Lifetime

21 It's going to hurt when it heals too


Notas iniciais
(Better in Time - Leona Lewis)

"Sério, me tire daqui"

Max riu ao encarar a tela, sendo a única claridade presente em seu quarto, além da fraca luz que vinha dos postes em frente aos dormitórios.

"Quem mandou ser expulsa de Blackwell?" Digitou. "O horário da madrugada nem deve ser tão ruim assim."

"São caminhoneiros irritados e fedidos, Max. E eu tenho que usar um avental. A porra de um A-V-E-N-T-A-L"

"HAHAHA, não se esqueça do chapéu de cozinheira. E dos patins!"

"Em que século você vive?!"

Sorrindo para a tela, revirou os olhos, sentindo como se estivesse conversando com a amiga cara a cara.

"Eu vou passar aí de manhã. Então você será minha escrava U.U"

"NÃO OUSE. PARE COM EMOTICONS!"

"Me obrigue O.O"

"MAX"

":*"

[…]

Max chegou no Two Whales quando o sol estava atrás de algumas nuvens, ainda tímido para revelar que já era manhã. A brisa fria da entrada outonal colidia com seu rosto e as bochechas avermelhadas pelo calor que sua roupa fazia em sua pele. A jovem puxou as extremidades do casaco para mais perto do corpo na intenção de se proteger, já que estava um tanto sensível na imunidade por ter ficado na praia com Nathan até tarde. Talvez ela estivesse gripada, pois seu nariz escorria um tanto e a garganta raspava.

Empurrando a porta de entrada, ouviu o som agradável do sininho avisando sua presença e sentiu o cheiro de ovos e bacon aquecendo seu estômago que já lhe alarmava sobre o vazio. Max aproximou-se do balcão e sentou-se em uma das banquetas na intenção de procurar a amiga que estava na cozinha. Através da pequena janela, encontrou um rastro de cabelo azul que estava coberto de farinha e preso por uma rede preta enquanto a jovem tinha o rosto manchado e suor escorrendo no pescoço.

A morena não pôde deixar de escapar uma leve risada ao olhar ao redor e ver alguns dos clientes emburrados por estarem sem seus pedidos. Uma parte até gritava e batia furiosamente contra a mesa enquanto Max pegava uma xícara e colocava café para si própria, não querendo arranjar mais trabalho. Chloe saiu detrás da cozinha e caminhou até o local com dois pratos enfileirados nos braços enquanto focava em não os tombar, assim os colocando na frente dos caminhoneiros famintos.

Isso parecia uma cena de um filme viking que Warren havia lhe mostrado.

— É feio rir da desgraça alheia — comentou Chloe assim que terminou de servir os insatisfeitos. — Céus, nunca pensei que teria de servir você também.

— Ovos com bacon, por favor — Max sorriu ao levar a caneca branca aos lábios novamente. — Ah, e não se esqueça de fazer um rosto feliz no prato!

A garota das mechas azuis balbuciou um "eu te odeio" e partiu para trás do balcão, sumindo na cozinha e deixando a morena com o sorriso malicioso pendurado nos lábios. Max se ajeitou no assento acolchoado e encarou a vista através das persianas largas, vendo o vago movimento na rua; sendo apenas caminhões parados e seus motoristas conversando, pescadores tomando cerveja em um banco e a pequena visão que ela tinha da praia. Ao ver as ondas longínquas, lembrou-se da tal tarde que passara com Nathan.

Ela gostava de passar seu tempo ao lado do garoto, por mais que às vezes fosse difícil. Era como se o Prescott estivesse ali — em carne e osso, em sua frente —, mas sempre longe, vagando em sua própria bolha e perdido em pouco espaço. Max desejava todas as noites que pudesse conseguir ajudá-lo, mas não sabia sobre o passado dele, ou sequer de seu presente, contando com o modo de como ele se fechava ao mundo.

Quando pequena, Max lembrava-se de seu avô, uma pessoa que amou muito e considerava como grande parte de sua infância. O homem lhe trazia amor de volta, mas sempre de maneira vaga, deixando-a desamparada em pensamentos de que sempre era a que mais entregava suas partes (sem receber). Nathan não era diferente. Sempre que ele começava a se abrir, era como se surgisse uma grande muralha dentro de si, bloqueando qualquer coisa que deveria ser dita, voltando à primeira base.

E isso a machucava, pois ela sentia que não o conhecia de verdade, mesmo que no fundo achasse que ninguém realmente o conhecera. Victoria, sendo sua melhor amiga, sabia de diversos tópicos, mas não sabia dizer também. Talvez Nathan sentisse a dor quando fosse falar, como se o possuísse por inteiro e o impedisse de seguir a linha de raciocínio, o desviando do pensamento e retornando ao silêncio.

— Aqui está, Maxine Caulfield — Chloe colocou o prato na frente da garota, o cheiro maravilhoso dominando suas narinas.

— Eu pedi um rosto feliz — afirmou Max ao olhar o formato em que Chloe havia ajeitado a comida, sendo um tanto… obsceno.

— Você pede demais — a garota sentou-se de frente para a amiga e respirou fundo. — Ainda bem que esses caminhoneiros foram embora. Céus, eles são fodas de lidar.

— Só espero que eles não tenham dor de estômago — Max arqueou as sobrancelhas e a amiga revirou os olhos com os comentários.

A morena cortou uma fatia de bacon e degustou lentamente enquanto sentia os sabores caminhando dentro da boca.

— Eu preciso te contar algo — disse ela enquanto mastigava um pedaço do ovo.

Chloe inclinou-se para a frente e retirou o avental sujo, jogando-o na direção do balcão, mas caindo um tanto antes sobre uma poça de café. A jovem não pareceu ligar.

— É algo um tanto pessoal, ok?

— Deixe os detalhes de sua vida sexual de lado, Caulfield — Chloe revirou os olhos. — Eu não quero imagens explícitas em minha mente.

— O quê?! Não! Não é sobre isso que eu quero falar! — A morena franziu o cenho e quase se engasgou com o pedaço de bacon. — É sobre Sean!

— Certo, certo, então diga.

— Bem, eu e Nathan fomos encontrar o irmão mais velho dele no Mountainview Fish…

— O Mountainview Fish?!

— Sim, deixe-me continuar — Chloe assentiu e a morena respirou fundo, retomando: — Enfim, o Ian é gerente de uma agência bancária e notou que um cara estranho começou a depositar alguns milhões na conta de Sean.

— Não são os patrocinadores do concurso que você me contou? — Questionou a garota de cabelos azuis, puxando uma perna para perto do peito.

— Não. Esse cara se veste cada vez de uma forma e deposita em vários bancos diferentes, mas da mesma agência — completou Max. — Tem algo sujo nessa história, Chloe.

— Nathan não sabe de nada?

— Obviamente.

— Você tem certeza? Talvez ele esteja escondendo ou… sei lá, sendo ameaçado…

Nesse instante, Max começou a juntar algumas peças e lembrou-se da tarde passada em que sua mão tremia freneticamente, e também de sua mudança de humor repentina. Não pode ser, pode?!

— Eu acho que não. — A morena disse sem muita confiança no tom de voz, o que despertou certa curiosidade na amiga. — Mas nós sabemos do que Sean é capaz.

— Vai ver ele está revendendo Ketamina — Chloe disse na brincadeira, mas sua frase pareceu fazer sentido depois, já que ela parou alguns segundos para pensar. — Cara, isso é tão fodido.

— Eu sei — Max respirou fundo e terminou de comer. — E talvez nós nem devêssemos estar envolvidas nisso. Não é da nossa conta, certo?

— Você está subestimando a Capitã Chloe Barba Azul? — A garota pulou do assento acolchoado e subiu sobre o mesmo, esticando um dos braços enquanto colocava uma mão sobre a testa. — A vista de Arcadia Bay continua horrível, mas não há nada que não possamos combater!

Max riu da imitação horrível de pirata e revirou os olhos enquanto alguns dos caminhoneiros começaram a encarar e colocarem olhares confusos em suas faces.

— Chloe!

Capitã, senhorita!

— Eu vou fingir que não te conheço — a garota abaixou o rosto e abriu o celular.

Enquanto Chloe seguia sua imitação tentando prender a atenção de Max, que ria sutilmente, a morena avistou uma mensagem pendente na tela inicial que fez seu sorriso cair do rosto. Chloe pareceu notar, já que desceu do assento e sentou-se novamente, debruçando-se sobre a mesa.

"Haven Row, 341"

[…]

Ian e Max não haviam criado intimidade suficiente para mandarem mensagens sem contexto algum, e essa foi a surpresa da garota assim que notou a notificação na tela de seu celular, apontando um endereço que já ouvira falar, mas não tinha ideia do porquê.

Ela pensou em ligar para Nathan antes de fazer qualquer coisa, mas não sabia se aquela podia ser a melhor opção — fora o fato de que ela estava começando a duvidar de algumas ações. Então, sem mais delongas, a jovem já se encontrava no caminho para o tal endereço, parando de frente para um pequeno sobrado com paredes pintadas em branco e uma grande placa no centro.

"Dr. Emilé Jacoby."

Respirando fundo, ela analisou a porta durante algum tempo e perguntou-se o porquê de estar ali. Como ela foi burra de apenas seguir para o endereço sem ao menos saber de que se tratava. Pegando o celular, discou o número de Ian rapidamente, esperando uma resposta.

Max? — Chamou a voz do outro lado da linha. — Está ligando por causa do endereço, eu suponho.

Que lugar é esse, Ian? — A jovem deu meia-volta, encarando a rua deserta e os caminhões estacionados perto da praia.

— O psicólogo do Nathan — comentou Ian, seu tom tornando-se mais sério e trazendo arrepios à Max.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.