Level 7 - Primeiro Level

3 Inserção virtual


Nós saímos calados pela porta e só quando chegamos ao ponto de ônibus que ela começou a falar.

–Cris, por favor, não conte a ninguém sobre isto, principalmente aos meus pais – disse Amanda olhando para mim com os olhos cheios de lágrimas.

–Calma, Amanda. Não vou falar nada. Eu só estava preocupado com você. Pensei que você estava saindo com caras mais velhos ou se drogando.

–Eu? Saindo com caras mais velhos? – perguntou Amanda dando uma gargalhada.

–Muitas meninas na sua idade fazem isto para arrumar dinheiro.

–Eu sei, mas eu prefiro socar – disse Amanda dando um soco na mão.

–Por que você está fazendo isto, Amanda?

–Você promete guardar segredo absoluto sobre isto?

–Claro. Eu sou seu amigo, pode confiar em mim.

–Tudo bem, eu faço estas lutas para ganhar dinheiro e com o dinheiro eu vou entrar em um jogo.

–Entrar em um jogo? Como assim?

–Eu não posso lhe contar tudo, mas é uma inserção virtual muito irada. Ela transporta o jogador para dentro do jogo. Muito legal mesmo, só que esta inserção custa muito caro. Custa 30 mil reais. Então estou tentando conseguir este dinheiro.

–Isto tudo é para entrar em um jogo?

–Se você achasse uma forma de ser inserido dentro de um jogo de videogame, você não faria qualquer coisa para conseguir?

–Acho que não, eu nem gosto muito de jogar.

–Mas este é diferente, é como se fosse real.

–E você está lutando assim para conseguir este dinheiro? Não tinha outra forma?

–É que além de ganhar o dinheiro, eu estou treinando para lutar dentro do jogo.

O ônibus chegou e nós entramos, o que ela estava me dizendo parecia ser verdade, mas algo estava errado, ela parecia estar escondendo algo. Fazer isto tudo só para entrar em um jogo, não era a cara da Amanda. Neste dia eu não fazia ideia do quanto eu estava certo.

–É só para isto mesmo que você está lutando?

–Sim. Eu tenho que entrar neste jogo e finalizá-lo.

–O que acontece se você finalizá-lo?

–Isto eu não posso lhe contar, desculpe – ela disse abaixando a cabeça.

–Tudo bem, só me prometa que não vai se meter em encrenca. Afinal, aqueles caras com quem você anda, não parecem ser muito... confiáveis.

–Ah, Cris, eles são legais, só vestem daquele jeito porque gostam. Quase todos são bem tranquilos.

–Você se importa se eu for com você na próxima vez que você ir lutar?

–Tem certeza que quer ir? Não vai ser muito estranho? – disse Amanda fazendo uma careta.

–Bom, eu acho que o meu nível de estranheza aumentou bastante hoje, depois de ver você lutando.

–Aquilo nem chegou perto de ser uma luta, ela era muito fraca. Pode ir, mas se for muito para você, prometa que você me falará.

–Eu prometo. É bom ter você de volta.

–Realmente. É como tirar um peso das costas, agora que posso dividir este segredo com alguém que eu realmente conheço – disse Amanda, depois ela me deu um beijo no rosto.

No dia seguinte, quando a aula terminou, ela parou em frente a minha carteira.

–Vamos? – ela perguntou sorridente.

–Sim – coloquei os meus cadernos na pasta e saí da sala com ela.

–Ei, gata. Quer uma carona? – perguntou Henrique, o garoto da nossa sala que parecia ter saído do lixão.

–Não, obrigada – disse Amanda.

Nós caminhamos até o ponto de ônibus e entramos no ônibus 4403a – zoológico via serrano.

–Tem certeza que prefere ir de ônibus do que com o Henrique na moto? – eu perguntei com medo da resposta.

–Sim, gosto de ter você ao meu lado – ela me disse com um sorriso que eu não via há muito tempo. Então ela encostou a cabeça no meu ombro. No inicio fiquei meio rígido, mas depois relaxei e passei a mão nos cabelos dela.

Paramos perto de uma igreja no bairro Carlos Prates, descemos a rua do lado da igreja e seguimos até o final, lá tinha uma quadra de futebol de salão, nós entramos e havia um homem grande na porta. Por que sempre tinha que ter um destes homens grandes, com cara de mal? Dá medo só de olhar para ele. Deve ser para isto mesmo.

–Ele está comigo – disse Amanda assim que o homem colocou a mão na minha frente.

Nós seguimos em frente, lá tinha várias pessoas formando um círculo, com o espaço de meia quadra de futebol de salão no meio delas, um cara moreno que devia ter 1,80m e vários músculos, estava sentado no meio. Ele se levantou assim que nós chegamos.

–Finalmente, estava cansado de esperar por você, franguinha – disse o cara tirando a blusa.

–Amanda, você não vai lutar com este cara, vai? – perguntei, o medo estava em meus olhos, quando olhei para o cara e depois para ela.

–Não precisa se preocupar, Cris. Eu sei me cuidar.

–Não precisa? Olha o tamanho deste cara.

–Espere e você verá.

As pessoas abriram caminho para nós passarmos, na verdade para Amanda, mas como eu estava do lado dela, a segui. Quando ela entrou no meio do círculo, eles o fecharam. Eu me sentei no chão, junto com vários outros caras. Pensei que Amanda ia trocar de roupa, mas ela se posicionou no meio do círculo e se preparou para a luta.

O mesmo cara gordo do ringue clandestino entrou no círculo e levantou a mão.

–Pronta? – ele perguntou para Amanda, ela balançou a cabeça positivamente.

–Pronto? – ele perguntou para o cara moreno que agora parecia ainda mais forte de perto. Ele fez o mesmo gesto que a Amanda.

Amanda correu para cima do cara, ele deu um sorriso. Neste momento eu não entendi bem, mas o que eu vi, foi a Amanda saltando e batendo os dois pés no peito do cara. Ele deu dois passos para trás, então ela firmou um pé no chão e rodou o outro dando um chute no rosto dele. Ele balançou a cabeça para um lado e para o outro, como se estivesse tonto e tentasse voltar ao normal. Recobrando o sentido, ele correu para cima da Amanda e preparou um soco, que ela desviou com o braço esquerdo e depois deu uma rasteira nele. Aquele cara enorme foi para o chão como uma pedra, assim que ele caiu, ela caminhou para frente e colocou o pé direito no pescoço dele.

–Acabamos? – ela perguntou, ele balançou a cabeça positivamente, com dificuldades, pois o pé dela ainda estava em seu pescoço.

Achei legal o modo como ela perguntou, de um jeito arrogante e duro, como se ela fosse esmagar o pescoço dele se ele dissesse que não.

Ela virou de costas e caminhou em minha direção, quando ela estava no meio do caminho, o cara se levantou e começou a correr para cima dela.

–Amanda – eu gritei apontando para o cara que já estava a menos de dois metros dela.

Ela colocou uma mão no chão, levantou a perna direita e acertou o maxilar dele o mandando uns dois metros para trás, então ele caiu e não se levantou mais.

–Obrigada pelo aviso – ela disse colocando o braço no meu ombro. – Ops, desculpe, eu estou suada.

–Não tem problema. Fiquei surpreso de você saber lutar tão bem.

–É mesmo?

–Sim, sempre achei você tão frágil.

–Não julgue o produto pela embalagem – ela disse e deu uma risada.

O cara gordo chegou perto de nós e entregou a Amanda um bolo de notas de 50 reais. Ela balançou a cabeça positivamente para ele e seguimos em direção a saída. Voltamos para casa normalmente como se nada tivesse acontecido.

Depois daquele dia, Amanda voltou a ser o que era. Pelo menos na parte em que era minha amiga, ela sempre estava comigo, fazíamos a maioria das coisas juntos e eu ia a todas as lutas dela. Algumas vezes os meus pais achavam estranho eu sumir assim, mas eu disse que ia com a Amanda ver os garotos fazerem manobras de skate e patins e eles não perguntaram mais.

–Consegui, juntei todo o dinheiro que eu precisava para entrar no jogo – disse Amanda um dia, depois de uma luta muito difícil, ela tinha tomado uns quatro socos que havia deixado uma grande marca roxa no rosto dela.

–E quando você irá fazer isto?

–Só um minuto — ela disse pegando o celular e discando — É a Amanda, quando é a próxima inserção?... Para mim está ótimo — ela desligou o celular.

–E ai, quando vai ser?

–Agora, vamos já para lá.

Voltamos para o centro e pegamos o ônibus 4110 Dom Cabral – Belvedere em direção ao Belvedere. Depois de uma hora e 20 minutos nós descemos do ônibus, estávamos em um bairro chamado Vale do Sereno.

–É aqui, Amanda? É bem longe – perguntei olhando para o lugar.

–Sim, é aqui. É logo ali na frente.