Lie To Me
4 Encontros um tanto indesejáveis
Notas iniciais
A luz do sol batia suavemente sobre as cortinas avermelhadas e pesadas que mal mexiam com a brisa. Ainda devia ser no máximo umas quatro da tarde, não muito mais que isso. Artemis, sentada na cama, não sabia muito bem. Seus olhos verdes assistiam o movimento das flores que via pelo horizonte. Sua cabeça estava a mil.
O pior de tudo, era não conseguir lembrar de nada. Poucas peças ainda eram possíveis de se puxar de sua mente, no entanto, nada fazia qualquer sentido. Uma torre Eiffel, uma mulher chamada Hera, uma batida de carro e seu nome, foi tudo o que restou dela mesma.
– E não vai adiantar nada você querer ficar aqui. – disse a si mesma. Desanimada, Artemis jogou o travesseiro que segurava sobre a cama e se colocou de pé, aproveitando para pegar uma blusa de couro que estava sobre o sofá próximo. A blusa tinha cheiro de algum perfume masculino caro e muito bom quando a puxou para mais próxima de si. Cruzes, aquela casa era fria demais.
Sua mente não estava muito ali no momento em que começou andar pela casa a procura de alguma alma viva. Aquele podia ser facilmente o covil do Drácula, havia tantas coisas antigas, gritavam “SOU CARA, CUIDADO COMIGO” só de olhá-las. Seus olhos visualizaram algumas pequenas estatuetas egípicias, um ou outro quadro que inclusive jurava que era Dellacroix, mas não tinha certeza. Sua testa se franziu. Que tipo de pessoa era Apolo? Aquela casa... ele havia dito que era a casa dele. Dinheiro parecia não ser problema para ele, certeza.
Seus pés deslizavam por um fofo tapete em umas largas salas que havia achado. Essa, diferente das outras, tinha predominância em móveis modernos, uma larga parede de vidro de onde podia ver o extenso jardim. Ok, onde ela havia se enfiado? Que lugar era aquele?
Estava assim, andando meio perdida pelos grandes corredores, cheio de portas — pra que tanta porta? Quantas pessoas moravam ali? Vinte cinco mil? -, passando na frente de uma sala cheia de computadores e coisas tecnológicas que alguém parecia usar com frequência dado o fato de haver objetos espalhados ali, no instante em que uma mão segurou seu ombro.
Gritou e se virou para ver quem era. Olhos castanhos. Cabelos chocolate ondulados perfeitamente. Sorriso amável que ria dela. Afrodite. Ela vestia um biquíni vermelho que destacava em sua pele. E era absurdamente pequeno.
– Fazendo alguma coisa ilegal, Artemis? – apesar do sorriso, ela falava sério. Ou assim Artemis acreditava. – O que fazia no quarto de Dionisio?
Dionisio? Quem era ele? Mas dado o tom, assustou Artemis que negou.
– Eu... tava andando... e me perdi... e tem tantas portas... e...
Para a confusão de Artemis, Afrodite riu.
– Estou brincando com você, Art. Acredite, até eu me perco nessa casa, na verdade, isso daqui devia ser um castelo. E seu dono não está muito longe de ser um morcego – a morena fez uma careta divertida antes de sorrir. – Mas não importa... enfim, como você tá? Precisa de alguma coisa? Apolo me colocou como sua guia turística.
– Traduzindo, ele ainda acredita que eu seja alguém feita para matá-lo sem qualquer sentido, certo?
Uma vez mais, Afrodite riu.
– Mais ou menos isso aí mesmo.
– Hum... bom saber... Eu só queria saber onde fica a cozinha.
Com um sorriso danado, a morena segurou sua mão e piscou.
– Me siga, fofolete.
Fofolete? Ela disse mesmo fofolete? Artemis não tinha certeza, entretanto, somente começou a segui-la. O caminho para a cozinha foi feito com Afrodite falando todo tempo. Seu tom sempre parecia divertido, como se tudo o que fizesse fosse maravilhoso, mesmo quando disse que teve que lavar o carro dela.
– ... Mas Apolo é divertido... Er, mais ou menos, as vezes ele resolve aparecer com bom humor e dá um sorrisinho. Agora, Dionisio, tsk, ele é um saco, santa Prada. Fica o dia todo enfurnado naquele maldito quarto dele, pesquisando milhares de coisas.
Isso chamou atenção de Artemis.
– Pesquisando?
Afrodite assentiu com a cabeça, seus cabelos perfeitos sacudindo pelos seus ombros com o movimento.
– Ele é o que os garotos chamam de informante, sabe como é, né? Fica futucando todos os cantos da internet e coisas bizarras assim atrás de algo... Eu e Hermes simplesmente o chamamos de Batman.
Artemis riu da forma conspiratória com que Afrodite disse aquilo.
– Afrodite...
– Me chame de Dite, por favor, esse nome é lindo, mas grande demais.
– Dite, com o que Apolo trabalha?
E Artemis percebeu tarde demais que aquela era a pergunta errada. O rosto, alegre de Afrodite, se transformou, se tornando frio ainda que mantivesse o sorriso.
– Podemos dizer apenas que tem um negócio próprio... Ah, chegamos. Art, sinta-se a vontade para pegar o que quiser. Tem um iogurte aí, que bendito louboutin, deve ser feito pelos deuses.
Ao que parecia, Afrodite já havia esquecido sua pergunta indevida, já sorria normalmente. Sinceramente? Artemis estava começando a pensar que só existiam pessoas estranhas ali, no entanto, guardou esse comentário sobre isso para si mesma. Seus olhos deslizaram pela cozinha moderna, todo em tom preto e cromo. Podia também se tornar em um laboratório facilmente.
Afrodite sentou-se em uma larga cadeira – ali também tinha cadeiras e poltronas demais, será que muitos moravam ali? – enquanto continuava a tagarelar e a deixava andar pelo local. Artemis foi timidamente abrir a geladeira. Estava lotada.
– Então, como eu dizia, os meninos são até legais, dá para se divertir bastante com eles... Hermes é divertido, a namorada dele é um amor de pessoa, até hoje não sei como Hestia namora ele. O amor é tão confuso e lindo. Enfim, temos meu irmão, Poseidon, além de Dionisio e Apolo.
– Todos moram aqui?
Artemis se virou para encarar Afrodite enquanto abria um iogurte que a morena havia dito.
– Ótima escolha. – ela sorriu. – Não, cada um tem sua casa, mas aqui é a Batcaverna, então ficamos bastante por aqui, além do mais, Apolo já é alone por demais, trazemos alegria a casa dele.
A colher que Artemis segurava parou no meio do caminho e ergueu as sobrancelhas para Afrodite que sorria.
– E ele deve odiar, certo?
– Você não imagina o tanto. – as duas riram. – Mas, no fim, acho que ele gosta da gente aqui.
– Ou você gosta de se enganar como adora se enganar com o amor, Afrodite.
Aquela voz fez o clima subitamente gelar. Artemis não entendia bem porque, mas na mesma hora que a dona dela apareceu, o rosto de Afrodite se desfez em uma careta de nojo. Era uma mulher um pouco baixa, mas claramente curvilínea. Cabelos loiros lisos em formato Chanel e olhos extremamente azuis, só não frios como os de Apolo, disso Artemis tinha certeza. A pela dela era branquinha e o sorriso maldoso ao encarar Afrodite. Vestia só uma blusa masculina.
– Ou ele só gosta de te comer e jamais te amou, Dafne.
Aut, aquela doeu até em Artemis. Seus olhos verdes encararam Afrodite, curiosa. A cara dessa era puro desgosto. Dafne estava puta.
– Você sempre acha que sabe tanto sobre amor, Dite, me diga, como acabou mesmo seu romance com aquele motoqueiro? Ou agora diria ex-presidiário?
– Você só tem essa mesma frase para me dizer? Estou me cansando, seja criativa pelo menos uma vez na sua vida, Dafne.
– Isso ainda dói em você? – Dafne se aproximava, com um sorriso de satisfação ao ver Afrodite ficando com raiva. – Saber de tudo o que sabe? Como foi mesmo que ele escreveu para você? Ah, sim, “sempre foi a pessoa que esteve ali por mim, espero que isso não mude”... E o que você fez?
A raiva de Afrodite foi só aumentando, a cada palavra ou passo que a outra dava, Artemis podia ver como a morena se segurava, ainda mantendo o sorriso no rosto. Claramente, aquilo ainda a machucava. Mas porque? O que era aquilo? De quem elas falavam?
– Isso não é da sua conta, Dafne. Vai dar para Apolo, vai.
Ah, então aquela era a namorada de Apolo? A testa de Artemis se franziu. Por que ela tratava Afrodite daquela forma então? Sem ligar para o perigo, Dafne ficou frente a frente com a outra, ainda sorrindo.
– Pelo menos eu ainda tenho Apolo. E você? Se tornou uma trai...
Antes que ela pudesse terminar a frase, o estalido ecoou pelo local. Artemis estava pasma, não tanto quanto Dafne parecia estar. Afrodite praticamente emanava ondas de ódio, os olhos amáveis um tanto quanto mortais. E, bem, a mão dela pintada em vermelho na bochecha de Dafne concordava com isso.
– Diga mais uma palavra, Dafne, e eu juro que nem por Apolo eu te mantenho viva. Ele pode arrumar outro brinquedinho.
Afrodite tremia. Só agora Artemis, ainda com o iogurte e sem saber bem o que fazer, percebia que os olhos verdes escuros da morena olhavam para um ponto próximo.
– Você nunca aguentou muita pressão, Afrodite – disse Dafne, com asco. – Duvido que consiga fazer algo além de gritar ao quebrar sua unha.
Então, Artemis compreendeu o que Afrodite queria fazer. Ao que parecia, por baixo daquela roupa, havia algo que poderia machucar a morena. O que? Boa pergunta, mas parecia estar deixando Afrodite só um pouco nervosa. Como quem não quer nada, Artemis começou a passar a mão por baixo da mesa, onde Afrodite encarava e... Seus dedos se enroscaram em algo gelado. Franziu a testa. O que era aquilo? Foi só preciso seu polegar passar sobre o destrave que soube automaticamente o que era.
Não pensou, somente agiu ao ver que Dafne deslizava uma mão sutilmente nas costas. Sem saber como, nem porque, a ruiva puxou do local escondido que estava e a puxou para cima, segurando-a com as duas mãos, do jeito correto. Sua mira automaticamente se arrumou e, quando menos esperou, tinha Dafne sob sua visão, a pistola na direção dela. Todas as duas pareceram surpresas com sua intervenção. Não brincava naquela hora.
– Dafne, você não vai querer fazer nada contra Afrodite na casa de Apolo. Você sabe como ele é, sabe o que ele faria – Artemis implorava para esse blefe estar funcionando. Seus olhos verdes sérios sobre os azuis debochados dela. – Afrodite é uma irmã dele, você é só a namorada, quem você acha que sairia perdendo? Faça assim... vamos evitar essa briga, você vaza daqui e fingimos que nada aconteceu. Nem eu e nem Dite dizemos o que houve, ele odiaria saber da briga de vocês e já tem outros problemas com que lidar. Então, o que acha?
Por favor, que funcione, que funcione. Artemis implorava silenciosamente, não sabia o que podia fazer, mas se Dafne sacasse o que tinha guardado, teria que atirar. Por algum motivo, isso lhe dava asco.
Ou talvez a sorte estivesse ao seu favor. Com uma última olhada nervosa para Afrodite, que mataria um, Dafne deu as costas para elas e foi embora, praticamente bufando. Na mesma hora, Artemis relaxou visivelmente, com um suspiro alto.
– Ela não tinha uma arma, tinha?
Afrodite, que se voltava para encarar seus olhos verdes, sorria meio tensa.
– Provavelmente sim, você vai perceber que aqui todos andam armados.
– Até os móveis?
Dessa vez, a morena soltou uma risadinha divertida.
– Diferente, não?
A ruiva em questão colocava a arma ainda travada sobre mesa e a deixava deslizar na direção de Afrodite, não querendo nem saber daquilo. Voltou a comer seu iogurte, sob o olhar suspeito de Afrodite.
– O que foi?
– Como você sabia segurar uma arma, Art?
Artemis deu de ombros, sincera.
– Não lembro, eu só... fiz.
– Realmente não lembra de nada?
– Não, isso está me dando raiva.
– Não consigo imaginar como seja viver sem memória, argh.
Artemis fez uma suave careta para seu próprio iogurte.
– Só é... estranho... Muito estranho. E inquietante, porque você sabe que está ali e mesmo assim...
A mão pequena de Afrodite apareceu e segurou de leve seus dedos. A dona deles sorria de maneira suave.
– Vamos dar um jeito nisso.
Artemis não queria dizer nada, que não confiava neles ou mesmo que duvidasse que Apolo aceitasse aquilo, ao que parecia, tudo o que ele queria era saber as malditas informações que ela não tinha. Mas resolveu não dizer nada, somente sorriu de volta para uma alegre Afrodite e a deixou guiar a conversa para um rumo mais divertido. Afinal, o que mais poderiam fazer além de esperar?
*.*
A loira definitivamente não queria estar ali. Aquele tipo de ambiente a deixava tonta, a música alta, o neon cegando-a, os caras tarados que a olhavam de alto a baixo no caminho... Ela odiava aquilo. Mas estava ali a trabalho, precisava focar. Tudo o que tinha que fazer era encontrar o dono daquela boate — como ele se chamava mesmo? — e entregar aquelas maletas para ele. Apenas isso e sairia dali.
– Com licença, poderia me dizer onde encontro o dono desse lugar? — ela perguntou para o barman, que sorriu e apontou para um canto mais luxuoso, com sofás, onde um homem com cabelos incrivelmente pretos estava sentado admirando as garotas no poledance. E infelizmente ela já havia visto aquele cara antes.
Ela foi se aproximando do moreno, torcendo a cada passo para que aquilo fosse o mais rápido possível. Foi quando aquele sorriso de canto apareceu no rosto dele que ela soube que sua noite começava a ficar pior.
– Ora, ora, então você veio? O que houve? Seu namorado engomadinho não tinha coragem de me enfrentar? — ele perguntou, rindo e virando mais um copo de qualquer coisa que estivesse bebendo.
– Acredite, não estaria aqui se não fosse algo realmente importante. — ela rolou os olhos.
– Mas posso te convencer a ficar. — ele levantou, aproximando-se dela, ao que ela só recuava.
– É sério, vim apenas fechar negócios, depois juro que não vejo mais sua cara.
– Podemos fazer negócios juntos, que acha? — ele riu, colocando a mão na cintura da loira e puxando-a para mais perto, recebendo em troca apenas a recusa dela. — Mas falando sério então, cadê seu namorado? Ele não deu conta de você?
Ela rolou os olhos no exato momento em que ele disse aquilo e uma música começou a ecoar na boate. Give me Everything, bem conveniente.
– Olha, eu posso fazer melhor que ele, só avisando — ele cruzou os braços e virou mais uma dose daquela bebida, e só então a loira notou que a garrafa estava quase vazia. Suspeitando de que era, virou levemente a garrafa para ter certeza: Absolut Vodka.
– Fala sério! — ela chamou a atenção dele no momento em que ele murmurava alguns trechos da música para ela — Você está bêbado?
O moreno nem respondeu, apenas riu e puxou-a mais uma vez pela cintura, falando junto com a música:
– I make you feel right, baby. Can't promise tomorrow, but I promise tonight!
– Não acredito que Apolo me mandou aqui para negociar com um bêbado. — ela suspirou, mas ouvir aquele nome fez Poseidon ficar levemente atento.
– O quê? — ele indagou, confuso.
– Você é Poseidon, certo?
– Eu mesmo. Se Apolo te mandou... você se chama Atena... Acertei?
– Não importa, você não vai mais me ver depois de hoje, pode ter certeza.
– Ele te mandou aqui?
– Sim, Apolo disse que você saberia o que fazer com... — ela colocou as duas maletas em cima da mesa, abrindo-as e mostrando seu conteúdo — Isso.
Poseidon assobiou. Ali dentro havia apenas alguns milhões de dólares em armas. No mínimo quatro SMT 9C, algumas pistolas PT 840 e duas ou três Colts. Ele não parou pra contar, na verdade. Foi ao lado do sofá e tirou dali uma maleta quase igual as dela, só que com um conteúdo bem diferente. Atena checou a maleta, sorriu e fechou novamente.
–Tudo certo. Guarde as armas então.
– E estão carregadas? — ele perguntou um segundo antes de ela destravar a Taurus que segurava e encostar o cano frio no peito dele, sorrindo de canto.
– Quer testar?
Ele exibiu seu habitual sorriso sarcástico enquanto afastava a arma de seu peito com um dedo, guardando-a junto com as outras. Deu um olhar desinteressado para as armas, fechou as maletas e colocou as duas em algum lugar atrás dos sofás, voltando a se estirar ali e encher seu copo novamente.
– Aceita vodka? — ele balançou a garrafa quase vazia — Ou o que restou dela?
– Não, não vejo a hora de sair daqui. Passar bem, Poseidon.
Então ela deu a volta e começou a andar, afastando-se dele. Isso até que ele a interrompesse, chamando alto o suficiente para ser ouvido mesmo com a música tocando:
– Hey! — ela se virou para olhar para ele — Sabe que ainda vamos nos encontrar, não sabe, Atena?
Ela arqueou uma sobrancelha e tentou esconder um mínimo sorriso enquanto dava de ombros e saía dali.
Veremos, Poseidon. Veremos.
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