Letum Proditoris
1 O Hospital St Mugus para Doenças e Lesões Mágicas
Crescer em uma família mestiça foi uma experiência e tanto. Sou grata à minha mãe por insistir tanto na convivência dos dois mundos. Sempre achei fascinante o quanto os trouxas evoluíram sem magia; eles são mesmo muito engenhosos para solucionar seus problemas. Carros no lugar de vassouras, robôs domésticos no lugar de feitiços e todo um sistema complexo de trânsitos para viagens longas no lugar de pó de flu ou simplesmente aparatar. É realmente fantástico o quão longe eles chegaram para solucionar seus problemas cotidianos.
Mas, para mim, a invenção mais impressionante dos trouxas sempre foi o chamado sistema de saúde pública. Uma ideia extraordinariamente ambiciosa para lidar com a saúde de uma população inteira que, sem magia, é extremamente vulnerável a praticamente tudo: vírus, bactérias, ossos quebrados, quedas de escada e, aparentemente, até mudanças bruscas de temperatura.
A solução deles foi criar um sistema gigante dedicado exclusivamente para evitar que as pessoas morram por motivos relativamente simples. E eles levam isso muito a sério. Tão a sério que existe um ministro responsável por isso! Uma área inteira do governo dedicada a hospitais, médicos, campanhas de vacinação e todo tipo de estratégia para manter a população saúdavel.
E isso ainda não é tudo. Existe também uma organização internacional, algo chamada Organização Mundial da Saúde, que reúne representantes de diversos países para discutir doenças, tratamentos e políticas de saúde globais. Essencialmente, as trouxas estão realizando uma rede mundial de pessoas tentando coordenar como manter bilhões de indivíduos vivos ao mesmo tempo.
Sempre achei essa ideia engenhosa. Também um pouco assustadora..
Principalmente considerando que tudo isso existe para compensar o fato de que eles não podem simplesmente restaurar um osso quebrado com um frasco de esquelece.
Quanto a nós, resolvemos o problema de uma forma um pouco mais.. simplória.
O Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos é, tecnicamente, todo o nosso sistema de saúde.
Em outras palavras, todo o sistema de saúde da comunidade bruxa da Grã-Bretanha funciona dentro de um único prédio escondido atrás da vitrine de uma loja de departamentos abandonada no centro de Londres. Se alguém sofre um acidente com um feitiço mal executado, uma poção que decidiu reagir de maneira criativa ou uma criatura mágica que obviamente não deveria estar solta dentro de casa, inevitavelmente acaba vindo parar aqui.
Com o passar dos anos, o fluxo constante de pacientes começou a contrastar de forma cada vez mais evidente com a estrutura relativamente modesta do hospital. Em algum momento (provavelmente depois de duas guerras bruxas e de um número cada vez mais criativo de acidentes domésticos) alguém no Ministério da Magia finalmente concluiu que talvez não fosse a pior ideia do mundo expandir o único hospital existente no país.
Foi assim que, há cerca de cinco anos, foram realizadas as obras de ampliação do St. Mungus..
Em teoria, o projeto é impressionante: novos andares, infelizmente reorganizados, corredores ampliados com magia espacial e até algumas técnicas de construção trouxa que, segundo os arquitetos do Ministério, seriam “ eficientes ”. O plano, é claro, previa que tudo estaria concluído em dois anos.
Na prática, porém, a ampliação do hospital significa pacientes e curandeiros tentando se orientar em corredores que mudam de lugar com uma frequência irritante, placas de direção para alas que ainda não existem e uma quantidade surpreendente de poeira para um prédio que, em teoria, poderia ser limpo com um único feitiço bem executado. E, mesmo depois de cinco anos de obras, a sensação geral é que ninguém sabe exatamente quando — ou se — tudo isso realmente vai terminar
Parte do problema da ampliação do hospital é que qualquer alteração estrutural feita com magia precisa ser cuidadosamente estabilizada para não causar distorções nos prédios trouxas que existem ao redor da entrada. A última coisa que o Ministério quer é precisar acionar o Esquadrão de Reversão de Magia Acidental para explicar por que uma loja abandonada no centro de Londres decidiu crescer três andares durante a noite.
Apesar do caos provocado pelas obras, o hospital continua organizado da forma tradicional: cinco andares, cada um dedicado a um tipo muito específico de desastre mágico. Nos últimos anos, porém, o St. Mungus ganhou oficialmente uma sexta ala hospitalar — uma das poucas partes da expansão que realmente foi concluída.
O novo andar é dedicado à Reabilitação Mágica , criado para pacientes que sobreviveram a acidentes, mas que ainda precisam aprender a lidar com as consequências deles. É, segundo os relatórios otimistas do Ministério divulgados no Profeta Diário, um avanço importante na forma como o hospital trata casos complexos.
O restante do hospital continua funcionando da forma tradicional.
No térreo ficam os Artefatos Perigosos , o destino previsto de qualquer bruxo que decida experimentar um objeto mágico cuja função claramente não compreende. Normalmente é um andar relativamente tranquilo, tirando o pequeno detalhe de que parte do corredor principal foi temporariamente redirecionado para dentro de um depósito encantado que aparentemente ainda não decidiu se quer ser um corredor ou continuar sendo um depósito.
O primeiro andar abriga a ala de Danos Causados por Criaturas , onde são tratados desde riscos de hipogrifos até mordidas de criaturas que alguém jurou ser perfeitamente domesticável. Infelizmente, também é o andar onde as obras parecem ter sido concluídas e se concentraram com especial entusiasmo no último mês. Metade das paredes está coberta por estruturas de estabilização mágica, dois corredores foram interditados porque “o espaço interno ainda está se ajustando”, e na última semana uma das salas de triagem simplesmente deixou de existir por algumas horas depois de um encantamento de expansão particularmente competitiva.
No segundo andar ficam os casos de Envenenamento por Poções e Plantas, que costumam ser relativamente organizados — exceto pelo fato de que parte do laboratório precisou ser transferida para uma sala ampliada por magia que, segundo rumores, ainda está um pouco maior por dentro do que deveria.
O terceiro andar trata de Feitiços e Encantamentos que deram terrivelmente errado, o que por si só já garante um fluxo constante de pacientes. Com as obras, a ala ganhou os bônus adicionais de corredores provisórios que às vezes levam exatamente para onde deveriam e às vezes levam para uma sala de armazenamento cheia de macas dobráveis.
E, no quarto andar, ficam os pacientes de Danos Permanentes por Magia , ala mais silenciosa do hospital, provavelmente porque ninguém teve coragem de começar a quebrar paredes ali ainda.
Considerando o estado atual do prédio, era difícil imaginar um lugar pior do que o primeiro andar para passar um turno inteiro. A ala de Danos Causados por Criaturas já era caótica em circustâncias normais. Com as obras acontecendo ao mesmo tempo, ela havia se transformado no tipo de lugar que os curandeiros mais experientes evitavam sempre que possível.
Naturalmente , foi exatamente para lá que o rodízio do hospital decidiu me enviar pela manhã.
Eu já tinha aprendido que certas designações não eram exatamente... aleatórias. Alguns curandeiros foram direcionados para casos delicados, outros para pesquisas mais complexas. E alguns de nós acabávamos cuidando das tarefas que continuavam funcionando mesmo quando o hospital parecia estar à beira de se reorganizar completamente dos avessos.
Apesar do ambiente caótico das obras e das histórias mirabolantes dos pacientes sobre como, exatamente, conseguiram uma mordida de um animal mágico, o trabalho na Ala Um ainda conseguia manter um ritmo próprio, não necessariamente organizado ou nem ao menos tranquilo para ser sincero, mas estranhamente fluído. Um entra e sai constante das pessoas como se essa circulação contínua fosse o que mantivesse o hospital em pé e funcionando. Os pacientes vinham, os feitiços eram lançados, as anotações eram registradas, e em algum ponto entre um atendimento e outro o dia acontecia, avançando sem que eu me desse conta de quando começou ou em que momento deveria terminar. Em algum momento o ruído incessante das obras, combinado com explosões ocasionais, que costumam fazer por instinto todos erguerem os olhos para ver, deixaram de ser um incômodo. Passou a existir apenas um zumbido estranho e constante em segundo plano, uma presença fixa que ninguém se importa muito de estar ali. Uma espécie de trilha sonora bizarra e permanente do prédio, não acrescentava em nada, mas cuja ausência provavelmente seria ainda mais desconcertante.
O fluxo de pacientes permanecia constante, mas havia algo que o tornava cada vez mais previsível conforme as horas passavam, como se todas as variações possíveis já tivessem sido vistas antes, apenas reorganizadas em novas modificações. Era curioso, de certa forma, perceber quantos tipos diferentes de acidentes poderiam surgir em um único dia envolvendo criaturas mágicas, e ainda assim todos levariam, eventualmente, ao mesmo ponto. Mordidas, especulações, respostas inesperadas de animais que, em algum momento, alguém decidiu que conseguiria controlar melhor o que realmente poderia. As histórias mudavam, algumas absurdas, outras quase impressionantes, mas o resultado final raramente era variado. Sempre havia sangue, sempre havia dor, sempre havia alguém surpreso demais com algo que, olhando de fora, parecia inevitável. E, com o tempo, até isso começou a perder o impacto.
Talvez fosse por ter crescido em uma família grande demais, barulhenta demais, onde o caos nunca foi exatamente uma exceção, mas uma constante silenciosa que ninguém realmente questionava. Ou talvez fosse apenas o início de algo mais incômodo, mais difícil de admitir, aquela espécie de apatia discreta que parece se instalar aos poucos em todos que ousavam passar tempo demais ali dentro, como se o hospital, além de curar, também tivesse o hábito de desgastar. O fato é que a Ala Um, com todas as suas peculiaridades, deixou de exigir qualquer ocorrência real de mim. Eu continuava fazendo o que precisava ser feito, com a mesma precisão, a mesma eficiência, mas sem que nada realmente atravesse a superfície. Até mesmo os casos mais incomuns começaram a parecer previsíveis, simplificados pela repetição, como se tudo já tivesse sido reduzido a um padrão que eu já conhecia bem demais para ainda me afetar. Essa constatação, infeliz e inevitável, deixou tudo um pouco mais pesado do que deveria. O ar pareceu denso por um instante, e o suspiro veio antes que eu percebesse, longo, profundo, carregado de algo que eu já não tentava mais entender.
Em algum momento da tarde, alguém apareceu ao meu lado e disse se eu poderia cobrir o turno da noite. Não houve realmente espaço para pensar sobre aquilo, apenas uma resposta automática, dita antes mesmo que eu considerasse a recusa. Mais tarde, ao passar pela sala de descanso, meu nome já ocupava um espaço no pergaminho mágico dos curandeiros do próximo turno, como se sempre tivesse pertencido ali. Continuei com o meu trabalho e em um piscar de olhos, o dia se transformou em noite, o movimento diminuiu com o passar das horas, mas nunca o suficiente para que a ala realmente ficasse vazia.
O hospital não dormia.
Lá pelas duas da madrugada as coisas pareceram se aquietar um pouco mais. Restavam apenas dois pacientes aguardando atendimento, um com ferimentos leves e o outro com um sintoma claro de mordida de kneazle. Nada que fosse alarmante.
Os outros dois curandeiros responsáveis pela Ala Um aproveitaram a calmaria para tirar a meia hora para o chá, deixando a Ala temporariamente sob minha responsabilidade. Eu permaneci, organizando o que ainda precisava ser feito e observando o silêncio incompleto do lugar, aquele tipo de pausa que nunca dura, mas que, por alguns instantes, faz tudo parecer um pouco mais lento, como se o próprio tempo soubesse que era o momento de desacelerar.
Voltei minha atenção para o relatório daquele dia, preenchendo pergaminhos inteiros com especificamente que já começavam a soar um pouco desconexas depois de tantos outros iguais. A pena deslizava com facilidade, arranhando o pergaminho com sua tinta espessa, completando registros que ninguém realmente se importaria em ler. Apenas o protocolo sendo seguido à risca, como deve ser.
Minha mente estava imersa em encontrar um sinônimo para mordida , foi por isso que o som demorou um segundo a fazer sentido.
Um crepitar baixo, vindo da lareira.
Não era incomum. Desde as obras, pacientes e até alguns curandeiros acabaram aparecendo ali por engano, confundindo acessos, errando destinos, chegando onde não pretendiam estar. Ainda assim, levantei os olhos, desviando a atenção do relatório incompleto.
As chamadas verdes oscilaram, um pouco mais altas do que o habitual, iluminando o contorno da sala de forma irregular antes de alguém atravessá-las. Por um instante, foi apenas movimento — a fuligem, o tecido escuro, a forma ainda indefinida se ajustando ao espaço — até que uma figura começou a se estabilizar diante de mim.
Meus olhos acompanharam sem pressa, quase por instinto, enquanto ele se erguia por completo.
Alto demais para passar despercebido.
Um homem cambaleou para fora da lareira em minha direção.
O sobretudo escuro estava manchado de sangue, e uma gotinha já se formava na barra do tecido antes de se soltar e cair do chão do consultório. Ele permaneceu de pé por um instante que parece longo o suficiente para que eu instintivamente segurasse a respiração esperando que ele dissesse algo.
O olhar dele encontrou o meu com dificuldade, como se precisasse de mais tempo do que o normal para se fixar.
— Aqui é o St. Mungus?
E, antes que eu pudesse compreender o que ele disse, antes mesmo que o pensamento se organizasse o suficiente para formar qualquer palavra, o corpo dele cedeu.
Os ombros primeiro.
Depois os joelhos.
E, em um movimento simples, quase silencioso demais para o que deveria ser, ele caiu.
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