Notas iniciais
Wow!! Quanto tempo, gente... Acho que todos estão cientes do porquê de minha (longa) pausa na fic... Como de costume, avisei em meu perfil e, também, nas Notas da Oneshot que postei recentemente. Como eu disse para alguns que vieram me perguntar, este capítulo estava, há meses, incompleto no meu computador... Fui escrevendo pouquinho por pouquinho dia sim, dia não, e consegui terminá-lo ontem! Sinto muitíssimo pela demora infinita p uma atualização... Eu realmente não tinha como me dedicar à escrita como eu gostaria... Bem, espero que vocês gostem do capítulo e, por favor, qualquer erro, me avisem! ♥

Rivaille, pela primeira vez em anos, passou a virada de ano ao lado de alguém que não fosse Hanji. Estava com Eren e a família do garoto e estavam todos na casa de um velho conhecido da família, que, inclusive, vinha a ser o pai de Maria e Noel, que Rivaille havia conhecido semanas atrás.

Havia descoberto que Eren não era grande fã da comemoração pela chegada do ano novo. Na verdade, se lembrava de o garoto já o ter falado algo referente a isso há muito tempo. Ele próprio – Rivaille – não fazia parte daqueles que esperavam ansiosamente pela data.

No entanto, achou imensamente curioso – e muito bonito – quando, à 00h do novo ano, Eren olhou para cima, para o céu escuro, fechou os olhos, aspirando o ar lentamente, e manteve-se daquele jeito: quieto, como se sentisse alguma coisa acontecer. Rivaille queria saber o que era, o que se passava pela cabeça do adolescente naquele instante. Perguntou-se se, talvez, ele não estivesse pensando em sua falecida mãe.

“O que está sentindo?” Rivaille perguntou.

Eren abriu os olhos sem pressa e ficou, novamente, a fitar o céu. “O mundo voltou ao mesmo ponto da trajetória.” Foi o que disse.

Rivaille não entendeu num primeiro momento, mas, quando o fez, não pôde evitar um sorriso, um pequenino sorriso, e levou uma das mãos ao rosto do garoto, tocando-o delicadamente e recebeu o olhar dele.

Por volta de 01h10, o adolescente e o dançarino decidiram por deixar aquele local para visitar alguns amigos. Amigos estes, da parte de Rivaille, pois Armin e o avô haviam viajado para ficar com alguns parentes e só voltariam mais tarde naquele dia, Jean havia ido, junto com a família, para a casa de tios. O mesmo cabia a Marco. E, mesmo parecendo cruel, estes eram os únicos muito relevantes para o garoto e, uma vez que eles não estavam presentes, não faria muita questão de visitar algum outro conhecido naquele momento – até porque, como observado antes, não era muito fã da comemoração em si.

Foram, então, à casa de Gunter, onde passaram parte da madrugada junto com Hanji e alguns dos outros amigos antes de seguirem, cansados, para o apartamento do mais velho. O relógio marcava 05h07 quando chegaram.

Rivaille sentia-se imundo e não quis esperar nenhum segundo a mais para tomar banho. O céu começava a clarear devagar e, principalmente o garoto, tinha os olhos pesados de sono. Quando deitaram os corpos sobre o colchão, não podiam ficar mais aliviados, ainda que os músculos retesassem.

“Eu lhe disse para secar os cabelos.” Rivaille repreendia Eren. “Vai ficar doente.”

“Uh-huh.” O adolescente, que tinha os olhos fechados, apenas se mexeu sobre a cama, descansando um braço sobre o dorso do dançarino, assim como uma das pernas, que instalou-se entre as coxas do outro.

“Estou falando com você.” Rivaille tocou o rosto do garoto com uma das mãos e pensou em apertar-lhe o nariz, mas não o fez. Ficou a fitar a face serena de olhos fechados enquanto sentia o calor daquela pele sob seus dedos. Remexeu-se e beijou a cútis de Eren, que abriu os olhos, mostrando os brilhantes turquesas – estes não o fitavam diretamente, pareciam concentrados em algo que não podia ver.

Rivaille meneou a cabeça e beijou-lhe novamente – desta vez, as têmporas – antes de abraçar-lhe a cabeça, acolhendo-a em seu pescoço. Teve a cintura abraçada fracamente e acariciou os cabelos úmidos, escutando a respiração alta e ritmada do garoto. Eren havia dormido.

A cabeça de Rivaille doía. Percebeu ao tentar abrir os olhos – muitos mais pesados agora do que antes de pegar no sono. Tateou, um pouco desnorteado, pela cama a procura do celular e, após encontrá-lo, lutou para focar nos números da tela clara. O relógio marcava 11h31 e o dançarino não pôde deixar de franzir a testa por descobrir ter acordado tão cedo.

Logo Eren também acordou, acompanhando-o no sentimento de estranheza por despertar cedo e ter dormido tão pouco. Estavam tão cansados quando deitaram na cama... Não que não estivessem mais, mas com certeza imaginaram que dormiriam até tarde.

Sem haver muito o que fazer, resolveram levantar para preparar o café – depois de cumprir as necessidades matinais, claro. A cabeça do garoto também doía um pouco.

Enquanto Eren se ocupava em arrumar a cama, Rivaille preparava chá na cozinha. Não demorou, porém, para que o garoto viesse fazer-lhe companhia e ajudá-lo a preparar o café da manhã. As cabeças não doíam mais e os pesos sobre os olhos haviam sumido.

“Mexa os ovos, por favor, Eren.” Pediu ao garoto, que logo o fez.

“Você está tão sexy assim, eu nunca o imaginaria vestido nestas roupas.” Eren confessou, os olhos fixos nos ovos.

Rivaille ergueu, divertido, uma das sobrancelhas. “Estou vestindo nada de mais.” Disse, dando uma olhada rápida nas próprias vestimentas, como se tivesse se esquecido do que usava: uma calça jeans preta, camiseta branca, camisa xadrez de cor cinza e preto com mangas longas, boné preto de aba curvada e meias – somente meias. Ergueu, novamente, a sobrancelha e fitou, agora, o garoto, que passava os ovos mexidos para as torradas nos pratos.

“É que está diferente do normal.” Eren explicou. “Está tão... Menininho.” Riu.

Menininho? Não defina vestimentas...”

Eren deixou a frigideira e espátula dentro da pia e disse: “Não é o que quis dizer. Mas, é sério... Acho que vou ficar excitado.” Riu novamente, recebendo um sorriso de Rivaille.

“Pirralho.” O dançarino serviu a bebida quente em duas xícaras e ambos rumaram até a mesa. Eren sentou-se, mas Rivaille foi até um dos armários a fim de pegar o açúcar.

“Rivaille, eu vou ficar excitado.” A voz do adolescente veio.

“Eu adoraria que ficasse, Eren, mas estou morrendo de fome. Controle seus hormônios um pouco, por favor.” Disse distraidamente.

O garoto riu e segurou uma das mãos do namorado. “Sente aqui.”

“Não vou transar com você com a comida na mesa. Espere um pouco.”

“O qu-“ Eren riu alto. “Não é isso! Apenas sente aqui.” Sorria.

Rivaille fez como o garoto pediu e sentou-se sobre o colo dele. “Você é um pirralho, sabia?” Desfez-se do boné na cabeça e inclinou-a para capturar os lábios do garoto num beijo lento, sem demora. “Agora,” começou após partir o contato entre as bocas “tome seu café. Seu pai me pediu que o levasse para casa para almoçarem juntos.”

“Ele pediu? Quando?”

“Ontem. Você estava ao meu lado, não ouviu?”

“Eu estava? Bem, eu não me lembro...” Fez uma pausa, mordendo a torrada com ovos e perguntou logo após engolir: “Ainda bem, então, que acordamos cedo...”

“Isso não seria um problema, na verdade. Eu havia ativado o despertador.”

“Hm...”

Ocuparam-se, por fim, em comer e quando terminaram, Eren ficou responsável por lavar a pouca louça que haviam sujado enquanto Rivaille a secaria e guardaria. Antes de deixarem a casa, porém, acomodaram-se no sofá, encolhidos um no outro, e ficaram ali por alguns minutos até Rivaille levantar para cobrir a olheiras com maquiagem – coisa que Eren não queria que ele fizesse, pois gostava de suas olheiras – e resolveram que tinham de sair.

“É um pouco tarde para um almoço, você não acha?” O garoto comentou ao entrar no carro do namorado.

Logo chegaram à casa do adolescente e Rivaille entrou para cumprimentar Grisha e Mikasa. O primeiro insistiu que ficasse para almoçarem juntos e assim o dançarino o fez. Não tinha nenhum compromisso, mesmo. Armin e o avô deste se juntaram pouco tempo depois e, naquele dia, o dançarino foi embora às 20h, mesma hora em que o avô do loiro também deixou a casa.

Armin, porém, ficaria para passar a noite. Estava com saudade do melhor amigo. Os dois adolescentes sentaram-se nos fundos da casa e ficaram a conversar. O dono dos turquesas quis saber como havia sido a viagem do amigo e o deu toda atenção enquanto escutava.

Depois, Armin perguntou como estavam as coisas com o dançarino e ficou aliviado em saber que tudo corria bem, ainda que soubesse haver, mesmo que muito pequena, uma certa preocupação na voz de Eren.

Mikasa se juntou aos dois em algum momento e, ali, decidiram que passariam a noite acordados – o que não aconteceu, pois, por volta de 2h da manhã, os três dormiam na sala.

No segundo fim de semana do novo ano, Rivaille passou, mais uma vez, a noite na casa de Eren e naquele dia, algo que havia assustado o garoto, aconteceu: o dançarino foi convidado, por Mikasa, a ir até o quarto desta, onde a ajudaria na escolha de seu novo corte de cabelo.

O susto de Eren se deu por conta da repentina proximidade da irmã com o mais velho. Era claro que Mikasa já estava, há algum tempo, se esforçando para melhor conviver com Rivaille. Todavia, aquilo havia sido um tanto inesperado. Mas o garoto ficou feliz.

“Por que não pergunta esse tipo de coisa para mim?” Eren perguntou com a intenção de desfazer a expressão de bobo que jurava estar em seu rosto naquele momento.

“Olhe para seu cabelo, Eren, é uma droga.” A garota brincou, provocando o irmão. “Rivaille parece ter melhores opiniões do que você sobre isso.”

“Meu cabelo não é uma droga!” Bagunçou a franja. “Você acha que meu cabelo não tem um bom corte?” Perguntou a Rivaille, mostrando-se um pouco preocupado com o comentário da irmã. Não havia percebido a mentira na voz dela.

“Não, eu gosto de seu cabelo. Combina com seu rosto. O prefiro mais comprido, mas... Gosto de como está.” O dançarino disse, afastando e arrumando os fios castanhos que cobriam a testa do namorado.

“Eu estou brincando, Eren.” A voz da morena veio. “Rivaille, olhe, estou em dúvida entre estes.” Ampliou a imagem de dois diferentes cortes juntos: no primeiro, o cabelo era muito curto, menor do que o de Eren; o segundo também era curto, mas apenas um pouco menor do que o cabelo negro da garota normalmente era.

“Não há muita diferença desse corte para seu cabelo atual.” Eren apontou para a segunda opção.

“Eu sei, mas ele é mais repicado, olhe...” Apontou para as pontas do cabelo na imagem. “E eu não sei se um desses ficaria bom por conta de meu rosto...”

“Também estou pensando nisso.” A voz de Rivaille veio.

“Mas não é só ir e cortar?” Eren perguntou.

“Sim, é, mas eu não quero ficar com um rosto de bolacha ou coisa parecida por causa do cabelo. Não quero que o corte cubra demais meu rosto...” Fez uma breve pausa. “O que você acha, Rivaille?”

“Aliás, Mikasa, por que não pede opinião para mim invés de Rivaille?” Recebeu os olhares da irmã e do namorado ao insistir na pergunta.

“Ora, porque ele tem muito mais bom senso do que você.”

“O-”

“Cale a boca por um instante, Eren, e o deixe responder!”

“Acho que ficará bonita com os dois cortes, Mikasa. O primeiro é uma boa mudança... Seria algo como... Anne Hathaway... De olhos mais puxados.” Sorriu simpático. “O que, particularmente, me agrada muito.”

“Vai ficar horrível de qualquer forma.” Eren intrometeu-se novamente, provocando a irmã.

“Eren, cale a boca!” Mikasa o empurrou, fazendo-o rir.

“Se estiver a fim de uma mudança maior,” Rivaille continuou, ignorando o momento dos dois irmãos “opte pelo primeiro. É um belo corte...”

“Estou com um pouco de medo deste, na verdade.” A morena riu, nervosa. “Nunca tive o cabelo deste tamanho, tão curto.” Voltou os olhos para a tela do notebook. “Mas... Acho que ficarei com o primeiro, mesmo, é muito bonito e quero tentar uma coisa nova...” Tocou as pontas do próprio cabelo. “E não precisarei prendê-lo quando for jogar.”

“Quando é que você vai cortar?” Eren perguntou.

“Hoje mesmo.”

Nossa!

Mikasa lançou o olhar para o relógio e então disse: “Só precisava decidir qual corte... Obrigada, Rivaille!”

“Não há de que, Mikasa.”

E logo a morena não estava mais na casa, deixando, portanto, apenas o irmão e o dançarino, que não demoraram a retornar ao quarto do garoto, onde as coisas logo “esquentaram”, terminando com respirações altas e sem ritmo algum.

Após certo tempo, Eren decidiu que tocaria. Levantou-se da cama a fim de pegar o violão e logo voltou, sentando-se e observando o namorado fazer o mesmo.

“Esta cena é linda.” A voz de Rivaille veio. A cena a qual ele se referia tratava-se exatamente do adolescente sentado com o violão no colo, o torso nu.

Eren sorriu de canto e bateu nas cordas do violão duas ou três vezes antes de fazer com que um som harmonioso escapasse. Rivaille não conhecia a música e não se deu ao trabalho de perguntar de quem era ou como se chamava. Procurou a camisa pela cama do garoto e a vestiu assim que a encontrou. Estava nu da cintura para baixo, sendo protegido apenas pelo cobertor do outro.

Manteve-se a observar o garoto enquanto este tocava o instrumento. Os cabelos de Eren estavam um pouco bagunçados... E ele tocava muito bem.

“Nunca tentou tocar?” A voz do adolescente fez-se presente.

“Huh?”

“Violão.”

“Não.”

“Quer tentar?”

“Na verdade... Acho melhor não.”

“Ah, vamos lá! Apenas tente. Aqui.” Eren entregou ao outro o instrumento.

“Eren-“ Rivaille o segurou da melhor forma de pôde.

Eren riu. “Estou brincando com você. Apenas queria ver sua cara. Estava todo sério .” Tomou, de novo e inteiramente, o instrumento para si.

“Ora... Que pirralho! Agora me dê! Deixe-me tocar.” Rivaille puxou o violão de volta para o próprio colo, ouvindo um pouco mais da risada do garoto. Confortou o instrumento de maneira que achava correta e ficou a olhar as cordas por alguns poucos segundos. Não tinha ideia do que fazer. “Como toca esta coisa?”

Eren riu novamente e aproximou-se um pouco. Segurou a mão do dançarino, melhor posicionando-a em tornou do braço do violão. “Tente assim...” Agora cuidava de ocupar determinadas casas com os dedos do outro, que eram tão finos e pálidos. “Tome.” Entregou a ele a palheta. “Não. Deve segurar a ponta. A parte maior toca as cordas. É melhor.” Corrigiu-o.

Rivaille observava atento os movimentos das mãos de Eren, que guiavam e corrigiam as suas.

“Bata nas cordas.” A voz do garoto veio mais uma vez e ele assistiu ao outro fazer como o havia dito. Um simples e não muito bem feito som saiu. “Aperte mais as cordas.”

“Tipo assim?”

“Acho que está bom. Toque mais uma vez.” Pediu e logo escutou o som que abandonava o instrumento. Desta vez, melhor. Sorriu para o namorado. “Agora faça assim.” Novamente ocupou-se em ocupar determinadas casas com os dedos do outro. “Aperte-as...”

“Isto é horrível. Dói as pontas dos dedos.”

“Eu sei.”

“Como você suporta?”

“Só dói no começo. Depois que se acostuma, pega a prática, não dói mais. Toque as cordas de novo.”

Assim Rivaille o fez e o som que veio desta vez foi tal menos harmonioso quanto o primeiro. Eren riu e o mais velho fez uma leve careta, afrouxando os dedos nas cordas. “Tente de novo.”

Rivaille tentou e o mesmo som horrível saiu. “Não sei fazer isto.”

“Tente a nota anterior.”

O mais velho tentou recordar-se exatamente das casas que antes seus dedos haviam ocupado, mas não conseguiu. “Não lembro como era.” Disse e Eren o ajudou. Então tocou as cordas uma outra vez, lembrando que os dedos tinham de apertar aquelas que tocavam.

Olhe só! Nada mau!”

“Foi péssimo, Eren.”

Eren riu. “Não, não foi.”

“Claro que foi, admita.”

“Não! Você já está um ótimo guitarrista! Melhor do que todos que conheço.” Brincava.

“Pare com isso.”

“Não estou brincando.” Segurou o rosto do mais velho entre as mãos, e o ouviu resmungar. Livrou-o de suas mãos para que pudesse retirar o instrumento do colo alheio, apoiando-o à parede para logo voltar ao rosto do outro. “Agora sempre terá de tocar para mim.” Fez com que Rivaille deitasse.

“O que? Está maluco.”

“Não estou. Como é que poderei viver sem ouvir música tão bem tocada por você?” Riu.

Encararam-se. “Eren, por que você faz isso?” Rivaille perguntou, tentando não sorrir de volta para o garoto.

“Mas você toca muito bem!”

“Pare com essa-“ O instrumento caindo sobre os dois interrompeu o mais velho.

Uh, deixe-me tirá-lo daqui.” Eren disse, remexendo-se todo em cima do outro e segurando o violão com cuidado.

“Não, não o guarde. Toque algo.”

“Toque você. Não quero me sentir tão humilhado diante tão bom-“ Parou em meio à frase devido aos chutes sem força que sua perna recebia agora. “Está bem, está bem!” Ria. “Você é muito violento, Rivaille!”

“Posso ser pior.”

“Ah, é?”

“É.”

“Adoraria ver.”

“Quem sabe eu não mostro a você? Seu masoquista...”

A tarde se passou assim: violão, brincadeiras, fracos chutes, piadas... Em certo momento, quando Rivaille precisou ir ao banheiro, Eren viu que Armin o havia chamado pelo Skype há quase duas horas. Respondeu o amigo, que encontrava-se ausente agora.

O dançarino logo voltou. Sentou-se ao lado do namorado, observando-o a procurar algo pelo computador. Descansou uma das mãos sobre o ombro dele e, então, o próprio queixo sobre os nós dos dedos. “Estou cansado de ficar dentro de casa... Vamos sair um pouco.”

E assim fariam: caminhariam um pouco e depois, talvez, parariam em algum barzinho pelo bairro – foi o que acabaram fazendo.

À noite, por voltas das 21h20, voltaram para casa, Grisha e Mikasa estavam lá. Rivaille pegou suas coisas e despediu-se de todos – Eren o havia levado até o carro, onde beijaram-se e se despediram.

Rápida, a semana passou junto de outra, e mais outra. Eren foi convidado ao teatro para assistir a uma peça – um musical. Sabia que no desenrolar da história Rivaille beijaria uma das atrizes e, também, Gunter. Achou um pouco engraçado e estranho quando viu seu namorado trocar tal carícia com a mulher e, mesmo sabendo ser apernas atuação, não pôde evitar o pequeno e irritante incômodo ao vê-lo fazer o mesmo com Gunter.

Ao fim da peça, Eren foi guiado por Erwin para detrás do palco, onde a movimentação era intensa. Ficou a procurar por Rivaille, olhando para lá e para cá e assustou-se ao ser, de repente, abraçado. Um ou dois segundos se foram e Eren reconheceu o namorado, que tinha o rosto afundado em seu pescoço. Retribui-lhe o abraço.

Rivaille sorria lindo... Eren percebeu ao terem o mínimo de espaço entre os corpos. Nada disseram. O mais velho segurou o rosto do adolescente em uma das mãos e o beijou lento, mas sem demora.

“Parece estar bem feliz.” Eren disse ao cortarem o contato entre as bocas. As mãos descansavam na cintura alheia.

“Estou satisfeito.” Rivaille fechou os olhos por um momento. “Foi a primeira noite de apresentação e ocorreu tudo bem. Os ensaios para esta peça foram um tanto árduos, comentei com você, lembra-se?”

“Lembro-me, sim.” Eren respondeu. “Você estava incrível.” Declarou.

“Obrigado.”

“Alías,” Eren começou “você está um charme com essa cartola.”

“Ah,” Rivaille só então pareceu lembrar-se de que o acessório ainda estava sobre sua cabeça. Houve um pequeno “click” e o dançarino desfez-se da cartola. “Tem de ser mantida presa à minha cabeça.” Explicou, mostrando a parte interior do acessório a Eren. “Vi-“

“Rivaille!” Hanji passou, chamando-o em tom muito alto e animado e então seguiu às pressas para onde havia certa concentração de pessoas.

“Eren, venha.” A voz do mais velho chamou a atenção do garoto. Agarrou-lhe a mão e o puxou para o mesmo lugar onde a amiga se direcionou.

Naquela mesma noite, foi decidido que, mesmo cansados, sairiam. Iriam ao bar de Nile para comemorar. O grupo era enorme e, ao chegar ao lugar, ocuparam cinco mesas (que foram colocadas uma ao lado da outra).

Eren, que estava junto, achou engraçado e muito bonito ver que algumas pessoas ali – alguns dos atores – ainda tinham algum resquício de maquiagem, brilho no rosto, ou o cabelo um pouco armado devido ao penteado. Rivaille, inclusive, tinha parte do cabelo amaçado por conta da cartola, mas o tinha penteado para trás, numa tentativa de esconder o desleixo.

Todos riam, conversavam, bebiam e curtiam o momento. O relógio marcava 00h31 quando decidiram deixar o lugar.

Ao despedirem-se de todos, o garoto perguntou, brincando: “Quer que eu dirija?”

“Sinceramente, quero, sim.” Rivaille respondeu, surpreendendo-o.

“Sério?”

“Sim.” E entregou-lhe o molho de chaves.

Entraram no carro e, bem, assim Eren o fez: dirigiu até o apartamento do namorado. Ao estacionar o veículo na vaga e desligar o motor, descansou as costas no encosto do banco e fitou Rivaille, que retribuiu-lhe o olhar. Levou a mão à face alva do mais velho e a acariciou com os nós dos dedos. “Está cansado, não está?”

Rivaille fez que sim com a cabeça.

“Vamos subir.” Eren o chamou, abrindo a porta do veículo.

Enquanto Rivaille tomava banho, o adolescente encarregou-se de preparar algo para comerem. No bar, haviam pedido algumas besteiras para beliscarem, mas o namorado mal as comeu. Eren não era um grande cozinheiro e, por isso, decidiu que uma omelete seria o suficiente. Também havia algumas folhas de alface.

Logo tudo estava pronto e o dono do apartamento apareceu. “Sei que está tarde para comer ovos, mas-“

“Estou morrendo de fome, Eren, estes ovos parecem excelentes.” Rivaille o cortou, fazendo-o erguer uma sobrancelha e ficou a observá-lo enquanto servia os ovos em pratos, depositando a frigideira dentro da pia.

“Espero que goste.” O garoto disse ao entregar o prato ao namorado. Foi até o armário a fim de pegar dois copos e servi-los com água para então juntar-se ao outro.

“Hm-“ Escutou Rivaille murmurar e o fitou rapidamente. “Está ótimo!”

“Que bom.”

“Obrigado, Eren, por preparar algo para comermos.”

Após comerem, ficaram ainda, de dez a quinze minutos, a conversar. Então o garoto ocupou-se em lavar a louça enquanto Rivaille a secava e a guardava, como havia virado costume de ambos. Depois, foi a vez de Eren tomar banho e o dançarino o fez companhia no banheiro enquanto cuidava da higiene bucal.

Era 02h17 quando finalmente deitaram. Rivaille havia se desfeito de todas as peças de roupas que havia vestido, ficando apenas com a boxer cinza. Estava deitado de barriga para baixo, os braços abraçavam o travesseiro sob o rosto, os olhos fechados. Eren o observava enquanto acariciava-lhe os cabelos.

“Hei... Quer uma massagem?” O garoto ofereceu.

“Quero!”

A reação do mais velho fez com que o adolescente risse. Ele remexeu-se para melhor se posicionar e disse: “Eu sei que você está cansado, mas vou meio que montar em sua bunda.”

“Que delícia...” Rivaille brincou, um sorriso pervertido no rosto.

Eren riu breve e deu início à massagem, não demorando a receber murmúrios de aprovação vindos do mais velho.

Acordaram às 10h00. Realizaram as necessidades matinais e tomaram café. Depois, deitaram-se no sofá. A TV estava ligada, mas nenhum a dava atenção. Conversavam sobre qualquer coisa e relembravam alguns momentos da noite passada. Receberam uma ligação de Hanji e Erwin e continuaram a conversar. Rivaille tinha a cabeça descansada sobre um dos braços do garoto enquanto tocava-lhe o maxilar.

“Preciso lixar minha unhas.” Comentou em certo momento, passando, então, a dar atenção às unhas.

“Estão bonitas assim.”

Rivaille entortou os lábios, parecia não concordar com o garoto. Continuou a examiná-las por algum tempo. Suspirou, por fim, e fitou o outro. “Eren, nós nunca brigamos.” Comentou, causando estranheza no adolescente.

“Isso é ruim?” Eren perguntou, as sobrancelhas juntas.

“Não.” Uma pausa. “Estou dizendo porque... É estranho. Quero dizer, é natural que casais briguem... Já aconteceu tantas vezes...”

“Por que está pensando nisso?” A voz de Eren cortou os pensamentos de Rivaille.

“Ahn? Eu não sei.” Foi o que o dançarino respondeu.

Na verdade, – e ambos sabiam disso – haviam brigado certa vez: quando terminaram o relacionamento (ou quando Rivaille o fez). Mas, talvez, isso não contasse.

De qualquer forma, era uma boa observação, Eren achava.

Mais tarde naquele dia, o adolescente acabou por tirar um cochilo com a cabeça sobre o colo do mais velho. Este tinha as pernas cruzadas e ocupava-se em lixar as unhas, tomando cuidado para não sujar o cabelo e o rosto do garoto.

Ao terminar de cuidar das unhas, Rivaille ficou a assistir o outro enquanto este dormia. Ficou a olhá-lo e a olhá-lo... O volume da TV estava muito baixo, sem poder, portanto, chamar sua atenção. Ficou a observar o movimento ritmado do peito de Eren acompanhado do som tranquilo da respiração dele e o ar quente que colidia com a pele de sua coxa, pois usava apernas um robe.

Fitava o rosto adormecido do mais novo e não sabia explicar as pequenas e isoladas explosões em seu peito. Sentiu-se incomodado e em desespero. Como podia querer respostas e temê-las tanto ao mesmo tempo?! Era terrível. Terrível. As explosões, ainda que pequenas, pareciam, ora ou outra, que iriam romper seu peito e aquilo doía, agoniava, o irritava. Rivaille sentia medo, receio. Sentia-se invadido. Sentia como se estivesse ao passo de trair algo. Mas trair o que? A si mesmo?

Era isso.

Era isso e a dor daquela realização o atingiu como uma avalanche. Curvou-se minimamente sem ao menos pretender fazê-lo. Mas era preciso mais: era preciso admitir outras coisas para si mesmo, assumi-las para si mesmo! Sentia-se imensamente fraco e vulnerável diante daquilo. Chegava a sentir raiva... O corpo curvava involuntariamente como se todo o peso caísse de uma vez sobre seus ombros.

Em virtude de seus movimentos, Eren acabou por acordar. As mãos do dançarino, que encontravam-se junto ao próprio peito, suaram e ele se esforçou para retomar a postura antes que o garoto estivesse completamente consciente de que acordara.

Um dos lados do rosto de Eren estava avermelhado e a expressão de sono estava presente em sua face. Ele remexeu-se e cobriu os olhos com as costas da mão para protegê-los da luz do Sol que adentrava as janelas. “Rivaille...?” A voz baixa e rouca veio enquanto os olhos focavam no rosto do dançarino.

“Oi, Eren.”

“Oi...” O garoto puxou o ar para os pulmões. “Que preguiça...”

“Você acabou de acordar.”

“Uhum...” Eren voltou a fechar os olhos.

“Hei, moleque.” Não houve resposta e Rivaille resolveu ficar em silêncio. Relaxou as costas no encosto do sofá e respirou fundo antes de esconder os dedos nos fios castanhos de Eren, que não havia voltado a dormir. “Não está com fome?” Perguntou.

“Não.” Ele respondeu simplesmente, abrindo os olhos. Resolveu sentar-se e se espreguiçou assim que o fez. Relaxou por um segundo ou dois e direcionou o olhar ao namorado. “E as unhas?”

“Lindas.” Rivaille disse, mostrando-as a ele. Totalmente recomposto.

“Eu preferia como estavam antes.” Eren confessou.

“Eu prefiro seu pênis quando está ereto, nem por isso estou reclamando.” Rivaille fingiu drama, afastando a mão de perto do garoto, que riu um pouco sem graça.

“É sério?”

“O que?”

“Esse negócio sobre meu pênis...”

“É claro.” O mais velho ergueu, levemente, uma das finas sobrancelhas.

“Rivaille, você sabe que terá de encarar isso.” Hanji dizia.

O dançarino tinha os olhos escondidos com as palmas das mãos.

“Me escute.”

“Estou escutando.” Rivaille disse sem encarar a amiga.

Hanji suspirou baixinho. “Olhe... Eu sei que você quer manter tudo isso aí dentro, mas, Rivaille, permita que isso saia de você...” Ela assistiu o amigo a mover a cabeça devagar em sinal de negação. Sabia que aquilo não significava um “não” como resposta ao que dissera.

“Rivaille-“ Hanji saiu de onde estava sentada e abaixou-se à frente de Rivaille, segurando-lhe os pulsos, mas não tentou livrar o rosto do amigo das próprias mãos. “Rivaille, olhe bem, mesmo que você não tenha conseguido expressar para mim palavra por palavra do que está sentindo, eu estou conseguindo perceber isso através de todos os seus gestos, de suas expressões... Você está escondendo nada de mim. Veja, eu já sei. Você está se recusando a saber ou mesmo a aceitar.”

“Você está deixando as coisas mais confusas, quatro-olhos.” Rivaille disse, livrando os olhos, finalmente, mas somente o necessário para que pudesse ver a amiga.

Hanji riu muito breve. “Me desculpe.” Os olhos castanhos fitaram os próprios joelhos por um momento. “Escut- Olhe para mim. Rivaille.” Esperou até que recebesse o olhar do outro ainda que este o tivesse rolado para si. “Você precisa admitir essas coisas para você mesmo.”

“É difícil.”

“Eu nem imagino o quão difícil isso é para você, Rivaille.” Confessou, sincera. “Mas, por favor, encare isso. De nada adiantará guardar tudo. Sabe o quão injusta me sinto ao praticamente impor que você faça algo assim, mas você não quer saber o que é? A resposta é absolutamente dependente de você.”

Rivaille levou alguns segundos para então dizer: “Acho que prefiro manter tudo dentro de mim. Sempre foi o que fiz.”

“E você sabe melhor do que eu que, às vezes, essa pode não ser a melhor opção.”

“Mas às vezes é.”

“Mas às vezes não.”

“Han-“

“Pare de fugir!”

Rivaille grunhiu alto.

Tsc, desculpe.” Hanji sentou-se ao lado do amigo e passou um dos braços sobre os ombros dele. “Eu paro por aqui.” Fez uma pausa. “Te apoiarei em tudo que decidir.” Trouxe Rivaille para mais próximo, acolhendo-o.

“Eu me sinto ridículo.”

Hanji riu. “Devo admitir que está ridículo, mesmo, com essa base. Sabe que fica muito bem sem maquiagem.”

“Idiota...! Estou com olheiras horríveis.”

“Você sempre teve olheiras. Desde que o conheci-“

“Você não está ajudando, quatro-olhos imunda.”

Novamente a risada da morena tomou o ar e então os dois ficaram em silêncio. Hanji acariciava o braço do dançarino e este descansava em seu peito, tentando evitar mil pensamentos e querendo desenvolver outros mil.

Alguns minutos depois, Hanji voltou a falar. “Ah! Lembrei algo que tinha de te contar.” Rivaille a encarou. “Consegui o número daquela mulher.”

“Que mulher?”

Aquela, de cabelos cacheados, da livraria perto da academia...”

“Ah... Conseguiu?” Rivaille juntou as sobrancelhas.

“Sim!” Hanji afirmou sorridente. “Mandei uma mensagem hoje de manhã.”

“Quando o conseguiu?”

“Ontem, no fim da tarde.”

Rivaille ficou a encará-la por alguns segundos. “Você é ridícula.” Disse, brincando.

“Eu sou demais, meu caro.” Hanji segurou o rosto do melhor amigo com uma das mãos e beijou-lhe o topo da cabeça.

“Olá, Eren!” A morena o cumprimentou, recebendo o sorriso do garoto. “Rivaille já está vin-“

“Estou aqui.”

“Como eu ia dizendo...”

“Oi.” Eren pronunciou enquanto ia ao encontro de Rivaille a fim de abraçá-lo. “Como está?”

“Ótimo.” Lançou o olhar para Hanji e anunciou: “Estamos indo.”

“Ok.” A amiga respondeu e acenou para os dois, que acenaram de volta.

Enquanto caminhavam, Eren disse: “Aliás, havia me esquecido de perguntar, como é ter que beijar alguém enquanto interpreta?”

Normal.”

“Normal? Be-“

“Sim. Nós ensaiamos, então é tranquilo.” Rivaille sabia o que Eren estava tentando fazer e jogaria o jogo do garoto, como se de nada soubesse, apenas para sacaneá-lo um pouco.

“Então vocês, digo, você e Gunter, se beijaram mais do que uma vez.”

“E nos beijaremos mais, a peça ainda está em cartaz.”

Eren pareceu se dar conta daquilo somente agora.

Rivaille o observou atrapalhar-se com qualquer que fosse o pensamento que passava por sua cabeça e não resistiu a provocá-lo mais ainda: “Não se esqueça de que também beijo uma das atrizes.”

Eu sei!”

O dançarino riu da expressão do garoto.

“Por que está rindo?” Eren perguntou, os traços em seu rosto contorceram-se em uma feição quase sofrida.

“Faz parte de meu trabalho, Eren.”

“O que? Rir?” Fez uma pausa, parecendo pensar. “Eu sei... Desculpe, não estou reclamando. Na verdade, eu achei as cenas de beijo muito bonitas, é só que... Bem.” Riu forçadamente.

“É só que você é um virgem de 17 anos, não é? Tudo bem, eu tentarei compreender.”

Eren sorriu e balançou a cabeça. Sentiu o aperto em sua mão ficar um pouco mais forte e ouviu Rivaille dizer: “Obrigado por vir me buscar.” O garoto sorriu. “Esta coisa não está pesando?” O dançarino perguntou, referindo-se ao violão nas costas do namorado.

“Ah, não. Estou acostumado.”

Rivaille entortou o lábio e soltou a mão de Eren para que pudesse retirar de dentro da bolsa o ticket do metrô. Logo ambos passaram a catraca e o dono das mechas castanhas estendeu a mão para o dançarino, que a segurou. Enquanto esperavam o metrô, Eren abraçou Rivaille, que tinha os braços cruzados à altura do peito, beijou-lhe a face e o topo da cabeça, aproveitando para sorver do cheiro de shampoo nos fios pretos. Então um som alto se fez e os cabelos e roupas agitaram-se. O garoto depositou um último beijo na cabeça do namorado antes de entrarem no vagão.

Durante a viagem ficaram a conversar: Eren contava a Rivaille como havia sido seu dia e este adicionava um comentário vez ou outra. Não demoraram a sair do vagão e abandonaram a estação.

Ao chegar à casa do garoto, perceberam que Mikasa não estava lá, assim como Grisha. Eren deixou o violão ao lado do sofá e seguiu para o banheiro a fim de lavar as mãos. Rivaille fez o mesmo. Depois foram à cozinha, comeram e alojaram-se no sofá. A TV ligada em um canal qualquer, o volume baixo. Como no outro dia, na casa do dançarino. Continuaram a conversar e quando perceberam já haviam deitado.

Rivaille recebia um carinho gostoso na nuca e oferecia o mesmo ao pescoço de Eren. O relógio marcava 18h53 e eles acabaram pegando no sono. O donos dos cinzelados foi o primeiro a acordar, cerca de 2 horas depois. Sentia-se um pouco atordoado, pois não se dera conta do momento em que acabara por dormir. Ergueu a cabeça apenas um pouco, sequer conseguia ver além do encosto do sofá. Sentia parte ou outra do corpo um pouco dolorida devido à posição em que estava.

A TV não estava mais ligada, notou, e a única iluminação vinha da cozinha. Lançou o olhar para Eren. Este ainda dormia. Bocejou e sentiu o outro remexer-se ao seu lado para então abrir os olhos lenta e preguiçosamente. Poucos segundos depois, veio a voz dele.

“A gente dormiu?” Perguntou como se não fosse óbvio.

“Sim.”

“Nossa...” Eren piscou uma, duas, três, quatro vezes em seguida. Então pareceu assustar-se. “Que horas são?” Perguntou apressado.

Rivaille procurou, novamente, pelo relógio e, então, respondeu: “Quase nove da noite.”

Eren permaneceu em silêncio por alguns segundos, processava a informação. “Ah... Sabe quando você dorme e acorda pensando que se passaram dias?” Esfregou um dos olhos com a mão.

“Você babou.” Rivaille disse, juntando as sobrancelhas.

“Huh?” O garoto passou as costas da mão sobre os lábios. Havia mesmo babado...

Ew...”

“Acho que a maioria das vezes em que durmo no sofá acabo babando.”

Rivaille fez uma expressão de nojo.

“Hei, vocês acordaram.” A voz de Mikasa se fez presente e ela recebeu a atenção dos dois ainda deitados. “Cheguei há mais ou menos meia hora. Não quis acordá-los e achei melhor desligar a televisão.”

“O pai ainda não chegou?” Eren perguntou.

“Não.”

O garoto, então, lançou os olhos ao namorado e este disse: “Acho melhor eu ir.”

“Já?” Foi o que saiu da boca do dono dos turquesas. Mikasa os dera as costas, voltando à cozinha.

“Sei que ainda é cedo, mas, ah...! Eu não podia ter dormido agora... Espero conseguir fazê-lo quando chegar... Preciso ir mais cedo à academia amanhã.”

“Que horas tem de estar lá?”

“Por volta das 06h30.”

“Que cedo.”

“É excepcional... Mas sairei mais cedo também.”

“Ah, é?”

“Às 14h.” Fez uma pausa e Eren nada disse. “Você ainda estará no trabalho, huh?”

“Sim.”

“Vá à minha casa depois, se quiser.” Dizia enquanto calçava os coturnos de canos curtos.

“Cla- ah, não, droga.”

“O que?”

“Não poderei amanhã. Meu pai estará de folga e me pediu que o ajudasse com algumas coisas de casa.”

Rivaille sentiu-se um tanto desanimado com a notícia. “Tudo bem.” Pôs-se de pé.

“Sinto muito.”

Rivaille havia chegado em casa por volta das 15h30. Tomou banho, comeu algumas torradas com chá e estressou-se em ter que deixar as vidraças da cozinha fechadas por conta do vento – os panos sempre presentes para evitar os barulhos altos. Sentia-se entediado. Não estava acostumado a estar em casa àquele horário e, bem, até mesmo durante suas férias, por ter de ficar em casa, sentia-se quase louco.

Pensou em ligar para Hanji, mas, procurando pelo nome da amiga na agenda do celular, lembrou-se que ela o havia contado que sairia com a tal mulher de cabelos cacheados que paquerava de longe há algumas poucas semanas... Suspirou, sentindo-se um pouco irritado tanto consigo quanto com Hanji. Sempre dizia para si mesmo que precisava melhorar seu lado monopolizador que eventualmente dava as caras.

Pensou, então, em ligar para Eren, mas, de novo, lembrou-se que este ainda estaria no trabalho. Tsc. Olhou ao redor em seu apartamento e já havia refletido consigo mesmo algumas dezenas de vezes sobre como não tinha qualquer tipo de vínculo social com os próprios vizinhos, fossem de andar, fossem de porta. Não que achasse aquele tipo de socialização algo necessário para si. Na verdade, preferia assim. É só que sempre que o pensamento lhe ocorria, caía na reflexão sobre o individualismo que as pessoas adotavam (e ele tinha completa consciência de que fazia o mesmo). Isso o levava a diversos caminhos dentro de sua mente, mas não estava a fim de dedicar-se àquela crise existencial agora, decidindo, portanto, que limparia o apartamento.

E assim Rivaille o fez. Mas, na verdade, não havia muito o que limpar, e o dançarino levou sequer uma hora e meia para fazê-lo. Sua próxima decisão foi simplesmente dormir. Havia levantado às 05h30 e achava que um cochilo seria nada mau. Foi para o quarto, fechou as cortinas e, por mais que ao olhar para a cama, tivesse sentido pena de desarrumá-la, ele o fez de qualquer jeito. Não foi necessário dez minutos para que pegasse no sono.

Quando acordou, percebeu que havia dormido por pelo menos três horas. Levou a mão à testa e ficou a encarar o teto, ainda que não conseguisse ver muita coisa, uma vez que o quarto estava escuro. Sua concentração fora completamente quebrada quando um som alto se fez. Rivaille juntou as sobrancelhas finas. O barulho parecia ser das vidraças. Mas ele tinha certeza absoluta de que havia deixado os panos lá...

Levantou-se e suspirou pesado. Arrumou os cabelos com as mãos e seguiu até a cozinha: um dos panos havia caído. O dançarino apressou-se em devolvê-lo no lugar, sentindo-se aliviado pela ausência do som da vidraça. Apertou o nó do robe que usava e foi até o banheiro, onde lembrou que não havia colocado a roupa para lavar. Fez o que tinha de fazer e, em seguida, dedicou algum tempo para separar as roupas – que nunca eram muitas – e colocá-las dentro da máquina.

Seguiu, outra vez, à cozinha. Estava com fome agora. Havia um pouco de arroz pronto e peito de frango. Preparou uma porção pequena de salada e sentou-se à mesa para comer. Olhou através das vidraças, era noite e uma sensação incomum o rondava. Parecia que algo lhe faltava. Estava sozinho desde que chegou em casa. Que estranho. Todos os dias, ao sair do trabalho, encontrava com Eren e, mesmo que ficassem por pouco tempo juntos, tinha a companhia do garoto. Mas sequer havia escutado a voz dele naquele dia e não eram de trocar mensagens.

Talvez aquela sensação o tivesse pego ao olhar para o próprio prato de comida. Arroz, filé de frango e salada. Você comerá apenas isso?

Huh.

Rivaille levou o garfo com a comida à boca. Estava quente e boa, ainda que requentada.

Enquanto comia, quis evitar se perder em determinados pensamentos. Sentia-se mentalmente cansado deles. Ficou, então, a encarar a vista através dos vidros e outros tipos de pensamentos ocuparam sua cabeça, como: será que alguém no outro prédio está olhando para meu apartamento agora, da mesma maneira como eu estou olhando para aqueles dois conversando na varanda? Será que eles sabem que alguém os observa?

Ao terminar sua janta, manteve-se sentado à mesa por mais alguns minutos. Quando levantou, lavou, secou e guardou a louça. Cortou duas bananas, uma maçã e um mamão, todas dentro de uma pequena tigela, acrescentou um pouco de aveia e acomodou-se no sofá para comê-las. Procurou pelo celular, mas não havia recebido ligações, nem mensagens. Logo se repetiu o processo na cozinha com a tigela e o talher e, desta vez, Rivaille rumou ao banheiro a fim de escovar os dentes. Tinha a sensação de que já havia feito tudo o que tinha para fazer, menos sexo. E aquele dia jamais acabava...

Retornou à sala, fechou uma das cortinas e sua atenção foi chamada para o som do celular que vibrava no sofá. Rivaille pegou-o: era Eren.

Oi.” O garoto foi o primeiro a falar quando a ligação fora atendida.

“Oi.” O dançarino respondeu-o simplesmente, voltando a aconchegar-se no estofado confortável.

Está ocupado?

“Não.” Rivaille deitou-se e procurou pelo relógio: 22h10.

Que bom. Vou te mostrar uma coisa.

O dono dos cinzelados nada disse, mas juntou as sobrancelhas levemente, ficando na expectativa. Escutou um som diferente pelo aparelho, parecia que Eren o havia descansado sobre algo. Ouviu mais alguns barulhos e perguntou-se o que o outro poderia estar fazendo. Não demorou, contudo, a descobrir: o som do violão. Concentrou toda sua atenção no que ouvia. Eren dedilhava algo, uma música que Rivaille não conhecia, mas que estava adorando, absolutamente adorando. Era muito calma e gostosa de escutar.

Remexeu-se minimamente sobre o sofá e o garoto continuava a tocar. Nada passava de dedilhados e, novamente, o dançarino estava adorando ouvir. A sensação era ótima. Era uma daquelas músicas que se tornam palpáveis em seu peito.

Eren tocou e tocou e ao que pareceu ser o fim, os sons que anunciavam que o adolescente recolhera o celular de onde quer que o tenha deixado retornaram.

Rivaille? Ainda está aí?” A voz dele veio.

“Estou.” Respondeu, imaginando que Eren sorria.

Há mais uma. Espere um pouco.” Ele disse, voltando a descansar o aparelho sobre algo.

E Rivaille esperou. Levou algum tempo para que algum som viesse e, quando veio, era uma música que o dançarino conhecia. Eren anunciou nada, mas ele a reconheceu. Asleep, The Smiths. Puxou o ar com a boca e ficou a escutar.

Rivaille não sabia se perguntava o porquê de Eren estar fazendo aquilo ou se simplesmente não acreditava no que ele fazia. Era tão doce. E ele não sabia se era a música em si, ou o quê, mas havia também, em meio a toda doçura, uma dor e um desespero.

Remexeu-se mais uma vez, ficando, agora, a encarar o encosto do sofá enquanto escutava. Não havia voz, assim como na primeira música. Era apenas o som do violão e de sua própria respiração baixa. Quando o som cessou, a voz de Eren não veio e Rivaille perguntou-se, em meio àquele silêncio que havia se formado, o que faria. Suspirou baixinho e questionou-se mais uma vez. Na verdade, ele sequer percebera quando o fizera novamente.

Rivaille?” A voz do garoto fez-se presente finalmente.

O dançarino levou alguns segundos para pronunciar: “Estou aqui, Eren.”

Olá.

Mais uma vez, os segundos. “Olá.”

Houve, de novo, um breve silêncio que Eren desfez. “Gostou?

“Eu adorei.” Disse sincero. “Obrigado.”

Estou feliz que tenha gostado.

Rivaille nada disse. Ainda escarava o encosto do sofá.

Desculpe, nem perguntei se está bem.” O garoto falou. “Como foi seu dia?

“Cheguei cedo em casa, fiz algumas coisas, dormi...”

Você dormiu?

“Sim.” Escutou-o rir e não entendeu exatamente o porquê. “Como foi com seu pai?”

Legal. Ele acabou cortando o dedo sem querer, mas nada que um band-aid não resolva.

Rivaille juntou as sobrancelhas. “O que vocês estavam fazendo?”

Sabe que meu pai sempre inventa algo para mexer quando está em casa, huh? Hoje ele decidiu que iria se desfazer de algumas coisas que não precisava mais, mas que há muito guardava na garagem.

“Você já não teve de ajudá-lo a levar as coisas à garagem uma vez?”

Exatamente!

Rivaille escutou-o murmurar algo que não entendeu, pois o som da máquina de lavar chamou sua atenção. “Eren, preciso tirar a roupa de dentro da máquina.” Informou.

Ah... Tudo bem. Só... À que horas sairá amanhã?

“Horário normal.”

Ah. Ok. Posso aparecer por lá quando sair?

“É claro.”

Legal. Então nos vemos amanhã, Rivaille.

“Sim.” Havia um nó em sua garganta e ele não tinha como saber que o mesmo acontecia com Eren.

Na quinta-feira, Rivaille teve de ir mais cedo à academia de novo. Então Eren iria visitá-lo em casa. Nina o acompanhava até a estação.

“A nova aluna da turma de sopro está toda apaixonada por você, Eren.” A garota ria.

“O que? De novo isso?”

Uhhh!” Ela gesticulou.

“Como você fica sabendo dessas coisas, Nina?”

“Eu ando com você, Eren, todo mundo vê. Acho que me consideram mais amigável do que você porque sempre vêm falar comigo.” Riu novamente.

“O que?”

“Ela é muito bonita.”

Eren a lançou o olhar. “Sabe que eu namoro, Nina.”

“É claro que sei.”

Interromperam o assunto ao chegarem à estação e Eren era o único que entraria, pois Nina morava perto, não precisava pegar qualquer transporte. Antes, porém, o garoto a pediu que não desse esperanças a qualquer pessoa que parecesse interessada nele.

Então Eren seguiu até a casa do namorado e, no elevador do prédio, incomodou-se com uma mecha de cabelo que percebeu não parar no lugar. No 14º andar o elevador parou e as portas se abriram. Eren saiu, tomando cuidado para não deixar que o violão atingisse a pessoa que entrava.

O garoto, sem perceber, levou a mão direto à maçaneta – estava tão habituado a fazê-lo ao chegar na própria casa, que sequer demonstrou atenção com o que fazia agora, só se ligou quando a porta abriu. Estava destrancada. Eren pareceu voltar à realidade e lembrou-se de uma vez, há muito tempo, em que Rivaille o contou que quando se tratava de Hanji, Erwin ou Mike, a porta ficava destrancada. Será que ele os receberia? Sentia-se bobo ao ficar feliz simplesmente por cogitar que, talvez, a porta destrancada fosse por conta de sua vinda.

Eren entrou e não avistou Rivaille de imediato. Uma música tocava alto – não alto suficiente para que fosse possível escutar do lado de fora do apartamento – e a reconheceu como sendo de Bowie. Fechou a porta atrás de si e procurou pelo namorado com os olhos, abrindo a boca para chamá-lo, mas imagem do dançarino surgindo da cozinha não o permitiu que falasse qualquer coisa. Sorriu ao vê-lo e este aproximou-se.

Quando a distância entre os dois permitiu, Eren segurou o rosto de Rivaille e o beijou. Ainda sorria quando as bocas foram separadas. Não deixou que acontecesse o mesmo com os corpos, porém, abraçando o menor e beijando-lhe a cabeça, rosto, pescoço, ombro e, mais uma vez, o rosto.

“Está esperando por Hanji ou...?” Eren quis saber, recebendo uma expressão um pouco confusa. “A porta. Estava destrancada.”

“Ah... Estava esperando por você.”

Eren ofereceu-lhe um pequeno sorriso. Por mais boba que a razão pudesse ser, sentia-se alegre de verdade pela notícia. Abraçou-lhe fortemente e então foi puxado até a cozinha.

“Vou pegar um pouco d’água.” Eren avisou e seguiu até o armário a fim de retirar um copo. Depois, foi até a geladeira e pegou uma garrafa d’água para servir-se. “Não está cansado? Teve de ir mais cedo ao trabalho hoje, não?”

“Sim, mas estou bem. Senti um pouco de sono mais cedo. Agora já passou.” Assistiu-o acabar com o líquido dentro do copo.

Pouco mais tarde, Rivaille ouviu Eren contar sobre um artigo que havia lido e que tratava sobre astronomia, geologia e sociologia. Simplesmente encantou-se com a maneira apaixonada que o garoto falava. Via brilho nos olhos de Eren e existia muita empolgação em sua voz. Há muito já havia percebido o quanto o garoto gostava daquele tipo de coisa: coisas sobre o mundo – ou mesmo o Universo – e a vida. Achava encantador a maneira como ele demonstrava aquilo. O fazia, até mesmo, sentir interesse pelo tema. Adorava ouvi-lo falar, apesar de, na maioria das vezes, brincar ao dizer que o garoto falava demais.

Jantaram juntos e o dançarino convidou-o para dormir em sua casa, mas Eren negou tristonho, alegando ter que preparar algumas coisas para o trabalho em decorrência de um evento que aconteceria:

“Daqui a... Três semanas. São apresentações de bandas montadas pelos alunos. Eu e mais alguns professores terão de participar também, cada um em uma banda. Gostaria de ir? Será num domingo.”

“É claro, eu adoraria.”

Eren sorriu. “Legal!” Inclinou-se para beijar o dançarino, que o retribuiu.

“Sairei em horário normal amanhã.” Rivaille avisou ao separar-se.

“Ok.” O garoto ainda sorria.

Despediram-se, então – com mais um beijo.