Ainda eram seis e quinze da manhã, mas Victoria já estava acordada, sentada em uma cadeira enquanto lia um artigo acerca de seu último trabalho em seu notebook. O aparelho estava sobre a mesa, logo ao lado de uma caneca de chocolate quente, ainda fumegando. Vestia apenas um robe escuro, levemente frouxo e bastante confortável, as pernas cruzadas, os pés descalços. O artigo havia sido publicado em uma das revistas de artes mais conceituadas do país e as críticas em relação ao seu último ensaio fotográfico mais recente eram bastante positivas, ao menos no geral, mas ainda havia observações que a incomodavam bastante.

“Um trabalho muito belo, mas faltou inovação, Victoria Chase deveria ter ousado mais em sua arte”, era isso que estava escrito em um dos últimos parágrafos, Victoria leu essas palavras como se tivesse sido alvejada no peito. Dera tudo de si, foram noites planejando para que tudo saísse perfeito, e mesmo assim a crítica que escrevera aquele artigo ainda tivera a audácia de dizer tais coisas. Uma mulher como aquela não teria capacidade de realizar um trabalho com a metade da excelência de seu ensaio.

Victoria era uma mulher muito bonita e refinada. Magra, de estatura mediana, com cabelos loiros bem curtos. Possuía uma presença elegante e confiante, do tipo que domina qualquer espaço em que está presente, mas muitas vezes toda essa confiança mascarava uma insegurança que ela escondia de todos, as vezes até de si mesma.

Em muito amadurecera desde que começara a cursar fotografia na academia Blackweel. Entrara na academia aos dezoito anos, mas agora já tinha vinte e nove, e nesses mais de dez anos tivera uma carreira ascendente. Fizera seu nome como fotografa, pegara vários trabalhos importantes, ganhara prêmios, criara seu espaço entre os profissionais de seu ramo, destacando-se com um estilo único em suas fotos.

Claro que se sentia valorizada, uma profissional extremamente competente, chegando a um nível que nenhum dos seus colegas da Blackweel alcançara, alguns deles até deixaram a vida de artistas de lado, tomando outros rumos profissionais em suas vidas. Max era a sua colega de turma que mais se destacara juntamente com a própria Victoria, as duas tendo se tornado famosas no meio em que atuavam, cada uma a sua maneira. Victoria a via como uma rival, alguém a ser superada, mas não como uma inimiga. Poderia ter tido suas diferenças com Max, mas percebera que aquela nerd tímida era uma boa pessoa, meio cafona em seu estilo de arte, com um péssimo gosto para roupas, mas uma boa pessoa.

As duas eram amigas nas redes sociais, devido a isso, Victoria sempre se mantinha atualizada sobre como andava a carreira de Max. Aquela nerd estava tendo grandes conquistas, Victoria ficou se mordendo de inveja quando soube que a antiga colega se tornara professora na universidade Caledon. Primeiro era apenas professora convidada, mas depois conseguira uma vaga permanente na instituição. Um lado seu sabia que não deveria sentir raiva de Max por isso, mas Victoria sentia e era impossível negar esse sentimento. Max professora, estaria aquela nerd se tornando uma profissional mais competente do que ela? Só esse pensamento apavorava Victoria.

Tentou afastar essa ideia. Claro que era melhor que Max, sempre tivera um excelente olho para fotografia, tinha talento e era esforçada, todos que trabalhavam com ela reconheciam isso. Max poderia ter suas conquistas, mas Victoria sabia que era a melhor... ou era isso que preferia dizer a si mesma. Apesar de tudo, ainda nutria uma rivalidade nem sempre saudável pela antiga colega.

— Não vou deixar que ela estrague o meu domingo — disse para si mesma, fechando o seu notebook. Sua frase podia referir-se tanto a Max quanto a moça que escrevera o artigo sobre o seu trabalho.

Morava em um apartamento de luxo em Nova York, o dinheiro de seus país lhe permitira comprar o imóvel, mas ela o mantinha com seu próprio salário e isso não era nada fácil, as despesas eram altas e abocanhavam boa parte de sua renda. Estava na sala, o clima frio obrigou-a a fechar mais o robe. Lá fora, o dia estava nublado e a neve espalhava-se pelo chão. Era inverno e a cidade já estava toda iluminada para as festividades de final de ano. Victoria tomou um gole de seu chocolate quente, deixando que o líquido a ajudasse a relaxar. Respirou fundo algumas vezes, afundando as preocupações para um abismo escuro em sua mente.

Permitiu-se esse momento de tranquilidade, deixou de lado as críticas ao seu trabalho no artigo, assim como os pensamentos de inveja em relação a Max. Focou-se em si mesma, no dia que teria pela frente. Ainda era cedo e aquele era seu dia de descanso, aproveitaria para colocar alguns assuntos em dia, precisava resolver algumas pendências.

Foi nesse momento que seu celular vibrou, despertando-a de seus pensamentos. Victoria pegou o aparelho, checando as mensagens que havia recebido. Era Courtney, a morena lhe dava bom dia, e, antes que Victoria pudesse digitar uma resposta, recebera uma selfie. A imagem era espontânea e provocativa, Courtney deitada na cama, apenas de sutiã, a foto a retratava do umbigo para cima. O sutiã branco destacava-lhe os seios volumosos, uma das alças estava levemente caída para o lado e seus longos cabelos negros, cortados em estilo channel, espalhavam-se pelo colchão como se fosse uma cascata negra e sedosa.

Entretanto não era as poucas roupas que tornavam aquela foto tão sensual, mas sim a expressão de Courtney, apaixonada e maliciosa, fazendo um leve biquinho com os lábios enquanto seu olhar prometia todo tipo de prazeres. Victoria sorriu imediatamente, as lembranças de duas noites atrás invadindo seus pensamentos, quando as duas fizeram amor na própria cama de Victoria, que estava a apenas alguns metros de distância da loira. Não era nada sério, apenas um lance, era isso que Victoria dizia para si mesma e para Courtney, mas a verdade é que esse lance estava se parecendo cada vez mais com um namoro. As duas se falavam quase todos os dias e procuravam se ver duas vezes na semana, o que não era fácil já que ambas tinham uma agenda lotada. Mesmo assim sempre arranjavam tempo para ficarem juntas.

Victoria ainda admirava a foto quando Courtney enviara uma nova mensagem “Acordei pensando em você”, acompanhado de um emoticon com uma piscadela e um coração. Sorrindo, Victoria abriu o robe o suficiente para revelar uma fenda generosa entre os seios, deixando visível uma parte deles, mas ocultando a melhor parte, mantendo assim o mistério e a sensualidade. Tirou uma selfie e a enviou para Courtney.

O que eu não daria para estar ai com você! Fora a resposta que Courtney enviara insanamente. Em seguida quer passar aqui? Podemos tomar café juntas! Novamente Victoria sorriu, ruborizando. Sentia-se boba, vulnerável, com um frio na barriga. Esse sentimento a assustava, mas ao mesmo tempo lhe fazia um bem que ela não conseguia descrever.

Claro, vou me arrumar, estarei ai em quarenta minutos respondeu, então, ainda com um sorriso bobo, mas cheio de malícia e desejo, completou não precisa se vestir, assim está ótima.

A resposta veio com um emoticon com um olhar bem indecente, Victoria riu sozinha, guardando o celular. Levantou-se, agora tinha um ótimo motivo para começar o dia. Com passos ansiosos, dirigiu-se até o banheiro, estava com pressa para visitar Courtney, sua amiga, ficante, namorada, ou alguma mistura confusa entre essas três coisas. Fosse como fosse, queria vê-la, não apenas para dar-lhe uns beijos e uns amassos, mas para conversar com ela, estar ao seu lado. A presença dela lhe fazia muito bem, e, sim, isso era assustador e excitante na mesma medida.