Notas iniciais
Desculpem pela mistura entre o português de Portugal e o do Brasil!

— Vó, vou dormir… — Cecília anunciou, fingindo estar sonolenta – Boa noite.

— Mas já? – Olhando ao relógio, a avó concluiu: — Ainda são oito horas! Te sentes bem?

— Oh, sim, sim. É que eu estou mesmo cansada…

Cecília levantou do sofá onde sentava com a avó a ouvir novela e prendeu o colete ao cão guia Harper, que a ajudou a chegar ao quarto. Da porta, desejou boa noite à avó novamente e fechou a porta. Suspirou.

— “Hoje sem falta”, prometi, não foi? – Acariciou a cabeça do cão – Ok, lá vou eu! Comporta-te, Harper! Volto logo.

Cecília respirou fundo e prendeu a respiração. Depois, soltou o ar, devagar. Isso sempre a ajuda a concentrar-se. Quando considerou-se suficiente preparada, a jovem chamou pelo seu poder. Do centro do seu peitoral, emanou um cordão de luz azul, que circundou o seu corpo até que ela estava completamente coberta de luz. Num estágio final, a luz azul tornou-se verde, e dissipou-se, revelando Cecília, agora já sob transformação.

— Eu amo essa sensação! – A miúda suspirou.

Desligou a luz do quarto, abriu a janela e saiu.

***

— Ah, cara, de novo não! — Alex resmungou.

Toda sexta-feira, Alex precisava apanhar o autocarro 35r para voltar para casa. Nos outros dias ele podia evitar, mas na sexta seu horário da escola acabava mais tarde e não havia outros meios de chegar em casa que não fosse por esse.

Também as sextas, desde o ultimo mês, uma dupla de bandidos fez rotina atacar os autocarros que passassem à noite pela autoestrada junto à via-férrea, ou seja, os autocarros 35r.

Eles entravam em alguma paragem, esperavam o autocarro chegar à rua que queriam e anunciavam o assalto. Um ameaçava o motorista e o outro recolhia os objectos que queriam roubar. Geralmente tinham facas, outras vezes tinham pistolas. O que era certo é que ninguém reagia. O 35r era um autocarro municipal que atendia os arredores da área urbana, e era mais frequentemente usado para transporte de estudantes ou idosos que moravam fora da cidade. Eram pessoas mais pobres, que o governo acolheu como sendo seus cidadãos e usufruíam do cartório e das escolas públicas locais.

Alex rosnou baixinho, quando o assalto foi proclamado. Como sabia que isso iria acontecer, deixara o telemóvel e a carteira em casa, confiando apenas nos trocadinhos que levava no bolço do casaco para lhe polpar problemas com os bandidos. Os tais, no entanto, não gostaram da falta de recepção do garoto.

— Qualé o problema, miudo? – O mais alto, de gorro, perguntou, ao revistar-lhe a mochila – Tem alguma reclamação?

— Não ia valer à pena perder meu tempo com vocês. – Alex explicou, a tomar para si a mochila e repor seu material escolar dentro.

— Ah. Acha que essa atitudezinha faz-te parecer cool, huh? – O rufião riu-se, agarrou Alex pelas bochechas e chamou o companheiro – Tod, esse pirralho quer conhecer-te. Farias bem em ensinar-lhe uma coisa ou outra sobre respeito. Traz cá tua faca e faz uma arte nesse rostinho de bebé.

Alex revirou os olhos. Aquilo estava começando a irritá-lo. Mesmo com dezesseis anos, Alex ainda não tinha barba. Vez ou outra vinha alguém e fazia o mesmo comentario, o que era bem injusto, porque apesar de não ter pelos faciais, Alex tinha uma boa estrutura óssea e seu rosto era bem angulado. Tinha rosto de homem, não de bebé, mas mesmo assim as pessoas achavam que era muito divertido zombar.

Tod aproximou-se do colega, com um sorriso satisfeito, provavelmente orgulhoso da reação da platéia para o que ele iria fazer.

— Qual lado quer que eu corte fora, moleque? – Riu-se.

— Tem tanta piada que eu me esqueço de rir – Alex murmurou, e concluiu num tom mais alto: — A Irmã a dormir mete mais medo do que tu, e como dividimos o quarto, posso dizer com certeza. Além disso, a pequena Duda sabe segurar faca melhor. Nunca te ensinaram nada? Tsc, tsc.

Pôde ver pela cara dos assaltantes que eles reconheceram-no, e sorriu de lado, confiante. Na verdade, mesmo se eles tivessem continuado com a brincadeira, Alex saberia se defender. Desde pequeno, o pai lhe ensinou a arte da luta. Vencer sobre essa dupla de rufiões seria canja.

Porém, antes que qualquer um deles pudesse dizer algo mais, ouviu-se um suspiro.

Alex olhou para a direção que o som veio, e viu uma garota completamente coberta por um fato colorido, com máscara e tudo, a parecer um pássaro. Ela estava a sorrir de leve, e tinha as bochechas vermelhas quando falou:

— Parece que já não precisam da minha ajuda tanto assim...

— Que porra é essa? – Tod perguntou.

— Linguagem! – A recém-chegada reclamou, com as sombrancelhas franzidas – Tu não tens direito de perguntar tal coisa! Por favor, civis, saiam do autocarro!

Alex levantou uma sombrancelha. Ele tinha certeza que já tinha visto algo parecido, ou melhor, sentido algo parecido. Essa energia... Alex tentou procurar em sua memória.

As pessoas seguiram a indicação da menina, saindo desconfiadas do autocarro. A garota pareceu não notar, sorrindo gentilmente e ajudando os mais velhos a descer os degraus. Ela garantiu:

— O próximo 35r passará em alguns minutos. Por favor, esperem aqui.

Os bandidos tentaram também passar para a saída, correndo para derruba-la, mas a menina mascarada deu ao que vinha na frente um empurrão com o ombro que os derrubou aos dois, no assento do motorista. Ela, então, prendeu o cinto de segurança na cadeira por trás do lugar deles, forçando-os a gastar um tempoaté que conseguissem soltar-se.

Neste momento, Alex conseguiu lembrar-se de onde ele conhecia essa mesma magia. À sua mente veio um momento especial de sua infância...

Alex sorriu de lado, orgulhoso da sua descoberta. Ele também pulou fora do autocarro, seguido pela garota de máscara, que fechou a porta do veículo com um puxão. Alex correu e escondeu-se atrás da paragem na beira da estrada. O garoto estava incrivelmente contente.

— Finalmente posso usar o poder, eu não posso deixar essa chance passar! – Ele falou, fechou os olhos, e chamou o seu poder.

Alex foi envolto em uma luz encandescente, dourada, que durou meros segundos. Ao invéz de um garoto em uniforme escolar, Alex era um superherói em traje que lembrava, desde a máscara às botas, uma raposa. Ou um raposo, nesse caso.

Com um salto, ele foi para o meio da rua. E de repente ele já não sabia o que fazer: rir ou chorar. A garota de máscaras, que supostamente sabia o que estava fazendo, não mostrava nenhum sinal de preocupação, mesmo que os bandidos estivessem a ponto de pular do autocarro.

Alex suspirou ao chegar do lado dela, e avisou:

— Se você não os parar, eles vão mesmo conseguir fugir.

— Parar? – Ela virou na direção do veículo, e corou: — Ah, eu... Não tinha percebido!

Alex sacudiu a cabeça, com um breve riso, e disse:

— Vamos levá-los para a cidade, estamos perto suficiente e, mais importante, é um milhão de vezes mais rápido se fazemos nós o serviço. – Alex abaixou o seu corpo em posição inicial de corrida e acrescentou: — Todos a bordo!

Ao mover-se, Alex usou sua supervelocidade. Ele empurrou os ladrões pela janela que eles tentavam saltar, fechou a janela, e começou a empurrar o autocarro. Após checar se a garota de máscara estava em cima, Alex empurrou o automóvel com toda sua força, o que quase o levantou do chão.

— Para o ônibus!

Alex segurou o autocarro ao ouvir o apelo. Ele achava que tinha sido a sua nova companheira, mas ela desfez essa ideia ao saltar do veículo e virar-se para ele com o rosto preocupado. Ela avisou:

— Seria melhor se nós não fôssemos tão rápidos, já que estamos dentro da cidade... – E apontando para trás, concluiu – Parece que teremos mais ajuda, pelo menos.

De lá, outra garota apareceu. A máscara dela cobria a maior parte do seu rosto, e como ela era preta, os olhos mel da menina ficavam destacados.

— Ainda bem que os alcancei! – Ela riu. Então, im par de asas coloridas como as de uma borboleta-monarca apareceu em suas costas e ela levantou voo. – Quase que vocês causam um acidente! Vá, eu vou guiá-los. A delegacia fica perto. Por alí!

Alex percebeu que ela tinha sido a pessoa que os mandou parar. Ela parecia ter a mesma magia que ele, por isso quando ela começou a apontar direções, ele obedeceu.

***

Os três superheróis estavam em cima da delegacia, onde minutos antes eles tinham entregado os ladrões. Os policiais não os receberam nada bem. Eles quase foram presos! No final, tiveram que fugir. Antes de se separarem, porém, decidiram se apresentar uns aos outros.

— Ah, eu começo! – A menina de asas se ofereceu. – Eu sou Monarca! Como a borboleta que me deu os poderes...

— Você tem sorte – Alex disse -, Monarca soa muito bem. Eu não faço ideia do que me chamar. Porque temos que ter um nome de herói? Eu podia usar o meu nome normal...

— Negativo. – Monarca fez que não com o dedo – Além disso, se quiseres, eu escolho um pra você!

Alex deu de ombros, e Monarca abriu um sorriso:

— Ash!

— O que? – Alex reclamou – Por quê?

— É o nome do filho do senhor Raposo! – Ela riu. – Ok, por que não um cliché? Ou Fox?

— Ok. – Alex concordou. – Eu fico com Fox. Tudo em inglês soa melhor.

As garotas sorriram. Monarca perguntou:

— E você? Que nome vai usar?

— Juno – Respondeu – Ela quem criou os pavões, afinal.

— Ah! Você é um pavão!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.