Notas iniciais
Dos meus 10 leitores, a única que comentou continuamente até agora foi a Micht (e esse capítulo é pra você, amor

O ar parecia ter escapado dos pulmões do elfo. A flecha de ouro branco apontada para o seu nariz parecia tão rígida como seus maxilares, que quase estalavam devido à pressão que ele colocava.

Quis tu, elf?¹ — Disse a voz soou aveludada e sombria, o sotaque como os dos elfos do oeste.

Legolas sentiu as sobrancelhas se curvarem para baixo e apertou os dedos ao redor do arco, enquanto uma sensação pesada lhe preenchia o corpo.

Respondendum et morietur.²

Legolas não tinha um pingo de noção do que o elfo à sua frente dizia. Apenas tinha os olhos vidrados na figura Tenebrae: os cabelos curtos e negros, assim como os olhos e as vestes, a pele era pálida e a face carrancuda, cada traço era negativo ao mesmo tempo que belo. Além de, claro, a arma típica, feita de ouro.

Piscou uma, duas, três vezes, pensando que talvez as aparências mudassem quando abrisse os olhos, mas tudo fora em vão e o peso apenas aumentava.

— É um elfo silvestre — ouviu uma outra voz vinda do seu lado direito. — Não fala a nossa língua — o sotaque se repetiu, agora numa voz feminina e entendível. Legolas apenas desviou o olhar, sem mudar de posição, enquanto a dona da voz saía de trás da árvore que a flecha do seu suposto amigo havia sido cravada, retirando a mesma do tronco.

A elfa tinha a aparência semelhante do outro que lhe apontava a arma, embora seus traços fossem bem mais delicados, os cabelos tão compridos que quase passavam do quadril e um pouco mais baixa. Ela segurava uma faca brilhante e Legolas, que sentia como se a própria energia estivesse sendo sugada, podia ver o fio de um arco contornando seu tronco.

— Legolas! — Ouviu a voz de Gimli ao longe. Os três elfos viraram a cabeça na direção do som. — Nós não conseguimos achar aquele cervo, mas nós… Oh! — Gimli apareceu, parando de supetão ao ver a cena em que o amigo se encontrava. Eddard apareceu logo atrás dele, segurando alguns esquilos selvagens pelo rabo.

— Que pena. Nunca havia caçado um elfo silvestre antes — o arqueiro moreno abaixou a arma e a colocou nas costas. — Gimli! — Ele foi até o anão, saudando-o com alguma espécie de cumprimento. — E… Ed?

— Sim, senhor. É um prazer revê-lo.

— Revê-lo? — A voz de Legolas saiu em um sussurro, enquanto ele abaixava o arco.

— Achei que iríamos nos encontrar daqui a dois dias — Gimli falou, ignorando Legolas.

— Saímos dois dias mais cedo — a elfa passou por Legolas e cumprimentou Gimli da mesma forma, e quando foi fazer o mesmo com Eddard, desistiu ao ver os esquilos. — Deixamos para depois.

— Gimli — Legolas insistiu em uma explicação, tendo a atenção de todos para si.

— Ah, certo — o anão respondeu. — Esses são Wren e Ethir, filhos de Dolben e Gurwen, reis Tenebrae — apontou para os dois, olhando significativo para o elfo de cabelos dourados.

— Você planejou isso — Legolas disse baixo, apertando os olhos. Gimli sacudiu os ombros levemente, como se não fosse nada demais.

— Me desculpe, eu realmente queria aqueles barris — brincou, fazendo com que os lábios de Legolas se curvassem ainda mais para baixo, uma vez que já eram daquele jeito. — Esse é Legolas, filho de Thranduil, príncipe da Floresta das Trevas — apresentou o amigo para os outros dois. Os Tenebrae se entreolharam rapidamente, com uma leve preocupação tomando conta de si.

— Parece que a nossa caçada vai ficar mais divertida — Ed deu uma risada leve e inocente, atraindo o olhar dos presentes. Ele olhou para baixo, o sorriso desfazendo-se. — Desculpe.

— Fantástico. Agora que todos já se conhecem, sugiro que coloquem as armas em mãos novamente. Três esquilos não alimentarão cinco de nós — Gimli disse, mas ninguém se moveu. — O que estão esperando? Vão, vão! — Ele empurrou as mãos no ar para a direção em que tinha vindo. Eddard foi o primeiro que saiu e logo após, Wren e Ethir, que deram uma última encarada feia em Legolas antes de irem atrás, murmurando coisas na linguagem nativa.

O anão e o elfo ficaram para trás. Gimli estava sentindo uma pontada de vergonha ao olhar para os olhos de Legolas, mas seu ego logo absorveu o sentimento.

— Você fez uma aposta — Gimli falou, deixando a fala que Legolas pretendia soltar no ar.

— Eu achei que iríamos caçar como nos velhos tempos, e você me aparece com dois elfos da Escuridão? — Um Legolas mais pálido que o normal protestou, traduzindo “elfos Tenebrae” para o sentido literal.

— Bolas! Eles não são nada disso. São inofensivos, se quer saber — Gimli balançou o machado no ar, sussurrando a última parte.

— Os seus amigos inofensivos quase me mataram.

— Por favor, Legolas! Você já enfrentou coisas muito piores que elfos — o anão cuspiu, começando a andar juntamente com o amigo.

— Isso é diferente — apontou para os dois que acompanhavam Ed mais na frente. — Parecia que… que eles estavam sugando minha alma.

— Não seja dramático — Gimli rolou os olhos.

Mas, na verdade, ficou um pouco preocupado. Lembrou-se de quando havia estado na Hiberia, logo de quando teve o seu primeiro contato com os Tenebrae. Havia, sim, sentido uma sensação ruim, mas não passava de um sistema de defesa natural daqueles elfos. Aquilo havia passado em algumas horas, mas Legolas parecia extremamente abatido. Talvez ele não fosse tão especial quando colocado perto de outros elfos.

Wren e Ethin, em suas situações, ficaram um pouco apreensivos com a presença de um príncipe da Floresta das Trevas, que, apesar de ter uma ligação com a sua linhagem, era o último lugar que gostariam de estar. Eles sabiam disfarçar bem aquilo e provavelmente não tocariam no assunto enquanto aquela viagem não acabasse. Também estavam sentindo um pouco de rancor de Gimli por não tê-los avisado, embora já soubessem que estariam ali em parte por um aposta. Só não sabia que o adversário era um elfo silvestre.

Wren parou de repente quando ouviu um cervo caminhar por perto, interrompendo a conversa que Eddard e Ethin tinham.

— Cervo — Ethin entendeu alguns segundos depois, virando a cabeça na direção do som.

— O quê? Onde? — O garoto perguntou, sacudindo os esquilos nas mãos.

— Está se aproximando — Ethin respondeu. Tanto ele quanto Wren colocaram os arcos em posição, enquanto Eddard apenas dava alguns passos para trás.

A bela figura do animal se tornou visível depois de algum tempo. Possuía bastante carne pelo que viam, o que se tornou tentador. Apesar disso, a criatura parecia farejar algo de errado. Virava as orelhas pontudas automaticamente, esperando ouvir algo, mas os caçadores se mantiveram imobilizados. O animal trotou de um lado para o outro, enquanto cheirava as folhas. Os dois elfos pareciam esperar a hora certa para atirar.

Tudo pareceu ter ido por água abaixo quando um guinchar extremamente alto ecoou pelas árvores. Olharam para cima, procurando pelo que era, inclusive o cervo.

— Wren, o cervo! — O irmão mais velho avisou, voltando a atenção para o animal que começava a tomar impulso para correr. A elfa endireitou a flecha enquanto um zumbido passou por seu ouvido.

Outra flecha havia atingindo fundo o pescoço do cervo, fazendo com que escorresse sangue do mesmo e ele se contorcesse no chão segundos antes de morrer. Wren se virou bruscamente, olhando para o elfo silvestre, o qual havia atirado.

— Eu ia acertá-lo — irritou-se.

— Não, você não ia — passou por ela sem olhar em sua face. — Procurem um lugar para dormir.

Gimli, que tinha uma expressão nada boa, apenas suspirou e xingou o amigo. Eddard parecia um pouco perdido, mas fez o que Legolas mandou, enquanto Wren olhava para Ethir indignada.

— Parece que agora temos com quem competir, irmãzinha.

Notas finais
¹: Quem é você, elfo? ²: Responda e morra. Queria agradecer mais uma vez a Queen Lilith pela betagem