Notas iniciais
Ps: Recomendo lerem escutando a música logo a baixo. https://www.youtube.com/watch?v=UKyb_3gBmj4

"Eu sei que todos pensam que somos imortais. Era pra ser assim. Estamos nos formando. Mas como nossos 4 anos de colegial, o que torna a vida valiosa é não durar pra sempre. O que a torna preciosa... é que ela termina. Sei disso agora mais que nunca.”

Por que continuava a fazer aquilo? Mais uma vez, buscava um sinal qualquer na tela de seu celular, mais especificamente, no chat aberto com Gwen. Um simples sinal de que estava online, de que visualizou, ou até mesmo uma resposta. Era só isso que ele queria. Peter não era tão bobo para essas coisas, já tinha se conformado com o ocorrido, mas ainda assim continuava a esperar um sinal. Continuava a esperando. Já iria fazer um ano desde que ela faleceu, e tudo parecia ter passado tão rápido para ele, que ainda poderia dizer que ontem mesmo ela estava ali. Com ele. No seu quarto. Trocando risadas de assuntos aleatórios enquanto esperavam a tia May preparar o jantar.

Podia sentir o cheiro do perfume que ela usava, não fazia ideia do que era, se tivesse que dizer que cheiro era aquele... ele diria: Gwen. Simplesmente Gwen.

“Hoje é especial para nos lembrar de que tempo é sorte. Então não desperdice o tempo vivendo a vida de outra pessoa. Faça a sua valer alguma coisa.”

Ainda estava vestido com o traje do Homem-Aranha, com exceção de suas luvas e máscara. Tinha chegado uma hora da madruga, o horário mais comum para encerrar suas vigílias. Não estava muito bem. Algo, como muitas coisas ultimamente, tinha o lembrado dela. E o vazio voltou. Continuava o mesmo garoto, alegre e destemido, no entanto, tinha um vazio intimo no fundo de seu peito. Arrancando-lhe o ar e desaparecendo com seu chão, ou qualquer coisa que pudesse se segurar. Então, ele voltava para ela, buscando forças. Havia abandonado a vida de herói quando ela morreu, mas depois de 4 meses retornou. Ficou 4 meses sem usar a mesma roupa, a mesma que segurou o corpo morto de sua amada, que falhou ao deixa-la morrer frente aos seus olhos. Desde o falecimento do Capitão Stacy tinha jurado para si mesmo nunca mais perder alguém, no entanto, perdeu uma das pessoas mais preciosas para ele. Tinha trazido tanto sofrimento para a família Stacy, mesmo que indiretamente. Deveria ter sido capaz. Deveria ter sido ele.

Então os mesmos pensamentos dolorosos retornam para sua cabeça, iam maltratando sua confiança e instabilidade mental. Mas não poderia ser assim para sempre. O Homem-Aranha tinha salvado muitas vidas durante sua carreira, ele trouxe luz e esperança para muitos cidadãos Nova-Iorquinos. Era sua responsabilidade continuar aquilo, para impedir que mais pessoas sentisse o que ele sente.

Mas por que não consegue salvar aqueles que ama?

“Lute pelo o que se importa. Seja o que for. Porque mesmo que tenhamos dúvidas, não tem jeito melhor de viver."

Tinha escrito: “Eu te amo.” Mas não enviou, deixou ali, sem um proposito certo. Não era como se ele tivesse duvidas naquela palavra. Ele a amava.

Deus, como ele a amava.

Mas estava tão perdido nas lembranças dela, que não conseguia mais se concentrar em nada que não fosse se agarrar aquelas memorias. Ainda tão vivas. Ele deitou em sua cama de solteiro, não soltava o celular por nada, era quase como se ele tivesse segurando ela. Seus olhos se fecham e por alguns segundos de silêncio ele escuta sua respiração, calma e quente, assim como nas noites frias – era uma noite fria. Isso o lembra do espirro da Stacy, de como achava engraçado.

Um sorriso. Ele sorriu.

“É fácil sentir esperança nos dias como hoje, mas haverá dias escuros pela frente também. Dias em que se sentiram sozinhos e a esperança será mais necessária do que nunca.”

Gotas de chuva atrapalham o silencio do quieto bairro do Queens. Elas badalavam em cima do telhado e no concreto da rua. Era uma composição relaxante, mas incômoda para alguém que buscava o silêncio. Parker saia de sua concentração, de seu momento pessoal de relaxamento. Os olhos que encaravam fixos o teto, estavam mais calmos, pareciam decididos. O corpo deixou a cama e caminhou até a sua pequena mesa de estudos, onde finalmente se livrara de seu celular. Seus olhos instintivamente passaram pelos porta-retratos da mesa, sendo um deles a foto de Gwen com ele. Dois jovens sorridentes e apaixonados, abraçados. Foi um dia divertido no parque.

Seus lábios agora estavam enfraquecidos, mais uma vez a dor volta, junto da dura realidade. Um suspiro cansado o deixou, estava cansado daquilo, não poderia adiar pra sempre. Sentou em sua cadeira de escritório, a afastou para trás e tirou uma caixa em baixo da mesa e a trouxe para seu colo. Tinha algumas coisas ali, já estava quase cheia. Todos os pertences que tinha dela ele os guardou naquela caixa, um após o outro, uma coisa de cada vez.

“Não importa se as coisas são difíceis ou se vocês se sentem perdidos... devem prometer que sempre vão ter esperança. Mantenham ela viva.”

Procurou qualquer coisa que poderia lembrar a ela; uma foto, presentes, acessórios esquecidos. Tudo. Ele os guardou, dando sempre uma boa olhada antes que juntasse tudo naquela caixa de papelão.

Não fazia aquilo para livra-se dela ou de sua memória, mas para seguir em frente. Ela sempre estaria com ele, em suas lembranças e pensamentos. Não a esqueceria jamais. E não seria fácil guardar cada pedaço de seus momentos. Mas se tinha que fazer aquilo, aproveitaria a força repentina que ganhava. Doía tirar uma foto presa em sua parede e a jogar naquela caixa, mas quando o fazia, ele se sentia melhor. Tinha que ser forte. Tinha que ser maior.

“Temos que ser maiores do que o que nos faz sofrer.”

Deixou a caixa no chão, próximo a porta. Quando amanhecesse ele iria levar tudo aquilo para o porão, guardaria com carinho, até que voltasse a precisar. Caminhou alguns passos para trás, quando sentiu a cama próximo de suas pernas ele desceu seu corpo, sentando-se. Aquilo foi um grande esforço. No entanto, ele sentia que era aquilo que ela iria querer. Seus olhos perdidos no chão do quarto estavam aos poucos melhorando, eles buscavam se distrair com qualquer coisa que o afastasse daqueles pensamentos. Das indecisões e incertezas. Procurava um livro perdido no chão, um quadrinho ou até mesmo algum papel aleatório que levantasse sua curiosidade ao ponto de ir lá e pegar. Nada, somente sua máscara jogada. Os olhos pálidos do aranha encarando ele, e ele o olhando de volta.

“Meu desejo é que vocês se tornem esperança, as pessoas precisam disso, por que mesmo que fracassemos... existe maneira melhor de viver?”

Era aquilo que ele era. Ele era o Homem-Aranha.

Levantou-se mais uma vez, indo até a caixa. Tinha esquecido de fecha-la. Agachou-se e olhou tudo que tinha ali dentro, era muita coisa, muitas histórias. Tirou daquele meio o quadro que minutos antes estava em sua mesa, seu lugar não era ali, não precisaria livrar-se de tudo. Ela tinha sido uma pessoa importante para sua vida, e ainda continuava sendo. Pôs o quadro a onde nunca deveria ter saído, ao lado de uma foto de seus tios. Gwen não trazia somente dor, mas bons momentos.

Era importante para ele que ela ficasse ali.

Mas agora, ainda faltava uma coisa, uma coisa que não poderia simplesmente guardar. As mensagens dela. Pegou seu celular e o destravou, quando a luz da tela voltou ele permanecia no mesmo lugar. No chat com ela. A mensagem que ainda não enviou. Abriu a foto que ela usava como perfil, a última. Ele a olhou por breves segundos antes de encolher o celular para mais próximo de seu rosto, apoiando a borda superior em sua testa. Queria tanto senti-la mais perto.

Seus olhos se fecham.

E mais uma vez a respiração dela era ouvida, sentida em sua pele, quente. A franja loira dos cabelos de Gwen contra ele. Poderia jurar que também sentia o cheiro de seu shampoo, mas talvez aquilo fosse demais. Não importava. Ele poderia senti-la perto, ao menos, uma última vez.

“Quando olhamos ao nosso redor vemos todas as pessoas que fizeram de nós quem somos. Eu sei que parece que estamos dizendo adeus, mas levaremos pedacinhos um dos outros pra tudo que fizermos a seguir, pra lembrarmos de quem nós somos e quem deveremos ser.”

Voltou ao ponto zero, ao bendito chat de uma única pessoa. Sempre que sentia o vazio e a saudade ele ia para o chat, escrevia e escrevia, ao ponto de ficar esperando ansioso a resposta – como se ela realmente fosse responder. Matava o tempo lendo as mensagens anteriores, escutando seus áudios... e se lembrando de que ela não estava mais ali. Aquilo não era uma atividade muito boa para ele. Tinha que dá Adeus.

E em alguns cliques já estava tudo terminado, em alguns cliques ele apagava tudo; todas as mensagens, áudios e fotos. Todos os momentos. Tudo.

Em alguns cliques...

“Passei ótimos anos com vocês, eu vou sentir muito a falta de todos."

— Pronto... está feito.

Deixou o celular sobre a mesa e saiu, buscando o repouso que tanto precisava em sua cama. Não poderia dizer que estava completamente bem, mas sentia-se melhor. Ela sempre estaria com ele, assim como tio Ben; seus pais.

Queria ter feito mais por ela, aproveitado todos os segundos livres ao seu lado. Se ele tivesse contado sobre sua identidade, que ele era o Homem-Aranha. Tudo poderia ter acontecido diferente, ido para outro caminho.

Bem, nunca saberia.

(...)

O som da chuva agora era tão acolhedor, hipnotizante para aqueles que buscam conforto. Era o que o garoto tinha agora, deitado sobre sua cama enquanto era abraçado pelo clima frio. Seus pés se contorciam em baixos dos lençóis. Era um clima gostoso. Não fazia ideia de hora, de dia ou compromissos. Afinal, ninguém tem compromissos em uma madruga chuvosa. Ele estava sonolento, mas ainda acordado. Um bafo quente o faz ter um discreto arrepio em seu pescoço, um sorriso maroto sai de seus lábios. E entre os lençóis um pequeno corpo se mexe, se encolhendo contra o dele como quem buscava abrigo.

Era um cheiro tão típico, tão Gwen. Ela estava lá, em seus braços, como já tivera tantas outras vezes naqueles dias de chuva. Apertou o corpo contra o seu, guardando-a de forma protetora junto a ele. Suas mãos arriscam acariciar as mechas loiras dela, deslizando os fios entre seus dedos em uma brincadeira preguiçosa. Sentiu a típica tiara que ela usava, fina e de cor preta, era quem dava uma das características mais famosas dela. Tão linda.

Ela tremia em seu peito, balançava a cabeça de um lado a outro, até que por fim espirrasse. Adorava o som. E como esperado, ela se envergonha, encolhia-se mais. Parker não segurou a breve e cansada risada, o que fez com que levasse um pequeno tapa no braço.

Tinha certeza que ela também estava sorrindo.

“Peter, eu tenho que ir...”

“Sabe que não precisa, né?... ainda tá cedo. Fica mais um pouco. Fica comigo”

Ele a pressionou um pouco mais, juntando-a ainda mais perto dele. Sua voz estava cansada, pesada. Tinha muito sono. A quanto tempo não tinha uma noite decente?

“Eu sempre estou com você. Sempre. Mas uma hora ou outra você vai ter que me soltar... e me deixar ir...”

“Não está nos meus planos...”

“Peter?... sabe que meus pais não gostam que eu chegue tarde em casa... Peter?...”

“Hum?...”

Ela demorou em responder, mas ainda assim a esperou. Aguardou seu silencio prolongado, no entanto, era somente isso... silêncio.

“Gwen?”

Ele a chamou.

O silêncio reinou novamente. Ainda estava a sentindo perto, como uma memória distante que a noite chuvosa o tinha presenteado. Ele não ousou abrir seus olhos, não mesmo. A única coisa que fez foi abraça-la o mais forte que conseguia, embriagar-se com seu doce aroma e permitir ser tomado pela respiração quente que vinha contra seu rosto.

Era só o que precisava.

“Obrigado. Eu te amo, Gwen... eu te amo... “

Tão pesado. Tão cansativo. Tão distante.

Agradecia a chuva por aquilo. Maravilhosa chuva, trazendo as maravilhas do céu. As mudanças do estado físico. Evaporação. Para então se tornar liquido mais uma vez, e cair. Molhando toda a terra e construtos em volta. Incrível processo da natureza.

Espalha aquele cheiro... Único.

Notas finais
Obrigado aos leitores que chegaram até aqui, espero realmente do fundo do coração que tenham gostado. E apesar do capítulo ser único eu ainda pretendo postar mais sobre o personagem. Críticas são sempre bem vindas.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!