Lifetime of adventures
1 Capítulo 0
Notas iniciais
Não foi betada. Prossiga por sua conta e risco!
Cap. 0
O bar estava silencioso.
O velho jukebox empoeirado no canto do salão não funcionava há anos e nenhum cantor ousara aceitar o trabalho de animar aquele velho e decadente bar. O dono também não insistira muito.
Um casal se aninhava numa das mesas mais distantes da porta. Vez ou outra sussurravam, mas em geral, ficavam abraçados, calados e olhando miseravelmente para o nada. Um velho brincava com o gelo de sua bebida e mastigava os amendoins disponíveis em cima do balcão, às vezes soltava uma risada alta provida de alguma piada que só ele parecia saber. O barman limpava os copos sujos de poeira e suspirava desapontado. Ninguém entrava no bar desde as 17 horas da noite... E o relógio já marcava meia noite.
A última integrante daquele grupo decadente era uma velha, que bebericava seu Martini ora ou outra. Ela estava sentada na mesa mais afastada, longe do casal, longe do velho do balcão e longe do barman e embaralhava as cartas de tarô desgastadas. Há muito tempo ela fora uma vidente famosa e procurada por todos, hoje, ela só atendia naquele bar quase falido e imundo.
Deu mais um gole da bebida e lambeu os lábios.
Seus olhos negros se focaram no casal e um sorriso triste enfeitou seus lábios ressecados. Colocou o baralho em cima da mesa e as espalhou, depois escolheu três cartas e as virou.
Fechou os olhos em pesar e suspirou. Depois, pegou o Martini e o terminou. Só infelicidade e morte esperava o jovem casal. Eles se levantariam daquela mesa, sairiam de mãos dadas e iriam em direção ao trem, cuja passagem estava comprada há um mês, para tentar fugir dos perigos daquela cidade, mas antes de chegarem a estação, um chevette velho derraparia ao lado deles e cinco tiros seriam ouvidos. O culpado fugiria e ninguém o acharia. Os corpos dos jovens seriam enterrados em lugares diferentes e distantes.
Pobres almas que não conseguiam ter paz em seu amor. Na vida futura, eles não teriam uma sorte maior, mas pelo menos, não morreriam com cinco tiros num beco fedido e escuro. Eles simplesmente casariam com pessoas diferentes e viveriam para sempre na ignorância da existência do outro.
Bem, talvez na próxima. Dizem que a terceira vez é um charme.
Olhou para o velho, que pedia mais um copo de whisky com gelo. Juntou o baralho e repetiu o processo, escolheu três cartas. Soltou outro suspiro e pediu mais um Martini.
O futuro do velho não seria muito melhor. Ele estava doente, um tumor em seu coração, seus filhos o odiavam, sua esposa o tinha deixado pelo dono de um circo, seu cachorro morrera uns dias trás com um tiro ( ele havia jurado vingança ao homem que fez aquilo) e agora, se embebedava e tentava decidir o que fazer da vida. Mas, ela já sabia qual seria a escolha.
Ele beberia mais três copos, depois se arrastaria pela rua até chegar na casa do vizinho. Tiraria o revólver de sua cintura, invadiria a casa do assassino de cachorros, que não estaria em casa, mataria os dois filhos do homem, sua esposa e depois atiraria em sua própria cabeça.
Aquela era realmente uma cidade amaldiçoada, não?
O barman depositou a bebida em sua mesa e rapidamente voltou ao balcão. Ela o acompanhou com o olhar e depois pegou o baralho novamente. Olhou as três cartas escolhidas e abriu um sorriso feliz.
Depois do que aconteceria naquela noite, ele se demitiria do bar, pegaria seu velho carro e iria até Vermillion. Lá ele começaria a trabalhar numa livraria, cujo dono, sem família ou filhos, logo morreria e a loja seria herdada pelo antigo barman. Ele seria feliz lá, casaria e teria uma filha.
Deu mais um gole em sua bebida e preparou o baralho.
O casal se levantou, pagou conta e saiu. Ambos andavam esperançosos, com os dedos entrelaçados.
- Evitem o Beco. – ela falou. Os dois a olharam, mas julgaram-na louca. Exatamente como ela sabia que eles fariam.
O velho pediu o segundo copo de whisky. Ela terminou o Martini e decidiu não beber mais aquela noite... Nem poderia mesmo se quisesse.
A porta se abriu timidamente e se não fosse pelo guizo, ninguém perceberia o movimento.
- Boa noite. – disse o Barman. – Deseja beber algo?
A visitante olhou ao redor do salão, depois pediu por um copo de água e algo para comer. O rapaz assentiu e a acompanhou com o olhos até ela se sentar na cadeira em frente a velha.
- Vó. – disse a garota jogando a mochila de couro no chão.
- Minha menina. – disse a velha com carinho.
- Não poderia ter escolhido um lugar melhor? – perguntou num sussurro – Tem uma boca de fumo aqui do lado.
- Eu sei. – respondeu a velha. – os traficantes daqui são bons clientes.
A velha riu com a expressão escandalizada da neta.
- Em que posso ser útil, Mulan?
O velho pediu o terceiro copo de whisky.
Mulan era a mais nova das netas da Xingmu, de altura mediana, longos e lisos cabelos negros, feições duras e quase inexpressíveis, embora Xingmu soubesse que Mulan era bem mais sensível do que aparentava. A mais nova abriu um sorrisinho e pegou a mochila, mexeu dentro dela por alguns segundos e retirou um saquinho marrom. Soltou a mochila desleixadamente no chão novamente.
- O que é isto? – indagou Xingmu.
- Você sabe.
E sim, ela sabia.
- Você tem certeza disso, minha neta?
- Mais do que já tive em toda a minha vida.
Xigmu suspirou e olhou para o velho cambaleando para fora do bar, depois pegou o saquinho e dele tirou um pedaço de papel.
- Ah minha menina, você me coloca em cada situação.
Mulan sorriu suspeita.
Xingmu, embora viajasse muito, acompanhava de perto a vida de sua filha e de suas netas. Usara também de sua influência para colocar cada uma delas, na medida do possível, em uma estrada confortável. A neta mais velha de Xingmu era Huang, uma jovem brilhante com uma ambição tão grande quanto o próprio universo, Xingmu a apresentou ao jovem Kai, herdeiro de uma enorme empresa de transportes marítimos e ambos se encaixavam perfeitamente, ambiciosos, estratégicos, frios em certa medida e o mais importante, eles se respeitavam. Kai ouvia os conselhos de Huang e os seguiam. Mais do que um casal, eles eram parceiros de negócios perfeitos. A segunda neta mais velha era Toph, com um gênio terrível e uma força de vontade que Xingmu ainda estava para conhecer maior, que hoje viajava o mundo num navio mercador imenso e bem seguro. A terceira filha era Wei, mãe de três crianças, feliz dona de casa e esposa de um marido trabalhador. Ling era a quarta, veterana de um bordel de luxo em Platinum, amante dos homens mais poderosos da capital política do país. E a quinta e mais nova era Mulan, a única da família Fa que decidira seguir um caminho semelhante a de Xingmu. Semelhante, não igual. Mulan era uma viajante, mas diferente de Toph que viajava em segurança e para lugares seguros, a mais nova das cinco irmãs viajava o mundo e se colocava em problemas apenas por que queria. Mulan viajava às vezes andando, às vezes numa moto, às vezes num cavalo, às vezes num navio e encontrava cada lugar miserável e cada pessoa problemática, que não pensava duas vezes em comprar a briga e se envolver em problemas alheios, então, assim como fizera com suas outras netas, Xingmu achou um jeito de proteger melhor Mulan.
- Como está a situação com a nossa bruxa?
Mulan revirou os olhos.
- A mesma coisa de sempre. Ainda não sei por que você a prendeu comigo.
Mas ambas sabiam o porquê.
- Isso é bom. Eu me preocuparia se ela estivesse agindo de forma diferente.
- Acredite, ela não está.
Xingmu riu.
- E ainda assim, você veio sozinha.
- Aham, encontramos um casal que quase foi morto no caminho para a estação. Mais um segundo e eu acho que nenhum conseguiria sobreviver. Eu pedi que ela os acompanhasse até que eles pegassem o trem. Acho que deu tudo certo.
Xingmu escolheu três cartas e a virou. Abriu um sorriso quando novamente viu a carta do destino na posição central. Morte. Destino. Incerteza. Era o grande perigo de tentar prever o futuro... Um segundo pode fazer toda a diferença.
- Fico feliz. – disse Xingmu e leu o papel. Depois, suspirou novamente. – Você me coloca em cada situação, criança.
Mulan só exibia um sorriso animado.
- Tudo bem, tudo bem. – disse Xingmu levantando os braços. Embaralhou as cartas e pediu que Mulan escolhesse três. – Seja bem objetiva.
- Eu sei como isso funciona, vó. Não sei por que você exige que eu faça isso todas as vezes...
Mulan escolheu as três, sem hesitar ou pensar muito. O resultado permaneceu o mesmo de todas as outras vezes.
- Não mudou nada. – disse Mulan como quem não se preocupa muito. – Morte. Como sempre.
Morte. Como sempre. Xingmu suspirou. O futuro simplesmente não mudava. Nem colocando a bruxa ao lado de Mulan, nem lhe avisando dos mais variados perigos, nem pedindo ajuda a todos que conhecia, nem mesmo mudando a direção em que Mulan viajava constantemente, nada parecia mudar o resultado daquelas cartas.
- Ela leu a sua sorte alguma vez?
- Não, nem sabia que ela podia fazer isso.
Mas é claro que a bruxa não confiaria em tarôs. Bruxas daquele tipo normalmente confiam apenas em outros tipos de vidência. Suspirou com tristeza e pegou o papel novamente.
O futuro era engraçado e irônico. A vida do casal foi salva por um segundo a mais que eles ficaram no bar, entretanto a vida de Mulan continuava em jogo por mais que ela tentasse interferir.
Era frustrante.
- Posso confiar em você, vó?
- Já te dei motivos para duvidar de mim, minha menina?
- Nunca. – e sorriu.
Mulan parecia ter superado o choque da previsão da avó e em grande parte, ela tinha superado. Se fosse morrer, então ela morreria com uma espada na mão no meio de alguma aventura louca. O período de tristeza já tinha passado, embora às vezes, ela se pegasse pensando nisso e temendo cada segundo mais próximo de sua morte. A bruxa costumava ajuda-la em momento assim.
- “Tudo isso por causa de uma profecia de tarô?” — ela riu – “De tarô?! Se fosse a profecia de uma sereia, de um elfo ou até mesmo uma previsão espontânea da sua avó, eu acreditaria, mas tarô é uma previsão tão facilmente alterável que até para eventos cotidianos é inútil.”
Xingmu também sabia da frivolidade do tarô, mas o fato de que não importasse quantas vezes ela jogasse as cartas para Mulan o resultado permanecesse o mesmo a preocupava. O normal da previsão de um tarô é a mudança constante e o futuro de Mulan continuava o mesmo. E isso nem a bruxa conseguia responder.
- “Pode ser curioso.” – ela admitiu – “Mas não importa. Se preocupar tanto com a previsão de um tarô é estúpido. Já previram a minha morte mais do que eu posso contar e eu ainda vivo.”
A diferença era que a bruxa quase morreu mais vezes do que ela podia contar e infelizmente, Mulan não era tão indestrutível. Ao contrário da bruxa, que era uma sobrevivente profissional, Mulan era humana e, portanto, bem mais frágil.
O grande problema persistia: por que o futuro de Mulan não se alterava? Por que continuava aparecendo a carta da morte?
Quando colocara a bruxa na vida de Mulan, a carta do meio se alterara: Incerteza. A carta do futuro permaneceu sendo a Morte. Juntou as cartas.
- Você se preocupa demais, vó. Como estão as minhas irmãs?
- Bem, Huang está grávida.
- Mesmo? – perguntou com surpresa.
- Ela não sabe, mas está.
- Criança sortuda!
- Será?
O barman voltou com um copo de água bem gelado e um sanduíche recheado com algum tipo irreconhecível de carne. Mulan mordeu o sanduíche com vontade e tomou um gole de água.
- Vai pedir algo para ela?
- Ela nunca comeria em um lugar assim.
- Mesmo depois de tanto tempo te seguindo por aí?
- Ainda discutimos por causa disso.
Xingmu soltou uma risada. Quando prendera a bruxa a Mulan, na hora, ela não pensara no castigo que estava colocando a bruxa narcisista e apaixonada pelo luxo. Não que a bruxa não conhecesse a pobreza, ela a conhecia, talvez como ninguém, mas Xingmu não tomara aquela decisão para puni-la... Tudo que queria era deixar Mulan segura.
Diferente da primeira vez, a porta se abriu num estrondo. Só o barman se assustou.
- Boa noite? – ele disse meio incerto.
A bruxa nem o olhou. Cruzou o caminho entre a porta e a mesa de Mulan e Xingmu com a cabeça erguida e a expressão de descaso.
- Já terminou ou vou ter que agir como babá para mais alguém?
Mulan arredou para o lado e a bruxa sentou-se.
- Xingmu.
- Regina.
As duas se encararam por um tempo. Xingmu com um sorriso debochado e Regina com a expressão fechada de raiva.
- Obrigada por salvar aqueles dois. – disse a velha. – previ um futuro terrível para eles.
- Por tarô?
- Sim.
- E deu errado?
- Sim.
A bruxa olhou para Mulan com um sorriso sábio.
- Eu te disse.
Mulan revirou os olhos.
- Vai começar?
Foi Xigmu quem interrompeu a discussão.
- Por que não a leva ao oráculo de Rá?
- Eu disse para irmos. – começou Regina – Mas Mulan não quis. Se quer saber o seu futuro, que o saiba direito.
- Por que você não vai então? – perguntou Mulan com raiva. Metade do sanduíche já tinha sido devorado.
- Porque eu vivi muito bem sem saber meu futuro.
E por que previsões e profecias foram os responsáveis pelas grandes tragédias na vida da bruxa.
- Eu acho que vocês deveriam ir até o oráculo de Rá. – disse Xingmu calmamente.
Regina torceu os lábios e Mulan terminou de mastigar.
- Está no seu tarô?
Xingmu ignorou a pergunta.
- Eu só acho que vocês deveriam ir. Talvez, eu até vá também.
Mulan terminou o copo de água e assentiu.
- Tudo bem, podemos ir.
A bruxa, como sempre, argumentou contra.
- O oráculo é longe, teremos que passar pela Cidade Branca, por Vermillion e pelo Vale. Você vai precisar de muito mais do que um “instinto” para me levar para o oráculo. – afirmou a bruxa cruzando os braços.
Xingmu sorriu e aceitou o desafio.
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Havia só um nome no pedaço de papel. Um nome que Xingmu não gostava, mas por Mulan, ela se atreveria a procurar pelo dono do nome.
Então, estavam ela, Mulan e Regina paradas em frente ao templo de Magon, o deus de guerra, adorado no sul do deserto de Aegon. Xingmu era receosa com relação a deuses. Alguns eram confiáveis, outros, malignos e alguns poucos nem sequer existiam.
Magon entrava no último grupo.
Xingmu só achava aquilo uma má ideia.
- É uma má ideia. – disse Regina pela centésima vez.
- Precisamos saber a verdade.
- Não precisamos. – respondeu a bruxa. – Sempre achei a ignorância uma benção.
- Eu preciso saber.
Regina e Xingmu suspiraram. Mulan foi a primeira a entrar no templo, Regina a seguiu e Xingmu foi a terceira.
Magon não era um deus, mas seu grande sacerdote era alguém que até Xingmu teria algum receito em enfrentar. Aparentemente, pelo pouco que conseguiu extrair das duas, elas se envolveram numa confusão que acontecera numa região pobre de exploração de minério, no qual um dos sacerdotes pequenos de Magor foi acusado de assassinar alguém e fugir. Mulan queria saber se ele tinha sido o responsável e por que.
O templo era pequeno, tendo poucos fieis, mas ainda assim, era rico e várias estátuas de ouro enfeitavam seu interior. Uma enorme estátua branca de um homem grande e coberto por uma capa e um capuz se encontrava no meio do altar, que era rodeado de oferendas. Algumas frutas, um pouco de arroz e bebidas, mas a maioria consistia de uma vasilha de cobre cheia de um liquido vermelho e muito escuro.
- Eu detesto templos. – dizia Regina percebendo as oferendas. – São estranhos e cheios de armadilhas.
Xingmu concordava.
Alguns sacerdotes andavam silenciosamente até o altar e todos pararam quando perceberam a presença das intrusas.
- Sejam bem-vindas. – disse um deles. Era velho, gordo e calvo, mas tinha um sorriso simpático. Sua túnica era de um vermelho vivo em contraste com os outros sacerdotes com túnicas cor de vinho. – São novas no templo de Magor, eu presumo?
Regina já tinha destruído três templos do deus e Xingmu já tinha convencido uma cidade inteira a expulsar os sacerdotes de Magor, mas elas se entreolharam e assentiram.
- Que bom! – e depois danou a falar sobre o quanto Magor era bom e sobre os rituais, sobre os sacerdotes e sobre as estátuas. Xingmu foi a única a prestar atenção. Regina provavelmente pensava sobre o feitiço que vinha criando há anos para se separar de Mulan, enquanto a mais nova delas examinava o rosto de cada sacerdote.
- Eu não o vejo. – disse Mulan impaciente, Regina só balançou os ombros. Sem esperar que o sacerdote terminasse suas belas e maravilhosas histórias, ela o interrompeu. — Você conhece um sacerdote chamado Ariano?
O velho parou de falar e engoliu seco.
- Ahn, bem... – respirou fundo — Por quê? Quem são vocês?
- Ele matou um amigo. – respondeu com a voz firme, embora não pudesse evitar seus olhos de lacrimejarem.
O velho cruzou os braços.
- Acho que vocês devem falar com o nosso grande sacerdote.
Mulan concordava.
O velho pediu que elas o seguissem. O plano era que Xingmu conversaria com o Grande Sacerdote e o convenceria a entregar Ariano à justiça, seja de Mulan seja da própria cidade, se não desse certo, teriam que usar o plano B.
O plano B consistia na bruxa... E na força bruta.
O templo era pequeno, composto pela sala principal, onde ficava o altar de adoração e onde os fieis oravam. E atrás duma porta, meio escondida, atrás do altar ficava a sala do grande sacerdote.
- Me deixem falar. – pediu Xingmu. – Vocês duas ficaram em silêncio. Escutou, Regina?
A bruxa bufou, insultada.
- Você também, Mulan.
O brilho dos olhos negros não convenceu Xingmu.
O Grande Sacerdote era jovem, muito magro, com cabelos grandes negros e olhos redondos e vazios. Ele vestia uma enorme túnica branca com detalhes azul celeste e sentado atrás de uma mesa grande cravejada de pedras preciosas, ele até parecia alguém divino.
- Sejam bem-vindas. – disse o homem se levantando. Ele retirou os óculos de armação fina e enferrujada.
Xingmu forçou um sorriso e o cumprimentou.
- Há quanto tempo, H’ghnar.
- O meu nome convertido é Ferros.
- Como quiser... Ferros.
Ele não forçou um sorriso, mas seu pescoço ossudo ficou mais rígido.
- A que devo sua visita, Xingmu?
- Um dos seus sacerdotes. Ariano.
Ferros respirou fundo.
- Ariano. – repetiu, depois olhou para Mulan, que o fuzilava com o olhar. – Ele é acusado de assassinar alguém, estou certo?
- É por isso que estamos aqui. – disse Mulan tomando a dianteira.
Xingmu suspirou.
- Ele é um assassino. – continuou a mais nova. – Ele matou alguém inocente. Alguém que ainda tinha muito o que fazer pelo mundo. E isso é imperdoável.
Ferros pediu para o outro sacerdote se retirar e trancar a porta. Sozinhos no pequeno escritório, Xingmu sentia a tensão emanando de cada ser naquele cômodo.
- Só queremos que ele seja julgado e punido. – disse Xingmu com calma. – Não queremos problemas com Magor nem com vocês.
Ferros concordou.
- Eu não quero problemas com você também, Xingmu. Nem com essas duas. Eu bem sei do que vocês são capazes. – lambeu os lábios pálidos — A verdade é que as ações de Ariano também me deixaram irritado. Bem irritado. Eu te garanto que ele está sendo punido.
- Eu quero vê-lo. – disse Mulan dando mais um passo para frente.
- Ele está sendo punido.
- Só acredito vendo.
Ferros sorriu e tentou negar o pedido novamente.
- Seria uma pena... – disse a bruxa atrás de Xingmu – se tivéssemos que fazer o caminho até Ariano à força. É um templo tão bonito. – e estralou os dedos.
Ferros mordeu os lábios e depois soltou uma risada.
- Tudo bem, tudo bem.
O escritório do grande sacerdote era pequeno, mas as paredes eram cobertas de livros grossos com escritos em várias e desconhecidas línguas. Ele escolheu um livro dourado e vermelho e o puxou. A estante se abriu e revelou uma escadaria de pedra.
- É sempre assim. – reclamou a bruxa. – Me sigam pela escadaria suspeita e escura, eu juro que nada vai acontecer a vocês.
Ferros abriu um sorriso inocente.
- É uma armadilha. – disse a bruxa novamente.
Mulan não pareceu se importar e desceu as escadas. Xingmu foi logo atrás. Regina reclamou, bateu o pé, mas foi. Ferros fechou a passagem com um sorriso cruel.
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O barman assobiava enquanto limpava o balcão de bebidas. Faltavam duas horas para finalmente ir para casa, tomar um banho bem quente e dormir. Nem precisava jantar, só dormir era o suficiente.
Bateu algumas vezes na mesa para acompanhar a bateria que rolava em sua música imaginária. Depois pegou o esfregão e o usou como microfone. Fizera tudo rindo. Eram momentos assim que ele agradecia ainda estar vivo.
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Xingmu queria dizer que ela tinha avisado.
- Eu avisei! – veio a voz furiosa da bruxa. – EU AVISEI. – deu um tapa no ombro de Mulan em sinal de raiva. – Por que você nunca me escuta?!
Mulan massageou o ombro e a olhou com aborrecimento.
- Não é tão ruim assim.
A rajada de fogo abraçou a pedra atrás da qual se protegiam.
- Não é tão ruim? Diga isso para a serpente gigante de fogo!
- VOCÊS NÃO PARECEM MAIS TÃO DESTEMIDAS ASSIM, HEIN?! – era a voz de Ariano. Ele gritava de algum lugar seguro, achando que nada o atravessaria a criatura que cuspia fogo para chegar até ele.
Aquela arrogância fez Mulan quase pular detrás da pedra, mesmo com uma serpente gigante de fogo, só para dar um soco na cara dele.
- Eu o odeio. – disse Mulan trincando os dentes. – Eu o odeio com tudo que tenho.
- Você tem que controlar a sua raiva. – disse Xingmu. – Foi ela que nos colocou nessa situação.
Regina somente cruzara os braços e adotara o silêncio.
Mulan respirou fundo e tomou uma decisão.
- Okay. Podemos fazer o seguinte: Vó, você vai atrás do Ferros. Creio que ele não vai tentar te machucar diretamente, talvez você consiga colocar algum pingo de sanidade na cabeça dele.
Xingmu assentiu. Ela realmente esperava ter que lidar com Ferros.
- Ariano é meu. – disse com firmeza. – Não quero que ninguém se intrometa. Ele vai ser julgado pelos seus atos.
As duas assentiram.
- ótimo. Então, vamos.
Regina descruzou os braços.
- Acho que você se esqueceu da serpente gigante cuspindo fogo.
Foi aí que Mulan abriu um sorriso que era novo para Xingmu.
- Não esqueci. O que você acha que vai fazer enquanto eu e a minha avó lidamos com Ferros e Ariano?
A bruxa não respondeu imediatamente. Seu rosto se contorceu numa expressão de raiva e indignação... Como uma criança irritada com o horário de ir para cama.
- Por que eu sempre fico com as criaturas gigantes que cospem algo?! – perguntou com raiva.
Mulan não respondeu. Colocou uma mão no ombro da bruxa, abriu um sorriso confiante e disse:
- O que eu faria sem você? – perguntou Mulan com um certo tom de orgulho... E depois a empurrou detrás da pedra. – Boa sorte!
A serpente gritou e soltou mais uma rajada de fogo, mas nessa vez não foi na pedra.
- Ela vai te fazer pagar, criança. – disse Xingmu rindo.
- Eu vou sobreviver.
Se havia alguma coisa que Mulan confiava plenamente era na capacidade da bruxa de lidar com situações perigosas.
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O bar estava quase brilhando. A única vantagem de poucos clientes era que o bar conseguia permanecer limpo e bem arrumado por muito tempo. Ele estava satisfeito consigo mesmo.
Abriu uma latinha de refrigerante bem gelada como prêmio pelo ótimo trabalho.
Nunca tinha visto aquele lugar tão perfeito.
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A serpente tinha olhos amarelados e suas escamadas eram vermelhas. Seus dentes eram tão longos e afiados, tanto que podiam partir até pedras. Seu corpo era longo e muito forte, ela duvidava que milhares de lanças e flechas poderiam sequer arranhar a pele metálica da criatura.
E bem, Regina corria. Escondia-se entre as pedras enquanto a criatura jubilava e usava seu corpo enorme para esmagar tudo em seu caminho... Isso quando não soltava uma rajada de fogo.
Não passou um segundo desde que entrara naquela caverna abaixo do templo que não maldizia o nome de Mulan. Se não houvesse uma maldição que a impedisse de machucar as mulheres da família Fa, Regina a estrangularia depois que aquilo tivesse terminado. Heróis e suas manias estúpidas de se envolver em problemas estúpidos para ajudar pessoas estúpidas.
Controlou sua respiração e observou, do seu esconderijo, a serpente parar e olhar ao redor. Depois, com cuidado tirou parte do corpo detrás da pedra e com alivio, viu a serpente virar para o lado oposto. Em geral, ela gostava de bolas de fogo, mas nessa situação fogo era inútil. Recuou com cuidado até encostar-se no paredão de pedra.
A caverna ficava muito embaixo da terra e pelo que se parecia, era um improvisado laboratório de alquimia. Lá vários encapuzados com livros e caldeirões se reunião e faziam experiências. Das mais inocentes como a criação de outro, quanto invocação de criaturas que eram melhor serem deixadas em paz. Um enorme caldeirão, o maior, borbulhava com alguma coisa negra e que criava muitas bolhas. O símbolo no caldeirão fez Regina tremer.
No fim das contas, o templo nada mais era do que uma desculpa florida para os alquimistas ficarem seguros. Sendo mais perseguidos do que os bruxos, os então chamados ‘cientistas’ criaram Maegon e a religião que o adorava como fachada para o que realmente acontecia nos bastidores.
Enquanto desciam as escadarias, Ferros contou a história de como Ariano voltou ao templo assustado e muito cansado, tendo fugido durante dias de quem ele chamara de “a vadia do ativista de minério” e prosseguiu com toda a história do trabalho missionário que ele fazia na região mineradora e como o Ativista queria destituir todas as pessoas de seus trabalhos justos e como a “vadia” o protegia com seu cão de guarda diabólico, que tinha a forma de uma mulher. Nenhuma das três reagiu ao insulto, embora Regina tivesse estralado os dedos.
Desde que chegaram à cidade, Regina sentia que tinha algo errado e quando a imensa escadaria terminou, ela entendeu o porquê. A razão era a imensa serpente presa atrás das barras de pedra fincadas no chão que sibilou quando percebeu os intrusos.
Ariano, pálido e quase raquítico, segurava a alavanca, que quando ativada recuava as barras para debaixo do chão e liberava a serpente. E quando ele viu o rosto de Mulan, não pensou duas vezes. O som das barras sendo puxadas para baixo preencheu a caverna e logo, alquimistas corriam desesperadamente em busca de proteção. Já Ariano não parecia se importar com os outros sacerdotes que, azarados, eram dizimados pelo fogo e pelo corpo esmagador da serpente enquanto ela se dirigia até suas presas.
Ferros, o maldito bruxo, parecia irritado e gritou o nome de Ariano com raiva, depois olhou para Xingmu com algo semelhante a uma desculpa e sumiu no meio de uma fumaça branca e as três se esconderam.
Aquele foi o inicio da situação em que Regina se encontrava no momento. Sentiu as pedras debaixo de seus dedos, sentiu a textura e a rispidez. A serpente olhava com cuidado o lado oposto, com sua língua para fora, ela tentava encontrar vestígios de sua vitima. Regina balançou a cabeça e olhou ao redor, tentando encontrar Mulan ou Xigmu. Ela só as vira de relance enquanto fugia do fogo furioso da criatura.
Ela sinceramente não entendia por que nunca podia ir atrás do humano louco. Por que ela sempre tinha que enfrentar a criatura furiosa e mortal?
- Emet.- sussurrou.
A cabeça da serpente se voltou para ela imediatamente e com a boca aberta e as presas afiadas, ela avançou.
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Xingmu olhou para Ferros, que soltou uma risada.
- Nós dois sabemos o que vai acontecer aqui.
Ela permaneceu em silêncio.
- Não há por que tentarmos evitar o inevitável.
Ela nem sequer se moveu.
- Xingmu, você sabe que não pode me matar.
Ela sabia. Suspirou.
- Você não sabe com quem está se metendo. – Ele disse com um tom de desespero em sua voz.
Silêncio.
- Xingmu.
E ele desapareceu.
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Mulan só escutava as batidas do próprio coração.
Via as costas de Ariano a sua frente e só pensava em correr mais rápido para alcança-lo. Não estava mais na caverna, nem no templo. Mulan nem se lembrava de como eles foram parar na rua.
Ela só queria pegar o maldito e soca-lo até a raiva passar. Quase podia ouvir Gerard rindo – aquela risada livre e completamente involuntária – e tentando recuperar o fôlego depois de uma corrida pela cidade. “Você é como o vento, Mulan!” – ele exclamava – “E nada pode alcançar o vento. Eu bem que tentei!”.
Gerard era um bom homem, um ótimo amigo, um líder eficiente, um revolucionário único. Mulan se apaixonara por suas ideias, pelos seus planos, tanto que queria ir com ele e com seus seguidores até o fim. Ela queria direitos humanos para aqueles homens e mulheres que trabalhavam muito, ganhavam pouco e mal passavam dos 30 anos de idade. Ela queria ver o céu azul ao invés das nuvens de poluição. Ela queria que as crianças pudessem sonhar em ser mais do que mineradores. Ela queria hospitais mais vazios, mais médicos, mais remédios, mais leitos.
Nos meses que passara naquela região tão rica e ao mesmo tempo tão pobre, Mulan passou a zelar pela felicidade e segurança do lugar. Gerard obteve grandes conquistas por si só, mas se não fosse pela presença das duas no lugar certo e na hora certa, o desmoronamento de uma mina – causado por materiais baratos e velhos – mais de 400 trabalhadores teriam sido enterrados. Mais trabalhadores.
Regina achava um erro se envolver tanto. A bruxa tinha uma política de quanto menor o envolvimento na situação, melhor. “A vida é deles, Mulan. A situação é deles. Se nós tomarmos tudo isso em nossas mãos, como seríamos diferentes dos donos das minas? Entraríamos no território deles, acharíamos que sabemos melhor e que eles deveriam nós apoiar – estranhos – por que somos melhores. Demos o empurrão, ajudamos aqui e ali, mas o resto é com eles. É com Gerard. Você não tem o direito de carregar o mundo nas duas costas. Nós não somos melhores. Você nunca entrou numa mina, não conhece a pobreza, não finja que sabe o que eles sentem.”
Mas ela queria ajudar Gerard. E talvez por querer demais, se importar demais e ser confiante demais, o salvador dos mineradores estava morto.
Ela jurara àquele povo que encontraria o assassino e deixou que o grupo de Gerard – sua família, seus amigos, seus aprendizes – decidissem sobre como continuar. E até a última vez que obtivera notícias, as coisas estavam indo bem. Gabriel, o braço direito de Gerard, tomou a liderança do movimento e Mulan confiava que as coisa ficariam bem piores por um tempo, mas eles iriam conseguir. Gabriel era o melhor aprendiz de Gerard e Mulan tinha certeza de que se seu velho amigo pudesse escolher seu sucessor, seria, com certeza, seu braço direito e fiel amigo.
Gabriel cumpriria a promessa de continuar com os planos de Gerard e Mulan cumpriria a promessa de trazer o assassino a justiça.
Mulan sempre cumpria seus promessas.
Seguindo Ariano, ela nem percebeu o barman juntando o lixo em frente ao bar.
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Regina ainda não entendia por que não podia ter o trabalho mais fácil.
A gigante estátua de pedra que conjugara deu um soco na serpente que se chocou com o paredão de pedra e caiu no chão, desacordada.
A bruxa levantou-se da pedra em que estivera sentada pelos últimos minutos e tirou a poeira de suas calças.
- Bom trabalho. – disse para a criatura. – Met.
E a estátua se desfez em rochas e poeira.
A parte boa de se conjurar golems era que podiam ser invocados com facilidade e descartados com mais facilidade ainda. Bastava uma palavra, cujo significado era “morte” e eles se transformavam em rochas e poeira. A parte ruim era que nenhum chegava perto, em questão de poder e de personalidade, do seu primeiro golem. A cada conjuração, ela se lembrava do fato de que mesmo sendo mais velha e mais poderosa, ela jamais conseguiria repetir o primeiro experimento. Era como uma constante zombação do que ela constantemente tentava, mas jamais conseguia fazer.
Arrumou o cabelo, tirou a poeira das botas e foi em direção a cobra desacordada.
Seria um ato de misericórdia.
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Xingmu suspirou e sentiu seu fêmur doer.
Olhou para o céu avermelhado e para o sol que nascia timidamente.
Suspirou.
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O barman já tinha largado serviço e com uma mochila nos ombros andava para casa, finalmente. Passou em frente ao templo no exato momento em que Regina saiu de lá, com uma cobra enorme e vermelha desacordada atrás dela.
Ele parou e ficou olhando.
- Ela é enorme! – exclamou apontando.
A bruxa balançou os ombros.
- Eu o encolhi o máximo que pude.
E depois passou pelo rapaz.
Ele a acompanhou com os olhos e talvez, por curiosidade ou loucura, ele a seguiu.
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Ela queria ouvir uma confissão.
Um soco. Ele riu. Dois socos. Ele riu. Três socos. Ele tossiu e riu.
- Por que você o matou?
Ele riu.
- Por que ele? Por quê?
Ele só balançou a cabeça.
- Não sei do que você está falando.
Aquilo a deixou furiosa. Mais furiosa do que ela jamais ficou em toda sua vida. Mulan estava preparada para soca-lo até que ouvisse uma confissão ou não ouvisse sequer a respiração dele.
Ele estava deitado no chão e ela estava por cima, segurando a gola da túnica branca dele e com as mãos ensanguentadas.
Xingmu foi quem a tirou de cima de Ariano. Ele rolou e tentou escapar, seu rosto ensanguentado.
- Você tem que se controlar, Mulan. – disse Xingmu. – Respire. Você não é assim.
Fungava e não conseguia pensar direito. Seus punhos pulsavam.
- É só um homem fraco. – continuou a mais velha — Se quiser culpar alguém, culpe Ferros.,, Culpe a mim, mas se controle.
Mulan fechou os olhos e assentiu.
- Desculpe. – pediu. – Eu fiquei com tanta raiva.
- Eu sei. Eu sei.
Ariano se arrastava. Olhava para o chão por que o sol nascente machucava seus olhos. Só se atreveu a olhar para cima quando se chocou com alguma coisa sólida.
- Indo para algum lugar, verme?
Ele gritou quando a bota espremeu sua mão no chão.
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O barman olhava aquilo com fascinação e medo.
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Ele sentia seus ossos se partindo e ao contrário de Mulan, que tremia, a bruxa só sorria diabolicamente.
- Por que você o matou? – veio a pergunta da bruxa. Sua voz era calma e controlada.
Não é que ele não quisesse falar, ele não podia. Balançou a cabeça negativamente.
- Tudo bem, resista. O corpo humano tem muitos ossos.
Ele olhou para Xingmu e Mulan, e implorou com os olhos por misericórdia. Xingmu pareceu tocada e pediu a Mulan para fazer Regina parar.
Mulan permaneceu em silêncio.
A bota saiu de cima de sua mão e ele finalmente conseguiu respirar... Até que a bota se chocou com sua outra mão e o estralo do osso quebrando foi tão alto que ele achou que ouviria aquele som para sempre.
- Mulan, mande-a parar.
Regina a olhou esperando o pedido, mas Mulan nada disse.
Então a bruxa continuou.
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O barman tremia. Ele só não conseguia correr.
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- Eu só quero uma confissão. – disse Mulan olhando para Ariano. – Só quero isso.
Ele não sentia mais seu braço esquerdo.
Regina olhou para Mulan de novo.
- Mulan, por favor, mande-a parar. – implorou Xingmu de novo.
- Não antes da confissão.
Xingmu se aproximou do rapaz.
- Diga o que tem a dizer. Regina não vai parar.
Ele se recusou a falar. Xingmu suspirou.
- O sol está nascendo. Logo, estará cheio de testemunhas... Temos que ir embora, já.
Mulan se recusou.
A bruxa suspirou e declarou:
- Eu não sou torturadora particular de ninguém. – fez um movimento e a serpente paralisada se aproximou.
O homem só olhou aterrorizado quando a cobra diminuída e paralisada foi depositada em cima dele.
- Você tem cinco minutos. – disse a bruxa. – e eu vou me virar. O feitiço vai sumir e essa serpente vai te espremer e te devorar. E eu não vou conseguir enfeitiça-la a tempo de fazê-la parar. Mulan não vai te ajudar, nem Xingmu.
Ele não podia falar. Não podia.
- Eu só quero uma confissão. – disse Mulan, ainda firma e inexpressiva. – Uma confissão em troca da sua vida.
Ele permaneceu em silêncio, embora tremesse como louco.
Regina balançou os ombros e virou-se.
Ele gritou:
- Fui eu! Eu o matei! Eu o matei! Mas me foi ordenado! Eu só cumpri ordens!
- De quem?
- Eu não sei.
- Vá embora, Regina.
A bruxa a olhou com surpresa.
- É uma ordem, vá.
A bruxa se esticou toda e com uma expressão de dor, ela se virou e começou a andar.
- Eu não sei! – ele gritou de novo. — Ferros só me disse para mata-lo! Só isso! Eu não sei quem dá as ordens ao Ferros. Eu juro!
Mulan o olhou por alguns segundos. A serpente começou a se mexer. Ela suspirou e cedeu.
- Volte. É uma ordem.
A bruxa parou de andar, depois voltou para perto da serpente.
O rapaz chorava.
- Mulan... – disse Xingmu com a voz de avó que deixa todos os netos morrendo de arrependimento.
Mas ela ficou calada.
- Ele mereceu.
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A central de polícia ficou surpresa quando Ariano, acusado de assassinar um jovem cantor, foi encontrado amarrado em frente a porta principal ao lado de uma cobra vermelha dentro de uma jaula. Tentaram procurar outros sacerdotes para interrogá-los, mas o templo estava abandonado.
Junto ao corpo judiado de Ariano estava uma nota: “Contate o capitão Osheen, do Distrito Prata”. Na jaula da serpente, tinha uma outra nota: “Para: Rua 1S, 56, diretório universitário, Caixa postal 36 A- Vermillion. Professor Lumen Z’angar, especialista em ofídios”.
Quando o capitão Aristor contatou o Distrito Prata e os informou sobre a captura de Ariano e sobre o bilhete, ele se surpreendeu com a voz emocionada do outro.
- “O rapaz assassinado era um líder dos trabalhadores das minas. Ele tinha acabado de conseguir a diminuição da carga horária para o trabalho de escavação quando o suspeito o matou. Todo distrito está em luto.”
Aristor também entrou em contato com o tal professor Lumen, que era um grande especialista de cobras e serpentes e parecia muito interessado na nova peça a acrescentar a sua coleção.
“Estou ansioso pela entrega, capitão. Ahn? Se eu sei? Ora, capitão, eu estou em Vermillion, mais de 10 horas de Astrid, como eu posso saber o que aconteceu? Mas esse espécie, se é o que o senhor me descreve, é uma serpente muito perigosa. Anote os cuidados necessários para ela e passe para quem vai fazer a entrega.”
No fim das contas, Ariano foi julgado e preso. Sua sentença? 150 anos de prisão na Fortaleza Down.
Notas finais
Thank you!!
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