico chateada.”
Não sabia dizer se aquilo fora um beijo de verdade, pois fora tão rápido e tão leve que mal sentira os lábios do rapaz contra os seus. Mas, depois de se afastar, permitiu-se beijar o lado do rosto de Scamander, pressionando os lábios contra a pele dele e sorrindo. Uma parte um tanto boba de sua mente dizia que seria interessante ter as sardas dele impressas em seus lábios.
“Acho que liguei alguns pontos,” ela falou, apontando para os próprios lábios.
E, a julgar pelo sorriso, Newt Scamander havia conseguido algumas respostas que tanto queria.
1914
O rosto de Newt estava muito pálido e marcado pelas sardas, que pareciam ainda mais evidentes agora, além dos cortes e arranhões que também estavam em seus braços e mãos. Leta, que tinha o rosto machucado e as mãos e joelhos ralados depois de ser jogada no chão pelo seu hipogrifo, não conseguia olhar o amigo por muito tempo. Nunca aquelas sardas lhe pareceram tão perturbadoras, parecendo tão fortes contra a pele branca como papel por conta do medo.
Ela sabia que os dois, apesar dos machucados, estavam bem em comparação ao menino corvinal que sem querer encontrara com Hades, o hipogrifo, no meio de uma caminhada. O Professor Dippet lhes dissera que o garoto não corria risco de vida, mas tinha um braço quebrado, muitos arranhões e estava muito, muito assustado. Leta também estava assustada, assim como Newt, mas o amigo tentava ao máximo não demonstrar.
Dippet nem desconfiava que fora ela quem alimentara e cuidara do hipogrifo por duas semanas... Não, os olhos do diretor estavam apenas sobre Scamander, afinal, era o lufano quem carregava tronquilhos nos cabelos e cuidava de filhotes de oraqui-oralá que quebravam as asas. Era a mãe de Newt que criava hipogrifos para competições, não a Sra. Lestrange. Era ele quem tinha dificuldade de olhar os outros nos olhos, quem vivia com os joelhos sujos de terra por se ajoelhar na floresta para cuidar dos animais, quem tinha as mãos sempre arranhadas pelos gatos e amassos que achava perdidos pelas propriedades de Hogwarts. Ninguém iria desconfiar que a menina Lestrange, com seus vestidos delicados e chapéus cheios de fitas, pudesse tentar domar uma criatura selvagem como um hipogrifo... Não, quem fazia isso era o menino Scamander, com suas calças enfiadas dentro das botas e terra debaixo das unhas.
O amigo não falou nada sobre ter ouvido ela tagarelar por dias a fio sobre uma surpresa que tinha achado para ele e nem sobre como o menino corvinal só estava vivo porque ele chegara a tempo de fazer Hades se acalmar. Era por isso que Newt estava machucado: ele ouvira os gritos dela e correra para encontrá-la, mas achara um hipogrifo raivoso no meio do caminho e se colocou entre a besta e um aluno até conseguir acalmá-lo.
Leta viu o rosto do rapaz ficar ainda mais branco e os olhos verdes dele se encherem de lágrimas quando Dippet anunciou que teria de expulsá-lo, mas tudo o que pôde fazer foi abaixar a cabeça e morder o lábio inferior com força.
1919
Ela reconheceu Theseus Scamander primeiro. Alto e sério, com um porte rígido e cabelos ruivos escuros, o homem talvez passasse despercebido se não fosse pelos lábios finos e as sardas que lhe eram familiares. Depois dele, não foi difícil encontrar Newton ao seu lado.
Ele estava mais pálido do que se lembrava, com mais sardas e mais olheiras. Tinha os ombros caídos e o olhar desviado para os próprios pés. Os cabelos, mais claros que os do irmão mais velho, estavam despenteados como sempre e aquilo a fez sorrir. Mas ele estava abatido, parecia cansado e mais magro do que na última vez que o vira, quatro anos antes.
“O que ele está fazendo aqui?” Leta ouviu sua mãe perguntar em um sussurro para o seu pai.
“Etienne os convidou, querida,” o Sr. Lestrange explicou. “Theseus se destacou muito durante a guerra e você sabe como Etienne se dedicou à toda essa bagunça.”
“Mas e o outro?” O sussurro da mulher deixava muito claro o desgosto que tinha pelo jovem, algo que fez com que Leta se segurasse para não revirar os olhos.
“Theseus pediu para trazê-lo, prima,” disse Etienne Lestrange, que era seu primo e, agora, seu sogro. “Eles estão se esforçando para fazer com que o jovem Newton volte a sair de casa.”
“A guerra mexeu muito com esses jovens,” o seu pai murmurou. “Onde ele estava mesmo?”
“Front oriental,” seu sogro explicou. “Treinando e tratando dos barriga-de-ferro ucranianos.”
A Sra. Lestrange soltou um muxoxo baixo e descontente. A moça finalmente conseguiu encontrar o olhar do antigo amigo, mas o sorriso que queria dar pareceu ficar preso em algum lugar entre os seus músculos enquanto ela encarava aqueles olhos verdes e brilhantes, agora um tanto desolados.
O rosto de Newt Scamander continuava tão sardento quanto antes e Leta se perguntou se o rapaz notara, daquela distância, que ela finalmente conseguira apagar as manchas de seu próprio rosto.
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