Life is but a Dream
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem e boa leitura. ♥
Sons vinham do quarto, mas nenhum dos dois parecia ouvir.
Daiki estava esparramado no sofá, vendo o canal de esportes na TV. Apesar de ser seu dia de folga, não descansou momento algum. Teve algumas obrigações para cumprir, caso contrário, seria fuzilado por sua esposa. Depois de tantos anos namorando, ele finalmente se casou com a sua Satsuki, numa cerimônia linda e memorável que seus pais fizeram questão de arquitetar. Um dos casamentos mais bonitos de que seus amigos se lembravam. Mas tinha que ser, afinal, aquele casal estava predestinado desde que o tempo é tempo.
- Você não está ouvindo, Dai-chan? – a voz aguda da rosada se sobressaiu no ambiente.
Satsuki também estava cansada, dava aulas de Educação Física em Touou e era a treinadora do time de basquete, um posto que sempre a deixava nostálgica – muitos anos antes, era apenas a gerente e agora comandava a equipe.
- Ahh, eu não vou lá... – resmungou, com a voz embargada de preguiça. – Vai você.
A rosada franziu o cenho e mesmo não vendo, o policial sabia disso. Algo sempre provocava calafrios nele quando ela o olhava assim. Virou-se para a mulher que o fitava com uma das sobrancelhas arqueadas.
- Estou ocupada, não está vendo? – em cima da mesa onde ela estava tinha uma pilha de papéis, que pareciam provas ou perfis de jogadores adversários, os quais ela sempre analisava com sua habilidade incrível. – Vá logo.
O som se repetiu e o moreno fechou a cara, numa faceta emburrada e cômica – ao menos, para Satsuki que quase riu ao vê-la no rosto do marido.
- Vai ter que me recompensar depois. – esboçou um sorriso malicioso. – Daquele jeito.
A professora apenas sorriu, correspondendo às expectativas do marido que agora, com aquele incentivo, reunia forças para se erguer do sofá e então subir o lance de escadas que dava acesso ao piso superior. Andou pelo corredor até o final desde, mas virou na segunda porta, girando a maçaneta da mesma ao entrar.
- O que vocês querem, suas pestinhas? – questionou em seu tom rouco e autoritário, mas que não intimidou ninguém.
Os orbes azuis de ambas as crianças reluziram quando viram a figura máscula do homem. Se movimentaram por baixo dos cobertores, antes deitadas, as duas se sentaram e usaram o travesseiro como encosto para as costas.
- Papai, papai! – gritaram, em uníssono.
- Conta uma história pra gente! – falou a mais velha, e a mais nova completou. – É, conta!
Aomine encarou as duas crianças, frutos de seu amor com Satsuki. Aquelas duas belas e irritantes meninas que eram seu tesouro mais precioso. As analisou atentamente antes de falar.
- É hora de dormir. – olhou para o relógio de pulso. – Aliás, passou da hora das mocinhas dormirem.
- M-mas papai... – soou a voz da mais nova Saya, de cabelos azulados iguais ao pai. – Por favor...
- Por favorzinho, papai! – falou a mais velha Shizue e fez beicinho, o que o lembrou imediatamente dos charminhos da mãe.
- Certo, vocês venceram. – afirmou, não tão animado. Puxou uma cadeira próxima e sentou-se no vão entre as duas camas. – Não sei contar histórias como a mãe de vocês, então, não reclamem.
As meninas assentiram com a cabeça, concordando com o homem que era a autoridade da família. Daiki admirou cada uma de suas meninas, observando nelas os seus traços misturados com o de sua esposa; até mesmo suas personalidades eram parecidas com os dois, uma vez que Saya era despreocupada como o pai e Shizue mais centrada como a mãe. Aquela era uma mistura interessante e também difícil de lidar. Pigarreou, antes de começar.
- Essa é a história do mexilhão feio... – a sua voz dava ar de suspense e as meninas se encolhiam por baixo dos cobertores, completamente quietas. – Ele era tão feio... Que todo mundo morreu, fim.
O moreno foi encarado de diversas formas pelas meninas; Shizue lançou um olhar desconfiado e incrédulo, já Saya bateu com as mãos sobre as coxas cobertas, insatisfeita com a situação.
- Isso não é uma história! – o tom esganiçado da menina de cinco anos soou mais alto do que deveria, mas Aomine não levou isso a mal.
- É sim, eu vi no Bob Esponja.
Falou tão naturalmente que Shizue não viu outra opção senão rir.
- Ele era tão feio quanto o tio Mukkun? – questionou, divertida.
- Mais feio ainda.
- Tio Mukkun não é feio! Ele é legal! – Saya defendeu a honra de Murasakibara e por motivos óbvios. – Ele sempre me dá doces!
- Ele é assustador, ele sempre diz que vai me esmagar... – falou baixinho e o medo podia ser visto em sua voz. – Mas o tio Kise é legal e muito bonito.
- Aquele maldito não vai esmagar ninguém. Acabo com a raça dele. – estreitou o olhar para Shizue. – E o Kise é gay.
As meninas se entreolharam e riram baixinho, e quando notaram o olhar inquisidor do pai sobre si, cobriram as bocas com o cobertor.
- O papai fez de novo! – dizia Shizue, que achava graça. – Se a mamãe ouvir...
Daiki ainda não entendia.
- Papai falou palavra feia! – Saya mostrou o sorriso ausente de alguns dentes para o homem.
O moreno fuzilou as filhas com um olhar cortante e ameaçador. Satsuki o tinha advertido sobre usar esse tipo de linguagem perto das crianças.
- Oe, banguela e quatro-olhos. Se a mãe de vocês souber disso, as duas estão encrencadas.
As meninas se olharam novamente e fizeram sinal de silêncio com o indicador e também o de zíper fechado, sobre os lábios. E em seguida o homem começou a rir e foi acompanhado pelas crianças.
- Papai, como você conheceu a mamãe? – a pergunta era de Shizue, mas Saya partilhava da mesma curiosidade.
- Por que você quer saber isso?
- Porque vocês são nossos pais! E eu gosto de histórias de amor... – sussurrou, corando suavemente.
Daiki arqueou a sobrancelha e fitou a filha mais velha fixamente. A menina mal tinha sete anos de idade e já queria saber de histórias de amor? Não tinha gostado disso. Não tinha gostado nada disso.
- Você não tem idade para isso, mocinha. – apesar do tom firme de voz, ele também soou brando. – E a gente tinha idade da Saya quando nos conhecemos.
- Cinco anos? – fez a menor, mostrando o número com os dedos de uma mão.
- Sim, quando ela se mudou para a casa ao lado da minha e logo viramos amigos.
As meninas arregalaram os olhos e acomodaram enquanto ouvia a história de amor deles que era narrada com carinho e nostalgia. E ao longo da história outras perguntas surgiram, e ele interrompia a narrativa para sanar todas as dúvidas de suas baixinhas, que pareciam apreciar muito a forma divertida como ele contava.
Fizeram cara feia quando ele disse que brigava muito com Satsuki quando eram adolescentes e ficaram surpresas ao saber da paixonite que ela tivera com Kuroko Tetsuya, padrinho de Saya. Se vangloriou das inúmeras vitórias no mano-a-mano com Kagami Taiga, que era padrinho de Shizue e trabalhava como bombeiro na cidade.
Falou sobre eles e sobre todos os integrantes da Geração dos Milagres, que freqüentavam a casa constantemente. Quando foi contar sobre o pedido de casamento, se deu conta que ambas já estavam dormindo e que ele se perdera em meio tantas lembraças e nem percebeu.
Com cuidado, se aproximou de Saya e puxou o cobertor para cima, cobrindo-a por inteiro. Depositou um suave beijo na testa de caçula e então Shizue chamou sua atenção; a menina ressonava enquanto dormia e ainda estava de óculos. Levou as mãos grandes e ásperas ao rosto da menina, mas teve o extremo cuidado ao retirar os óculos dela, colocando-o no criado mudo que havia entre as camas.
Beijou-a na testa com igual carinho e então se deixou levar; admirou-as em seu sono tranqüilo, ambas sorridentes e com feições tranqüilas como se fossem dois anjinhos. Mas ele não se deixava enganar, sabia que eram duas pestinhas. As suas pestinhas.
Estava prestes a sair do quarto quando a luz se apagou do nada, e quando ele olhou para trás viu que era Satsuki. Pelo sorriso que adornava seus lábios, parecia estar ali há algum tempo. Ela o chamou com o indicador e ele foi em sua direção.
- Ainda não perdeu o hábito de me espionar, Satsuki?
- Shh, Dai-chan! – cochichou, ao cutucá-lo, o que fez o maior franzir o cenho. — Elas estão dormindo, nossas filhinhas lindas.
Ele sorriu junto dela enquanto observavam os frutos de seu amor. Já estava tão grandes, o tempo passa realmente rápido. Mais alguns anos e estariam no ginasial e algum tempo depois, trazendo namorados para ele conhecer. Essa ideia fazia o estômago de Daiki revirar e uma veia saltar em sua testa.
- Agora é hora de colocar outra mocinha para dormir. – a voz sedutora de Satsuki ainda tinha o mesmo efeito nele.
A abraçou pela cintura e girou seu corpo, caminhando com o corpo colado ao dela, encostando a porta para que as meninas não ouvissem o som do quarto vizinho. Talvez outra criança fosse concebida naquela noite, porque ele queria mais filhos. Eles queriam. E a vida...
A vida é apenas um sonho.
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