Lifeline
1 Capítulo Único
Notas iniciais
p.s.: Se essa é a primeira história minha que está lendo, tenho outras postadas se quiser ler também :)
Boa leitura!
As paredes brancas me incomodam, assim como o resto desse quarto. Não me incomodo com os lençóis brancos, ou com meu travesseiro branco. Mas as paredes são tediosas, me deixam com frio. Eu poderia mudar esse quarto, se eu quisesse. Eles me dão a opção de decorá-lo, talvez colocar quadros ou fotos nas paredes. Para te deixar mais confortável, é o que eles dizem ao tentar me convencer. Eu sempre recuso. Prefiro sentar na minha cama de ferro – branca – e detestar esse quarto. Não quero me sentir confortável. Não quero fazer desse lugar minha casa.
Uma campainha irritante avisa a todos para saírem dos seus quartos e irem ao refeitório. Hora do café. Eu nunca senti muita fome de manhã, mas o café da manhã é a melhor refeição daqui. Tenho certeza que é porque você não pode estragar waffles congelados e frutas cortadas. Levanto da minha cama e saio do quarto, sem me preocupar em calçar as pantufas guardadas ao lado da porta. Não gosto delas.
O corredor já está cheio de pacientes indo na mesma direção, como um cardume de peixes. Eles já me disseram para não chamar os outros de pacientes. São moradores, insistem em dizer. É tudo besteira. Isso aqui é um hospício, pelo amor de deus; somos todos pacientes.
Chego ao refeitório. Aqui, as paredes têm um tom de amarelo que eu não entendo muito. É claro e vibrante, e parece ser uma forma de fazer com que as pessoas se sintam alegres ao comer a porcaria que nos servem. Não funciona comigo. Mas somos todos loucos aqui. Deve funcionar com alguém.
Pego uma bandeja na pilha e entro na fila para pegar a comida. A funcionária sorridente coloca waffles e frutas variadas na minha bandeja, junto com um suco de caixa e alguns sachês de molho. Eu me afasto sem agradecer. Afinal, o sorriso dela não tinha um pingo de sinceridade. Não estou com vontade de fingir nada. Sento-me à mesa redonda mais afastada, onde não sou obrigado a participar de nenhuma conversa.
Ouço a cadeira ao meu lado ser arrastada, e eu já sei quem vai me acompanhar na refeição. Aceno a cabeça levemente para Scott, a única pessoa que eu genuinamente suporto, e ele retribui o gesto. Nós não somos amigos. Aqui não é um lugar para fazer amigos. Mas somos parecidos, de certa forma. Temos problemas parecidos. Nesse lugar, qualquer pessoa com o mesmo nível de loucura que o seu se torna a coisa mais próxima de um amigo.
Comemos em silêncio. Por isso gosto de comer com Scott, ele não força uma conversa. Não se incomoda com o silêncio. Termino meu prato primeiro, mas espero por ele, porque é isso que fazemos. Quando Scott termina o dele também, levantamos juntos e levamos nossas bandejas para a pilha no canto da sala. Vamos para a fila que se forma em frente ao guichê, parecido com aqueles onde se compra ingressos para o cinema. Mas aqui recebemos remédios. Pequenas pílulas brancas, azuis. Eu não sei exatamente para que servem. Não quero saber. Sei que elas me deixam cansado, sedado. Talvez seja por isso que eles nos enchem com essas coisas. Dezenas de pacientes dormindo não causam problema. Não quebram nada. Por isso, eu não me importo em enfiar as drogas garganta abaixo com um copinho de água. Eu não detesto esse lugar quando estou dormindo.
Eles liberam alguns jogos para os pacientes depois do café, mas os filhos da mãe sabem muito bem que estamos sedados demais para jogar. Despeço-me de Scott com outro aceno de cabeça e volto para o meu quarto. Jogo meu corpo no colchão e coloco meu braço sobre meus olhos. Quero dormir logo. Sei que vai durar pouco, mas todo cochilo nesse lugar é lucro. Faz o dia passar mais rápido. Respiro fundo e deixo meu corpo afundar com o efeito das drogas.
Acordo pouco tempo depois. Alguém está gritando do lado de fora do meu quarto. Isso sempre acontece por aqui. Afinal, somos loucos. Nós gritamos, e derrubamos coisas, e brigamos. Não vou mais dormir agora. Meu sono é leve, vai embora com facilidade e não volta. Então eu me levanto e vou até o pequeno armário no canto do quarto. Tiro a calça de moletom, o casaco e a camisa de algodão e coloco as roupas de corrida e os tênis que ganhei no último natal. Saio do quarto, ando pelo corredor e vou os fundos do grande prédio. Antes de chegar até a porta que leva para o lado de fora, mostro a pulseira de plástico que vive em meu pulso para umas das funcionárias sentada dentro do guichê. Existem vários desses por aqui.
Ela digita o número da minha pulseira no computador. Eu sei que lá vai aparecer que eu posso ir para fora. Privilégios, tudo questão de bom comportamento. Já que não posso ir embora, pelo menos posso ter algumas horas longe dessas paredes brancas. A mulher me da um sorriso, que eu não retribuo, e faz sinal para que o guarda destranque a porta.
Respiro fundo o vento frio que vem das árvores. Eles têm um grande campo atrás do prédio, usado apenas para atividades ao ar livre. Claro, tudo rodeado de muros, que acabam em arame farpado. Afinal, somos loucos. Podemos querer fugir. Eu sempre quero, mas nunca tentei. Não quero perder meus privilégios.
Alongo-me rapidamente e começo a correr. Existe uma pista de corrida ao redor do campo, mas eu pareço ser umas das únicas pessoas que a usa para isso. Scott me acompanha ás vezes. Acompanhava. Ele perdeu os privilégios por mau comportamento. Ele os receberá novamente.
As horas que passo do lado de fora são as únicas que valem a pena nesse lugar. Corro em círculos em um lugar cercado de muros, mas é o mais próximo do lado de fora que eu vou conseguir. Estar em movimento me liberta do peso que as drogas trazem. Meu corpo fica mais leve. Gosto da sensação dos músculos queimando, do esforço dos meus pulmões. Só me sinto vivo nessas horas.
Quando me canso, chuto meus tênis e me deito na grama úmida. Respiro fundo, olhando para o céu azul claro. Posso até esquecer onde estou. Posso fingir que estou em casa, e que ainda não perdi minha cabeça. Posso, mas não quero. Não quero sonhar acordado. Esse não é o tipo de comportamento que te faz sobreviver por aqui. Você tem que viver com a cabeça onde você está. Não esqueça o que você fez, não esqueça quem é. Afinal, somos loucos. É fácil querer fingir ser outra pessoa.
A sirene alta avisa que é hora do almoço. Fico em pé e vou para a porta, indo direto para o refeitório. Estou suado e minhas roupas estão sujas, mas eles vão me servir uma comida ruim, então não me importo. Estou ciente dos olhares que estou recebendo. Devem estar com nojo do estado em que estou. Sei que não cheiro muito bem. Mas, portanto que não tirem meus privilégios, eu não me importo.
Pego minha comida e sento-me à mesa de sempre. Scott logo se junta a mim. E então Liam senta na minha frente, sorridente. Eu também gosto de Liam. Eu virei um dos seus melhores amigos bem rápido. Sei disso porque ele me contou uma semana depois que eu cheguei aqui. Não sei como isso aconteceu. Mas Liam é mais louco que eu. As flores no campo dos fundos também são suas melhores amigas.
— Oi Stiles – ele diz, animado. Liam está sempre animado. Também não sei por quê. – Foi correr d-de novo?
— Todo dia, Liam – respondo amigavelmente. O sorriso dele cresce ainda mais. Não tenho motivos para não ser amigável com Liam. Ele me dá doce ás vezes.
— Amanhã vou c-correr com você. Vamos correr juntos!
— Vou estar esperando. – Essas palavras parecem fazer o dia dele. Liam sempre diz que vai correr comigo. Eu sempre aceito, porque sei que ele nunca vai aparecer.
— Então está m-marcado! – Liam se levanta, segurando sua bandeja. – Tchau, Stiles. Tchau, S-Scott
— Tchau, Adam – responde Scott, com um sorriso brincando nos lábios. Liam costumava ter medo de Scott, que é alto e musculoso comparado a sua figura magra. Mas ele parece estar se acostumando.
Quando o almoço acaba, passo no meu quarto pegar roupas limpas e vou tomar banho. A água é morna, me tranquiliza. A sensação é boa em meus músculos cansados. Fico embaixo do chuveiro tempo demais e um funcionário chama minha atenção. Enxugo-me e visto as roupas que pequei, jogando as sujas no compartimento que vai até a lavanderia.
De volta ao meu quarto, sento na cama e encaro a parede branca. Suspiro. No criado mudo ao meu lado tem a única coisa que pode me distrair até a hora do jantar. Um livro, Harry Potter. Mais uma tentativa deles de me fazer sentir em casa. Não funciona. Mas já perdi a conta de quantas vezes li os sete livros. É familiar e calmante. Coloco o travesseiro contra a parede e apoio minhas costas nele, trazendo o livro bem usado comigo.
Leio até a hora do jantar. Deixo o na cama e faço o mesmo caminho para o refeitório. Pego meu jantar. Sento nos fundos. Scott se junta a mim. Comemos em silêncio. Vamos para a fila dos medicamentos. Á noite recebo uma pílula diferente. Ela me faz dormir até o dia seguinte. Eles dizem que meu sono agitado e fragmentado não é bom para mim. Eu concordo, não sei, não importo. Mas ao colocar as drogas na minha boca, escondo-as ao lado dos meus dentes e bebo a água pura. Estava querendo fazer isso há um tempo. Tempo demais.
Escondo as drogas no meu travesseiro. Pego o livro seguinte e leio até os funcionários avisarem que é hora de desligar as luzes. No escuro, eu encaro o teto. Não há mais nada para olhar. Eu já deveria estar dormindo. Viro-me na cama e olho para a janela do outro lado do quarto. Está completamente escuro lá fora, mas em algumas horas irá amanhecer.
Não sei se durmo. Nem sei se estou acordado. Vejo o céu clarear. As cores são bonitas. Faz um tempo que não vejo a noite virar dia, eu até gosto. Sento-me na cama, coloco os pés descalços no chão frio. Meus olhos estão um pouco pesados, mas estou bem. Esse é o primeiro dia. Por isso estou bem, por enquanto.
Faço o mesmo com os medicamentos que recebo depois do café. Não posso voltar atrás agora. Escondo-as junto com as outras. Hoje, nem tento cochilar; troco de roupa e vou para o campo. Talvez se eu me cansar o suficiente, nem precisarei das pílulas para dormir. Talvez não seja tão ruim assim.
Adam não apareceu para correr comigo. Não estou surpreso. Mas ele promete que vai aparecer amanhã. Digo que vou esperar por ele.
Depois do almoço, sento em minha cama. Pego o livro na cômoda e volto a ler. É uma rotina monótona, repetitiva. É um ciclo sem fim... aparentemente.
— Você devia redecorar. – Uma voz estranha quebra o silêncio do quarto. Com o susto, o livro voa das minhas mãos, e eu reprimo um grito. Uma garota baixa, com cabelos ruivos ondulados que chegavam a sua cintura, está de pé com as costas voltadas para mim, encarando a parede. Minha porta ainda está fechada.
— Como entrou aqui? – pergunto. A garota se vira para mim, fazendo seu cabelo voar ao seu redor. Ela é linda. Tem o tipo de beleza que não se encaixa nesse quarto. Nem nesse prédio. Ela veste as mesmas roupas que os outros pacientes, mas nunca a vi por aqui. Seus olhos grandes têm a mesma cor das folhas na primavera. Eles focam no livro em minha mão.
— O que está lendo? – ela ignora a minha pergunta. Inclina-se em minha direção para olhar para a capa. Abre um pequeno sorriso. – Harry Potter! Amo esses livros.
— Quem é você? – Eu definitivamente nunca a vi por aqui. Eu teria me lembrado.
Ela dá de ombros, seus olhos me analisando por inteiro. Isso teria me incomodado se eu não estivesse tão estupefato pela presença dela. Tenho a sensação que a conheço. Um nome chega a minha língua, mas não sai.
— O que está fazendo aqui? – pergunto. Ela bufa, revirando os olhos.
— Estou te visitando, seu grosso. – Em um movimento rápido, ela se joga na cama ao meu lado. Fico tão surpreso que pulo para fora. Não gosto de tanta proximidade. Principalmente de pessoas que brotam em meu quarto sem convite.
Quando me viro, ela não está mais ali. Minha porta ainda está fechada. Ela não foi embora, da mesma forma que ela não entrou. Não tão rápido, e não sem fazer nenhum barulho.
Acho que foi coisa da minha cabeça. No mundo normal, isso não tem o mesmo significado que aqui. Aqui, é real. São alucinações reais, não um ditado. Ela deve ter vindo da minha cabeça. Isso me preocupa um pouco. Faz um tempo que isso não me acontece; a última vez foi na primeira semana que passei aqui, quando ainda estava me acostumando com as drogas. Aparentemente, descobri para que servem. Pelo menos uma das pílulas me livra das alucinações.
Sento na minha cama e encaro o vazio. Estou ficando mal de novo. A partir daqui, é uma descida sem fim. Vou ficar pior. Mas serão poucos dias. Colocarei um fim nisso tudo; serei o fim de mim mesmo.
Não tenho fome no jantar. Eu encaro a comida no meu prato, e ela me encara de volta. Não parece apetitosa. Mas eu bebo meu suco. Não podem estragar suco de caixa.
— Hm, isso não parece bom. – Viro minha cabeça tão rápido que poderia quebrar meu pescoço. A garota está sentada ao meu lado, apoiando a cabeça na mão e olhando para meu prato com curiosidade. Levanta os olhos para mim quando percebe que a estou encarando. – Vai comer?
Não vou responder, porque ela não está ali. Sempre mantive minhas alucinações para mim mesmo. Eles já sabem que eu sou louco, não precisam me ver falando sozinho.
— Que bom. Isso é nojento – diz ela, cruzando os braços e se reclinando na cadeira. Tento não olhar para ela, porque ela não está realmente ali, mas é difícil. As coisas ao redor dela parecem se tornar pretas e brancas. Ela podia ser muito bem o único ponto de luz naquele refeitório.
Quero ir para o meu quarto, mas espero Scott. Levanto-me rápido assim que ele termina, descartando minha bandeja cheia e indo para a fila dos medicamentos. Bebo a água. Aceno para Scott e sigo pelo corredor. Meus ombros doem, eu estou cansado. Não vou dormir, mas não quero estar acordado. Não quero estar aqui.
Guardo as pílulas no travesseiro e deito minha cabeça.
— Por que está fazendo isso? – Abro os olhos e lá está ela, em pé no meio do meu quarto.
— Vá embora – digo, cobrindo meu rosto com meu braço. Ouço-a suspirar pesadamente.
— Não posso. – Olho para ela, e ela ergue as sobrancelhas para mim. – Sou coisa da sua cabeça, esqueceu?
Sento-me, dobrando minhas pernas embaixo de mim. Claro que eu não havia esquecido. Minhas alucinações nunca me deixaram esquecer de onde vieram. Pelo contrário, sempre queria tem certeza de que eu soubesse que estava inventando tudo. Inventando não. Conjurando? É, acho que essa é a palavra certa.
— Não vai falar comigo?
— Você não existe – digo. Espero que ela canse de tentar chamar minha atenção. Não quero ganhar uma companheira de quarto. Minhas palavras parecem ter machucado ela. Não entendo por que, eu só estava dizendo a verdade.
— Eu existo – ela murmura, abaixando a cabeça. A tristeza em sua voz faz com que eu me sinta mal. Não queria ter chateado ela. Só queria que ela fosse embora. Tristeza não é algo comum em meus fantasmas; eles quase sempre estavam irritados, gritavam comigo. Faziam com que eu me sentisse pequeno. Eram meus demônios. – Pelo menos, existia.
— Acho que conheço você. – Não quero que ela fique triste, então digo a primeira coisa que vem em minha mente. Quanto mais olho para ela, maior é a sensação de que ela habita algum lugar do meu passado. Já vi esses cabelos antes. Sei o nome dela. Posso muito bem estar criando uma lembrança, mas sei que minha mente não poderia ter montado algo tão perfeito como ela.
A garota ergue a cabeça rapidamente. Seus olhos verdes estão arregalados, mas não de medo; eles estão brilhando. Seria felicidade? Talvez. Mas seus lábios cheios se curvam nas pontas, assim eu sei que ela está contente.
— Acha? – pergunta, com a voz animada. Eu balanço a cabeça, sem saber muito bem como agir. O sorriso dela cresce. Eu ofego. Algo dentro de mim parece protestar contra tamanha beleza. Ou a favor. Não sei o que as batidas do meu coração querem me dizer agora. – Consegue se lembrar de mim? Consegue lembrar quem eu sou?
— Não... – O sorriso dela vacila, e eu me pego vasculhando minha mente por uma lembrança. Um nome. Agora eu preciso saber.
Um vestido rosa passa pela minha cabeça. Vestido rosa, laço branco. Cachos alaranjados cascateando pelos seus ombros. Ela emana confiança. Quase posso ver seu rosto, já sei que ela é linda. É linda. Lydia.
— Lydia? – digo com incerteza. O sorriso volta com tudo para o rosto dela, brilhante e arrebatador. Lydia Martin. A garota a quem um dia jurei dar meu coração inocente. A garota que habitava meus sonhos, meu futuro imaginário. A garota que me deixou cedo demais. Eu me esqueci dela. Esqueci-me de como cada palavra que ela dirigia a mim eram como um prêmio. Esqueci-me do orgulho que sentia sempre que ela provava ser a mais inteligente da sala. Esqueci-me de como ela me fazia sentir tudo. E depois de anos e anos, ela me aparece. Um truque da minha mente. Seria ela um presente de despedida?
— Sim! Eu sabia que você ia lembrar! – ela comemora. Sinto os músculos do meu rosto de contraindo; acho que estou esboçando um sorriso genuíno. Isso não acontece há muito, muito tempo. Fico satisfeito ao vê-la feliz. Acho que me deixa feliz também.
Lydia se aproxima lentamente e senta na beira da minha cama. Algo estranho está acontecendo comigo porque eu não me importo nem um pouco de tê-la tão perto de mim. Mas ela não é uma desconhecida. Ela me olha com seus olhos brilhantes e seus lábios cheios ainda curvados em um sorriso. É de tirar o fôlego.
— O que está fazendo aqui? – pergunto. Lydia suspira e vira seu corpo para mim, ficando ainda mais perto. Fico um pouco nervoso, mas não é uma sensação tão ruim.
— Você me trouxe aqui – ela responde. Eu sei que é verdade, mas não entendo. Ela ocupava a parte mais funda da minha lembrança, enterrada embaixo de tantas coisas que aconteceram depois que ela se foi. Por que eu a trouxe de volta? Quando eu havia idealizado a mulher linda que ela se tornaria? Eu duvido que seja isso que eu faço durante as horas que passo sob o efeito do remédio para dormir. – Acho que você sabe porquê.
Eu franzo a testa.
— Não sei.
— Vai saber – ela diz, e sorri para mim como se eu fosse uma criança. Quero que ela me conte logo, mas percebo logo que ela quer que eu descubra. Seria fácil demais simplesmente dizer que eu sou louco. Deve ter um motivo maior. Tomara que eu descubra logo.
Escuto o aviso que é hora de desligar as luzes. Preciso de mais tempo com elas acesas. Quero olhar mais para Lydia. Quero ver se é possível sentir o mesmo de quando eu era pequeno. Duvido muito, mas quem sabe. No breu, não consigo vê-la. Sinto sua presença, quase consigo ouvir sua respiração, mas não consigo vê-la.
— Lydia? – chamo. Não quero que ela vá embora. Ainda não. Preciso de mais algumas horas, preciso olhar mais um pouco para ela. Só mais um pouco. Depois posso voltar ao normal.
— Estou aqui. – É apenas sua voz, mas fico aliviado. Deito minha cabeça no travesseiro, escuto ela se mexendo. Está se aproximando de mim. Agora consigo ver sua silhueta por causa do brilho da lua que vem da janela. Seu joelho toca minha barriga. Eu sinto a pele dela contra a minha, mas é impossível. – Vou estar aqui quando você acordar.
— Não vou dormir – digo, o que é verdade. Lydia dá uma risada fraca.
— Devia tentar.
E com isso, ela desaparece bem diante dos meus olhos. Eu me sento, olho para meu quarto escuro. Ela não está aqui. Sinto sua falta imediatamente. Não deveria sentir, ela nunca estava realmente aqui para começar. Volto a me deitar, dessa vez cobrindo meu rosto com o travesseiro. Já não sei mais se gosto das coisas que senti quando Lydia estava aqui. É um pouco demais para mim.
A noite passa mais rápido. Tenho certeza que dormi algumas horas; quatro, cinco no máximo. Sinto-me estranhamente descansado, mas não tenha vontade de levantar. Meu corpo simplesmente não responde aos estímulos fracos do meu cérebro.
— Stiles. – Lydia me chama. É a primeira vez que ela diz meu nome, e eu gosto do jeito que soa. Nem vou me incomodar em perguntar como ela sabe disso; ela veio da minha cabeça, deve saber tudo sobre mim. A campainha do café toca, e eu coloco meu edredom sobre minha cabeça. – Levanta, ou alguém vem de buscar.
— Hum – é o que eu respondo. Não quero que venham até aqui; só quero que me deixem em paz. Quero ficar na cama, aqui é quente e confortável.
— Se você ficar assim, vão descobrir que está ficando ruim de novo. – Ela tem razão. Estou agindo da mesma forma de antes de vir para cá. Eles vão descobrir que algo não está certo, vão achar as pílulas que escondi. Todo meu plano vai por água abaixo, e eu ainda perco meus privilégios.
Jogo o edredom para longe do meu corpo e me levanto. Lydia me dá um sorriso que eu acho que é de orgulho, e eu apenas a olho com cara feia. Eu ainda prefiro ficar na cama. Não estou indo tomar café por causa dela.
Pego meu café, me sento-me à mesa de sempre. A diferença é que ela se senta bem ao meu lado. Será que ela vai me seguir para todos os cantos agora? Não sei se gosto da ideia. Olho para ela, ela olha para mim. Um sorriso brinca em seus lábios. Acho que ela sabe que eu a acho linda. Ela está brincando comigo.
— Você não tem muitos amigos aqui, hun? – ela pergunta, olhando ao redor. Scott e eu parecemos ser os únicos em silêncio no refeitório. Ela olha para Scott. – Ele parece ser legal.
Espeto um pedaço de waffle com meu garfo e o coloco na boca. Vou ignorá-la. Lydia percebe isso e se levanta. Acho que ela vai embora, mas ao invés disso, ela senta na mesa, bem ao lado da minha bandeja. Olho surpreso para ela, e ela apenas mexe as sobrancelhas, balançando os pés que não tocam mais o chão. Olho ao redor, só para ter certeza que ninguém mais está vendo a beldade sentada na minha mesa. Olho para Scott, que continua comendo alheio a situação acontecendo bem na frente dele.
Lydia pega um pedaço de maça da minha bandeja e coloca na boca, mastigando calmamente. Meu queixo cai um pouco. Ele não é real, como pode estar comendo minha comida? Isso já é um pouco demais para mim. Essa garota é outro nível de alucinação; talvez elas tenham mudado para todos enquanto eu tomava os remédios.
— Você está bem? – pergunta Scott, quebrando o silêncio da mesa. Percebo que estava encarando Lydia, – ou seja, o vazio,— com olhos arregalados por tempo demais. Scott me olha com preocupação.
— Hm, sim – respondo, abaixando a cabeça para a minha comida. Estou fazendo um péssimo trabalho em esconder minha insanidade. Mas, afinal, somos loucos, e não estaríamos aqui se fossemos bons em esconder isso.
Vamos para a fila dos remédios. Tenho tempo o suficiente para ir ao meu quarto e guardá-los no travesseiro antes de ir para a terapia de grupo. Eu detesto a terapia de grupo. É tão ridículo que chega a ser irreal. Vou até a sala de recreação, onde cadeiras foram postas no salão formando um círculo. Todos há apenas uma cadeira vazia, guardada para mim. A sessão não começa antes que todos estejam sentados, e se você não for alguém vai te buscar. Por isso me arrasto para a cadeira mesmo quando minha vontade é de me enterrar embaixo do meu edredom.
Sento-me bem em frente à terapeuta, Srta. Doyle. Pelo menos, presumo que ela seja uma terapeuta, embora não ache que você precise ter uma formação específica para sentar com pessoas e fazer perguntas bobas. Lydia se põe atrás dela e gesticula para que eu sente direito na cadeira, me lançando um olhar de reprovação. Reviro os olhos e ajeito minha postura, saindo na minha posição meio largada. Srta. Doyle teria me mandado fazer o mesmo de qualquer jeito.
Srta. Doyle dá um sorriso para todos na roda. Ela é uma senhora de meia idade, com cabelos curtos cor de palha, e gorda. Minha mãe uma vez me disse que é falta de educação chamar as pessoas de gordas, mas foda-se, minha mãe não está aqui. Lydia dá um sorrisinho; acho que ela ouviu meus pensamentos.
— Então, como estão todos? – diz a mulher, animada como se tivesse contado as horas até esse encontro. – Todo mundo bem?
Algumas pessoas respondem. Eu apenas cruzo meus braços. Não faço uma palavra nessas reuniões a menos que ela faça uma pergunta diretamente para mim. Também não escuto o que os outros falam sobre si mesmo; nada daquilo me interessa. Devo entrar em um estado de dormência.
— Stiles, preste atenção, ele está falando sobre um sonho com beagles – diz Lydia, escutando atentamente ao depoimento de uma das pessoas da roda. Eu franzo a testa e me viro para o garoto magro que, aparentemente, fala sobre um sonho que teve durante a semana.
— Deviam ter uns vinte beagles e eles continuavam trazendo cachorros quentes, e falando de como o molho estava bom... Não gostei de ver os beagles comendo os cachorros quentes, pereceu errado. – O garoto se encolhe na cadeira, abraçando-se. – Sinto falta do meu beagle.
Estreito meus olhos para Lydia. Por que ela queria que eu escutasse aquilo? Eu nunca tive um cachorro, acho que nunca vi um beagle pessoalmente. Não havia nada naquele sonho besta que me interessasse de qualquer forma. Por que ela quer que eu preste atenção?
— Essa pode ser sua última terapia de grupo. Você devia escutar o que dizem, para variar – ela responde séria. Dá pra ver que o fato de eu estar planejando ir embora não a agrada. Não entendo por quê. Mas ela tem razão, eu nunca mais vou sentar nessa roda. Nunca mais vou olhar para Srta. Doyle. Vou fazer o que Lydia pediu, vou escutar. Não seria um sacrifício tão grande. Viro-me para a garota pálida com cabelos negros que está falando.
— Sonhei com meus pais noite passada. A casa estava toda escura e eles pareciam felizes em me ver. Filhos da puta. – A garota sorriu amargamente. – Mentirosos. Eles me colocaram nesse inferno, não sentem minha falta.
— Sabe, Allison, sonhos podem ser criados a partir dos nossos desejos – diz a Srta. Doyle. – Já pensou que pode sentir falta dos seus pais?
— Eu os odeio! – a garota grita, inclinando-se para frente na cadeira. – Odeio aqueles desgraçados! São as drogas que vocês me dão, elas que me deixam louca!
— Allison, se acalme – diz a mulher, com uma voz calma, mas rígida. A morena volta a se reclinar, franzindo os lábios. – Já falamos sobre isso. Os remédios existem para te ajudar a melhorar, nada mais.
Sinto certa simpatia por Allison. Assim como ela, também fui colocado aqui contra minha vontade. Também senti ódio, do meu pai e de mim mesmo. Não mais. Passei a entender por que vim parar aqui. As marcas nos meus braços, a arma no meu armário. Talvez um dia Allison entenda também.
Presto atenção a todas as histórias compartilhadas. Algumas delas são parecidas com a minha, mas isso não me surpreende. Deve haver um número limitado de histórias por ai, e elas devem acabar se repetindo. Alguns sonhos são parecidos com os meus, mas a maioria é resultado de pura loucura: sonhos inusitados e completamente sem sentido, que faziam Lydia rir alto. Eu me pego olhando para ela diversas vezes, ouvindo sua risada e sentindo um sorriso em meus lábios. É uma experiência estranha.
— E você, Stiles? – diz Srta. Doyle, e todos se viram para mim. Meu sorriso evapora. – O que tem para nos contar?
— Nada – respondo rápido demais. A mulher suspira pesadamente. Ela sempre parece decepcionada quando eu me recuso a compartilhar alguma coisa na reunião, o que acontece sempre. Ela devia se acostumar, não é tão difícil.
— Tem certeza? – Ela ergue as sobrancelhas para mim. Meus olhos vão para Lydia, mas ela não está mais ali. Eu engulo a seco. Devia estar chateado por ela ter me deixado sozinho naquele momento, mas é um pouco reconfortante saber que ela é um segredo que só eu sei, só eu vejo. Não vou contar a Srta. Doyle sobre Lydia.
— Tenho – digo, encarando-a em desafio. Srta. Doyle me encara de volta. Acho que ela tem raiva de mim.
Lydia aparece do meu lado enquanto vou para a fila do almoço. Ela coloca a mão no meu braço e eu dou um pulo. Ela ignora minha reação e continua andando comigo, como se aquilo fosse a coisa mais normal.
— Foi divertido, não foi? – pergunta, olhando para mim com olhos divertidos. Eu ainda estou me acostumando com a sensação da mão dela em meu braço. Estou usando o moletom grosso, mas mesmo assim, ela está me tocando e isso é simplesmente... Uma prova indiscutível da evolução das alucinações.
— Ahn... Sim. Eu acho – respondo, porque está barulho aqui e ninguém vai perceber que estou falando sozinho. Lydia sorri, satisfeita. Estou intrigado. Espero que ela não esteja tentando me fazer ver o lado bom da vida, não a esse ponto do campeonato. Se esse for o plano dela, está meses atrasada.
Sento-me na mesa de sempre. Scott já está aqui, e ele me cumprimenta com um pequeno aceno de cabeça, que eu retribuo antes de voltar a atenção para minha comida. Parece ser uma lasanha. Difícil dizer. Lydia cutuca minhas costelas com seu cotovelo. Eu olho para ela, e ela aponta com o queixo para Scott. Volto meus olhos para Scott, que não está fazendo nada de especial. Dou de ombros e espeto minha lasanha com meu garfo de plástico.
Lydia me cutuca de novo, com mais força.
— O que é? – murmuro entre os dentes, porque não estou aqui para ser agredido por um fantasma.
— Converse com ele – ela diz, apontando para Scott. Eu franzo a testa. Lydia pode ser nova por aqui, mas ela já devia ter percebido como as coisas funcionam. Nós não conversamos. Sobre o que falaríamos? Estamos presos nesse lugar, o mundo real não chega até nós. Temos uma televisão na sala de recreação, mas ela só é útil se você tiver uma paixão inabalável por desenhos infantis.
Eu a ignoro porque não devia estar explicando minha amizade com Scott. Amizade? Bem, meu relacionamento com ele é diferente ao que tenho com o resto das pessoas aqui, então seria errado falar que somos amigos?
— Não me faça possuir você – ela me ameaça. Olho para ela e ela ergue as sobrancelhas. Não sei se ela está falando sério.
— Você pode fazer isso? – pergunto, levemente preocupado. Tomara que Scott não esteja me escutando, porque essa pode ser uma discussão bem confusa. Eu não sou perito em fantasmas. Digo, alucinações. Tudo bem, eu já encontrei com alguns em minha vida, mas eles são conjurados pela minha mente especialmente para me fazerem mal, não precisam me possuir para fazer o trabalho deles. Mas Lydia... Eu sinceramente ainda não sei qual é a dela.
— Quer descobrir? – Não, não quero, eu não acordei hoje com planos de ser possuído por uma ruiva baixinha. Eu a olho com raiva por estar me fazendo fazer isso, e ela apenas me da um sorrisinho e eu descubro que na verdade eu não consigo ficar com raiva dela. Suspiro frustrado, e me viro para Scott. Ugh, não sei o que dizer. Como as pessoas começam conversas amigáveis mesmo? – Pergunte como foi o dia dele, ou algo sim.
Que coisa mais idiota.
— Como foi o seu dia? – pergunto a Scott. Faço uma careta; é incrível o quanto essas palavras têm um gosto estranho em minha boca. Será que já fui amigável um dia? Aparente não. Minha mãe ficaria envergonhada de mim se me visse agora, porque ninguém conseguia iniciar uma conversa como ela, era assustador. Scott me encara, mastigando, e que merda, eu me sinto um completo idiota.
— Para de ser tão dramático – ela me repreende, revirando os olhos. Ora, me desculpe, Lydia, mas eu não sei o que estou fazendo.
— Foi bom – Scott responde quando eu estava prestes a me levantar e sair. Eu o olho. Pelo menos ele responde, é alguma coisa. Mas e agora? Balanço a cabeça, assentindo, mostrando que eu escutei. Scott faz o mesmo e eu acho que esse é o fim da conversa. – Eles me deixaram voltar a correr.
— Legal – digo, e não estou dizendo isso só para agradá-lo. Lembro que ele ficou muito chateado quando perdeu seus privilégios. Foi uma das poucas “conversas” que tivemos aqui. Eu perguntei se ele iria correr, ele falou que não podia mais e olhou para um dos funcionários, que entrava no refeitório com um olho roxo. Trocamos um olhar equivalente a um high five, porque o cara que ele havia atacado era um saco. – Vai correr amanhã?
Scott dá de ombros.
— Não sei. Eu aprendi a jogar xadrez.
— Emocionante.
— Estou ficando bom.
— Pelo menos xadrez não te dá vontade de socar ninguém.
— Na verdade, dá sim. A vontade de socar alguém não vai embora assim.
— Você sempre pode começar uma revolta na sala de recreação.
— A gente podia prender os funcionários nos quartos.
— E tomar esse lugar. Seria uma revolução.
— Ugh, o que faríamos com esse lugar?
— Tacamos fogo.
— Maldade. Tem gente que gosta de morar aqui.
— Então vamos embora.
— Boa ideia. A gente podia roubar um dos carros.
— Eu só me recuso a levar comida daqui. Só os sucos de caixinha.
— E os pudins.
— Parece que temos um plano.
Scott e eu nos entreolhamos. Ele sorri de leve e acho que estou fazendo o mesmo. É estranho porque eu me sinto bem. Gosto de Scott. Ainda mais porque compartilhamos a vontade de sair daqui. Eu já respeitava o cara por ter tido coragem de enfrentar um dos funcionários. Sinto que Scott é a única pessoa aqui que está no mesmo barco que eu, á deriva. Então, ok, ele é meu amigo. Parabéns, Lydia, você ganhou.
Ela revira os olhos para mim, mas também sorri.
— Ah, pare de ser assim. Eu sei que não doeu.
Eu a ignoro, mas ela está certa. E ela sabe que está certa. Lydia Martin sabe das coisas.
Nós dois saímos do refeitório, e apertamos as mãos antes de seguirmos caminhos diferentes. Que loucura seria se tivéssemos nosso próprio aperto de mão. Seria legal ou completamente idiota? Não sei. Seria no mínimo interessante.
Chego ao meu quarto e Lydia não está comigo. Está frio aqui. Sinto-me solitário. É uma merda, é ridículo, e eu não quero me sentir assim, me recuso. Me deito e me enrolo. Estou com um pouco de sono e vou dormir, não me importo se é o meio do dia e eu podia estar fazendo várias coisas. Fecho os olhos. Queria que Lydia estivesse aqui. Não consigo evitar. Por que não consigo cair no sono? Não deveria ser tão difícil. Por que ela continua desaparecendo?
Frustrado, jogo o edredom para longe do meu corpo e me levanto. Ligo a luz, pego meu livro, e me sento na cama. Tento me concentrar na história que já conheço de trás para frente, mas meus olhos insistem em se fixar na porta, como se ela pudesse entrar a qualquer momento. Balanço minha cabeça, volto a ler cada palavra com atenção. Não faz diferença se ela não está aqui. Eu não ligo. Não me importava em ficar sozinho antes, não me importo agora.
A discussão contra mim mesmo me irrita tanto que quando somos chamados para o jantar, quase corro para fora do quarto. Estou ansioso para sair daqui. Não da cama, não do quarto, mas daqui. É estressante demais. Qualquer sensação ruim parece ser amplificada por essas paredes. Entendo que estou aqui por um motivo, que causei muitos problemas em minha vida, mas servi meu tempo nesse lugar e agora quero ir embora.
Jogo minha bandeja de qualquer jeito em cima da mesa e deixo minha cabeça cair em minhas mãos. Minha perna direita balança insistentemente e eu não consigo parar. É ansiedade, e é sufocante. Preciso me acalmar, os cuidadores irão perceber que estou perdendo o controle. Scott senta ao meu lado e eu levanto a cabeça.
— Hey – ele diz, comendo uma cenourinha e me olhando com curiosidade. Scott percebe que eu não estou bem, mas não faz perguntas. Somos todos loucos por aqui; deveria ser normal não se sentir bem, pelo menos por um dia. Agradeço silenciosamente a ele. Suspiro e me reclino na cadeira, puxando minha bandeja para a beira da mesa.
— Hey – respondo. Tudo bem, vamos fingir que é um dia normal e que um de nós não está enlouquecendo, estou completamente de acordo com isso. – Como foi o xadrez?
— Legal. Eu ganhei de Liam. Algumas vezes. – Scott sorri de leve. – Eu o destruí, na verdade.
Eu ergo as sobrancelhas, achando graça.
— Sabe que ele tem medo de você, né? – pergunto. – Você traumatizou o garoto?
Scott dá de ombros.
— Ele me desafiou.
— Sério?
— Sim. E, além disso, acho que ele gosta de mim agora. Inclusive acho que nos tornamos melhores amigos em algum momento entre as partidas.
— Que merda, achava que eu fosse o melhor amigo dele.
— Foi mal. Mas pode ser muito útil porque Liam é tipo o rei da sala de recreação. – Scott franze a testa. – É até um pouco estranho. O cara é, tipo, super respeitado.
Eu bufo.
— Isso é ridículo.
— Eu sei, mas Liam seria o aliado perfeito para nossa revolução.
Eu volto a me inclinar, apoiando meus cotovelos na mesa.
— Conte-me mais.
Fomos uns dos últimos a sair do refeitório naquela noite. Eu diria que era uma sensação estranhar não ser um dos primeiros a sair dali, mas, sinceramente, eu nem prestei atenção. Os cuidadores provavelmente também estranharam, mas não disseram nada ou nos incomodaram. Scott e eu conversamos durante todo o horário do jantar e, para minha surpresa, o tempo passou. Será que faz diferença que estávamos montando um plano de fuga ou não? Nós nunca vamos seguir o plano de qualquer forma, então eu acho que não faz mal. Os cuidadores não devem se incomodar. Afinal, somos todos loucos por aqui; alguém já deve ter tentado começar uma revolução.
Vou para o meu quarto me sentindo ligeiramente confuso. Eu me diverti hoje. Estranho admitir isso, mas, bem, é verdade. Gosto de Scott. Acho que sempre gostei. Não sei ao certo quando essa amizade começou, mas sei que aconteceu antes da nossa conversa no almoço. Acho que simplesmente nos tornamos amigos. Acontece. Pergunto-me se ele vai se sentir mal quando eu seguir com o meu plano. Quando eu for embora. Será que alguém mais se importaria? Srta. Doyle, talvez? Não a mulher me detesta.
— Seu pai se importaria. – Dou um pulo quando ouço a voz de Lydia enquanto eu fecho a porta do meu quarto. Eu me viro e lá está ela, sentada em minha cama, me olhando como se nada estivesse errado. Mas eu estou com raiva dela. Quero estar com raiva dela. Mas não consigo sentir nada além de alívio.
— Onde você estava? – pergunto. Minha voz falha um pouco. Talvez tenha algo a ver com o aperto que sinto no meu coração agora, porque eu estou olhando para ela e, meu deus, ela é linda e eu senti sua falta. Ela sumiu por algumas horas e eu senti a falta dela. O que Lydia Martin está fazendo comigo?
Lydia suspira e dobra as pernas embaixo de si.
— Como está se sentindo? – Ela sabe que eu não estou bem. Não estava bem. Quase me esqueci que estava perdendo a cabeça pouco tempo atrás. Agora sinto que estou me perdendo de novo, que se eu sair do quarto agora, vou sumir. Vou cair aos pedaços se me afastar agora.
Sento-me na cama, apoio meus cotovelos em meus joelhos e minha cabeça em minhas mãos. Estou piorando bem rápido. Não deveria estar surpreso, não tenho o direito de estar surpreso. Eu escolhi isso, eu criei esse plano. Mas eu não criei Lydia. Não pedi para que ela aparecesse. Então porque sinto que ele é tudo que eu preciso agora? Não parei de tomar meus medicamentos para achar uma droga mais forte. Não posso me viciar em Lydia.
— Stiles. Olhe para mim – ela diz. Ela está perto, quase sinto sua voz em minha pele. Eu levanto minha cabeça e olho para ela. Lydia está realmente muito perto. Seus olhos brilham como duas jóias, e eu não deveria poder vê-la com tanta clareza porque está meio escuro aqui, mas talvez eu já tenha memorizado os detalhes do rosto dela. Mas Lydia parece capturar a luz fraca que vem da janela, como se todos os outros objetos do quarto não merecessem serem tão iluminados quanto ela.
Lydia ergue sua mão direita lentamente e toca meu rosto. Não consigo tirar os olhos dela. Seus dedos são gentis contra a minha pele e eu não me lembro a última vez que fui tocado dessa forma. Então ela pousa a palma da sua mão sobre minha bochecha e sinto que estou prendendo minha respiração porque seu toque é firme e quente e meu coração parece estar se rebelando contra mim.
— Como consegue fazer isso? – pergunto em um sussurro.
— O que?
— Me tocar. – Já não quero saber apenas saber como ela consegue estar tão presente, sólida e real, quando nada disso é verdade. Quero saber por que sinto que seu toque vai além da minha pele, quero saber por que minha respiração falha e ao mesmo tempo sinto que finalmente consigo respirar. Lydia sorri. Ela sabe muito bem o que está fazendo comigo.
— Você pode me tocar também – diz ela. Eu hesito. Tenho medo que ela desapareça sob os meus dedos. Ela segura meu punho e leva minha mão até seu rosto, e estou a tocando. Sua pele é macia e morna. Quase rio porque esse momento é o pico da minha insanidade.
— Como...?
— Porque eu sou real – ela responde. Eu franzo a testa. – Para você, eu sou real. E você me quer aqui.
É verdade. Lydia Martin sabe das coisas. Eu a quero aqui mais do que já quis algo na minha vida. Quero abraçar minha loucura porque se isso significa tê-la por perto, eu aceito todo o resto. Quero que ela fique aqui porque tenho quase certeza que estou me apaixonando e eu não me importo, porque já tenho um pé fora desse mundo e não tenho mais tempo para lutar contra o que sinto. Lembro muito bem do ano que ela não voltou para a escola, lembro do memorial que montaram para ela no corredor, das flores e da sua foto sorridente colada em seu armário. Os professores choravam, porque em um minuto Lydia tinha um futuro brilhante em sua frente e no próximo, ela havia desaparecido. Simples assim. Um acidente rápido, uma distração, e Lydia Martin foi embora. Demorei a aceitar que não admiraria mais seus cabelos cacheados durante a aula. Demorei a aceitar que algo tão importante pudesse sumir tão rapidamente.
Mas aqui estamos, anos depois, sentados juntos em um quarto que não é meu, e Lydia está me olhando como se soubesse exatamente o que se passa em minha cabeça.
— Por que você veio? – pergunto mesmo assim. Se estivesse viva, Lydia nunca estaria aqui; não consigo pensar em como nossas vidas se entrelaçariam dessa forma. Talvez me apaixonar por ela sempre tenha feito parte do meu destino. Isso não deveria ter mudado, já que, em um piscar de olhos, ela estava morta? – Como...
Lydia suspira e abaixa a mão que estava em meu rosto. Sinto falta do seu toque imediatamente, mas ela pega minhas duas mãos e as segura com força, mantendo os olhos em nossos dedos entrelaçados.
— As coisas teriam sido diferentes se eu não tivesse... morrido. Você não tem ideia. – Ela solta uma risada curta. – Sei que não entende o motivo de eu estar aqui, e que não vê como nós poderíamos estar ligados dessa forma. Mas não é tão complicado, Stiles. Sei que você pensa que é impossível, mas está enganado. É verdade.
— Eu não...
— Nós nos apaixonamos. – Lydia ergue os olhos para mim. – Teríamos nos apaixonado. Eu demoraria tempo demais para te notar, mas você sempre estaria lá e no final... eu não resistiria. Estou aqui agora porque nós estaríamos juntos de qualquer forma. Em outro lugar, mas juntos.
Eu balanço a cabeça. Vejo em seus olhos que ela está falando a verdade, mas não consigo... Lydia tem razão, eu realmente achava ser impossível. Mas não posso ignorar o fato se que se ela está aqui agora me dizendo essas coisas significa que qualquer outra coisa, por mais bizarra e insana que seja, é possível. E se ela está me olhando com tanta intensidade e meu coração está batendo dessa forma, que opção eu tenho além de acreditar nela?
— Eu sei que é muita coisa...
— Não, não, é só que... Quer saber, sim, é muita coisa. – Eu fecho os olhos por uns segundos, tentando organizar meus pensamentos. – Nós éramos crianças. A gente não se falava, acho que você nem sabia meu nome. É difícil imaginar...
Lydia sorri docemente.
— Nosso primeiro beijo teria sido em uma tarde de outono. Estaria frio e nós estaríamos tomando chocolate quente e conversando há horas. Eu teria amado cada minuto porque você me faria rir e me sentir diferente. Eu teria te beijado porque acharia seu nervosismo fofo e sincero, porque finalmente teria percebido que você gostava mesmo de mim.
Sinto um nó crescer em minha garganta. Não me lembro da última vez que beijei alguém, mas sei que não significou muita coisa. Aquele beijo teria significado muita coisa. Daria tudo para sentir um fantasma do que sentiria naquele momento.
— Você saberia sobre mim? Sobre... minha cabeça – pergunto. Essa é a única coisa que me impede de abraçar esse futuro interrompido. Lydia sabe que estou aqui por um motivo. Conhecendo a mim, minha mente e meus demônios, sempre imaginei que ficaria sozinho. Por isso guardo minhas pílulas embaixo do meu travesseiro; eu não tenho nada a perder.
— Sim. Nós nos tornaríamos melhores amigos, Stiles – diz ela. – Você saberia tudo sobre mim, e eu saberia tudo sobre você. E eu não me importaria.
Meus olhos ardem. Minhas mãos tremem e eu seguro as de Lydia com força. Quero odiar o que tirou aquilo de mim. Deus, os cosmos, o motorista bêbado, qualquer coisa. Quero odiar o que tirou a vida de Lydia. Não é justo. Talvez eu mereça estar morando aqui, mas Lydia merecia mais. Ela merecia ter uma vida feliz e se apaixonar, se não por mim, por alguém. Não é justo.
— Não chore – ela sussurra.
— Por que está aqui? – pergunto novamente com a voz trêmula. Meu coração está se partindo e eu não sei se esse é o objetivo dela, mas Lydia está me dando mais motivos para ir embora também. Preciso que ela diga isso, porque se ela estiver ao meu lado, eu não vou pensar duas vezes. – Por que está me dizendo essas coisas? Por que...
— Por causa das pílulas embaixo do seu travesseiro – diz ela. Deveria estar aliviado, mas Lydia está me olhando de um jeito diferente. Ela está triste, mas decidida. – Stiles, não faça isso.
Eu franzo a testa, confuso.
— Como é?
— Não faça isso. Eu sei que parece que você não tem outra opção, mas você não vai ficar aqui para sempre. As coisas vão melhorar, então, por favor... – Lydia umedece os lábios e eu olho surpreso para o desespero em seus olhos. – Por favor, não faça isso. Não vale a pena.
Eu balanço a cabeça.
— Não... Não, espera aí. Você... Você disse... – Eu respiro fundo. – Como pode dizer que não vale à pena? Como pode me contar sobre esse futuro alternativo ou coisa assim e esperar que eu simplesmente... viva com isso? Eu poderia ter sido feliz, Lydia, nós poderíamos ter sido felizes, mas em outra realidade. Não há nada mais para mim aqui. Perdi minha chance, e eu não posso... eu não quero ter que esperar outra...
— Stiles...
— Nós podíamos ter nos apaixonado e eu... perdi isso. Por que está me pedindo para ficar? – Uma lágrima cai pela minha bochecha e eu não me importo em enxugá-la. Lydia me encara com olhos marejados que imploram silenciosamente. – Se eu for para onde você vai quando não está aqui, seja lá onde for, eu vou te encontrar, não é?
Lydia balança a cabeça e franze os lábios.
— Não foi para isso que eu vim.
— Nós ficaríamos juntos, não é? Seria você e eu, como deveria ter sido, não é? Por favor, me diga que sim – eu imploro, já que é tudo que me resta agora. Lydia continua a balançar a cabeça negativamente e eu preciso que ela me dê uma esperança, preciso que ela me dê qualquer coisa além da angústia e do desespero que sinto agora. – Me diga que ficamos juntos, Lydia, por favor. Eu só preciso saber disso.
Ela respira fundo e lambe os lábios.
— Stiles, me escute – ela diz com a voz séria e controlada e eu já sei que ela não vai me dizer o que eu quero escutar. – Eu não vim aqui te mostrar que a vida não faz sentido e que coisas ruins acontecem com gente boa o tempo todo e que o mundo não é justo. Não vim aqui dizer que você está certo em querer acabar com sua própria vida, porque não está. Eu não queria ter morrido, não mesmo. Eu tinha planos e sonhos e foi ridículo o quão rápido tudo aquilo foi parar embaixo da terra. As coisas teriam sido lindas para mim se eu tivesse sobrevivido, elas teriam dado certo e eu estaria feliz. Eu perdi minha chance, Stiles, não você. Você é jovem e ainda tem uma vida inteira em sua frente, e eu sei que tudo parece difícil, impossível, mas as coisas melhoram. Você só precisa saber disso.
Eu bufo e tiro minhas mãos da dela. Não quero ouvir o que ela está dizendo, não faz sentido para mim. Viro meu corpo e encaro o outro lado do quarto
— Eu vim te mostrar que coisas boas acontecem se você vive, Stiles. – Lydia continua insistindo, sem me tocar. Eu fecho os olhos. — Você sabe que não vai ficar aqui para sempre. Sua vida vai continuar, e mesmo sem saber exatamente o que vai acontecer, ela vai melhorar. Você precisa me escutar porque eu sou a garota morta que perdeu todos os momentos bons da vida, e você ainda está aqui, respirando.
— Então é por isso que você veio – digo, mantendo meus olhos longe dela. – Para me dar, o que, uma mensagem inspiradora do além? Sério?
— Stiles... Argh! – Lydia passa as mãos pelos cabelos, e ela parece frustrada. – Estou dizendo que você ainda pode se apaixonar, viajar o mundo, ficar bêbado e dançar na chuva. Você ainda pode fazer coisas incríveis, ou simplesmente assistir um filme ridículo que vai te fazer chorar de rir. Estou te pedindo para não abrir mão de todas essas coisas, porque elas são tudo. Confie em mim. Sua chance é agora. A vida tem promessas, e algumas delas são horríveis e assustadoras, mas outras são... Vale a pena viver para essas promessas, Stiles.
Eu fico em silêncio, deixo suas palavras afundarem em meu cérebro. Minha respiração está calma, meu coração não está dolorido ou acelerado. Duvido muito que tudo que eu precisava durante todo esse tempo era de alguém me dizendo que tudo ficaria bem. Não, seria muito fácil. Mas talvez o que eu precisava era de alguém que me convencesse disso. As palavras de Lydia transbordam sinceridade e ela quer que eu as escute, ela quer que eu acredite. Sinto meu corpo rejeitando a ideia de que as coisas melhorariam, e embora eu queira muito me agarrar àquelas palavras, algo em mim me força a voltar para o buraco que cavei para mim.
— Você é amado, Stiles – Lydia diz calmamente. – Existem pessoas esperando por você fora daqui. Você só precisa ser paciente e aguentar só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho, eu prometo.
Viro meu rosto para ela, olho-a nos olhos. Procuro algum indício de que ela está tentando me enganar, de que está mentindo ou de que não acredita no que esta dizendo, mas sei que não vou encontrar nenhum.
— Promete mesmo? – pergunto, franzindo a testa. Lydia suspira aliviada e sorri de leve, assentindo.
— Prometo. – Ela volta a segurar minha mão, e eu aperto a dela. – Prometo, Stiles.
Xxxx
Assim que o guarda abre a porta, eu piso no campo e respiro fundo o vento fresco. Olho para as árvores altas, para as flores coloridas espalhadas. Não me surpreendo quando encontro Lydia deitada no gramado, olhando para o céu. Apenas suspiro e vou até ela. Queria aproveitar uma boa corrida, porque sinto que estou parado e confinado há tempo demais, mas me deito ao seu lado. Não me importo em ficar aqui com ela. Não me importo nem um pouco.
— Um dia lindo, não é? – ela pergunta assim que deito minha cabeça na grama. O céu tem um tom vivo de azul, e as poucas nuvens que o decora são brancas como algodão. O sol não é muito forte, não queima minha pele. Esse é o que muito chamariam que manhã perfeita. Acho que posso dizer isso também.
Viro meu rosto para ela. Lydia tem os lábios franzidos, como se tentasse segurar uma risada. Eu estreito meus olhos para ela.
— Você adora fazer isso, não é? Ficar me mostrando o lado bom da minha vida aqui.
Lydia dá de ombros e sorri para mim.
— Funcionou, não foi? – Ela ergue as sobrancelhas e eu apenas reviro os olhos e volto a olhar para o céu. – Sou uma gênia, sei bolar planos muito bons.
— Sei que sim – murmuro.
Algo sobre a paz que sinto nesse momento faz meu corpo parecer estranhamente leve. Não consigo respirar direito, mas pela primeira vez, isso não é uma coisa ruim; parece que meus pulmões estão reaprendendo a funcionar com calma, despreocupados, aproveitando cada pouquinho de ar fresco. Estou me livrando aos poucos do peso em meus ombros, e meu corpo está se adaptando. Estou aprendendo a sobreviver novamente, e isso é tão estranho para mim que nem paro para pensar sobre o que estou fazendo. Apenas faço, e decidi fazer dia após dia.
Lydia entrelaça seus dedos com os meus e sinto um arrepio descer pela minha espinha. Fecho os olhos com força.
— Me diga o que está pensando – ela pede calmamente, embora eu tenha certeza que ela já saiba o que se passa em minha cabeça. Ela sabe muito bem. Lydia sabe que deixou uma marca permanente em minha vida, sabe que estou apaixonado e que isso não vai sumir de mim. E que os anos podem passar como quiserem, sempre serei dela. Sempre acharei conforto em saber que, não importa o que acontecer, no final ficaremos juntos.
— Eu decidi ficar – digo, voltando a olhar para ela. – Queria que pudesse ficar também.
Ela me dá um sorriso pequeno e triste.
— Sei que sim.
— Nunca vou me esquecer de você, Lydia Martin. – O sorriso dela fica maior e eu uso meu tempo para admirá-la. Seus cabelos ondulados estão espalhados ao redor do seu rosto e eles brilham sob a luz do sol, seus olhos verdes parecem jóias de verdade. Suas bochechas estão coradas, seus lábios cheios, avermelhados. Essa é uma visão que guardarei para sempre em minha mente. Esse momento em que estou segurando a mão se uma garota morta que salvou minha vida, a realidade do que estou vendo e sentindo, tudo é tão intenso, grandioso e incrivelmente maravilhoso que parece até desperdício que eu seja o único aqui. Mas todos são loucos nesse lugar. Pelo menos, sou o mais sortudo de todos. Disso eu tenho certeza.
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