Liberdade
3 O impossível
Notas iniciais
Era madrugada, as casa não demonstravam um único sinal de luz ou movimento, tudo estava calmo, nem um único guarda nas ruas, nem um único bar aberto, uma brisa refrescante soprava nas ruas desertas de Magnólia. Andava calmamente, não sentia a mínima necessidade de correr nem de se esconder, gostava daquilo, de se imaginar como alguém livre, um simples habitante de Magnólia, sem um passado triste, sem cartazes espalhados com seu nome por Fiore, somente ele e o dia-a-dia atarefado de um cidadão.
A brisa suave esvoaçava os cabelos azuis e refrescava o rosto agora não mais oculto pelo capuz, andava em frente, em direção ao grande prédio que um dia fora Fairy Tail e em seguida virava a esquerda em direção ao dormitório feminino, contornando a colina para não ser visto, do modo que sempre fazia. Começou a escalar com a rosa vermelha presa entre os dentes, desta vez não em direção a janela que fora na primeira vez que estivera ali, e sim, na direção da janela que levava diretamente ao quarto da falecida Titânia. Retirou a rosa dos dentes com os olhos fechados e sentou-se no parapeito da janela ofegante, recompondo-se do cansaço da escalada. Abriu os olhos vagarosamente e olhou automaticamente para a cama... Havia alguém nela...
...Não podia ser...
A pessoa que jazia na cama deitava-se de costas para Jellal, os cabelos ruivos se espalhavam pelo travesseiro e escapavam do colchão. Qualquer um que olhasse saberia quem era a dama de cabelos vermelhos que dormia calmamente naquele quarto, mas Jellal não era qualquer um. Como era possível? Aquela não era Erza. Erza Scarlet morreu há 7 anos! Como poderia? Como estaria viva? Como era possível? Como...
...Não podia ser verdade...
A mulher que dormia gemeu e virou de barriga para cima, Jellal fez menção de fugir ao ouvir a mulher se mexendo, mas não podia, tinha que provar para si mesmo que aquela mulher não era Erza Scarlet. Pulou do parapeito da janela para dentro do quarto e se aproximou devagar e a passos leves para não acordar a moça, a cada passo que dava, os olhos do moço de cabelos azulados mais arregalados ficavam. Tão parecida... Tão delicada... dentro de si, sua mente sabia que aquela não era Erza Scarlet, mas seu coração gritava o contrário.
...Mas desejava que fosse verdade...
- Jellal... – Sussurrou baixinho a mulher inconsciente.
Os dedos de Jellal soltaram a delicada rosa vermelha que caiu silenciosamente no chão de madeira. Como poderia? Era sua imaginação? Ela havia dito o seu nome inconscientemente Pôs-se a caminhar até o leito da cama e observou o rosto pacífico adormecido e... aquele sorriso... O mesmo sorriso que o acolhera quando estava confuso no incidente de Nirvana, o mesmo sorriso que iluminava seus dias na torre do paraíso apesar das dificuldades e... O mesmo sorriso que destruíra com suas próprias mãos... Não podia ficar nem mais um segundo naquele lugar... Ele sabia... Aquela era realmente Erza Scarlet... A pessoa cuja felicidade ele destruíra.
Ele virou-se para ir embora, sentindo o arrependimento tomar seu corpo novamente, quando algo agarrou levemente seu pulso.
- Jellal... – Repetiu a ruiva adormecida segurando o pulso do azulado.
— E-erza... – Respondeu Jellal.
A garota se aninhou nos cobertores ao ouvir seu nome, trazendo a mão de Jellal para junto de si.
- Nunca mais... vá embora. – Disse a garota ainda adormecida com lágrimas escapando dos olhos fechados.
Jellal ficou estático, o que deveria fazer naquele momento? Não queria deixá-la e ao mesmo tempo desejava sair da vida dela, não queria mais causá-la sofrimento, não queria mais ver suas lágrimas. Mas apesar de tudo, ali estava ele, contemplando aquela paisagem adormecida com lágrimas saindo de seus olhos fechados. Mas aquelas lágrimas eram diferentes daquelas que havia um dia causado, não eram lágrimas de tristeza, tampouco de sofrimento, eram de felicidade, felicidade por ele estar ali.
Jellal ajoelhou-se no chão de madeira silenciosamente, e apoiou sua cabeça no colchão. Observava a doce respiração da ruiva, o jeito como seu peito subia e descia, o jeito como os cabelos ruivos se espalhavam graciosamente pelo travesseiro, como poderia ser tão graciosa e ao mesmo tempo tão perigosa assim como a bela rosa que pegara aquela manhã?
Os dedos da ruiva ainda seguravam firmemente a mão do azulado em um gesto infantil, não parecia que iria soltá-la tão cedo. Alguns fios do cabelo ruivo cobriam sua face. Jellal levou a mão que estava livre ao rosto da garota e afastou os fios que lhe cobriam a face, o rosto tão macio... Acariciou o rosto da ruiva novamente com as costas da mão. A garota adormecida esboçou um leve sorriso ao sentir a mão do azulado deixá-la.
Jellal continuou a observar o sono da bela moça ruiva. Não sabia que a veria de novo, não sabia quando a veria novamente, por isso procurou guardar cada feição, cada traço, cada parte da beleza de Erza, sua Erza. Estava pronto para deixá-la, mas dessa vez não estava triste por isso, muito pelo contrário, estava contente, contente por ela ainda estar ali, contente por ela não tê-lo deixado, e dentro de si ele rezava para que ela nunca o deixasse novamente, ele não iria deixar.
- Ai... – Gemeu o azulado quando a ruiva apertou inconscientemente a ferida causada pela rosa.
E, para sua surpresa, olhos da ruiva agora se abriam vagarosamente. Jellal estava estático, não sabia o que fazer, não sabia o que ela pensaria, não sabia se fugia, nem como. Pouco a pouco, eram revelados ao azulado o par de olhos castalhos que brilhavam a luz da lua, aqueles olhos castanhos... os olhos que tanto queria ver por tanto tempo estavam bem ali a sua frente. Os olhos ainda sonolentos observavam um Jellal surpreso e estático. O que ele estaria fazendo ali? Por que ele estava ali? Era... completamente impossível! Aquilo só poderia ser...
- E-eu... estou sonhando... é só isso... – Disse a ruiva ao fechar os olhos castanhos novamente.
Jellal observou a moça pegar no sono novamente antes de se mexer. Não sabia se queria que ela os fechasse novamente, ou se desejava fitá-los por mais tempo, guardava cada detalhe daqueles orbes brilhantes no fundo de sua alma, nunca mais iria esquecê-los, nunca mais.
Continuou a observar o calmo sono da bela ruiva. Seus dedos brincavam com o belo e macio cabelo escarlate da garota adormecida, como poderia ser tão belo? É mesmo, lembrara o motivo pelo qual estava ali. Virou-se para procurar a bela rosa vermelha que tanto se assemelhava aos cabelos ruivos, esticou a mão livre para buscá-la e a feriu. Ultear o mataria.
Olhou para a janela por um momento. Já estava amanhecendo! Se não se apressasse alguém cedo ou tarde entraria naquele quarto. Mas onde colocaria a rosa? Tinha medo de colocá-la em cima da cama como sempre fazia e ferir a outra rosa que dormia profundamente. Foi quando percebeu a mesa de cabeceira Como não pensara nisso antes? Colocou a rosa em cima da mesma e contemplou as duas rosas que havia posto nas duas outras noites que passara ali, uma vermelha, não tão bela quanto a que trouxera, e outra azul, ambas em um lindo jarro de água certamente preparado pela ruiva.
Lembrava-se que na noite em que trouxera a rosa azul ele procurava recolher a vermelha que havia trazido na noite anterior, que por um milagre, não havia secado nem uma gota. Deixara assim, ambas as rosas que guardavam o lugar da mais bela rosa vermelha, mais bela ainda que qualquer rosa, até mesmo a que trouxera naquele dia, a rosa que se chamava Erza, que assim como a rosa vermelha que jazia no jarro, esperava encontrar murcha, mas a encontrou tão bela quanto qualquer outra rosa naquele imenso jardim de flores. Ele já não precisaria mais trazer substitutas para tomar o lugar daquela rosa.
Puxou levemente a mão que a moça segurava, que cedeu com a mesma leveza. Observou as rosas no jarro e olhou para aquele rosto adormecido uma última vez sorrindo calorosamente. Pulou o parapeito da janela e começou a escalar o caminho de volta, voltando para suas missões e para sua vida de fugitivo. Esperava do fundo do coração que aquela bela rosa escarlate cruzasse seu caminho uma vez mais em seu jardim de flores.
- Ul!!! Você está vendo? Você viu isso? Ele deu uma rosa pra ela! Ele deu uma rosa pra ela! Ele achava que ela estava morta! Isso não é lindo, Ul? Ul?!!!
— Meredy! Quer ficar quieta?! Nós não estamos aqui assistindo a um filme de romance! Aqui não é lugar para ficar dando surto! Vão acabar nos vendo!
— Ah é?!! Se não estamos aqui para espiar esses dois, por que diabos estamos aqui, hein?
— Não estamos espiando eles!!!
— Não! Não estamos! Estamos só procurando saber se o Jellal prefere rosas vermelhas ou azuis!
— Será que você pode calar a boca? Estamos cuidando da segurança do idiota do Jellal! Ele é distraído demais! Qualquer um consegue saber quem ele é quando bate o olho!
— Mas por que estamos aqui? O Jellal é forte! Ele sabe se cuidar sozinho!
— Ele é o homem mais procurado de toda a Fiore!!!
— Tá bem! Tá bem! Faz do jeito que você quiser! Mas eu não estou metida nisso! Você disse que só íamos tomar sorvete!
— Mas nós vamos tomar sorvete. Quando chegarmos no chalé!!!
— Você é muito má!!!
O sol de meio-dia batia no rosto da ruiva despertando a mesma de seu sono profundo, tinha dormido tanto assim?
Jellal... Por que pensara nele agora? É verdade, ela havia sonhado com ele na noite anterior! Ele estava... Olhando em seus olhos... Parecia tão real... Se lembrava claramente daqueles olhos verdes olhando para ela, o que era estranho, já que ela não tinha boa memória para sonhos. Na verdade, só se lembrava desta parte do sonho. Tinha absoluta certeza que havia sonhado mais... Bem... O que importava? São só sonhos!
Tinha que se apressar, nunca dormia até essa hora em dias de trabalho, era sempre a primeira a chegar na guilda. E além do mais, pretendia pagar aos seus amigos cada centavo do aluguel atrasado que por 7 anos eles procuraram pagar. Tinha que trabalhar! E tinha que começar já!
Reequipou sua armadura habitual assim que saiu da cama, se direcionou ao banheiro, mas seus pensamentos foram interrompidos por algo em cima da mesa de cabeceira.
Uma rosa vermelha. Uma rosa tão escarlate quanto o pôr do sol. Era uma bela rosa. Percebeu que seu caule verde-escuro estava ligeiramente sujo de sangue, de quem seria este sangue? Quem teria manuseado a bela rosa tão cheia de espinhos tão descuidadosamente? Quem, enfim, teria lhe dado aquela rosa? Seus pensamentos se direcionaram aos olhos verdes que vira no sonho...
Não... Novamente impossível...
Tinha que distrair seus pensamentos, quem sabe um doce bolo de morango lhe cairia bem? Colocou a rosa escarlate junto das duas rosa no jarro de água e pôs-se a caminhar para a guilda mais barulhenta de Fiore.
Quem sabe o impossível não seja necessariamente .. impossível?
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