Level 1
4 Escuridão
Notas iniciais
A primeira parada de Rao como membro dos exploradores foi em Sinnoh, onde nunca havia pisado.
Juntamente com Bergin, pousou na cinzenta Veilstone City, metrópole construída a partir de pedreiras, e seguiu voando até Celestic Town. Bergin em seu Honchkrow, enquanto um Hydreigon, também de Bergin, levou Rao.
Celestic era uma pequena cidade. Como já fora cenário de escavações, possuía três níveis de altitude, sendo a parte central a mais funda. Suas poucas casas eram pequenas e obedeciam a uma espécie de estilo próprio.
— Ah… — queixou-se Bergin ao descer do Honchkrow, levando as mãos às costas.
Rao também deixou de montar o Hydreigon, que lhe metia medo.
— Obrigado pela ajuda, Zeniba. — O velho acariciou sua Honchkrow, retornando ela à Pokébola e virando-se em seguida para o dragão. — Obrigado a você também, Therião, agora descanse.
Então Bergin, que Rao já descobrira que não gostava muito de perder tempo, disse:
— Esta cidade é bastante importante para a Região de Sinnoh — falou, cruzando os braços às costas e olhando na direção da parte mais profunda da cidade, onde não havia residências, apenas um templo de madeira bem no meio do espaço gramado e uma entrada de caverna na parede ao norte.
— Aqui mora Cynthia — continuou ele —, a eterna campeã daqui de Sinnoh. Uma daquelas casas — apontou para a parte nordeste, ali no nível mais alto da cidade, onde eles mesmos estavam — pertenceu aos avós de Drasna.
— A Drasna da Elite dos Quatro de Kalos? — perguntou Rao, com excitação.
— Essa mesma… essa mesma. Mas viemos pra cá devido ao fato de Celestic ficar bem aos pés do Monte Coronet, nosso principal destino — o velho tomou um tom mais sério, quase sombrio, olhando na direção de uma montanha à qual Rao não tinha dado muita importância ainda.
O monte era bastante alto, cobrindo boa parte da vista oeste. Rao se perguntou como não havia percebido a montanha até aquele momento. A sua parte mais alta não era visível, como se mesmo de dia ficasse coberta por névoa.
— O Monte Coronet é a montanha mais alta de uma cordilheira que divide Sinnoh ao meio… — Bergin disse, ainda vislumbrando o pico, como se divagasse. — Há uma grande caverna dentro dele, aparentemente feita pelo homem — deixou de lado o tom sério, tomando um ar mais descontraído. — Ela conecta as cidades de Oreburgh, Eterna, Hearthome, Snowpoint e, como você já deve ter adivinhado, Celestic.
— Vamos seguir por ela então — Rao supôs.
— Você sabe que eu adoro cavernas — o homem grisalho disse, com um sorriso de lado.
Logo depois da entrada da caverna, a dupla se deparou com pedras caídas, que Therião, o Hydreigon de Bergin, se livrou facilmente. O obstáculo seguinte, não muito à frente, foi uma horda de Magnetons e Nosepass. Rao e Fariz observaram com apreensão, enquanto o experiente explorador comandava seu Houndoom, Fulgor, em conjunto com Therião, contra os assustados Pokémon selvagens.
Enquanto o Houndoom espantava os Pokémons metálicos com suas chamas, o Hydreigon se ocupava com os demais, usando seus poderes de dragão.
Depois da batalha, o homem explicou a Rao que, na montanha, encontrariam vários Magnetons, Magnezones, Nosepass e Probopass devido ao fato do Monte Coronet possuir um forte campo magnético, o que atraía esses Pokémons, pois isso tornava o ambiente propício para que eles evoluíssem.
Nas partes mais escuras, Yuko, a Umbreon de Bergin, serviu como farol, iluminando em amarelo todos os espaços e ajudando a evitar penhascos e outras armadilhas que a caverna guardava para os incautos. Fariz pareceu se encantar com ela, o que Rao não compreendeu muito bem.
Os grandes lagos e cachoeiras que eram encontrados ainda dentro da caverna foram ultrapassados pela dupla com a ajuda de Zeniba, a Honchkrow, e Therião.
Chegando próximo à parte mais alta da montanha, a caverna começou a ficar fria, e foi esfriando ainda mais. Fariz não pareceu se importar com a temperatura, ao contrário de Rao. Bergin, que já esperava encontrar tal frio, retirou de sua grande e pesada mochila dois grossos sobretudos, que consistiam numa espécie de cobertor que possuía um grande furo para o explorador colocar a cabeça, deixando coberto o restante do corpo.
— Estamos chegando perto de um das saídas — avisou Bergin. — Pior do que lá não vai ficar.
Rao não entendeu se o homem tinha dito isso na intenção acalmar seus nervos, mas se foi, não funcionou. Puxou Fariz de volta para sua Pokébola, prometendo libertá-lo assim que ficassem em segurança.
A saída estava logo à frente e dava acesso a um estreito caminho todo coberto de neve. Rao tinha certeza que, caso não escorregasse para a morte, o vento faria o serviço. Seguiu se escorando na parede da passagem sem olhar para baixo, enquanto Bergin ia à frente, tendo Fulgor como guia.
— Daqui, se você olhar, podemos ver de onde viemos, Rao. Celestic Town é linda daqui.
Rao não olhou nem respondeu. O velho apenas sorriu, continuando o caminho.
Depois do que pareceu uma eternidade para Rao, o caminho terminou numa escadaria, que, se comparada ao caminho no qual vieram, era bastante larga. Seu pavimento era feito em pedras beges que não deixavam os exploradores escorregarem. Rao respirou com alívio e seguiu escadaria acima.
Após pisar o último degrau, a atmosfera ficou mais leve e a neve sumiu. À frente, Rao vislumbrou uma espécie de templo em ruínas.
— Um santuário. — Bergin pareceu adivinhar seus pensamentos. Trazia um sorriso simpático por baixo do vasto bigode. — Estamos no Spear Pillar!
— É bonito — Rao falou, olhando em volta e libertando Fariz de sua Pokébola. Ali não ventava nem nevava. Uma névoa clara e morna cercava o lugar, não deixando ver a região de Hoenn, que estava quilômetros abaixo. O Psyduck parecia tentar entender onde se encontrava.
— Bem, agora preciso de sua atenção, Rao — o velho falou, enquanto dava poucos passos à frente. Levou as mãos a cada um dos lados da cintura, soltando de seu cinto duas Pokébolas comuns.
Rao olhou com curiosidade. Não fazia ideia do que o explorador pretendia.
O homem lançou as duas Pokébolas ao ar, revelando Fulgor e Therião.
— Mega evolua, Fulgor — falou, com a expressão séria.
Rao, que até então só tinha visto mega evoluções pela televisão, se encantou com a luz que envolveu o Pokémon e iluminou tudo em volta com um brilho multicor. O Houndoom mudou de forma, ficando maior. Seus chifres aumentaram, suas presas ficaram mais afiadas e aparentes; os ossos expostos que trazia às costas cresceram, se tornando quase uma armadura. Se Rao quisesse e o Pokémon deixasse, poderia montá-lo, de tão grande que ficou. Era possível sentir o calor que emanava.
— Agora... — o explorador prendeu as Pokébolas de volta em seu cinto, puxando outras duas em seguida, mas essas eram Ultraballs. Rao não sabia o que guardavam. Pensou rápido e percebeu que até agora só tinha visto quatro dos seis Pokémons de Bergin.
— Vou lhe revelar meu maior segredo — continuou o homem, jogando as Pokébolas para a frente.
Ambos os objetos se abriram, lançando um brilho prateado, que tomou a forma de dois enormes dragões.
Dialga e Palkia estavam bem à frente de Rao. Fariz procurou abrigo atrás de suas pernas, amedrontado.
As duas monstruosidades rugiram, fazendo tudo ali tremer. Antes que pudessem tomar alguma atitude destruidora, Bergin ordenou a Fulgor que mantivesse Dialga sob controle, enquanto Therião deveria manter Palkia.
Os Pokémon começaram um embate, mas o Houndoom e o Hydreigon eram bastante poderosos, então conseguiram domar os dois dragões.
— Venha! — gritou Bergin para Rao, que o seguiu, ainda em estado de choque, com Fariz em seu encalço, grasnando alto.
Passaram a salvo pela dupla de Pokémons lendários, que rugiam ferozmente para seus adversários.
Rao quase deu um encontrão em Bergin, que parou abruptamente.
Em frente a ele, no chão, havia uma enorme poça de algo escuro e de aparência pegajosa.
— Você vai precisar de muita coragem agora, mas me siga — disse o velho, pulando em seguida na poça, ao mesmo tempo em que soltava um alto assobio, não deixando sequer Rao responder.
Sem pensar muito no que fazia, Rao recolheu Fariz para sua respectiva Pokébola e pulou em direção à poça, que parecia estar aumentando de tamanho, sendo seguido por Fulgor e Therião.
* * *
Estava em um ambiente muito escuro e frio. Ainda conseguia ouvir os rugidos de Dialga e Palkia, que agora pareciam brigar entre si. A única coisa visível era uma estranha luz arroxeada, que parecia estar muito longe.
Conseguiu avistar alguns contornos que se mexiam e ouviu a voz de Bergin, embora a batalha entre os dois dragões parecesse intensa. Se aproximou e enxergou melhor quando Yuko, a Umbreon, agora fora de sua Pokébola, iluminou um pequeno raio de espaço em volta de si. Therião e Fulgor aparentemente tinham voltado ao descanso.
— Onde estamos? — Rao perguntou, conseguindo voltar a se expressar em palavras, mesmo ainda estando com muito medo.
Antes que Bergin respondesse, uma enorme sombra passou por eles, fazendo o ar em volta vibrar, deixando um fino rastro de luz vermelha, que logo se dissipou.
— Preciso que você fique acompanhado de seu Pokémon, Rao — o explorador parecia apreensivo. — Ele pode ser de ajuda em algum momento.
E foi o que Rao fez.
Fariz estava muito assustado, mas Rao sentiu certo conforto em vê-lo ali, a seu lado.
O conforto durou pouco tempo, porque, logo em seguida, Dialga e Palkia passaram por eles em alta velocidade, se dirigindo para um mesmo ponto.
— Segundo a lenda — disse Bergin, chamando a atenção de Rao —, a região de Sinnoh teve origem quando, no topo do monte Coronet, no Spear Pillar, Arceus criou Dialga, Palkia…
Nesse momento, um alto grito foi ouvido. Rao e Bergin dirigiram sua atenção para a fonte do barulho, avistando os dois dragões, que estavam face a face com outro, de aparência fatasmagoricamente assustadora.
— … e Giratina — terminou.
De repente, com a revelação de Giratina, tudo se clareou, mas mantendo o tom arroxeado.
Dialga e Palkia tinham passado a enfrentar em conjunto o outro dragão.
— Bom que eles estejam batalhando — Bergin falou, com Yuko a seu lado. — Assim, Giratina fica distraído até que a gente se aproxime.
— Nós vamos nos aproximar?!
— Claro! Não se preocupe, meus Pokémons são fortes, como você já deve ter notado.
A dupla começou a caminhar rapidamente na direção da grande batalha. Bergin sendo guiado por Yuko e Rao com Fariz agarrado a si.
Os espaço ali era bastante confuso. Rao conseguiu avistar uma cachoeira que caía horizontalmente e ficava num plano abaixo de onde se encontrava. Mais à frente, havia um terreno flutuante, com um lago em seu centro, que ficava, em comparação a onde estavam, de lado, sem que a água caísse para nenhum lugar.
O ambiente de repente ficou escuro, então Rao voltou sua atenção para o caminho à frente. Bergin não estava mais lá, e não conseguia avistar ele ou Yuko em parte alguma, embora ainda visse a batalha entre os três dragões se desenrolando muito à frente. Tentou não se desesperar e decidiu seguir em direção à luta, pois era para lá que Bergin estava indo.
A caminhada foi difícil, pois não havia mais a luz da Umbreon para iluminar os arredores, mas Rao conseguiu seguir, pois tudo estava mais claro do que quando havia passado para lá, onde quer que lá fosse.
A batalha entre os três dragões se intensificou e Giratina pareceu começar a perder as forças, fugindo do alcance dos outros dois, que o seguiram.
Para o azar de Rao, os Pokémons lendários vieram em sua direção, trazendo a luta para muito próximo. Olhou em volta, procurando algum lugar que oferecesse abrigo, e decidiu apenas correr para longe da luta. No caminho, uma das longas garras de Giratina atingiu o chão logo a sua frente, fazendo com que Rao quase caísse, mas conseguindo se estabilizar.
Olhando em volta com alívio, Rao não conseguiu avistar Fariz. O desespero tomou conta de si. Chegou a olhar para baixo, na escuridão, mas seu Psyduck não estava em lugar nenhum. Gritou pelo seu nome, sem obter resposta.
Os três dragões se distanciaram, mas Rao já não prestava mais atenção neles, nem queria saber de reencontrar Bergin. A única coisa na qual pensava era em achar Fariz.
Correu em todas as direções, gritando pelo nome do Psyduck, mas não conseguiu ouvir nenhuma resposta. Em determinado momento, parou, pois não aguentava mais correr e mal conseguia gritar. Arfava. Apoiou as mãos nos joelhos, mas acabou tendo que se sentar no chão. A exaustão tomava conta de seu corpo e de sua mente.
Rao não sabia quanto tempo tinha passado. Lembrava de ter ouvido barulhos da batalha se aproximando e se distanciando logo em seguida. Também havia sentido os tremores de impactos de golpes, que vinham de todos os lados. Mas sua mente não saía de Fariz por nenhum momento.
Seu Psyduck agora nunca sairia do nível um. Nunca viajaria em sua companhia, nunca veria outros Pokémons que nunca tinha visto. Nunca evoluiria… Rao não aguentou tais pensamentos e colocou a cabeça entre seus joelhos, chorando copiosamente.
Chorou até que não ouviu mais os sons e vibrações da batalha.
Tudo tinha ficado calmo e silencioso.
Levantou a cabeça, olhando em volta. O ambiente permanecia fracamente iluminado pelo brilho roxo, mas não havia sinal dos dragões.
Decidiu então se levantar. Não poderia ficar ali. Teria que encontrar um caminho sozinho e sair daquele lugar. Lembrou que havia começado a jornada sozinho, então poderia começar de novo. Seus companheiros eram muito importantes, mas não poderia desistir porque não estavam presentes.
Ainda secando as lágrimas, pegou sua pesada mochila, pôs nas costas e começou a caminhar. Encontraria uma solução para seus problemas, mas primeiro precisava salvar a si.
De repente, se revelando à beira do abismo logo à frente, surgiu Giratina. Rao parou abruptamente com o susto.
Seus olhos encaravam a alma de Rao com seu ofuscante brilho vermelho.
Então um pensamento veio à cabeça de Rao, abrasando sua visão. Tinha perdido Fariz por causa de Giratina. A culpa era toda do dragão. Não queria saber se esse pensamento estava certo ou errado, queria apenas descontar sua frustração no gigantesco Pokémon a sua frente. Se Fariz estava apenas no nível um, Rao também estava, e se um ataque de um Pokémon no nível um podia ferir outro, seu punho também podia. Correu em direção ao dragão, mirando um soco na altura que alcançasse.
O golpe, ao atingir Giratina, o converteu em luz, causando uma explosão luminosa que deixou tudo ao redor na mais completa brancura, quase cegando Rao.
* * *
O ambiente ao redor foi retornando à visibilidade de pouco em pouco.
Rao sentiu um apertão em sua perna direita.
Fariz estava ali. Bergin também estava, acompanhado de Fulgor.
Todos se encontravam do lado de fora, de volta ao Spear Pillar. O tempo lá fora ainda claro, com a temperatura amena.
— Você estava dentro de uma bolha de escuridão, Rao — explicou Bergin. — Provavelmente sob o efeito de Giratina.
A primeira coisa que Rao fez foi pegar Fariz no colo a abraçá-lo.
— Quando obtive os registros de Giratina os quais precisava para meus relatórios — continuou o explorador —, voltei para te procurar e encontrei Fariz perdido, que me levou até você. Com a ajuda de Fulgor te trouxe pra cá. Fariz não parou de grasnar em nenhum momento — riu. — Aqui fora, percebi que a bolha de escuridão só poderia ser destruída por dentro. Somente você poderia se livrar dela, Rao.
— Fiz decisões importantes enquanto estava sem vocês lá dentro — respondeu, ainda com Fariz no colo. — Decidi que vou seguir como explorador, se você me aceitar como ajudante. Quero fariz ao meu lado sempre. Quero que ele veja tudo o que eu vir, que a gente passe por todas as experiências juntos.
— Eu e meus Pokémons ficaremos felizes em ter vocês como companhia — Bergin disse, colocando a mão sobre a cabeça de Fulgor, acariciando sua testa.
— Espero que você também esteja feliz, porque eu estou — Rao disse, encarando o Psyduck, que grasniu de volta. — Vamos ser companheiros de aventura para sempre. Mesmo você ficando eternamente no nível um.
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