Let it snow, Jack
1 Capítulo Único
Notas iniciais
E para todos os outros leitores, também espero que gostem! Eu amei muito escrever essa one ♥
Beijos!
Dezembro de 2003
Jack Frost havia acabado de fazer nevar em Cleveland. Flocos brancos caiam na madrugada do dia 21 de Dezembro de 2003, cobrindo o chão como um grande tapete de algodão. Estava cansado da viagem e era tarde da noite, então acomodou-se no parapeito da janela da casa mais próxima. Tinha dois andares e era a penúltima da rua. Assim como todas as outras casas da vizinhança, estava com todas as luzes apagadas. Jack encostou-se na janela e espiou para dentro do quarto. Era rosa-chá, com desenhos de laços e flores nas paredes, ursinhos e bonecas nas prateleiras, um lençol cheio de babados e uma garotinha ruiva de aparentemente seis anos dormindo tranquilamente na cama. O garoto desenhou flocos de neve na janela da pequena menina até adormecer.
Porém, acordou horas depois. A noite ainda estava escura, o que realmente o despertou foi o pranto da menina. A pequena ruiva se remexia na cama e gritava baixinho. Jack se ajeitou na beirada da janela e acabou chamando a atenção da menina para si. Ainda com lágrimas na bochecha, ela o encarou, tentando entender quem era o estranho e o que fazia ali. Caminhou com suas perninhas e segurando um urso de pelúcia marrom até a janela, a abrindo.
— Moço, por que você tá aí fora? Você não tá com frio?
— Não.
— Eu posso pedir pra mamãe te dar um cobertor.
— Não precisa, obrigado — ele disse automaticamente e só então se deu conta de que a menina conseguia o ver — Você tá me vendo?
— Por que eu não estaria? — ela perguntou enxugando as lágrimas com a mão do ursinho — Espera... Você é o Jack Frost, não é? Por isso que não está com frio.
— Você, você acredita em mim? — ele disse surpreso quando a menina tocou o indicador em seu braço gelado. Muitas crianças não acreditavam mais na história do menino da neve.
— Claro! Mamãe sempre conta sua história pra mim. Como você faz nevar dos lugares e... Ei, você trouxe neve pra cá?!
— Sim — ele respondeu animado com a ideia de que aquela pequena criança acreditava nele — Por que está chorando?
— Eu tive um pesadelo — ela respondeu fazendo um biquinho — Que o bicho-papão estava embaixo da minha cama. Você acredita em bicho-papão?
— Deixe-me ver — ele disse colocando os pés para dentro do quarto e caminhando até a cama da menina. Agachou-se e levantou os lençóis, vendo embaixo da cama que não havia nada lá além de um par de pantufas rosas — Acredito, mas olha, ele definitivamente não está aqui.
— Você tem certeza, moço? — ela perguntou com os grandes olhos azuis cheios de lágrimas.
— Sim.
— Mas eu tô com medo...
— Como é seu nome? — ele perguntou quando ela voltou a deitar na cama.
— Margo — ela respondeu.
— Olha, Margo, não precisa ter medo. Eu vou ficar do lado de fora da sua janela o resto da noite, ok? Pra ter certeza que o bicho papão não vai aparecer.
— Você promete?
— Sim.
— Então boa noite, moço. Jack.
— Boa noite — ele respondeu sentando-se ao lado da janela, junto à neve que caia.
Nem Jack Frost nem Margo Elliot sabiam, mas aquilo era o começo de algo muito bonito.
*****
E então, ambos, Jack e Margo, continuaram se vendo todo ano, no primeiro dia de neve em Cleveland, sempre por volta do Natal. Ele sempre voltava a casinha azul claro onde a menina ruiva morava, passava pela janela dela e soltava um pequeno floco de neve, seguido de uma risada alegre de Margo. Poucas coisas na vida alegravam tanto Jack como saber que uma criança acreditava em sua existência, então a simples presença de Margo ali era uma prova viva de que sua história ainda não havia acabado.
Dezembro de 2006
Era véspera de Natal e Jack ainda estava em Cleveland. Passara os últimos dias se dividindo entre jogar bolas de neve escondido em crianças que brincavam na rua e em construir bonecos de neve “fantasmas” pela cidade (“Quem construiu esse boneco?! Foi você? Não, não fui eu! Jesus, Maria, José, é amaldiçoado! ”). Já se passava das nove da noite quando ele ouviu um barulho da janela de Margo.
— Psiu! Jack! — era a voz da menina que sussurrava.
Ele se virou em sua direção e subiu até o parapeito da janela.
— Feliz Natal, Jack! — ela disse abrindo a janela e o mesmo percebeu que ela continha um prato embrulhado num pedaço de pano — Peguei umas comidas pra você, espero que você goste. Eu que ajudei mamãe a fazer o cheesecake.
— Então deve estar uma delícia — ele disse pegando o prato e rindo com a cara de orgulhosa da menina que tinha, agora, seus nove anos — Feliz Natal, Margo. Desculpe, mas não tenho nada para te dar.
— Você já deu neve.
— Verdade.
— Você acha que o Papai Noel vem hoje? — ela perguntou com seus olhinhos azuis esperançosos.
— Sim, sim — ele assentiu — Não posso estregar a surpresa, mas dei uma espiada no seu presente e acho que você vai gostar.
— Jack?
— Oi?
— Você promete que vai continuar vindo todo ano?
— Você promete que vai continuar acreditando em mim? — ele perguntou olhando para a garota que ele considerava uma irmã.
— Prometo.
— Então eu também prometo.
Dezembro de 2008
Margo riscou o dia 21 no calendário assim que acordou. Na folha de papel tinha um pequeno floco de neve desenhado e embaixo escrito “Inverno”. Era o dia que ela veria novamente seu amigo, e ela tinha muitas novidades desde a última vez que se viram. Guardou o calendário na escrivaninha e caminhou até a janela, abrindo a cortina para perceber que seu amigo já a esperava no parapeito.
— Jack! — ela disse animada abrindo a janela.
— Olá, Margo — ele respondeu com um sorriso.
— Tenho uma novidade pra te falar! Mas espera, você não vai fazer neve hoje?
— Vou. Na verdade, imaginei que você queria estar acordada pra ver, então te esperei.
— Fez bem — ela respondeu sentando-se ao seu lado no parapeito — Mas deixa eu te contar a novidade antes: Vou ganhar um irmãozinho! Minha mãe já está com cinco meses!
— Meus parabéns! — ele disse contagiado pela alegria da menina.
— Você acredita nisso?! Eu com quase doze anos e um irmãozinho?! Ai Jack, eu vou ler todas as suas histórias pra ele, e contar das suas visitas... Assim ele já vai crescer acreditando em você, que nem eu.
— Isso é ótimo, Margo — ele respondeu.
— Você também vai ser amigo dele?
— Claro que sim.
— Então, agora eu quero ver neve. Faça nevar, Jack!
Dezembro de 2010
— Hey, Jack! — Margot disse aparecendo na janela.
O rapaz deixou de jogar bolas de neve nas pessoas que passavam nas ruas e subiu até a janela.
— Você realmente pode fazer isso? — ela perguntou o encarando.
— Jogar neve nas pessoas? É meio que meu trabalho.
Ela riu e ele então notou que ela segurava a mão de uma criancinha rechonchuda e com grandes bochechas vermelhas.
— Ah, Jack, esse é meu irmãozinho que eu te falei, o Marcus. Marcus, você consegue ver ele?
Poucos segundos de tensão se seguiram, onde Margo esperava ter feito um bom trabalho em fazer o irmão acreditar no amigo e Jack esperava que mais uma criança acreditasse nele. O pequeno dos cabelos marrons abriu um alegre sorriso e bateu palminhas.
— Jackie — ele disse com sua vozinha de bebê.
— Acho que fiz um bom trabalho como irmã mais velha — Margo sussurrou.
— Ei, garotão — Frost disse bagunçando o cabelo de Marcus e então pegou algo no bolso de seu casaco — Ahn, 27 de Dezembro, certo? Feliz 14º aniversário, Margo.
— Jack, não precisava comprar nada! — ela disse recebendo o pacote.
— Ér... Meio que eu achei o saco de presentes do Papai Noel semana passada.
— Você roubou? — ela sussurrou a última palavra.
— Considere como um empréstimo.
Ela riu e desembrulhou o presente, revelando uma delicada caixa de música azul-turquesa.
— Oh, Jack, é linda.
— Fico feliz que gostou. Anh, tenho que ir agora, ok? Feliz aniversário, Go.
— Até mais, Jack Frost.
Dezembro de 2011
— Feliz Natal, Margo — Jack disse entregando uma embalagem vermelha com uma grande fita verde para a menina.
— O que é isso? — ela perguntou rindo do garoto, que vestia uma enorme blusa vermelha e calças verdes apertadas, com um gorro verde e vermelho cobrindo os cabelos cinza.
— Papai Noel descobriu que eu peguei aquele presente ano passado — ele disse se referindo à caixa de música que ele havia dado a ela de aniversário — Então, eu fui obrigado a ajudar ele a entregar os presentes na véspera do Natal. Tá aí o seu.
— Obrigada, Jack. Anh, dessa vez eu tenho um presente pra você — ela disse caminhando até sua bancada e pegando um pequeno pacote — Não é muito, mas espero que goste.
— Não precisa me dar nenhum presente, Go.
— Por favor, aceite — ela insistiu — Já não basta você só vir aqui uma vez no ano, pelo menos assim sei que lembrará de mim pelo resto dos meses.
O rapaz pegou o embrulho e o abriu. Dentro de uma pequena caixinha tinha uma pulseira de couro com um único pingente, um floco de neve.
— E então...? — ela perguntou o encarando.
— Obrigado, Margo. Sério mesmo. Não sei nem como agradecer direito.
— Tudo bem, fico feliz que tenha gostado — Margo disse com um sorriso — Eu vou tentar arranjar comida pra você lá embaixo, você tem tempo?
— Um pouco.
— Ótimo, você tem que provar o cheesecake — ela disse caminhando em direção à porta do quarto — Dessa vez fui eu quem fiz.
— Sim, eu tenho que provar — ele assentiu sentando-se na beirada da cama.
Jack olhou ao redor. Assim como a própria Margo havia mudado durante os anos, seu quarto também estava diferente. As paredes não eram mais rosa chá que nem antigamente, agora tinham eram pintadas em um tom de azul claro e em uma delas várias fotos de Margo foram coladas. Fotos dela com os pais, o irmão, meninas que ele supôs serem amigas dela.
— Marcus insistiu em vir também — ele ouviu a voz de Margo entrando no quarto e logo viu seu irmão, agora com pouco mais de dois anos, ao lado dela.
— Jack! — ele exclamou e saiu correndo em direção ao rapaz, que o pegou no colo e sentou-o em suas pernas.
— Ei, garoto! — Jack disse bagunçando os cabelos dele — Como você cresceu desde a última vez que eu te vi!
— Você podia ver a gente mais vezes — o menininho disse com os grandes olhos infantis o encarando.
— Não é tão fácil assim, campeão. Acredite, se eu pudesse, eu viria. Mas ei, adivinha o que o Papai Noel mandou eu te entregar? — ele disse mostrando uma enorme caixa com um embrulho azul.
— Meu presente?!
— Isso! Soube que você andou sendo um bom garoto durante o ano...
— Sim! Eu fui! — Marcus disse pegando o presente e sentando-se no chão pra rasgar o papel de embrulho.
Margo sentou-se ao lado de Jack na cama e o entregou um prato com comida.
— Aqui, come. Você ainda deve ter muitas casas pra visitar hoje.
— Pior que sim. Obrigado por tudo, Go. Pelo presente, pela comida.
— Você sabe que não precisa agradecer. Mas e então, o cheesecake?
— Uma delícia.
Dezembro de 2012
— Que estranho — uma amiga de Margo comentou olhando pela janela.
— O que? — outra amiga perguntou.
— Não nevou esse ano. Quer dizer, já é dia 27 e ainda não nevou.
— Mas vai nevar — Margo disse para as duas.
— Como pode ter tanta certeza?
— Eu... — ela pensou em Jack — Eu só sei. Vai nevar.
As duas amigas trocaram um olhar desconfiado e depois deram de ombros. Era o décimo sexto aniversário de Margo e elas iam fazer uma festa do pijama na casa da mesma, só as três. Eram sete da noite, elas haviam acabado de comer pizza e iam assistir filmes, comer mais e conversar até pegar no sono.
Margo não sabia a hora exata que acordou, mas sabia que já era tarde da madrugada quando ouviu barulhos na janela de seu quarto. Abriu os olhos para se deparar com Jack Frost jogando bolas de neve em sua janela.
Bolas de neve. Havia nevado. É claro que ele iria aparecer e fazer nevar.
Ela caminhou até a janela e a abriu, fazendo uma brisa fria soprar no quarto. Enrolou-se numa manta e atravessou a janela junto a Jack. Tudo do lado de fora já estava branquinho.
— Você demorou pra vir esse ano — ela sussurrou enquanto se sentava ao lado dele no parapeito da janela, a fechando atrás de si para não acordar as amigas.
— Tive uns probleminhas em outras cidades. Foi mal a demora.
— Sem problemas — ela ofereceu um pedaço de sua manta para ele num impulso, sem lembrar que o mesmo provavelmente não estava com frio. Porém, dessa vez, ele aceitou a manta, a jogando por cima dos ombros.
— Então, 16 aninhos — ele comentou — Como se sente?
— Feliz — ela respondeu com um sorriso.
— Não tive como trazer nenhum presente, desculpa.
— Jack, já disse que não precisa. Você fez nevar no meu aniversário, caramba. Isso é mais que suficiente pra mim.
— Você merece muito mais que isso — ele respondeu a olhando com um sorriso no canto do rosto.
Os dois se olharam por um instante na noite fria de dezembro quando ele percebeu um brilho prateado no colo de Margo.
— Bonito colar — ele disse.
— Ah, obrigada — ela respondeu passando a mão no pingente, um grande M brilhando.
— Foi presente?
— Sim. Do meu, anh... Namorado.
— Namorado? — o outro repetiu com as sobrancelhas arqueadas.
— Hum, sim... A gente começou a namorar esse verão, por isso não tinha te falado antes.
— E ele é legal com você?
— Ah, sim, muito legal. Acho que você gostaria de conhecê-lo um dia se... — ela parou sua frase de repente.
— Se ele pudesse me ver — Jack completou num sussurro.
— Desculpa, eu não queria...
— Tudo bem.
— Jack, sério, eu sinto muito.
— Está tudo bem mesmo. Afinal, que outra pessoa de 16 anos acreditaria em Jack Frost além de você?
— Ei, não é assim... — ela tentou se redimir.
— Hum, Go, eu tenho que ir agora, ok? Devido a esse problema que eu tive em uma cidade, tenho muito trabalho atrasado — ele disse se levantando — Mas foi bom te ver. E, Go? Feliz aniversário.
— Você tem mesmo que ir?
— Sim.
— Tudo bem — ela respondeu e se levantou com a ajuda dele — Obrigada por ter vindo. E faça nevar, Jack.
— Farei — ele respondeu se despedindo e ela deu um beijo em sua bochecha, seguido de um tchau.
Quando Margo virou-se para abrir a janela percebeu que Jack havia feito um desenho lá. Um grande M de flocos de neve em sua janela.
Dezembro de 2013
Jack olhou pela janela do quarto de Margo e percebeu que o mesmo estava vazio, ainda que fosse 21 de dezembro e os primeiros flocos de neve começassem a cair. Sentou-se no seu costumeiro lugar, o parapeito da janela. Jogava bolinhas de neve na calçada quando avistou a menina chegando em casa, enrolada em um grosso casaco e com a cabeça baixa.
— Ei, Margo! — ele chamou do alto da janela.
— E aí, Jack — ela respondeu e ele percebeu que sua voz estava trêmula e ela não soava tão animada.
— Tá tudo bem? — perguntou preocupado.
— Sim. Eu vou subir pro meu quarto, ok? Chego já aí.
Ele assentiu em silêncio quando a menina deu as costas e entrou em casa. Poucos minutos depois ela apareceria no quarto, porém eram minutos de mais para quem só havia subido um andar.
— O que aconteceu? — ele perguntou quando Margo abriu a janela para ele entrar no quarto.
— Anh? — ela se fez de desentendida sentando-se na cama, sendo logo seguida pelo rapaz.
— Você demorou muito mais tempo do que uma pessoa levaria para subir um lance de escadas — ele apontou a encarando — Espera, você estava chorando?
— O quê? — ela perguntou se afastando e abaixando o rosto — Claro que não est... Droga. Estou chorando de novo. Eu e meu terrível defeito de ter cachoeiras oculares.
— O que aconteceu, Go? — Jack repetiu sua pergunta, enxugando uma lágrima em sua bochecha.
— Brad acabou comigo. Brad é meu namorado. Era. Tanto faz — ela respondeu encarando o chão.
— Oh... Eu, anh, sinto muito.
— Tudo bem — ela disse fungando.
— Foi um término, hum, amigável? — ele não sabia a palavra certa, essa fora a única que lhe apareceu na mente.
Margo balançou a cabeça negando e Jack segurou sua mão.
— O que ele fez?
— Ele é um canalha — ela disse e depois suspirou — Eu descobri que ele tava ficando, ou sei lá, com uma menina do nosso colégio.
— Eu realmente sinto muito — Jack respondeu — Não fica triste, não gosto de ver você triste.
— Obrigada, Jack — ela disse com um abraço — E, anh, desculpa por isso. Quer dizer, você só vem uma vez por ano e eu ainda te espero chorando por um ex-namorado. Sou uma péssima amiga.
— Claro que não — Jack disse passando uma mão por seu braço.
— Hum, Jack? Se não se importa, eu preciso muito de um banho quente e uma xícara de chá agora...
— Ah, sim, claro — ele entendeu a deixa, se levantando da cama e indo até a janela.
— Mas eu te vejo amanhã? — Margo disse.
— Sim — ele respondeu saindo da janela — Até, Go.
No outro dia, quando Margo saiu para comprar pão para sua mãe, passou na frente da casa de Brad, uma vez que era caminho, e então se surpreendeu com a cena que viu: justo na frente da casa do rapaz tinha uma quantidade exagerada de neve por todo canto. Neve cobria a porta de entrada, todo o caminho, e havia quase soterrado o carro que estava estacionado.
Ela abriu um sorriso e olhou pra árvore na calçada, onde encontrou Jack pendurado num galho.
— Obrigada — ela disse.
— Acredite, foi meu prazer.
Dezembro de 2014
— Trouxe seu presente de Natal — Jack disse quando Margo juntou-se a ele no parapeito da janela — A Fada me ajudou com esse, na verdade.
Ele entregou um pequeno embrulho dourado pra ela, e a mesma abriu no mesmo instante, revelando uma delicada pulseira de prata com um pingente em forma de floco de neve.
— Para que você lembre de mim mesmo quando não for inverno — ele disse puxando a manga de seu casaco e revelando a pulseira de couro que ele havia ganhando da menina anos atrás.
— É linda, Jack — ela falou com um sorriso no rosto.
— Fico feliz que você tenha gostado, Go — Jack respondeu a ajudando a colocar o presente no pulso.
— Ah, tenho uma novidade! — Margo disse empolgada — Finalmente aprendi a dirigir!
— Ah, sério? Que legal! — ele disse sorrindo.
— Sim. Ei! Você tem que andar comigo! Vem, vou te dar uma carona — ela disse se levantando no parapeito.
— Anh, carona pra onde?
— Qualquer canto — ela respondeu entrando no quarto — Te encontro na garagem, ok? Vou pegar um lanche na cozinha. Você tá com fome? Ah, deixa, vou pegar pra você também.
Jack nem teve tempo de responder, a menina já foi saindo do quarto. Ele desceu até a garagem e a ficou esperando do lado de fora, sentado no meio fio. Poucos minutos depois Margo reaparece com uma mochila e pacotes na mão.
— Preparado para a melhor carona da sua vida, Jack Frost? — ela perguntou com um sorriso animado no rosto quando os dois entraram no carro.
— Eu vou precisar de um capacete de segurança? — Jack perguntou colocando os cintos.
— Ei, eu dirijo bem! — ela reclamou rindo.
— Então, para onde vai me levar?
— Pra um dos meus lugares favoritos na cidade — ela respondeu — O farol.
— Ok — foi a única resposta de Jack.
Poucos minutos depois a garota estacionou o carro em frente a uma construção grande pintada de branco e preto. Estava vazia, o que era raro, e talvez fosse explicado pela neve que se acumulava no chão.
Margot e Jack saíram do carro e caminharam até o farol, deixando suas pegadas brancas marcadas na neve. Ela o guiou para dentro do farol e os dois subiram as longas escadas em silêncio, para por fim chegar ao topo, perto de onde a luz saia. Ali era coberto, portanto não havia neve no chão. A menina caminhou até um canto e sentou-se, colocando sua mochila e os pacotes no chão, sendo seguida por Jack, que se sentou à sua frente. Estava frio, mas Margo não ligava. Estava bem agasalhada e, afinal de contas, havia aprendido a fazer do inverno sua estação favorita.
Ela pegou os sanduíches de atum com maionese que trouxera, junto com duas garrafinhas de suco, e colocou em cima de uma pequena toalha no chão. Cada um se serviu e comeram em silêncio. Não um silêncio estranho, mas sim um que trazia calma.
— Então, esse é seu lugar favorito da cidade? — Jack perguntou, quando os dois acabaram de comer, admirando a vista.
— Sim, eu acho. Gosto de vir aqui, olhar a cidade de cima. Mostra pra gente o quanto somos pequenos, e o mundo grande, e me faz pensar que ainda tem muita coisa que eu não fiz na vida.
— Tipo?
— Tipo, eu nunca tinha feito um piquenique num farol em um dia de inverno.
Jack deu um pequeno sorriso olhando a garota a sua frente.
— Eu acho que há muitas coisas que ambos não fizemos ainda.
— Me diz sobre você.
— Ah, não sei — ele respondeu — Eu acho...
Novamente, ele olhou pra ela. Margo Elliot havia mudado tanto desde que ele a conhecera. Não só fisicamente, ainda que sua aparência estivesse completamente diferente, apenas a cor dos olhos e do cabelo haviam permanecido. Seus traços estavam mais finos, ela tinha aparência agora de mulher, e não de menina. Ainda era mais baixa que Jack, mas toda sua estrutura havia acompanhado seu crescimento. Margo havia amadurecido, externa e internamente. Não era a mesma garotinha inocente de anos atrás, a garotinha que Jack tinha um carinho de irmão. Ela havia se tornado uma mulher, conhecido um punhado de coisas do mundo. Malícia. Beijos. Sarcasmo.
Enquanto Frost a olhava, a mesma o encarava de volta. A aparência do rapaz era a mesma: cabelos cinza, embora tivesse o rosto e o corpo de um rapaz de aproximadamente dezoito anos, olhos de um azul bem claro. Entretanto, Margo o via agora com outros olhos, outras lentes. Não era mais a mesma garotinha, e não o via como um moço mais velho que vinha a cumprimentar no inverno. Ela não sabia o que era, mas era mais que isso.
Jack Frost não sabia muito bem o que se passava em sua cabeça antes de dizer a frase seguinte, mas sentia-se hipnotizado pelos olhos de Margo. Não sabia muito bem o que sentia, e mesmo assim as palavras saíram de sua boca:
— Eu acho que... Que nunca beijei uma garota num farol num dia de inverno.
E então, como numa dança perfeitamente sincronizada, ainda que sem ensaios, os dois foram se aproximando, até que não havia mais distância entre seus rostos. Era um beijo calmo. Uma mistura de frio e quente. Não durou muito, porém. Segundos depois os dois estavam novamente separados.
— Go, eu... Eu sinto muito — ele disse se afastando.
— Não, Jack, não precisa se desculpar.
— É só que, não sei, as coisas estão tão diferentes.
— Como se tudo tivesse mudado — ela completou num sussurro.
— Sim.
— Mas isso não significa que a mudança tenha sido ruim — Margo disse antes de se aproximar novamente de Jack.
E, dessa vez, o beijo não demorou apenas poucos segundos.
22 de dezembro de 2015
Margo olhou alegre para a janela de seu quarto quando viu que os primeiros flocos de neve começavam a cair na manhã de dezembro. Brincava com seu irmão, que já tinha sete anos, quando ouviu uma bola de neve se espatifando na janela. No mesmo instante, os dois correram para o local e Margo abriu a janela deixando o visitante entrar.
— Jack! — ela disse animada o abraçando, e então deu-lhe um beijo.
No inverno passado, em uma ida ao farol, os dois amigos de longa data haviam começado a namorar. Durante aquela estação inteira Jack passara em Cleveland – fazendo até com que aquele tivesse sido o inverno mais rigoroso da cidade em anos. É claro que não era uma relação fácil, afinal de contas, apenas algumas crianças e Margo podiam ver Jack andar pelas ruas, e além disso tinha o fato de que o mesmo estava sempre viajando. “Há sempre um lugarzinho no mundo que precisa de neve, Go”, ele dizia, para escutar a mesma resposta sempre: “Então faça nevar, Jack”.
Contudo, Jack Frost inventava mil e uma desculpas para poder ir para Cleveland durante as outras estações do ano, e poder se encontrar com Margo. E suas desculpas iam desde trabalhos voluntários para ajudar a Fada dos Dentes em suas entregas, a ajudar o Coelho da Páscoa – quem diria! – a entregar todos os ovos em sua data comemorativa.
Então, ao seu jeito, os dois estavam juntos e felizes.
— Senti sua falta — ela disse quando se separaram.
— Sai, Go, minha vez de falar com ele — Marcus disse se colocando entre a irmã e o amigo.
— Tudo bem, campeão, vou falar com você também — Jack disse se ajoelhando ao lado do menino — Tudo bom com você? Ah, puxa, ainda não consigo acreditar em como você está grande, garoto!
— A gente pode brincar na neve? — Marcus perguntou para os dois — Nós três, de bola de neve? Por favor!
— Claro, Marcus — Margo respondeu e o menino comemorou — Por que não vai pegar seu casaco e gorro no seu quarto?
O menino saiu correndo do quarto da irmã e deixou os dois sozinhos no quarto.
— Também senti sua falta — Jack respondeu a segurando pela cintura — Ah, tenho uma surpresa pra você. Amanhã, de manhã, no farol.
— Hum, surpresa? Tem dica?
— Você vai gostar — ele prometeu.
— Então estarei lá — Margo respondeu com um beijo.
Os dois passaram o dia juntos, brincando na neve com Marcus, comento um lanche que Margo preparara, até assistiram um filme que Marcus havia implorado para ver.
— Então, te vejo amanhã? — Jack perguntou se despedindo quando a noite chegou.
— Sim, você me vê amanhã — ela respondeu.
O rapaz virou-se para a janela, preparando-se para sair, quando ouviu Margo falar novamente.
— Jack, espera!
Ele fechou a janela e se virou para a ruiva.
— Eu sei que você não tem pra onde ir, e que você não liga muito pro frio, mas aqui dentro tá quente e protegido e... Fica?
Ele avaliou sua proposta por alguns segundos e respondeu:
— Claro que sim.
Deitaram-se na cama de solteiro de Margo, ela aninhada em seu peito e ele com um braço ao redor do corpo dela. Neve caia do lado de fora, e do lado de dentro eles dormiram juntos. Dormiram, apenas. No sentido puro e simples da palavra. Aproveitando a companhia um do outro.
23 de dezembro de 2015
No dia seguinte, Jack levantou-se cedo. Sem acordar Margo, saiu do quarto rumo ao farol. Havia olhado no relógio de cabeceira dela, e ainda eram sete horas da manhã, ele teria tempo suficiente para preparar a surpresa que havia planejado para ela.
Assim que chegou no local desejado, subiu todas as escadas e caminhou até a área coberta, achando lá uma bolsa de lona que ele havia deixado no dia anterior. Abriu a bolsa, tirando de lá todos os objetos que trouxera: velas, rosas, pétalas de rosa. Fada havia lhe contado que garotas gostam disso.
Espalhou as velas acesas por todo o perímetro do farol, junto com as pétalas vermelhas. Estendeu um pequeno lençol branco, colocou almofadas em cima, junto com várias mantas ao redor. No centro de tudo, uma caixinha de veludo vermelha, seu presente de Natal.
Quando tudo ficou pronto, Jack sentou-se no chão, encostado à grade do farol, e aguardou Margo chegar. Eram quase dez horas, então ela provavelmente apareceria em poucos minutos. Estava nervoso, e ao mesmo tempo animado. Nunca se imaginou fazendo isso por uma garota, e a sensação era boa.
Pouco tempo depois, ele avistou o carro de Margo se aproximando do farol. E foi aí que aconteceu.
Foi tudo tão rápido, e ao mesmo tempo parecia que estava acontecendo em câmera lenta. O barulho do freio. O carro derrapando, girando na neve branca. Um animal correndo no meio da pista. Jack gritando por Margo. O carro capotando. Os olhos do rapaz cheios de lágrimas enquanto ele descia do farol.
— MARGO! — ele gritou se aproximando do carro — Margo, você pode me ouvir?!
Num esforço rápido ele arrancou a porta de ferro do carro, e encontrou Margo de cabeça para baixo, presa pelo cinto. Delicadamente, tirou a garota de lá e a colocou no chão, sobre a neve.
— Margo, você consegue me ouvir?! — ele gritava com as lágrimas escorrendo pelo rosto — MARGO!
— Jack — ele ouviu ela sussurrar seu nome e a encarou. Muito sangue sujava o rosto da menina, contrastando com o branco da neve e de sua pele clara. Ela falava com dificuldade e respirava ofegantemente.
— Estou aqui, Go — ele respondeu segurando as mãos dela — Estou aqui.
— Jack... Eu tô com frio, Jack — ela sussurrou olhando para um ponto sem foco — A neve tá fria.
— Margo, por favor, fique bem, fique comigo — ele suplicava olhando o rosto machucado da amada.
— Me abrace — ela pediu e o rapaz a envolveu em seus braços, aquela figura frágil e quente, lentamente esfriando — Estou com frio.
— Você quer que eu diminua a neve? — ele perguntou soluçando — Eu posso fazer isso, Go, você sabe que sim. Mas não me deixe, Go!
— Não. Não pare a neve. Estarei quente quando chegar em casa. Deixe nevar, Jack. Faça nevar, Jack — ela respondeu, suas palavras sussurros cada vez mais baixos. E então, ela começou a tossir, e sangue saia de sua boca.
— MARGO! Não me deixe, Margo, você é forte, por favor... Eu te amo!
— Deixe nevar, faça nevar. Gosto da neve. Deixe nevar, Jack — ela sussurrou enquanto ele limpava o sangue em sua boca. Depois da última palavra dita, seus olhos se fecharam e ele sentiu o corpo da garota em seus braços desfalecer. A luz havia apagado junto com o fogo.
— Não! Não, não, não, não! Margo! Volte pra mim — ele suplicava curvando-se em cima de seu corpo inerte.
28 de dezembro de 2015
— Imaginei que estaria aqui — Marcus disse caminhando até Jack Frost, que estava sentado ao lado do túmulo de Margo Elliot.
— Fico pensando se foi minha culpa.
— Ei, Jack — Marcus disse sentando-se ao lado do amigo — Sei que sou novo e sei que não sei de muita coisa, mas sei que Margo gostava muito de você, e não iria quere te ver se culpando pelo acidente dela. Não foi culpa sua. Ouvi papai conversar com a polícia e foi culpa de um animal que passou na estrada. Por favor, não fica assim.
— Obrigado, Marcus — ele respondeu bagunçando o cabelo do menino, como sempre fazia.
— Eu vim te entregar isso. Tava no quarto da Margo, eu peguei antes que meus pais viessem perguntar quem era Jack — ele disse entregando um pacote junto com um envelope.
— Valeu de novo, campeão.
— Jack, me promete uma coisa?
— O quê?
— Você promete que vai continuar me visitando todo ano?
— Você promete que vai continuar acreditando em mim?
— Prometo.
— Então eu também prometo — ele respondeu com um sorriso, lembrando-se da garotinha ruiva que anos atrás havia feito a mesma pergunta a ele.
Marcus foi embora e deixou Jack sozinho no cemitério. O rapaz pegou o envelope, endereçado a ele, e o abriu, tirando uma carta de lá.
“Cleveland, Dezembro de 2015
Querido Jack
Estou escrevendo essa carta pra te agradecer por tudo que fez por mim. Desde aquele primeiro dia que eu tive um pesadelo, até ontem, quando você brincou com Marcus até ele dormir. Agradecer por todos esses anos, que foram mais que especiais, e por esse último ano, que foi maravilhoso. Com você, vivi experiências que já mais havia pensado. Aprendi a acreditar, a ver o mundo com novos olhos e a viver mais.
Ano passado, no farol, eu disse que ainda haviam muitas coisas que eu queria fazer. E, bom, Jack, eu te digo que ainda há. E muitas delas quero fazer com você. E muitas coisas eu também já fiz – por exemplo, namorar um cara que, LITERALMENTE, faz nevar e me dá um frio na barriga. Não me arrependo de um segundo se quer que passei com você.
Eu te amo, Jack, por esses invernos e por todos os outros que ainda passaremos juntos.
Faça nevar, Jack!
Com amor,
Margo (ou Go, como você preferir)
Ps.: espero que goste do presente!”
No final da carta, Jack percebeu que lágrimas escorriam pela sua bochecha. As enxugou e abriu o presente que ganhara. Numa pequena caixinha estavam duas correntes de prata, cada uma com um pingente, um J e um M. Ele abriu um sorriso pequeno e tirou o M de uma corrente, o juntando ao J, e em seguida colocando no próprio pescoço.
— Eu amei o presente, Go — ele sussurrou olhando para o túmulo ao seu lado, com rosas vermelhas recém colocadas por ele — Eu amei. E eu é que agradeço.
Notas finais
bom, realmente espero que tenham gostado, beijos beijos e feliz 2016!
liv
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