Liberdade

1 Capítulo único


As árvores sumindo na penumbra, quase sendo engolidas pela grossa camada de neblina que as circundava, era teatral observar os primeiros raio de sol refletidos no verde orvalhado que se espalhava indefinidamente em sua visão. E com essa esplendorosa vista, que parecia ter sido marcada a ferro quente em suas retinas e singelamente guardada em seu coração ela voltou a sí.

A pergunta que rondava sua mente retornou para assombra-la e no minuto seguinte se encontrava em pé, nem mesmo havia percebido que estava sentada mas tendo ao seu alcance todo aquele magnífico esplendor teria sido difícil não ceder e abaixar as defesas. Agora recomposta ela pôs-se a indagar seus atos, afinal, por que esteve correndo até não escutar mais nenhum som caracteristicamente humano além da própria respiração acelerada e do coração que tamborilava em seus ouvidos? Por que se deu ao trabalho de esconder-se em um lugar onde os insistentes passos não mais poderiam alcança-la? E o mais perturbador, por que, depois de todo esse tortuoso caminho, sentindo suas pernas e pulmões queimarem ela não havia derrubado uma única lágrima? Não que ela esperasse debulhar-se nelas, longe disso, estava demasiadamente desesperada para tal coisa, esperava porém ao menos uma — quente e ardente que fosse — mesmo que pequena, isso, uma pequena transbordação de sua agonia ao menos lhe satisfaria.

Mas elas não vieram e a garota decidiu por fim sentar-se novamente na relva macia e apesar de continuar presa em seu estado de inércia se permitiu sentir os raios de sol que alcançavam-na e esquentavam cada centímetro de pele exposta. Sentiu a brisa gélida tocar sua face e fechou os olhos, deixando de bom grado os fios acastanhados voarem livremente e alí, com todos os seus sentidos despertos ela finalmente reconheceu o clamor vindo de seu coração que rogava para se ver enfim liberto. Liberdade, essa era a palavra que procurava desesperadamente, apenas quatro sílabas poderiam conter tanto poder? Aparentemente sim pois essa simples menção a elas fez com que uma onda desenfreada de desejo atravessasse sua mente cansada.

Passou a observar o horizonte enquanto recuperava-se da súbita epifânia, tudo parecia estar em seu devido lugar — o céu surpreendentemente azul em contraste com a relva orvalhada- notou alguns pássaros voando despreocupadamente, pardais classificou, sempre fora boa nisso, afinal cresceu rodeada deles. Continuou observando o vai e vem das aves quando lhe ocorreu que desde a infância odiava ver pássaros enjaulados, assistir sua natureza livre ser aos poucos esmagada pela consciência do confinamento.

Mas ela não era um pássaro, era muito mais escorregadia e sua natureza muito mais arredia do que a de um simples pardal. Liberdade, era o clamor vindo de sua alma e ela podia escutar claramente agora.

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