Notas iniciais
Apresento-vos: Cecília Força, a heroína Pavão

— Escuta, vó! – A pequena Cecília pediu. – É um pintinho!

As duas ficaram em silencio, tentando não ouvir o barulho constante da chuva a bater no guarda-chuva, até que a vó também ouviu o piado que a neta mencionou.

— É um bebé pavão, Cecília! – A vó corrigiu – Vem, vamos encontrá-lo, ele deve estar com frio.

— Pra lá, é pra lá!

Cecília e a vó acharam logo o pavãozinho, todo molhado, debaixo de um arbusto. A vó o entregou à neta:

— Você pode o segurar, não, Cecí?

— Ele precisa enxugar...

— Já, já resolvemos o que fazer. – A vó sorria, Cecília podia ouvir pelo tom da voz – Temos que voltar ao refeitório. Lá estaremos secas, sim?

— Sim, vovó.

Cecília enrolou o pavãozinho na saia do vestido. Ela estava toda contente, por ser capaz de segurar um no colo. A avó nunca deixou antes... A parte mais legal de se morar num sítio, e ela não podia. Se bem que isso não era culpa da avó, é que a mamã de Cecília não queria que ela se machucasse, e a avó não gostava de desmoralizar a filha... Pelo menos não quando esta estava a ver!

No refeitório, a vó deixou que Cecília cuidasse do bebé pavão, sob sua supervisão. Depois de enxugado, pôde dormir aconchegado num paninho nos braços de Cecília, a pequena a o oferecer festinhas na cabeça, satisfeita com tamanha responsabilidade. Como ela é cega, as pessoas desde sempre a trataram como bebé, e ela nunca podia ajudar em nada nem cuidar de nada sozinha; a não ser que estivesse no sítio da avó. Aí sim, ainda sob o olhar da avó, Cecília podia tomar banho de chuva, alimentar os patinhos na mão, acariciar os cabritinhos... “Se mamã me visse agora, morreria!”, pensava sempre. A mãe sua maior protetora. Quis que ela estudasse em casa, enfermeira particular durante todo o primeiro ano, dieta feita especialmente para a filha... Cecília às vezes se sente um pouco sufocada. Por isso que os momentos que passa com a vó são tão prazerosos, como este quando a chuva finalmente parou, e foram as duas devolver o filhote à sua mãe.

— Eu acho que ele é dessa ninhada aqui, Cecí. – A avó anunciou.

— Como é que você sabe? – A miúda perguntou.

— Tenho certeza que é. A outra ninhada já está maiorzinha... – A vó pôs a mão na costa da neta: — Queres ser tu a colocá-lo lá dentro?

— Sim!

Sorrindo, a vó abriu a porta do viveiro e conduziu a neta até a entrada. Abaixando-se, a menina apalpou o espaço até encontrar o batente, e colocou o pintainho no interior. Sorrindo, disse a ele, baixinho:

— Gosto muito de ti! Quando puderes sair daí de novo, vem visitar-me! És o meu melhor amigo!

O pintainho emitiu um leve brilho azul. O brilho subiu pelo braço dela até o coração, onde foi absorvido. Cecília não viu o acontecido, mas sentiu um ligeiro calor. Porém, em sua tenra idade, não pôde interpretar isso de outra forma que não sendo o clima começando a esquentar.

— Vó – Chamou – Podemos tomar gelados agora?

— Depois do almoço, ok?