Liberdade no Café da Manhã
1 Capítulo único
Ela era vegana! Como ele não sabia disso a sua vida inteira? Aquela pergunta martelou na cabeça do pequeno Aleph, de nove anos, durante todo o caminho de volta para a casa, sentado sobre o banco de couro sintético da moto elétrica e agarrado às costas de sua mãe , Hermínia, que conduzia o veículo elétrico e, agora ele sabia, era vegana. Aleph sabia o que é o veganismo. Gostava das receitas veganas que a mãe fazia. Hambúrgueres de abóbora ou de shimeji. Cachorros quentes com salsichas de feijão. Eventualmente uma lasanha de berinjela com nozes. Sua mãe o chamava para ajudá-la na cozinha às vezes, e ele gostava de participar. Às vezes a ajudava a desfiar o shimeji, às vezes a modelar os pães na massa. Mas, ela também o chamava, e ele igualmente gostava, de fazer receitas não veganas, como aquele delicioso leite com chocolate coberto de chantily que ela fazia em dias muito frios de inverno. Ou aquele salmão grelhado temperado com limão, que ele gostava de espremer por cima da pele laranja do peixe. Mas agora, ele sabia que ela era vegana. Como podia? Ele tinha, por toda uma vida, se sentado à mesa junto da mãe e comido panquecas, almôndegas, bife com batata frita, peixe grelhado, ovos cozidos e pizza. Não fazia sentido! O garoto ficou tão intrigado que não pôde deixar de perguntar: — Mamãe, por que disse à mãe da Pietra que você é vegana? — Porque eu sou, oras. — Hermínia respondeu com toda a casualidade do mundo enquanto manejava a moto elétrica por um cruzamento. — Mas a gente come carne em casa! Várias vezes! — Não, Aleph. Você come. — E você não? — Não. — Respondeu ela. O queixo do garoto caiu. Ele nunca reparara no prato da mãe. De fato, quando Hermínia cozinhava, ela sempre passava primeiro na frigideira seus cogumelos, e os deixava separados. Depois, no mesmo azeite em que os cozinhara, passava a carne de Aleph, normalmente um bife ou um hambúrguer. Obviamente não passava os cogumelos depois da carne para que não houvesse resquícios de carne em seu prato, mas isso lhe permitia também ter a sua refeição vegana pronta e a postos quando chamava o filho para jantar. Assim fora por sete anos, desde que Aleph abandonou a cadeirinha e passou a comer na mesa com sua mãe. Mãe e filho almoçando juntos, sem que o filho jamais reparasse que a mãe não comia as mesmas proteínas que ele. O arroz devia ser o bastante para que seu prato parecesse comum. Quando chegaram em casa depois da festa de aniversário, Hermínia, percebendo o quão chocado estava o garoto, resolveu se divertir à custa da ingenuidade dele. — Sabia que você nunca bebeu leite? — Do que está falando? Eu bebo leite todo dia de manhã! — E eu também bebo com você. — Então você não é vegana! — Aleph riu-se, como se tivesse desvendado o mistério e a declaração da mãe fosse uma brincadeira para intrigá-lo. Mas, para sua surpresa, Hermínia riu mais alto. — Isso! Você bebe o mesmo leite que eu. Agora vá até a geladeira e veja a caixa do nosso leite. — Com um sorriso delicioso no rosto, o garoto correu até a cozinha, abriu a geladeira e apanhou a caixa de leite. Nada fora do comum. Era a mesma caixa que estava sobre a mesa do café da manhã todos os dias. — Agora leia o que está escrito nela. — Orientou Hermínia. O garoto obedeceu, leu vagarosamente em voz alta e seus olhos se arregalaram quando ele pronunciou a palavra “amêndoas”. — Leite de amêndoas! Leite de amêndoas! — Eu disse pra você. O único leite animal que você já bebeu foi o meu, quando você era bebê. Ele colocou a caixa de leite de volta na geladeira e abriu os braços o máximo que pôde, tentando parecer desafiador. — Mas e a pizza? Você pede pizza pra gente duas vezes por mês, e come comigo no sofá, assistindo televisão! — Ela riu de novo. — Aleph, sabe por que a pizza demora tanto pra chegar quando eu peço? Porque a pizzaria vegana mais próxima fica a quatro quilômetros daqui. — Ele tapou a boca com a mão. — Tem várias pizzarias mais perto e mais baratas aqui pelo bairro que você já viu, voltando da escola ou saindo pra passear. Mas eu nunca pedi em nenhuma delas. Ela deu um beijo no rosto do filho, como que tentando consolá-lo pela sua percebida falta de percepção. Não era culpa de Aleph. Ele era apenas uma criança. — Eu nunca vou permitir que você tenha uma alimentação ruim, Aleph. Eu sei o quão importante é uma criança se alimentar bem para crescer. Enquanto você precisar, eu vou comprar carne e ovos pra você. Mas eu espero que quando você crescer, você tome a decisão certa. Os animais são nossos amigos, e amigos não são comida. — Está bem, mamãe. — Churumugou o garoto. Hermínia ia se retirando para o seu quarto, mas antes de fechar a porta, virou-se para o filho e chamou-lhe: — Aleph? — Sim, mamãe? — Agora que você sabe que a nossa pizza é vegana, me diga: qual pizza é mais gostosa? A que você come aqui, ou a da escola, no dia da pizza? O garoto soltou uma gargalhada e então respondeu: — A vegana é bem melhor! Anualmente, a escola de Aleph organizava excursões para o zoológico da cidade. Aleph adorava a viagem, e já havia ido quatro vezes. Nos dois primeiros anos em que Hermínia recebeu a notificação da escola sobre a excursão, contudo, ela ligou para a coordenação. — Boa tarde. Sou mãe do Aleph, quero falar sobre a excursão para o zoológico na sexta-feira. — Pois não, senhora Hermínia. É uma data especial, as crianças adoram. Ver os animais, sair um pouco da sala de aula. . . . — Certamente, trabalho de campo é importante, é bom aprender na prática e não apenas nos livros. Mas eu queria saber qual é a abordagem da escola sobre os animais do zoológico. — Desculpe, não entendi sua pergunta? — Vocês vão contratar um guia no zoológico? Ou algum professor de ciências estará junto para falar dos animais? — Sim, os professores sempre acompanham. — Pois então pergunte ao seu professor de ciências se ele conhece a filosofia da libertação animal de Tom Regan. — A coordenadora se calou por um momento, parecendo intimidada. — Senhora Hermínia, seu filho tem só seis anos. Você está preocupada com a filosofia de uma visita ao zoológico? — Sim, estou. — Hermínia confirmou sem hesitar. — Se eles estão indo lá só pra ver macacos pulando e dar risada, será uma excursão desperdiçada. Alguma aprendizagem tem que acompanhar essa experiência. E eu quero que vocês mostrem o meu lado, a minha visão da coisa. — Sua visão? — Indagou a coordenadora, curiosa. — Eu sou vegana, e quero que meu filho tenha uma educação crítica. Quero que fique claro que nem todos os cientistas gostam da ideia de zoológicos e que nem todos os animais são felizes neles. — Senhora Hermínia, você quer que nossos professores ensinem filosofia vegana a crianças de seis anos? — Não. — Rebateu ela. — Quero apenas que incluam os dois lados. Não quero que o professor leia o livro inteiro pra uma excursão, quero só que ele apresente os dois lados. Para crianças de seis anos, uma frase basta. É só ele dizer “Mas alguns cientistas acham que lugar de animal é na natureza, não no zoológico” e pronto. — Muito bem, senhora Hermínia. Providenciarei sua demanda. — Obrigada! No ano seguinte o mesmo diálogo se repetiu, e no seguinte não foi necessário, pois quando Hermínia ligou após ser notificada da excursão, a coordenadora já sabia exatamente o que ela queria e já tinha se precavido. Uma semana antes do diálogo revelador, Aleph recebeu um cartão de uma colega de escola, Pietra, o convidando para sua festa de aniversário. A festa seria no salão do condomínio da menina e tinha bastante espaço para adultos e crianças, inclusive reservando lugar para uma caixa de cervejas, a ser consumida pelos pais, bem longe do buffet infantil. Hermínia alegremente levou o filho à festa em sua moto elétrica. A festa foi divertida, as crianças jogaram jogos de tabuleiro, dançaram e observaram a abertura de presentes alegres, enquanto Pietra rasgava os embrulhos e pulava empolgada a cada novo presente identificado, de roupas a um caro carrinho de controle remoto. Depois dos presentes, foi a hora de servir o bolo. Um bolo bem grande, devia pesar uns três quilos, bem colorido, muita pasta americana e um vistoso número 7 decorado em rosa no meio do chantily para destacar a idade da aniversariante. Quando Hermínia recebeu sua fatia, a passou cordialmente para Aleph. — Oba! Mais uma fatia de bolo! — Comemorou o garoto. — A fatia era pra você mesmo, Hermínia. — Explicou a mãe de Pietra. — Temos o suficiente para adultos e crianças. Vou pegar outra fatia pra você. — Não precisa, obrigada. Eu sou vegana. — Explicou-se Hermínia. Aleph riu da declaração da mãe, mas não lhe deu muita atenção, e logo que terminou de comer seu bolo, voltou ao salão para continuar brincando com as outras crianças. Mas, cerca de uma hora depois, quando estavam sobre a moto elétrica, ele se lembrou da declaração e questionou a mãe. No dia seguinte, à mesa do café da manhã, com a revelação fresca em sua mente, Aleph observava tudo com atenção. Nada seria diferente, aquele era um café da manhã como todos os outros, mas agora ele sabia que a mãe era vegana, e aquilo atiçava sua curiosidade de criança. O cereal estava à sua frente como sempre, as torradas com geleia também. Hermínia se servia de ameixas muito escuras e azedas, que ela adorava, mas Aleph não comia por serem azedas demais. Ele olhou atentamente enquanto a mãe comia suas ameixas, bebia seu leite e comia suas torradas. — No domingo, você faz panquecas divertidas! — As panquecas, que Hermínia apelidara de panquecas divertidas, eram parte fundamental da dinâmica da mãe e filho. Se Hermínia não estivesse fazendo panquecas divertidas, não era domingo. — Eu faço com o mesmo leite de amêndoas que nós bebemos no café da manhã, Aleph. Não coloco ovos na massa. Mas se você quiser, eu posso fazer panquecas com ovos só pra você, pra você ver se prefere. — Eu quero! — Ela sorriu. — Está bem. Então, neste domingo, você vai comer panquecas especiais. E nada de panquecas pra mamãe! — Os dois riram. — Mamãe, por que os veganos não comem ovos? — Hermínia simplesmente amava as perguntas de criança de Aleph. Ela sempre buscava responder com a verdade. Quando ele lhe perguntou por que anoitece, ela tentou o melhor que pôde explicar-lhe o movimento de rotação. Quando ele perguntou como as pessoas cabiam dentro da televisão, ela lhe explicou o melhor que pôde sobre a transmissão via satélite. Quando ele perguntou como as lagartas viram borboletas, ela disse que não sabia e passou na biblioteca no dia seguinte para consultar um livro de zoologia e assim poder lhe responder. Ela amou cada uma daquelas perguntas e buscava incutir no garoto o amor pelo aprendizado em cada uma delas. Mas daquela vez, aquela pergunta, foi a primeira pergunta dele sobre veganismo, e ela estava especialmente feliz de poder ensinar ao filho, de maneira espontânea e não professoral, sobre sua filosofia que lhe era tão cara. — Bom, filho, em algumas granjas as galinhas ficam presas em gaiolas tão pequenas que elas não conseguem nem abrir as asas. — Coitadinhas! — Pois é. E pra não participar dessa maldade, nós não compramos os ovos que as granjas vendem fazendo isso. — Mas você compra! — Provocou ele. — Compro pouco, só pra você. Você precisa de proteínas. Agora, termine logo seu cereal, está na hora de ir pra escola. Percebendo então que o veganismo sempre tinha uma presença discreta à sua volta, Aleph começou a ser mais atento a certos detalhes. Quando chegou o inverno e começou a reparar nas roupas de frio usadas pelos colegas de escola, percebeu a moda do uso da lã. Luvas, gorros e até blusas, das mais diversas cores. Algumas blusas eram bem bonitas. Reparou que suas professoras gostavam de usar uma blusa fina de lã, que nos dias mais frios servia como um revestimento interno de casacos pesados que eram deixados na recepção. Mas a mãe nunca usava. Tampouco verificou qualquer peça de lã em seu armário. No entanto, percebeu que tinha couro. Ele tinha um par de botas de couro que Hermínia recomendava usar em dias frios. Ela tinha uma jaqueta de couro que adorava usar, considerando um dos itens mais bonitos de seu armário. Quando observou isso para a mãe, ela explicou. — É couro sintético. Ele é tão bonito quanto o couro animal. Dá pra usar roupas bonitas sem matar vacas. Isso não é legal? — E completou com mais uma informação: — Eu também não uso seda. Todos os meus vestidos são de algodão. — De que animal é feita a seda? — Perguntou Aleph, instigado. — Larvas de insetos. — Respondeu ela. Aleph riu, absurda que lhe pareceu a ideia. — Você está rindo, mas é verdade. Pode perguntar pro seu professor de ciências. — Mas vegano não come insetos? — Você já me viu comendo mel? — Já. Nas panquecas divertidas e em alguns hambúrgueres. — Aquilo é xarope de bordo, Aleph. É uma delícia, mas o gosto é bem diferente do mel. Você nunca comeu mel? — O garoto arregalou os olhos. — Meu Deus! Você nunca comeu mel! As abelhas agradecem. Hermínia teve certa expectativa de naquele momento Aleph dizer que queria experimentar mel, ao que ela com muito prazer responderia que compraria um frasco para ele colocar em suas panquecas. Mas, o garoto não expressando tal vontade, ela nada disse. Ela entendia que Aleph já tinha maturidade para entender a ética do veganismo, e poderia ser aderente a ela em certos pontos. Se ele estava convencido pela atitude da mãe a respeitar as abelhas, ela não tentaria incitar o contrário, pelo contrário, tinha orgulho do filho por isso. — Mas os insetos são tão diferentes dos outros animais! — Observou Aleph. — Os cientistas não sabem se os insetos sentem dor e medo ou não. — Ensinou Hermínia. — Mas na dúvida, eu prefiro evitar o sofrimento. Mesmo que eles não sofram, eles com certeza têm seu senso de autopreservação. Pode ver como as baratas fogem das nossas chineladas. — Mamãe, o que é senso de autopreserbação? — Indagou o garoto. Hermínia riu, julgando-se descuidada por não avaliar se o filho entenderia todas as palavras que ela dizia, mas também orgulhosa por ele ter a curiosidade de perguntar. Lembrava-se de quando era criança e ouvia os adultos dizendo palavras que ela não entendia. Ela fingia entender e nunca perguntava o que significava, para evitar incomodá-los. Aleph já tinha completado dez anos quando reparou em outra diferença gigantesca de sua casa para as outras casas, de todos os seus coleguinhas. Mas essa, ele não sabia se estava relacionada ao veganismo ou não, e então resolveu perguntar à sua mãe: — Mamãe, por que não temos um cachorro? Hermínia fechou o livro que estava lendo, fitou o garoto profundamente nos olhos e disse: — Você ia achar legal se alguém te prendesse dentro de casa só por te achar bonito, pra poder olhar como você é bonito e se sentir bem todos os dias? — Ele ficou olhando a mãe, alarmado, esperando que ela terminasse o raciocínio. — Imagina só poder sair quando os outros deixarem, ter que voltar pra casa quando te trouxerem de volta. Quando isso acontece com humanos, a gente chama de prisão. Eu não quero ter nenhum prisioneiro aqui dentro. — Mas você acha que é melhor eles serem cachorros de rua? — Aleph retrucou. — É bem pior, eles não têm o que comer, e podem ser atropelados! E os cachorros de rua querem muito morar nas casas das pessoas! Eles seguem as pessoas na rua até a casa delas, querendo que elas deixem eles entrar! — Isso é verdade. — Concedeu Hermínia. — Mas depois que as pessoas adotam, eles ficam se sentindo presos dentro das casas. Por isso eles saem correndo pela rua quando abrem o portão e os outros cachorros, os prisioneiros presos em suas casas, ficam latindo pra eles. Um está mostrando pros outros a sua liberdade, e os outros estão brigando com um porque estão com inveja. Aleph ficou um longo momento em silêncio e depois respondeu: — É verdade, mas eles ainda assim têm comida e lugar pra dormir. Na rua não têm. — Isso não é problema nosso, Aleph. — Foi a resposta mais inesperada que ele poderia receber. — Sabe, o maior problema do mundo em nosso tempo, que você vai entender melhor quando for mais velho, é o fato do ser humano achar que é o dono da natureza. Nós não somos os donos da natureza, somos parte dela. Os outros animais também são. Nós vivemos nossa vida, eles vivem as deles. Não precisamos cuidar da vida deles. Se os cachorros querem ser livres, não é nosso papel dizer que eles terem o que comer é melhor do que serem livres. A decisão deveria ser deles. A partir do momento que colocamos uma grade na nossa casa pra eles não poderem sair, nós decidimos por eles. Eu não acho isso legal. — Mas você não tem pena dos cachorros que são atropelados, ou que passam fome na rua? — Claro que tenho! — continuou ela. — Mas a solução não é prender eles nas nossas casas. A gente tem que planejar melhor as cidades pra diminuir esse problema. Sabe, existem cidades no mundo onde bichos bem diferentes andam pela rua, como pinguins e alces. Nesses lugares, as leis de trânsito são adaptadas para evitar que esses animais sejam atropelados. A gente podia fazer isso com os cachorros também, não acha? — Ele ficou pensativo por um longo momento, não achou nenhuma resposta, e foi para o seu quarto jogar videogame. Mas, enquanto jogava, a resposta lhe veio à mente e ele então voltou para a sala para confrontar a mãe novamente: — Mas e os gatos? Os gatos saem pela janela, andam nos telhados, nos muros, eles podem sair de casa quando quiserem. Por que não temos um gato? — Tem razão, os gatos são livres. O problema é que eles matam muitos passarinhos. — Aleph não teve como discordar. Já tinha visto várias vezes em sua vida gatos domésticos caçando passarinhos no quintal. — Você quer ter um pet, Aleph? — Perguntou Hermínia. — Ah, eu quero. — disse Aleph, expressando uma ligeira autorreprovação. Achava que a mãe não ficaria feliz com aquilo, mas entendia que ela estava lhe dando abertura para arriscar. — Sinto muito, mas não teremos. — Um limite rígido! Ela lhe permitia carne, ovos e lhe daria mel se ele pedisse. Mas aquela negativa era firme. — Nem se eu tirar só dez na escola? — Aleph, eu não me importo com suas notas, e mesmo que eu me importasse, elas não poderiam ser usadas como troca de favor. Mas não, nem que você arrume seu quarto todos os dias. Isso é inegociável. — Por quê, mamãe? — O garoto perguntava mais por curiosidade que por tentativa de convencimento. — Porque eu sei que a responsabilidade vai ser minha, e eu me recuso a ser carcereira. Você vai dizer que vai cuidar dele, mas com a sua idade, você não é capaz. Quem vai ter que comprar a comida, levar ao veterinário e limpar a sujeira, sou eu. Se você quiser ter um pet, quando tiver idade pra adotar, você adota por conta própria. Eu não vou ajudar. — Uma justificativa férrea, que ele não teve como questionar. Aleph digeriu aquela resposta por vários dias. Depois de muito pensar a respeito, ela se cristalizou num comentário, feito para a mãe sobre a moto elétrica, numa volta de um passeio para o parque numa tarde de sábado: — Eu não sei se você gosta ou não gosta de animais. — Aleph, nós somos animais, filho. Se eu disser que não gosto que maltratem pessoas, você vai dizer que eu gosto de pessoas? Se eu não quiser prender uma pessoa dentro da minha casa, você vai dizer que eu não gosto de pessoas? Não é questão de gostar ou não gostar. Eu só acho que os outros animais também merecem viver com dignidade. — Hermínia ficou feliz em dar aquela resposta, mesmo considerando o banco de couro sintético da moto não o lugar mais apropriado para ela. Considerou aquelas palavras a melhor explicação de sua filosofia que jamais dera ao filho. — Mas gosta ou não gosta? — Ele reforçou a pergunta. Hermínia riu-se. Incapaz de dar-lhe uma resposta séria, apelou para o humor: — Gosto sim. Só não no meu prato. — O garoto riu contente enquanto a moto elétrica acelerava pelo asfalto. Quando Aleph contava onze anos, Hermínia perguntou se ele queria ir para a casa de algum amigo numa tarde de terça feira, pois tinha um compromisso importante e não poderia ficar com ele. Ele disse que pediria para um amigo do bairro e tinha certeza que a mãe dele concordaria em deixá-lo passar a tarde lá. Mas, quando indagou a Hermínia qual era o compromisso, a resposta dela foi surpreendente: — Vou ao zoológico. — Ele arregalou os olhos e colocou as mãos para trás. Esperava que fosse uma pegadinha. — Mamãe? — Indagou o garoto com profundo espanto na voz. — Desistiu da sua filosofia? — Ela gargalhou. — Desculpe, não me expliquei direito. Eu ainda não aprendi que você já é grandinho e entende os assuntos dos adultos, Aleph. — Feita a escusa, cabia a explicação: — Vamos a um protesto. O zoológico da nossa cidade acaba de importar um gorila. Sabe, eu já acho um absurdo ter quase todos os animais que tem lá, mas um gorila é muito mais revoltante porque é nosso parente próximo. Gorila é quase um ser humano. Por isso, muitos outros veganos estão organizados nesse protesto, e eu não vou me permitir deixar de ir de jeito nenhum. Não seria a primeira vez que Hermínia faria um protesto na frente do zoológico. Ela o fazia quase todo mês na faculdade, quando era uma jovem radical e mais disposta. Muitas vezes era ela mesma quem organizava. Os protestos, porém, não reuniam mais que dez pessoas. Os transeuntes quase não reparavam nas placas. Mas a maior parte das pessoas que ia ao zoológico, a imensa maioria, era composta de famílias levando os filhos crianças. E as crianças eram curiosas. Elas reparavam nas placas. E às vezes, perguntavam sobre elas para seus pais, que constrangidos diziam aos filhos que não dessem atenção aos ativistas. Hermínia ria orgulhosa sempre que isso acontecia. Mas, veio a vida adulta, o trabalho, as responsabilidades, e o filho, e não havia mais tempo para protestos em zoológicos. Fazia muitos anos que ela não ia a um, por isso considerou a causa do gorila uma oportunidade imperdível pelo fator ético e também pelo fator nostalgia. O organizador do protesto era um ativista da libertação animal com visibilidade na mídia, que Hermínia vira pessoalmente uma vez numa palestra da faculdade e que já tinha lido alguns artigos de sua autoria. Ela uma vez participou de uma ação encabeçada por ele que considerara genial: quando um circo que ainda apresentava ursos de monociclo obteve autorização para se apresentar numa cidade pequena e isolada, não tendo conseguido autorização em grandes cidades justamente porque os ursos não eram bem vistos pelas agências fiscalizadoras, ele teve a ideia de comprar o máximo de ingressos reembolsáveis possível, para esgotar a apresentação e ninguém poder assisti-la. O ativista comprou sozinho dez ingressos, e divulgou a ação em revistas e na internet para conseguir mais adesões. Os ativistas, incluindo Hermínia, conseguiram comprar um quinto das poltronas. Quando faltavam três horas para o início do espetáculo, todos os ingressos foram devolvidos. Como eles eram reembolsáveis, o circo teve que devolver o dinheiro, ficando forçosamente com um quinto de lugares não vendidos. O dono do circo ficou indignado com aquela ação e às pressas comunicou a empresa responsável pela venda dos ingressos que não reembolsasse os ativistas, que os deixasse no prejuízo. Como a política explícita nos termos da compra era que os ingressos eram reembolsáveis, foi necessário mover uma ação judicial, que potencialmente custaria mais do que o valor dos ingressos, mas o dono do circo estava mais do que disposto a pagar esse preço. Seu orgulho era mais caro. Hermínia foi uma das que não teve a sorte de conseguir seu reembolso e no fim acabou pagando por um espetáculo que não viu, financiando quem queria boicotar. Mesmo assim, se lembrava com alegria daquela ação. Mesmo com o prejuízo, considerou uma ação bem sucedida. Apesar de ter pago o circo que queria boicotar, o objetivo principal da ação foi bem-sucedido, que era deixar as cadeiras vazias. O ingresso dela não foi para outra pessoa, então alguém deixou de se divertir com ursos condicionados pela violência graças a ela. Além disso, ter ferido o orgulho do dono do circo com certeza valeu cada centavo do preço do ingresso! Tudo isso ocorreu a Hermínia durante os poucos segundos em que explicou a Aleph o motivo do protesto do qual participaria na terça-feira. Eram lembranças alegres, que lhe faziam sorrir. Mas a resposta que o garoto deu à explicação dela, sobre o gorila, o protesto e o zoológico, fez uma lágrima escorrer em sua bochecha: — Eu posso ir junto?
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