Lie To Me

9 Capítulo 9: Don't Cry Anymore, Arthur.


Notas iniciais
"Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor."

Primeiro, Arthur prendeu a respiração, porque respirar exigia demais de seus neurônios e naquele momento ele estava surpreso demais até para isso. Segundo, ele não se mexeu. Aquela foi uma das pouquíssimas coisas que jamais teria esperado do americano, sempre se gabando de ser hetero e coisas assim. Terceiro e último, quando Alfred tirou seus lábios dos seus e se afastou um pouco, mas ainda o segurando para que não caísse do parapeito no mar com uma trágica queda, ele não soube o que dizer.

Aliás, segundos depois, soube e o fez, já que Alfred parecia tão chocado quanto o outro.

Arthur levou uma das mãos aos lábios agora quentes e murmurou, quase inaudível.

-Você... Você me beijou... Por quê?

-Porque você tinha me mandado calar a boca e... Nada que eu falasse ia te acalmar. Essa foi a única coisa que eu pensei.-Alfred disse, desviando o olhar e fitando o chão.-Você tem lábios doces, Arthie.

-Hã?-Arthur perguntou, ainda surpreso demais para levar aquilo como uma ofensa. Ele nunca tinha sido beijado na vida, nunca, e fora tão rápido e... Um tanto desesperado que... Que tinha deixado uma coisa estranha na sua boca. Não fora um beijo de língua, mesmo que Alfred tenha beijado a boca do outro semiaberta, já que ele estava falando na hora, mas o americano não se dera ao trabalho de invadi-la. O que deixava claro que ele não queria mais do que aquilo.

E se ele não queria, não tinha objetivo, quer dizer, ele podia ter simplesmente tampado a boca do inglês com sua mão, mas não, beijá-lo tinha parecido uma ideia melhor. Talvez ele estivesse com raiva e quisesse humilhar o de olhos verdes em público, sim, só podia ser isso... Não tinha outra explicação.

E por isso, Arthur se irritou novamente, mas desta vez falou baixo:

-Eu sabia. Você estava apenas esperando a hora certa, não é? O que vai fazer agora? Me chamar de gay na frente de todo mundo? Me humilhar mais ainda? Não basta me deixar só, me deixar esperando, agora tem que me beijar? Por que não tira uma foto e sai espalhando por aí que sou gay?

-Arthie, do que está falando?-O outro perguntou, sem entender, desta vez totalmente inocente. Quando beijara o inglês, não tinha nenhuma intenção por trás a não ser calá-lo, fazer com que parasse de dizer todas aquelas coisas ruins, sobre ódio e tudo mais. Alfred não gostara nem um pouco de quando Arthur dissera que lhe odiava... Poderia ser que num passado próximo não fizesse efeito, mas agora... Não queria ter que ouvir aquilo de novo.

-Me ponha na cadeira-de-rodas. Quero ir embora.

-Arthie...-Alfred tentou argumentar, usando agora a mão que antes segurava o queixo do outro para tocar em seu ombro, mas o inglês deu-lhe um tapa, afastando-a.

-Não. Já não basta o quanto você me decepcionou hoje? No final, você só está brincando comigo de novo, não é? E olhe só, eu até te dei motivos para revidar. O que vai fazer? Vai publicar na internet que o inglês nojento da escola é gay? Já não basta tudo que eu vim sofrendo até esse momento? Não deve bastar, não para você.

-Arthie, eu não quis... Não quis te humilhar, de onde tirou essa ideia?

-Não vejo nenhum outro motivo para me beijar senão para fazer chacota comigo.

-Eu queria te calar! Você não parava de gritar! Se eu tampasse sua boca com minha mão, no mínimo você ia me morder! Me desculpe, eu não queria...

-Então por quê? Apenas para me calar? É uma desculpa demasiada infundada. Quero ir embora, e se você não me levar, vou sozinho para casa, ou melhor, para o maldito jogo, já que prometi, não foi? Pelo menos sou honrado a ponto de manter minha palavra.

-Arthie, não foi brincadeira! Não foi sequer uma brincadeira de mau gosto! Eu te beijei porque não vi nenhuma outra alternativa, eu te beijei porque eu quis! Você está vendo alguém do colégio aqui? Algum paparazzi? Não tem ninguém aqui que vá rir de você, ninguém...

-ENTÃO POR QUE FEZ ISSO?!-Arthur exclamou, mais alto e com mais raiva desta vez, empurrando o outro para longe e caindo no chão com um baque surdo, e quando Alfred ia ajudá-lo, ele ergueu uma das mãos, se sentando na cadeira-de-rodas sozinho.-Eu não pertenço ao seu mundo de ficas e sexo por acaso, Alfred. Se você me beija, ou você quer me humilhar ou gosta de mim, e a hipótese mais segura é a que você quer me humilhar, talvez porque eu te irritei, talvez porque eu te envergonhei, eu não sei, apenas... Apenas não fale comigo. Me ignore, como fez em grande parte da sua vida.

-Arthie...

Alfred engoliu em seco. Não estava mentindo, não daquela vez, e na única vez que não estava mentindo, Arthur não queria acreditar. Com que motivo ele humilharia o inglês, sendo que ele era seu principal suporte? Porque sim, o suportava, mais até do que ele imaginava. Arthur não pedia seu dinheiro nem nada, Arthur não insistia em conhecer seus pais e nem em lhe pedir favores. Arthur sequer o tratava bem, na verdade, perto dele Arthur era apenas Arthur...

Mas por que estava se importando com aquilo, afinal? Se Arthur estava com raiva dele, era problema do inglês, porque, afinal, Alfred não se importava com Arthur e tudo aquilo não passava da mais grande farsa, não era? Assim que conseguisse o que queria, ou seja, Susanna, Alfred pularia fora e deixaria o inglês sozinho, mais uma vez.

Ele não se importava, não deveria se importar, não deveria sentir nada, exceto quem sabe uma pequena quantia de pena, mas só isso. Deveria ser frio, deveria fingir, mas não sentir de verdade.

Por isso, lembrando do seu objetivo, Alfred pagou a conta e chamou o motorista, e logo ambos saíam dali em direção a um dos campos de futebol americano da cidade, ambos em silêncio e sem sequer olhar um para o outro: Arthur, orgulhoso demais para aceitar qualquer outra explicação que não fosse a de que o americano estava o humilhando de alguma forma, e Alfred, temeroso demais.

Porque ele temia sentir alguma coisa que não fosse indiferença pelo inglês, e seu medo na verdade tinha fundamento.

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Quando ambos chegaram ao imenso e bem decorado campo de futebol, Alfred, sem dizer nada, levou Arthur até uma parte da arquibancada na ponta do campo, de um acesso mais restrito e com menos gente. O inglês não se atreveu a dizer nada, embora estivesse meio triste por dentro.

Alfred então pegou uma mochila dentro do carro, aonde estava seu uniforme, e foi se encontrar com seu time, logo esquecendo a irritação de Arthur graças a todo o entusiasmo da equipe. A noite tinha tudo para dar certo, e quando o americano vestiu seu uniforme e começou a ouvir as estratégias do treinador antes de entrar no campo, sentiu que ganhariam.

Mas tinha um integrante do time, chamado Brandom, que não gostava muito do americano justamente porque ele tinha tudo que Brandom não tinha, e é nele que temos que prestar atenção daqui para frente.

Brandom era um aluno como qualquer outro, com notas medianas, mas se destacou no futebol a ponto de se tornar titular no time de futebol americano. Ele não era bonito, na verdade, era desproporcional, tendo a cabeça pequena demais para o enorme corpo, mais musculoso e alto que o de Alfred.

Brandom era irritadiço e não gostava de ouvir as opiniões dos outros quando estas batiam de frente com as suas, então ele nunca serviu muito bem para capitão do time, e quando ele viu Alfred levando tanta fama graças as suas habilidades no futebol, sentiu muita inveja.

Quase todos no time eram amigos de Alfred, exceto este outro rapaz do qual estamos falando e alguns poucos que não são amigos de ninguém. Brandom também não gostava de Arthur simplesmente porque quando seu pai trabalhava na Europa, um inglês qualquer o despediu e o obrigou a voltar para os EUA, ou seja, voltar para casa, aonde quase todas as noites ele batia na sua mãe.

Então, quando Brandom viu Alfred, seu pior rival, andando com Arthur, a escória, o lixo do colégio, segundo ele, sentiu muita raiva, mas quem ficaria contra o capitão do time? Ninguém. A não ser que... A não ser que ele soubesse controlar seus seguidores.

Não é que aqueles do time não gostassem de Arthur, era apenas uma rixa natural de ingleses e americanos, simples. Na verdade, eles pegavam no pé de Arthur apenas porque era divertido ver alguém abaixo deles, o que os sobressaltava.

E era isso que eles iriam fazer aquela noite, uma vez que Brandom chegara pouco depois que Arthur e Alfred a ponto de ver o americano deixando o inglês na ponta da arquibancada, era só agir na hora certa. Com a euforia do jogo, não teria ninguém que não aceitasse pregar uma peça num cara de que ninguém gostava, não era?

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E era isso. O jogo na verdade tinha sido bem fácil, e o adversário do outro estado parecia não ser o bastante para parar o glorioso time do colégio Liberty, e mais uma vez, a estrela da noite fora Alfred, chamado para dar uma pequena entrevista a um repórter do jornal local, que buscava as novas estrelas do esporte.

Enquanto todo o restante do time se espalhava pelo campo e pelas arquibancadas, Alfred foi levado até um local mais reservado, aonde o repórter fez algumas perguntas e comentários ao americano suado e exausto.

-Enfim, deixemos então que nosso futuro herói troque de roupa e descanse depois de uma partida tão bem sucedida.-Disse o repórter, virado para a câmera.-Este é William Blonner para o jornal de Nova York.

-Acabou? Já posso ir me trocar?-Perguntou Alfred ao repórter, um tanto ansioso.

-Ah, sim. Obrigado, sr. Jones.-Agradeceu o repórter, se virando para o câmera e saindo do lugar falando com o mesmo.-Sabe, eu acho que vou ganhar uma promoção e virar em âncora em pouco tempo... Amanhã temos que ver as bailarinas, não é? Aquela tal de Fatty Bernardes, algo assim...

Ambos desapareceram então, deixando Alfred sozinho, que rumou para o vestiário e tomou um banho rápido, voltando a vestir o terno, mas sem o blazer, apenas a camisa branca, e o casaco da sorte castanho por cima.

Naquela altura ele nem se lembrava mais de Arthur, quer dizer, ele não se lembrava de que tinham brigado... Paz e alívio que não duraram muito, porque assim que terminou de calçar os sapatos e deixou o vestiário, correndo os olhos pela arquibancada e procurando pelo o inglês, não o encontrou.

Procurou mais uma vez, fazendo uma cara de confuso. Teria ele ido para algum lugar sem lhe avisar de novo? A memória do beijo lhe veio a cabeça, e deles discutindo também, assim como aquele medo de acabar sentindo algo que não deveria.

Era Arthur que deveria sentir, e não ele. Ele deveria apenas fingir que sentia, nada mais que isso. Correu os olhos por toda a arquibancada mais uma vez, já começando a se preocupar. Arthur não estava ali.

Engoliu em seco, mas procurou manter a calma, claro, era só Arthur que tinha sumido de novo, não era como se seu motorista tivesse se demitido ou se seus pais tivessem chegado mais cedo de viagem, veja bem, não era o fim do mundo.

Estava indo até a portaria do campo quando o treinador lhe parou, tocando em seu ombro e fazendo-o fitar o homem já com mais de 50 anos e rosto duro, mas benevolente.

-Alfred, você foi muito bem hoje. Estou orgulhoso de você.-Disse ele, o que fez o americano sorrir por alguns instantes.

-Obrigado, senhor.

-Mas você esteve faltando tanto os treinos que fiquei com medo que não jogasse bem hoje. O que está acontecendo, garoto? Eu tive que falar com seus pais para que você viesse.

-Eu tive... Alguns problemas, sabe? Coisas que já resolvi, não se preocupe.-Alfred sorriu, mentindo.-Prometo que não vou faltar de novo, treinador.

-É, eu espero que não. Não temos previsão de nenhum outro grande jogo, mas é bom você ficar alerta, ouviu, rapaz?

-Sim, senhor.

-Muito bem, então agora vá embora. Parece que você está louco para fazer alguma coisa e eu estou te prendendo aqui... Tem alguma garota para encontrar esta noite e está atrasado?-Perguntou o treinador, rindo.

Alfred riu, sem responder, virando-se para ir até a portaria então. Não, era que o seu possível melhor amigo tinha sumido e provavelmente era sua culpa.

Não havia ninguém na rua também. Desde o final do jogo, tinha perdido quase uma hora com a entrevista, se trocando no vestiário e agora com o treinador, e eram pouco mais das 9 horas da noite. Voltou e perguntou ao porteiro se tinha visto um inglês saindo com uma cadeira-de-rodas, e depois de mais dez minutos esperando que o funcionário lembrasse, ele disse que sim.

-Vi um inglês loiro com cara de poucos amigos saindo daqui, sim... Só que tinha umas pessoas com ele... Parecia ser o seu time.-Disse o porteiro.

-Meu... Time? Tem certeza?

-Ah, sim, eles estavam rindo alto e comemorando. Entraram num carro, levaram esse cara da cadeira-de-rodas com eles e desapareceram na esquina, rapaz. Por quê? Eles não eram seus amigos?

-Puta que pariu, Arthie...!-Alfred exclamou, ignorando o porteiro e saindo do campo o mais rápido possível, ligando para seu motorista e exigindo que viesse buscá-lo, e uma vez de carro, começaram a procurar por ali.

Mas Arthur podia estar em qualquer parte da cidade... E o inglês não tinha celular, o que Alfred se desesperar mais ainda.

-Sebastian, você não o viu saindo?!-Alfred exclamou, pensando em ligar para a polícia, mas desistindo. Polícia atraía imprensa, e a imprensa viria correndo se descobrissem que tinha um herdeiro dos Jones no meio, além de que Arthur poderia não gostar do assédio dos paparazzi.

-Não, sr. Jones, me desculpe.-O motorista respondeu, dobrando uma esquina enquanto, do nada, começava a chover fortemente.

-Mas que merda!-Alfred exclamou, irritado. Odiava quando as coisas saíam dos seus planos, se é que desde o começo tivera um plano.

-O senhor disse que foi o time do senhor que pegou o sr. Kirkland... Não tem nenhuma ideia para onde o teriam levado? Deveriam querer pregar alguma peça nele, não tem nenhuma intuição?-O motorista voltou a perguntar, ligando os para-brisas por causa da chuva quase impossibilitando totalmente de ver alguma coisa.

-Tenho sim, mas são várias... Vamos naquele shopping que fica aqui perto. É um lugar movimentado, e se quisessem humilhar alguém, o levariam para lá.-Disse Alfred enquanto Sebastian obedecia. O americano pegou seu celular e começou a discar o número dos seus amigos do time, começando por Thomas, um dos mais próximos, que disse que tinha ouvido algo sobre fazer uma pegadinha com o inglês, mas ele não foi porque tinha que chegar em casa cedo.

Ligou então para George, que disse que também ouviu algo do tipo, mas desistiu porque recebera uma ligação de que sua mãe tinha chegado mais cedo em casa. Ligou para John, que disse que não sabia de nada, e então para Kyle, que também nada sabia.

Até que ligou para Dante, que disse algo sobre um tal de Brandom, aquele que joga quase nada, e que esse Brandom estava armando alguma coisa, alguma brincadeira de mau gosto com aquele inglês do colégio, mas que não fora na onda porque desde o começo nunca tivera nada contra o inglês.

Alfred, que só na procura tinha perdido mais 40 minutos, ou seja, duas horas desde o fim do jogo, ligava para todos os seus amigos do time procurando qualquer coisa que levasse até o inglês, numa procura desesperada e agonizante.

Por fim, ligou para Damon, que tinha o telefone desse tal Brandom, e em seguida ligou para o último com o coração quase na mão, o que era inesperado para alguém que deveria estar completamente frio e indiferente.

O telefone chamou até que a ligação caiu. Alfred tentou de novo, até que quando estava prestes a cair novamente, alguém deve ter apertado algum botão ou o dono deve ter deixado no bolso e ter pressionado contra alguma coisa, porque ninguém atendeu, mas conseguiu ouvir o ambiente.

O som de chuva muito alto, o que parecia indicar estarem ao ar livre e não num lugar fechado, aonde o som seria mais abafado. Risos altos e alguns baques surdos, e entre eles, alguns gritos de uma voz esganiçada e rouca.

Alfred prestou bem atenção, tentando discernir algo dos gritos e risadas e da chuva, e começou a entender algumas frases.

-Porra, cara, tira ele daí, vai!

-Não, ele tá chorando, coitado, bixinha! Bixinha nojenta!

-Porra, eu vou embora daqui!

-Hahahaha!

-Não..! Não...! Socorro! Socorro!-Gritou a voz esganiçada e desesperada, a mais distante do telefone.

-O quê? Por que você não chama pelo seu querido Alfred?

-Porra, o Alfy não é gay, cara, deixa esse coitado aí em paz, falou? E o que... Não, eu não acredito que você vai fazer isso com ele, cara. Porra, o moleque tá sangrando pra cacete e tu ainda vai fazer isso, mano?!

-Ninguém está te obrigando a ficar aqui.

-Cara, porra, Brandom, para com isso. Se a polícia de te pegar...

-Nem eles gostam desse inglês nojento também, ninguém gosta. Eu aposto até que o Alfred só está sendo amigo dele pra conseguir alguma coisa. E olha só as pernas dele... Será que se eu quebrá-las, ele sente?

-Tô com medo de você.

Alguns riram enquanto a voz esganiçada começou a gritar desesperadamente, e demorou vários minutos até que Alfred finalmente percebesse que aquela voz deformada e rouca era de Arthur.

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Alfred teria ouvido mais se alguém não tivesse desligado o telefone, quem sabe ter sentado em cima dele ou algo do tipo. O americano estava simplesmente em choque. Não com raiva, não triste, nada, apenas em choque.

Porque, mais uma vez, tinha sido culpa dele.

E Arthur tinha razão. Até aquele momento, Alfred não lhe trouxera nada que não fosse confusão e dor, muita dor, e a custo de quê? No final, Alfred iria lhe jogar fora como quem joga um brinquedo usado.

Era meio cruel admitir que o inglês estava sofrendo tanto para nada, porque no final, Alfred ainda iria deixá-lo. Mesmo que ele sentisse aquelas coisas, mesmo que ele sentisse pena, ressentimento, culpa, ele ainda deixaria o inglês para conseguir aquela que sempre quis.

E por quê? Porque ele era egoísta a ponto daquilo.

E porque ele tinha quase certeza de que no fim toda aquela culpa seria esquecida e ele não perderia nada, na verdade, só ganharia, sim, ele tinha certeza.

Tão terrivelmente enganado.

-O senhor não consegue rastrear de onde veio a chamada, sr. Jones?-Perguntou Sebastian, ainda procurando por todas as ruas, sem sucesso.

-Sou jogador de futebol, e não gênio da tecnologia, cara.-Alfred disse, entregando o celular ao outro, que pedira.

-Um motorista que se preze precisa saber fazer tudo por seu patrão, sr. Jones.-Disse Sebastian, que ao mesmo tempo que dirigia começou a mexer no Iphone do americano, descobrindo, de alguma forma, um endereço e rumando rapidamente para lá.

E tudo teria sido tão mais fácil se Arthur simplesmente tivesse um celular! Alfred anotou mentalmente de comprar um o mais breve possível, nem que fosse escondido do inglês, para que depois ele não reclamasse.

Passando pelas ruas em alta velocidade e assumindo até algumas multas, finalmente chegaram ao endereço de onde teria vindo o sinal na hora da chamada. Era uma rua deserta, longe do centro da cidade.

Parecia um bairro inteiramente residencial, repleto de casas já fechadas e tendo as luzes desligadas, o que significava que todos já dormiam por ali. Marcas de pneus visíveis através da água da chuva enfeitavam o asfalto antigo. Postes se espalhando pela rua, iluminando com uma luz amarelada, davam mais vida ao lugar, mas a chuva bastante pesada, que em segundos encharcou totalmente Alfred, tirava todos os demais detalhes.

-Sebastian, você vai por aquele lado e procura por lá enquanto eu vou por esse, okay? Qualquer coisa, me avise!-Alfred exclamou, falando alto por causa da rua enquanto seu motorista lhe obedecia e saía correndo pelo lado norte da rua, enquanto Alfred ia pelo sul.

Desejou com todas as suas forças que Arthur estivesse ali, não queria ter que suportar mais algum tipo de culpa em suas costas. Correu, respirando ofegante na chuva que pesava suas roupas e limitava sua visão, sempre chamando pelo nome do inglês.

De vez em quando passavam alguns carros, mas além disso, toda a rua estava vazia, quase como uma coisa fúnebre.

-Arthur!-Alfred chamava, aflito, realmente aflito, e não apenas fingindo. Naquela hora, ele não estava preocupado em fingir e nem em mentir, apenas em achar o inglês.-Arthur, aonde você está?!

Não queria nem saber se o inglês não estivesse ali, porque se não o encontrasse por aquele lugar iria chamar a polícia, quer seu nome fosse parar nos jornais e irritasse seus pais ou não.

Procurou por mais vinte minutos, sendo que o tempo pareceu ser bem maior que isso. Sua garganta também estava rouca agora de tanto gritar pelo inglês, e já tinha começado a espirrar por causa do frio causado pela chuva.

-Arthur!-Voltou a gritar, finalmente achando alguma coisa exatamente no meio da rua vazia como a de uma cidade fantasma. Aproximou-se da massa escura, desejando que fosse o inglês, desejando que... Que... Que ele estivesse bem ou... Ou...

Mas a massa escura, porque com aquela chuva e a iluminação amarelada não o suficiente para ver com clareza, era apenas uma cadeira-de-rodas preta. E foi com uma certeza agourenta que Alfred soube que era de Arthur, e que ele estava ali por perto, como se estivesse prestes a alcançá-lo, prestes a tocá-lo, mas o fato de ainda não saber onde era uma verdadeira tortura.

Se aproximou mais da cadeira-de-rodas, vendo que estava completamente amassada e em frangalhos, assim como o couro que revestia o apoio das costas e dos braços estava rasgado, como se um caminhão tivesse passado por cima dela.

Deixou-a de lado e continuou a correr, chamando pelo inglês desesperadamente. Não queria mais saber de manter as aparências, não queria mais saber de manter sequer a sanidade, a postura, a honra do nome, manter seus desejos, nada, nada, apenas encontrar o inglês, saber que ele ainda estava vivo.

Porque ele tinha que estar, ele tinha, ele precisava estar.

-ARTHUR!-Alfred gritou, tropeçando no asfalto e caindo de joelhos no chão, não, não tropeçando. Suas pernas doíam com o choque de temperatura do clima frio com os músculos quentes, e a dor de uma terrível câimbra se espalhava pelas mesmas. Já estava cansado por causa do jogo, mas agora estava realmente exausto de tanto correr, de tanto gritar, de suportar essa agonia que ele ainda não sabia o porquê.

Ele não queria pensar naquilo agora, mas teria ele caído? Teria ele sucumbido a amizade? Também se entregado ao tipo de laço que une duas pessoas aonde a confiança é a meta principal? Mesmo sendo que a relação deles era puramente feita de mentiras?

Poderia ser que no meio de uma verdade construída através de mentiras, existisse uma verdade que realmente fosse verdade?

E foi então que ele viu. Viu primeiramente a massa escura apoiada num dos postes, curvada, parecendo frágil, em silêncio, como um animal acuado temendo fazer qualquer mínimo som que pudesse fazer seu predador voltar.

Alfred se pôs de pé, os músculos doendo, o corpo exausto, a garganta prestes a sangrar, mas feliz porque ele tinha esperança de que Arthur estivesse bem, e quando avançou alguns passos e voltou a cair de joelhos na frente daquele corpo, sorriu.

Era Arthur.

Mas não era o Arthur que gostaria de ver.

-Não... Arthie... Vai ficar tudo bem, Arthie...-Murmurou o americano, abraçando o inglês que continuava em silêncio. Queria chorar, queria muito chorar, mas alguém precisava ser forte, e por isso, engoliu as lágrimas.-Arthie... Nós vamos para casa... Arthie...

Porque se ele pudesse ouvir bem, Arthur também estava chorando.

Notas finais
Oe, cá estou eu, cumprindo prazo tão direitinho que até me alegro ~~
Não me batam depois desse chap, eu sei, é drama puro, mas pelo menos agora vocês tem outra pessoa para odiar profundamente: O Brandom!
Mas muito bem, vejamos... Este é o chap 10, e se não me engano, a fanfic vai acabar provavelmente no chap 15-16, se tudo der certo, o que ainda nos dá em torno de dois meses postando, ai ai.
MAS ENFIM, HORA DA MELHOR HORA DE POSTAR: A APELAÇÃO DE REVIEWS ~~
Estou sem ideias //apanhamuito// mas é sério, estou sem ideias hoje, acho que é porque as férias estão já no fim e estou depressiva porque teray que voltar a acordar às 5 da manhã todo dia de novo, então vou deixar aqui um enorme sorriso pidão e os olhos brilhantes para que você, sim, você, ó querido leitor ou leitora ou mutante/et/vampiro/lobisomem/wtf que estiver lendo isso deixar uma LINDA e ADORÁVEL review para esta autora que está de joelhos implorando.
Enfim, até próxima sexta, seus lindos ~~
Kisses ~~