Life's too hard when you're alone
13 A primeira vez que eu quis desistir
Notas iniciais
Eu não aguento mais!
Dores… meus deuses as dores!
Por favor alguém que me ajude, por favor.
* * * * *
Depois de sair completamente fula de casa dos Clarkson eu não sabia o que haveria de fazer. Como é que eu iria encontrar a Isabella se nem sabia por onde começar a procurar?
Sempre podia ligar aos meus pais, mas eles provavelmente ainda estão ocupados com o que quer que seja que o Quíron queria deles.
Pensa Grace, pensa!
Posso tentar com um certo deus a minha sorte mas está escuro demais para mandar uma MI e eu não tenho dracmas comigo. Mas…
Peguei no meu telemóvel e disquei um número.
– Preciso de ajuda.
– Ora, ora se não é a minha Grace favorita.
– Deixa-te de merdas, tu nem gostas de nós. Preciso de saber onde encontrar as empousai.
– Vais te revoltar contra alguém?
– Só para matar mesmo. – respondi dando de ombros.
– Muito bem. Elas costumam andar perto daquele centro comercial abandonado na baixa. E qual é o stress, se me permites saber?
– Atacaram uma amiga minha.
– Amiga?
– Mortal.
– Mortal?! – exclamou incrédulo.
– Também não percebi a cena delas.
– Mata uma por mim.
Sorri de canto.
– Eu vou ter cuidado fica descansado.
– Liga-me se precisares de alguma coisa, o meu pai gosta mais de vocês do que alguma vez irei entender. – respondeu com sarcasmo. Revirei os olhos.
– No fundo tens uma paixão secreta por mim.
– Acho que é mais pela tua mãe.
– Ew. Nojento.
Antes de desligar só conseguia ouvir gargalhas do outro lado da linha. Nunca vou entender esta gente.
Mas o centro comercial da baixa? Vou demorar eternidades a chegar lá a pé. Bem já que a vou salvar a Isabella não se vai importar que eu use o Mercedes dela, somos melhores amigas. É, eu vou mesmo levar o carro dela. Voltei para trás e fui buscar as chaves dela.
Já dentro do carro, sem tirar o pé do acelerador, seguia pelos atalhos que eu conhecia que davam para o tal shopping. Mas tinha de ser naqueles em que cabia um carro na rua, nem preciso de estrada. Para quê?
Ao estacionar o carro a dois quarteirões de distância apercebi-me que estava silêncio a mais. Quer dizer, não é que se ouça muito barulho nesta área da cidade mas é costume haver sempre carros a passar, cães a ladrar, música vinda de casas das redondezas, coisas assim. Mas eu não estava a ouvir nada de nada. Até que…
– ALMA CORRE!!! – gritou alguém vindo do centro comercial.
Uma pessoa passou por mim a correr feita maluca, agarrou no meu braço e começou a arrastar-me. Só quando eu comecei ao lado dela é que me apercebi que era a Isabella.
Tinha o cabelo solto e empapado com uma substância liquida que cheirava mal, tinha vários pequenos cortes nas bochechas e tinha uma sobrancelha aberta e a sangrar, sangue escorria também do cabelo dela, tinha o colarinho da camisa cheio de sangue e uma ferida horrorosa no pescoço, uma manga da camisa estava rasgava e mostrava o seu braço coberto de sujidade e cortes ainda a sangrar e outros a sarar, as suas costas tinham vergões vermelhos e a camisa estava em praticamente desfeita atrás e por alguma razão estava descalça e os seus pés estavam todos feridos. Mesmo toda esfolada e suja ela não abrandava o ritmo nem por nada, nem mesmo quando começámos a ouvir silvos e profanações em grego vindas as empousai que, muito provavelmente, estavam a perseguir-nos completamente furiosas por ela ter conseguido fugir das suas garras e pernas de burro. Muitas das coisas que elas estavam a dizer eu nem me atrevia sequer a pensar nisso, mesmo que eu estivesse o mais irritada possível com uma pessoa, elas precisam de ter aulas de controle da raiva.
– Volta aqui sua humana desprezível! Vais pagar em sangue por teres fugido!! – este foi o insulto mais leve que eu ouvi vindo delas.
Passámos a correr como se não houvesse amanhã pelas ruas, só passado um bocado é que me apercebi que tínhamos deixado o carro para trás. Merda.
Quando passámos por um beco escuro eu agarrei no braço dela e puxei-a para lá. Ela assustou-se e eu pus uma mão a tapar-lhe a boca. Enquanto os segundos passavam a Isabella respirava pesadamente e tinha os olhos arregalados de puro terror, eu senti tanta pena pela minha amiga, ela não devia de estar assim. Ela devia de estar em casa a pensar no que haveria de vestir amanhã ou quem é que iria ganhar o American Next Top Model. Coisas normais.
– Ouve, tu vais correr o mais rápido que alguma vez correste na tua vida, pegas no teu carro que está a uns metros daqui e sais daqui sem olhar para trás. Vai para minha casa e tranca tudo. Percebido? – sussurrei-lhe devagar ainda a tapar-lhe a boca.
Ela só abanava a cabeça e estava a começar a chorar. Tirei-lhe a mão da boca na esperança de ela não começar a gritar.
– Mas então e tu? Não te vou deixar aqui com elas. – sussurrou ela de volta com a voz carregada de preocupação.
– Eu trato delas, não é a primeira vez que lido com uma cena destas e com certeza que não vai ser a última.
– Mas elas nem são…
– Humanas, eu sei. – disse completando a sua frase.
– Então como…
– Daqui para a frente quero que entendas uma coisa. – disse interrompendo-a novamente — Eu não sou como tu ou o James. A minha vida não é como a vossa. A minha vida é esta. Lutar com aquelas coisas, ou até piores, são as que me aparecem à frente. Isabella, aconteça o que acontecer, tens de me prometer que não vais olhar para trás e vais diretamente para minha casa.
– Tu j-já estás habituada a-a isto tudo? – perguntou incrédula apontando para onde vinha os sons das empousai.
– Já. – admiti mais cansada do que sei eu lá o quê. – Eu explico-te tudo quando acabar as limpezas aqui. Agora vai enquanto eu as distraio.
Ela acenou com a cabeça e eu comecei a andar em direção à rua. Com uma mão segurava a minha espada e a outra estava a Isabella a apertá-la com força enquanto olhava espantada para a espada, mas não disse nada. Olhei em redor, via umas seis delas que agora estavam a olhar na minha direção. Avançavam calmamente como se tivessem todo o tempo do mundo, mas eu não, estava a começar a escurecer e a visibilidade do alvo é extremamente importante para mim.
– Se não é a netinha querida do grande deus. – troçou uma delas.
– Estás com medo é? – provoquei eu. A Isabella apertou-me mais a mão.
– Uuuuh estou a tremer de medo. O que é que vais fazer? Incinerar-me com um raio?
– Para tua sorte eu não possuo os mesmos poderes do meu pai senão já não estava a ouvir a tua voz horrorosa.
– Sim, sim estamos todas aqui a tremer de medo. Vamos mas é logo matá-las às duas. A minha barriga anda a desejar uma meio-sangue à bastante tempo. – disse outra.
Larguei a mão da Isabella e pus-me em posição de combate. Nenhuma delas vai sair viva desta situação, não depois de magoarem a minha melhor amiga.
– Querem brincar? Vamos brincar. – ameacei eu.
Elas começaram todas a correr na nossa direção com os olhosraivosos, garras e presas de fora e com a perna de burro e a outra de metal à mostra.
Eu gritei para a Isabella correr depois de lhe entregar as chaves do carro. Ela já tinha fugido quando fui cercada por seis empousas, eu estava com tanta raiva dentro de mim. Não só por causa da situação em que me tinha metido, mas também por uma das minhas amigas acabar magoada por minha causa, por ter sido tão parva com o Nathan e por não ser forte o suficiente. Eu sabia que não conseguia lidar com elas todas de uma vez. Isto não vai acabar bem para o meu lado, mas não vou cair sem deixar algum massacre para trás.
Uma empousa loira de olhos verdes escuros e pele bronzeada veio para cima de mim. Tentou arranhar-me a cara mas eu cortei-lhe a mão com um movimento de pulso, ela uivou de dor e investiu outra vez contra mim, desta vez com um pequeno punhal e estava a apontar para o meu coração mas eu desviei-me e dividi-a ao meio, transformou-se em pó de monstro no mesmo instante. Outra veio até mim, era uma morena de olhos negros como a noite e a pele parecia ser meio amarelada, tento apunhalar-me pelas costas mas eu puxei o meu cotovelo para trás e dei-lhe uma pancada mesmo no meio dos olhos, enquanto estava aturdida, espetei-lhe a espada no pescoço.
Duas já estavam, só faltavam mais quatro.
Eu sou uma pessoa que em certas alturas sou otimista até demais. Esta foi uma desta vezes. As quatro que sobravam foram todas para cima de mim, eu peguei no meu punhal de anel com a minha mão esquerda e tentei fazer o meu melhor para sobreviver. Eu corri feita parva em direção ao centro comercial. Exatamente onde elas queriam que eu fosse.
Arrombei uma porta de madeira podre ao lá chegar e corri para dentro de uma loja que, no passado, vendia malas de viagem. Tinha o vidro das montra todo partido e algumas prateleiras estavam caídas no chão com a madeira a apodrecer. Cheirava incrivelmente mal naquele lugar, estava a ficar com tonturas de ficar ali, mas mesmo assim escondi-me atrás do balcão. Rezei a todos os deuses para que não me deixassem ser encontrada, mas não valeu de nada pois fui puxada pelo meu capuz para cima do balcão.
Eu dava pontapés aleatórios para o ar, na esperança de acertar nas minhas oponentes, e esperneava tanto quanto podia mas umas garras afundaram-se nos ombros e canelas. Eu berrei de dor e a minha garganta começou a doer, tinha deixado cair a minha espada e o punhal. Estava perdida.
Levei um estalo na cara com tanta força que pensei que me tinham deslocado o maxilar, calei-me no mesmo instante.
– Linda menina. Agora, vais ser boazinha e não te vais mexer. Porque senão vais ter uma morte muito dolorosa, entendido? – disse uma delas com a voz muito calma. Tinha cabelo ruivo e os olhos vermelhos, estava escuro mas toda ela parecia ser feita de fogo.
Acenei com a cabeça.
– Muito bem. Nem acredito que foste tão estúpida ao ponto de vires a correr diretamente para o nosso esconderijo, quer dizer, quem no seu perfeito juízo corre para a sua morte? – perguntou a rir-se na minha cara.
– O que te diz que eu estou no meu perfeito juízo? – provoquei.
Devia de ter ficado com a boca fechada. Porque ela não gostou da provocaçãozinha e isso custou-me o meu próprio punhal espetado até ao punho na minha barriga. Eu gritei novamente.
– Ninguém te deu autorização para responderes! – exclamou a ruiva com os olhos a chisparem de raiva. Olhou para a minha cintura e um sorriso vitorioso apareceu-lhe no rosto. Tirou do cinto as adagas, a besta e a espada.
Olhou para outras e começou a rir feita louca. As outras duas que ainda estavam de garras fincadas na minha carne acompanharam-na. Apesar das dores eu revirei os olhos.
– Vamos levá-la para a outra sala e conversar com ela. – da maneira como ela proferiu a palavra “conversar” eu sabia que nada de bom estava para vir.
As cobaias dela tiraram as garras de mim com a maior falta de delicadeza de toda a História. As dores eram tantas que eu pensava que ia desmaiar e o cheiro a podre e morte também não estava a ajudar. Atiraram-me para o chão e eu arranquei o punhal da minha barriga, fiz mira na ruiva e quando atirei ela desviou-se para o lado deixando a que estava atrás dela levar com um punhal mesmo no olho esquerdo. A outra que ainda estava de pé olhou para mim com desprezo e deu-me um pontapé mesmo no sitio de onde eu acabara de tirar o punhal, ainda por cima com a sua perna de metal.
Berrei vezes e vezes sem conta enquanto era pontapeada no estômago e no peito, a ruiva apenas ficava ali a assistir e a divertir-se à grande. Por fim eu consegui uma abertura e agarrei na perna de burro da loira que me atacava fazendo-a cair ao meu lado, antes que pudesse fazer mais alguma coisa, eu peguei na mão cheia de garras dela fazendo com que ela rasgasse o seu próprio pescoço. Antes de se desintegrar por completo eu fiquei com a cara e a roupa toda espirrada de sangue de monstro. E digo-vos, não foi uma experiência bonita.
– Agora que finalmente acabaste vamos ao que interessa. – falou a ruiva arrastando-me pelos cabelos pelos corredores do centro comercial.
O meu couro cabeludo latejava de dor enquanto eu gritava obscenidades em grego pelo s corredores fora. Eu deixava para trás um rasto de sangue que sujava o chão que outrora fora azul celeste.
– Essas tuas ameaças não te vão levar a lugar nenhum querida. Por isso cala a boca antes que eu te mate.
Quando ela finalmente largou o meu cabelo eu reparei que estávamos numa sala ampla com paredes de tijolo sujas e com a tinta cinzenta já muito descascada. O chão estava coberto de pó, pedaços de teto que tinham caído e poças de sangue em alguns lugares seco, noutros ainda fresco. Havia uma cadeira mesmo no meio do foco de luz que provinha de uma lâmpada fraca pendurada no teto. A empousa que tinha ficado lá, de certeza, à espera da minha chegada arrastou-me para a cadeira de metal sujo de sangue. Ao sentar-me prendeu-me os pulsos com cordas que mais pareciam arame farpado, fiquei com os pulsos todos em sangue. Fez o mesmo com os meus ombros, tronco e pés.
Toda eu era uma gigante poça de suor e sangue, mas eu estava tão assustada que nem liguei aos meus pulsos em carne, nem aos ombros e canelas a latejarem e muito menos ao profundo corte que eu tinha na barriga e que sangrava bastante. Só conseguia pensar na fúria que eu tinha dentro de mim, o quanto eu queria matar aquelas metade burro metade ogre que estavam à frente, e claro, eu estava a maquinar um plano em como eu iria escapar dali para fora.
– Olha para ela Kimmie. – gozou a ruiva – Tão patética que ela é e tão fraca.
Essa tal de Kimmie era loira com madeixas azuis, roxas e rosa tinha olhos castanhos chocolate e era meia cabeça mais alta que a ruiva. O que mais me assustou nela foi o chicote numa mão e as três adagas na outra.
– Vamos começar por pequenos cortes, o que achas Mabel? – perguntou a Kimmie.
Se eu não estivesse na posição que me encontro eu tinha rido em alto e bom som. Mabel? Quem é que se chama Mabel? Isso é nome de avó e de cadela já muito velha. Mas eu tive que rir, como não rir? Era hilariante.
–Achas piada é? Eu dou-te a piada. – rosnou a Mabel.
Ela pegou numa das adagas da Kimmie e deu uma facada um pouco acima do meu joelho. Eu senti a ferida a borbulhar e um liquido verde começou a jorrar da ferida juntamente com sangue.
– Ah! Ia me esquecendo, tem veneno. – disse a Kimmie com um sorrisinho na cara. – Ups!
Eu lancei-me para a frente, maior erro de sempre. Os meus pulsos ficaram ainda mais cortados do que já estavam e os restantes dos sítios onde estava amarrada também ficaram todos arranhados. Mordi os lábios com tanta força para reprimir um grito de dor que os deixei em sangue.
Elas duas aproximaram-se mais de mim e foram desferindo cortes por todo o meu corpo. No peito, nos braços, na cara, nas pernas, nas costas e na minha barriga. Por mais que eu gritasse eu sabia que ninguém me iria ouvir. Estávamos num velho e abandonado centro comercial, não vivia viva alma perto o suficiente para me ouvir e eu suspeitava que esta sala tinha sido insonorizada. Quanto mais eu gritava mais elas riam. Até que fiquei em silêncio de cabeça baixa e o meu corpo tremia, eu estava a entrar em choque.
Então era isto, era o meu fim. Nada me podia tirar daqui e eu nem sequer tinha tido a hipótese de fazer jus à minha raiva toda. Sentia o meu coração a apertar enquanto pensava nisto e os rostos dos meus amigos e família passavam diante dos meus olhos como memórias antigas.
Até que eu ouço passos.
– O QUE É QUE VOCÊS FIZERAM?! SUAS INCOMPETENTES! – gritou uma voz masculina estranhamente familiar. – EU SABIA QUE NUNCA VOS DEVIA TER INVOCADO!
E depois só se ouviu um único grito e tudo tinha, de súbito, acabado.
Alguém tinha cortado as cordas que me prendiam à cadeira e eu cai no chão como um peso morto.
– Eu acho melhor levantares-te e começares a correr, porque mais monstros vão atrás de ti para te matar. – sussurrou a tal voz ao meu ouvido. – Dou-te doze minutos de avanço.
Com isto eu levantei-me a custo e comecei a andar. O meu joelho estava a matar-me com tantas dores, apoiei-me na parede enquanto tentava andar o mais rápido que conseguia. Quando consegui sair de lá uma brisa fresca bateu-me no rosto e eu olhei para o céu estrelado, tinha conseguido sobreviver à primeira ronda. Com o alivio deste pensamento respirei fundo e desatei a correr dali para fora.
Estava perto da minha escola quando parei. Não conseguia respirar de tantas dores que eu tinha de reprimir para me fazer correr apenas mais uns metros, era o que me fazia continuar. Só mais uns metros e parava.
Até que parei. Sentei-me pesadamente no passeia da rua a tentar respirar normalmente, eu não tinha dado conta mas eu tinha começado a hiperventilar. Comecei a achar que o veneno era tudo mentira pois a esta hora eu já deveria estar morta. Graças aos deuses.
Eu tenho que começar a pegar leve nestes agradecimentos ao deuses porque eu comecei a ouvir sons de cobras. Espera ai, COBRAS?!
Olhei para trás e numa parede de um beco eu vi a sombra de duas criaturas e quatro cobras gigantes. Isto não é nada bom, nada, nada, nada bom. Levantei-me a arfar de dores e comecei a andar os mais silenciosamente possível para a escola. Isso não me serviu de nada porque momentos depois eu estava a correr e a ser perseguida por duas dracanae, daí é que vinha o som de cobras. Vinham ambas com um escudo e uma espada cada, e eu tinha apenas uma espada de Ouro Imperial, fiquei feliz ao perceber que a espada tinha voltado à sua forma de moeda e tinha reaparecido no meu bolso, mas não servia de nada porque eu estava física e psicologicamente exausta. As pernas de cobra devem dificultar um bocado a locomoção das criaturas porque eu tive tempo de virar numa esquina escura e telefonar ao primeiro número que tinha na discagem rápida.
Ao segundo toque atendeu.
– Isto é bom que seja importante porque eu estou no meio de um jogo de vídeo que me pode custar uma pizza se eu perder. – disse ele antes de eu ter tempo de dizer alguma coisa.
– Nathan? Nathan? – gritei eu urgentemente.
– É o próprio. – respondeu mal humorado.
Eu já estava a ouvir os assobios delas a aproximarem-se cada vez mais e eu estava a ficar sem tempo.
– Nathan, ajuda-me… eu não sei como… — elas apareceram mesmo ao meu lado prontas para atacar, eu andei para trás e tropecei num caixote do lixo tombado e caí no chão completamente feita ao bife – PIGAINOUN PÉTRAS SKYLIA TOUS! Estou a ser perseguida e eu não aguento- — não consegui acabar a frase pois uma delas veio até mim e enfiou-me a espada no peito. Eu berrei como nunca tinha berrado na minha vida. E eu só conseguia ouvi-lo do outro lado da linha a gritar pelo meu nome.
– Alma? Alma? Onde é que estás? ALMA!
Eu não aguento mais!
Dores… meus deuses as dores!
Por favor alguém que me ajude, por favor.
E apaguei.
* * * * *
Tudo o que eu via, e de alguma forma, ouvia era escuridão. Não havia mais nada, apenas preto. E eu pensei que a morte é uma coisa muito tediosa se eu tenho de ficar a olhar para o nada pelo resto da eternidade. Até que senti uma coisa fresca na minha boca. Uau, eu sentia coisas até na morte?!
Mas então eu descobri que não estava morta, apenas à beira do precipício que é a morte. As minhas pálpebras abriram-se a muito custo e eu vi dois borrões à minha frente, um dourado e outro prateado. Os meus ouvidos a certa altura começaram a funcionar e eu ouvia silvos de cobras e gritos humanos enquanto a luta se desenrolava. Até que tudo acabou e os borrões começaram a ganhar forma. Um deles era o meu pai, tentei dar um sorriso ao vê-lo mas acabou por se tornar num esgar de dor, e ao lado dele uma rapariga um pouco mais velha que eu com os mesmos olhos do meus pai, estava ao seu lado.
– Eu estou aqui Alma, vai ficar tudo bem. – disse o meu pai com a voz cheia de emoção.
– É uma pena eu conhecer-te nestes meios mas é um prazer. – disse a rapariga sorrindo para mim.
– Isabella… — sussurrei, a minha garganta parecia que tinha sido lixada.
– Ela está bem querida, graças a ti. – respondeu a rapariga ainda a sorrir. – O meu nome é Thalia e… Alma? Alma? Consegues ouvir-me?
E eu apaguei novamente agradecendo silenciosamente ao Nathan por ter avisado a minha família a tempo. De certo modo ele salvou-me.
Outra vez.
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