Liberte-me

3 Se eu soubesse como salvar uma vida


Notas iniciais
Narrada por James

Eu sempre me perdi nos meus sonhos. Mesmo quando acordado eu era sonhador, sempre buscava a felicidade de alguma maneira. Mesmo na coisa mais simples, desde pequeno, até mesmo uma flor, uma pedra, um inseto era minha diversão e minha alegria. Eu sabia me divertir com pouco e isso me ajudou a lidar com a realidade de fazer do pouco que tenho muito pra se guardar.

Mas o sonho tinha algo de especial, nele você era o grandioso, você é quem manda e quem reina. Você pode ter a vida que quiser lá, pode ser quem quiser. Quem ao menos uma vez na vida não desejou viver eternamente em um sonho? Que atire a primeira pedra, pois não há nada melhor do que viver em algo que você controle o que é bom e o que é ruim.

Já fazia uma semana da morte da minha mãe, e nesses sete dias eu fiquei no meu quarto a maior parte do tempo dormindo e sonhando com ela. Meu pai não era muito próximo de mim, ele vivia me chamando de bastardo, que de fato eu era. Minha mãe havia tido um filho fora do casamento, mas um antes de conhecer esse que mora comigo agora, eu o chamo de pai, pois sinto falta dessa palavra, apesar de nunca ter usado com o meu verdadeiro.

Nesse dia em especial, eu estava acordado desde madrugada, um pesadelo me fez acordar e eu não conseguia dormir, mas era algo bom estar acordado, pois estava chovendo eu a amava. Ficar vendo ela descer pela janela, tocando as poças no chão, eu achava lindo até mesmo o som dela, de uma certa forma ela me acalmava e fazia o som na minha cabeça cessar.

Estava tão bom ficar sentado na janela vendo a beleza na natureza que a hora passou que não tinha percebido, meu despertador tocou e quase me derrubou. Eu o desliguei, me vesti e desci, mas antes olhei para a foto da minha mãe que estava em um porta-retratos em cima da cabeceira da minha cama.

Quando cheguei na cozinha meu padrasto já estava sentado tomando seu café, eu nunca via ele em casa porque nunca levantava cedo. Ele me olhou por cima do jornal que estava lendo e ficou me encarando enquanto eu me sentava e me servia de café, algo me fazia acreditar que ele estava pensando algo como "que diabos esse moleque está aprontado?" "ele vai mesmo ficar aqui?" "O que deu nele?".

– Está disposto hoje? — quando ele disse aquilo senti meu coração pulsar mais forte, admito que não esperava que ele falasse comigo — finalmente. Você vai ficar com o Alexandro hoje, tenho que resolver uns assuntos.

– Por que você não o leva com você — tentei fugir da responsabilidade, Alexandro era meu irmão mais novo, ele não dava trabalho e nos dávamos muito bem, mas eu queria voltar para meu quarto e continuar meu sono em paz.

– Porque você é o irmão dele, e vai ficar com ele — ele se levantou, fechou o jornal e se retirou sem olhar de volta ou desejar um bom dia.

Alexandro apareceu na cozinha no canto da parede parecendo um pouco intimidado com algo, eu o olhei ele abaixou a cabeça.

– O que houve Alex?

– Você não quer ficar comigo. — disse triste.

– Claro que quero Alex, venha cá — estendi o braço para que ele viesse a mim e ele o fez, me abraçou forte e eu o encarei nos olhos, aqueles olhos sempre me animavam.

– Vá assistir um pouco de televisão enquanto eu arrumo aqui e já o levo para sua escola. — Eu disse me levantando.

Ele correu para a sala e ligou a televisão em um desenho bobo qualquer, eu fiquei arrumando a bagunça. Alex estudava em uma escola para crianças com necessidades especiais, ele era autista mas quase não dava para notar.

De repente eu senti o cheiro da minha mãe, era cheiro de flores e eu conseguia reconhecer ele em qualquer lugar. Sempre amei abraçar minha mãe, ela era a única que conseguia me fazer sentir confortável e seguro, e sentir aquele cheiro desencadeou uma sensação estranha em mim, era saudade, eu sentia tanta sua falta, que ao sentir o cheiro senti meu corpo tremer, e minha boca tremer. Respirei fundo e subi para o meu quarto.

Fiquei deitado por uns quinze minutos, até o Alex bater na porta me chamando dizendo que queria ir para a escola, então eu me levantei e me arrumei bem rápido e já estávamos na rua caminhando em direção a escola.

Fiquei observando ele entrar na escola e acenar para mim de longe, ao mesmo tempo estava feliz por ele estar na minha vida, mas ao mesmo tempo estava triste por faltar alguém. Eu pensei que já tinha começado a superar o fato da minha mãe ter morrido, mas parecia que não, as coisas parecem tender a piorar e tudo começa a lembrar ela, o que não ajuda em nada.

Já em casa, eu me sentei na beirada da cama e tentei ligar para Kate e Eric mas ambos estavam ocupados, nenhum deles sabia sobre a morte da minha mãe, não sei nem se já cheguei a comentar que tinha uma, isso não é algo que as pessoas fazem questão de perguntar, eu acho. Mas também nunca me perguntavam se eu estava bem, talvez pelo fato de eu sempre estar sorrindo, ou simplesmente porque não se importam, mas naquele momento não era aquilo que importava, o que importava realmente era que eu não tinha ninguém.

Passei todo dia da minha vida tentando fazer as pessoas sorrirem, mas quando o palhaço se cala, onde é que fica a graça? Em lugar nenhum, e era lá que minha cabeça estava, em lugar nenhum. Sabe aquela linha que você não vê o fim nem o começo? Você não sabe qual direção seguir, o que fazer, e só lhe resta olhar pro teto.

Eu acabei adormecendo, e fui acordado aos gritos do meu pai, que estava furioso por eu não ter ido buscado meu irmão, que estava chorando feito louco no lado dele. O pior de tudo é que enquanto ele gritava comigo eu não sentia nada, não estava ligando para o que lê falava nem mesmo para o que pensava de mim, e acho que quando ninguém está com você quando precisa você começa a se perder e essas devem ser uma das consequências.

– Você está me escutando? Seu bastardo inútil. Não serve para nada — gritou

– Você não serviu para deixar minha mãe viva — os olhos dele esbugalharam — então não venha me...

Senti algo arremessar meu rosto para longe, ele havia me batido com força e senti cada dedo dele. Fiquei deitado na cama na direção que ele havia me jogado e estava esperando por mais gritaria, mas ao contrário disso ele se virou e fechou a porta. Mesmo sozinho no quarto eu fiquei de cabeça baixa, escondido e com vergonha de ter sido tão baixo com ele.

Parecia que o dia estava indo de mal a pior e não tendia a parar, e foi concluído essa ideia quando Eric foi a minha casa, ele parecia agitado e eu fiquei nervoso quanto a isso. O convidei para o meu quarto e subimos de pressa.

– Então... — disse ele se sentando.

– Então? — respondi curioso.

– Sabe, eu estou em uma fase complicada, meio perdido na vida, não consigo tomar decisões. — ele estava tentando parecer vago, pelo que estava parecendo.

– Sei como é — me joguei na cama ao lado dele.

– E... Bom, isso é meio complicado, sabe?! — disse sorrindo

– Complicado como? — estava começando a ficar realmente curioso, não estava me cheirando bem.

– Sabe, desde que conheci você e a Kate minha vida vem desmoronando — meu Deus, não é o que eu estou pensando — e acho que para conseguir me acertar, eu deveria deixar de ver vocês dois.

Pronto, estava no chão. Eu simplesmente não podia acreditar naquilo, como se pede um tempo a um amigo? como termina uma amizade daquela forma? porque se ele não queria que acabasse, ele com certeza não teria dito aquilo. Isso não é nem coisa que eu faria, que sou louco e falo e faço as coisas sem pensar.

Eu me levantei, andei de um lado para o outro pasmo. Colocando a mão na cabeça, na boca, cheguei até a sorrir sarcasticamente. Eu o encarei e ele ficou lá com cara de cachorro abandonado, e eu senti uma tremenda vontade de socar ele, socar com tanta força para ele nunca mais conseguir falar novamente.

Me sentei na cadeira um pouco afastado dele e com o pouco de folego que me restava eu apontei para a porta e disse:

– Sai da minha casa. — Ele se levantou sem dizer nada e saiu.

Comecei a sentir calor e me despi, deitei na cama ne — sempre que eu ficava nu me sentia livre, calmo, pacifico, tranquilo e aquilo não estava funcionando muito bem — respirei fundo e imaginei umas dezenas de formas de quebrar ele em três. Tentei ligar para Kate mas só dava desligado, queria saber o que ele achava daquilo tudo, e com certeza ela deveria querer matá-lo.

Acabei pegando no sono e quando acordei ouvi um barulho estranho no andar de baixo da casa, vesti um short qualquer e desci para ver o que era. Meu pai estava com uma mala grande e algumas mochilas nos ombros quando me viu.

– O que é isso? — perguntei

– Estamos indo, James. — disse ele firme.

– Estamos indo para onde? — sorri

– Não, você não. Eu e Alexandro, você se mostrou muito irresponsável, e se não posso contar com você, não me interessa ficar nessa casa.

– Você... você não pode levar o Alex! — gaguejei.

– Posso sim. Ele é meu filho.

– Eu também!

– Não! — gritou — você não é meu filho. — ele me olhava como se me enojasse, e eu não duvidava daquilo.

– Cadê ele? — perguntei assustado

– Ele já foi. Eu digo a ele que disse adeus — então se virou e fechou a porta.

Eu me ajoelhei no chão da sala e fiquei perguntando a mim mesmo se era ou não um sonho, pois se fosse eu queria acordar, como um dia pode juntar tanta coisa ruim para apenas uma pessoa? e porque eu? Eu não pude nem ao menos me despedir de Alex, não consegui pedir desculpas pelo que disse, e estava sozinho, de novo.

Eu fiquei três dias em casa sem sair, estava deprimido e tudo estava uma merda. Meu padrasto — já não conseguia chamá-lo de pai, mas deveria, pois me abandonou assim como o outro — havia mandado uma carta dizendo que mandaria dinheiro no final de cada mês para eu poder me virar. Eu creio que não foi de boa vontade, disse que mandaria para não ser processado por abandono de incapaz, mas eu não ligava.

Com o dinheiro que ele havia mandado, comprei bebida e cigarros e dei uma festa para mim mesmo. Eu só tinha Eric e Kate como amigos, e como eu estava levando um toco dos dois, decidi dançar sozinho. Estava legal, até tocar How To Save A Life — The Fray. E quando chegou na parte em que eles cantam "Where did I go wrong, I lost a friend/ Somewhere along in the bitterness" (Onde eu errei, eu perdi um amigo/ Em um momento de amargura) eu percebi que o "amigo" que eu havia perdido era eu mesmo, eu havia me perdido e não tinha percebido. Eu me perdi em um sonho, e acordei sozinho de uma noite para a outra.

Foi pela primeira vez desde que minha mãe se foi que realmente me senti sozinho, pois mesmo sem amigos, sem pais, sem irmãos, você tem a si mesmo, e quando você perde de si mesmo e como perder uma vertebra, você não consegue se manter de pé, você não consegue fazer nada.

Senti um calor nos olhos, um aperto no peito, uma tremedeira involuntária no queixo e apertei firma a garrafa que eu estava segurando. Me virei e olhei o espelho e vi um garoto com medo, com olhos extremamente vermelhos e perdido, vi um menino que antes sabia sorrir.

Caí de joelhos e sentia lagrima escorrer nos meus olhos, dizem que depois de chorar nos sentimos leves, mas eu não. Não estava me sentindo leve, estava me sentindo cada vez mais para baixo, me sentia cada vez mais solitário, eu estava só, estava frágil e não tinha nada que eu pudesse fazer, eu senti pena de mim mesmo, mas o que mais eu poderia fazer? eu era apenas um garotinho ingênuo e solitário.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.