Notas iniciais
Me aviiiisem sobre qualquer erro!

A noite havia sido um tanto longa para o casal. Eren dizia estar com sono, mas não conseguia dormir. Talvez pudesse culpar a sensação de não saber o que fazer... Era a primeira vez que dormiria ao lado de Rivaille. Estava tão feliz por ter conseguido fazer o outro rir de novo. Uma risada gostosa junto com pés inquietos durante a madrugada para então dar-lhe um carinhoso beijo na bochecha e o abraçar. Acabou dormindo antes mesmo do mais velho.

Quando os cinzelados mostraram-se, antes das 10 horas da manhã, deram de cara com o rosto em paz e ainda em profundo sono de Eren. Evitou levar a mão à face adormecida e ficou apenas a assisti-lo em seu sono tranquilo, o som da respiração calma enchendo o ar. Perguntava-se o garoto não se importava, realmente, em ter sexo com alguém que não corresponde a seus sentimentos no mesmo nível. Sentia-se quase mal. Achava Eren um garoto excelente e sentia-se quase mal.

Desviou o olhar para um canto mal iluminado do quarto e perdeu-se ali. Escutou o som forte do ar sendo puxado quando o adolescente encheu os pulmões. “Eren,” o chamou. “Eren,” repetiu, acariciando o rosto jovem. Mas tudo o que recebeu como resposta foi uma lufada de ar que saía das narinas do garoto. “Grosso.” Sussurrou, como se o outro estivesse ouvindo.

Suspirou e remexeu-se, retirando o edredom de cima do corpo. Saiu da cama, alongou-se e se enrolou no primeiro robe que sua mão alcançou antes de seguir para o banheiro. Estava frio e a cetim, com certeza, não supria a necessidade de calor que seu corpo agora sentia, mas não deu meia volta para procurar algo melhor. Após satisfazer as necessidades matinais, preparou café e, massageando as pálpebras, serviu o líquido preto numa xícara. Instalou-se o sofá, dobrando as pernas, deixando os joelhos próximos ao peito. Aconchegou-se da melhor forma e ligou a TV. A sensação tão gostosa da palma da mão formigando em contato com a porcelana quente estava ali e ele adorava.

Pouco mais de uma hora se foi e Rivaille voltou ao quarto, deparando-se com um Eren espalhado em sua cama. O garoto ainda dormia. Levou as mãos à cintura e entortou o lábio. “Se você babar em meu travesseiro, tenha certeza de que voltará para casa sem testículos e língua, garoto.” Sussurrou. Varreu os olhos pelo cômodo, pescando as roupas que foram largadas no chão. Estalou a língua e as recolheu, as de Eren e as próprias, dobrando-as e organizando sobre a poltrona.

O quarto estava mal iluminado pela luz do dia que atravessava a persiana. O dançarino caminhou até a janela e a fechou devidamente, cuidando para que o cômodo tornasse-se escuro suficiente para não atrapalhar o sono do adolescente. Não acreditava que aquilo estivesse incomodando de alguma forma diante da visão que tinha dele agora, mas ainda sim o fez com tal preocupação.

Voltou à sala e acomodou-se confortável no sofá. Deixaria que Eren dormisse, afinal haviam pegado no sono realmente tarde e, bem, o garoto merecia. Durante uma hora e trinta e dois minutos que se passaram, Rivaille ocupou-se de tarefas bobas de casa e, ao voltar ao estofado e ocupar-se em cuidar das próprias unhas, Eren apareceu ainda sonolento na sala.

“Bom dia.” A voz rouca e baixa veio, chamando sua atenção.

Os cinzelados haviam sido lançados ao adolescente, interrompendo sua tarefa de lixar as unhas. O garoto usava apenas a calça jeans. “Boa tarde.”

“Não exagere.” Sentou ao lado do namorado.

“Quase uma hora da tarde.”

Eren piscou uma ou duas vezes. “O que?” Procurou por um relógio e, ao encontrá-lo, os olhos arregalaram-se. “Que horas acordou? Por que não me chamou?”

“Eu chamei.” Havia voltado a atenção às unhas.

“Não chamou.” Eren fez um bico um tanto patético e tomou o olhar do outro para si novamente.

“Eu chamei, garoto, não acordou porque é uma criança com uma bunda preguiçosa.”

“À que horas você levantou?”

Rivaille deu uma conferida rápida no relógio e respondeu: “Há umas duas horas e meia – três horas...” Assoprou as unhas.

O que?! Está falando sério? Ahhh,” Choramingou. “Ugh, desculpe.”

“Não há motivo para se desculpar.” Assoprou as unhas uma nova vez e as analisou antes de largar a lixa sobre a mesa de centro. Cruzou os braços e encarou o garoto. “Você estava cansado desde o dia anterior e tenho certeza de que ficou ainda mais cansado. Não vi problemas em deixá-lo dormir.”

Eren aguardou um segundo ou dois e disse num tom baixo: “Obrigado.”

“Também não há motivo para agradecer.”

“Pare de ser chato.”

Rivaille ignorou, trocando o peso das pernas, mas mantendo-as, também, cruzadas. “Precisa tomar café.”

Eren apenas desviou o olhar.

“Hanji trouxe mais uma caixa de cereal.”

“Nah, obrigado, deixo para a próxima.” Levou a mão ao abdômen.

“Ah, por favor, coma aquela coisa.”

Eren riu, aproximando-se um pouco mais do dançarino. “Foi por isso que aceitou meu pedido de namoro, huh? Para eu comer os cereais que Hanji traz para você.” Brincou, recebendo um olhar um tanto sério do outro. Ele não parecia ter apreciado a brincadeira. “Desculpe.”

“Eu fiz café. Ainda está quente porque está na garrafa térmica.”

“Uh-huh,” murmurou, fitando os pés descalços. Logo duas mãos seguraram seu rosto e foi obrigado a encarar a face do namorado, que o deu um selinho.

“Dormiu bem?” Rivaille perguntou e Eren apenas balançou a cabeça em sinal de sim. “Está afirmando para me agradar ou porque realmente teve uma boa noite de sono?”

“Eu dormi bem. Muito bem.” Segurou os pulsos magros, afastando as mãos de seu rosto.

Bom. Você lavou bem essa boca?” Ergueu uma sobrancelha.

“Sim. E, ah, usei o seu enxaguante bucal, se não se importa.” Sorriu torto.

“Ah, que bom que usou. Eu ia, mesmo, dizer para você usá-lo. Agora você precisa comer alguma coisa.”

“Na verdade, não estou com fome.”

“Dormiu até agora, precisa se alimentar.”

“Bem, eu aceito o café.” Uma pausa. “Por que cortou as unhas?”

“Não as cortei. Apenas lixei.”

“Por que fez isso?” Choramingou arrastadamente.

Eren estava deitado no chão frio de seu quarto e seu melhor amigo ocupava sua cama. A cabeleira loira espalhada na lateral do colchão.

“Então Jean viajou e vocês não tiveram chance de conversar?”

Armin balançou a cabeça, desajeitado, em sinal de sim.

“Você não está...” Eren entortou o lábio, pensando por um segundo. “Preocupado?”

Os grandes azuis estavam fixos no gesso do teto. “Não.” Respondeu num tom mais baixo do que pretendia.

Então ambos ficaram em silêncio. O único som presente era o que vinha do lado de fora da janela aberta do quarto. “Estou namorando.” Eren declarou após alguns minutos.

“Uh-huh.”

As sobrancelhas castanhas juntaram-se. “Uh-huh?”

“Estranharei se me disser que não é com Rivaille. Eren, estava tão na cara que isso aconteceria!”

“O que? Sério?” Sentou-se. “Você acha?”

“Sim. Mas não imaginava que ele aceitaria. Aliás, foi você quem pediu, não?”

Eren cerrou os olhos para o amigo. “Sim.”

“Hm,” os azuis voltaram ao teto. “Legal, Eren. E quando foi que aconteceu?”

“Há uma semana.”

Hm,” Armin fechou os olhos, descansando as mãos sobre a barriga.

O silêncio voltou ao cômodo. Eren não entendia muito bem como Armin era capaz de ligar pontos. Não que a situação discutida exigisse algum esforço para ser lida, mas aquilo era algo que achava incrível no melhor amigo.

Grisha bateu em sua porta para pedir que o ajudasse a mudar um móvel de lugar. Eren insistiu que Armin esperasse no quarto e assim o loiro fez. Não acreditava que seria de grande ajuda mesmo se o pedissem. Esforço físico nunca foi seu forte.

Eren não demorou e trouxe consigo o pacote de balas que tanto gostava. Ofereceu a Armin, que aceitou, e ficaram sentados na cama.

“Vai contar a seu pai?” O loiro perguntou.

“Contar o que?”

“Sobre o seu namoro com um cara, Eren.”

“Ah! Eu pretendo. Vou esperar um momento mais apropriado.”

“E por que esse momento apropriado não é agora?”

“Eu não sei. Acho que preciso me preparar um pouco antes de falar.”

Armin ficou quieto. Ocupou-se em separar, por cor, as balas em sua mão. Compreendia o amigo e, de maneira alguma, iria pressioná-lo em relação a qualquer coisa. O assunto mudou para algo que deixava ambos muitíssimo mais à vontade e Armin voltou a deitar no colchão, espalhando seus fios loiros no travesseiro alheio.

Eren abandonou o pacote de balas quase vazio em cima da prateleira e deitou ao lado do amigo. Havia uma distancia entre os corpos e os cabelos castanhos sequer tocavam o travesseiro.

“Acordei com dor de cabeça.” Armin comentou. “Não dormi bem.”

“Pesadelo?”

“Não. Apenas uma noite mal dormida.”

“Durma agora.” Eren ofereceu. Não era algo estranho para dizer ao loiro. Os amigos tinham o costume de irem, um à casa do outro, e simplesmente dormir. Às vezes. E então, ao acordar, ir embora. Achavam um tanto engraçado, mas, também, de alguma forma, confortável. Talvez não soubessem explicar.

“Estou pensando nisso.”

“Estou com um pouco de sono, também.” Eren virou o corpo, encarando a face do amigo agora. “Vamos dormir.”

“Você se mexe e baba, Eren, durma no colchão.”

“Esta cama é minha.”

“Eren, durma no colchão.”

“Por que não posso dormir na minha cama?” Não houve resposta e então o garoto jogou as pernas para fora do colchão, colocando-se de pé. Abaixou-se para puxar a grade e debaixo da cama. “Este colchão é pior do que o que uso.”

“Esse é o antigo de sua cama, não?” Perguntou, apoiando-se nos cotovelos para dar uma olhada no que o amigo fazia.

“Sim.” Eren entortou o lábio. “Vou avisar a meu pai que vamos dormir para que ele não entre aqui fazendo barulho.”

“Ok.”

E assim o adolescente fez. Informou ao pai que tiraria um cochilo e voltou ao quarto. Desligou a luz e fechou parte da janela. “Estou sentindo muito sono nestas férias.”

“Está ficando acordado até mais tarde?”

“Na verdade, não. Não sei explicar. Tenho dormido cedo e acordado cedo. Estranho. Meu horário está realmente melhor agora do que em período de aula.” Deu de ombros.

“Deve ser o tempo.”

“O que tem a ver?”

Foi a vez de Armin dar de ombros, não fazendo questão de responder ao outro.

Eren deitou, cuidadoso, no colchão maltratado e afofou o travesseiro que havia pegado no armário.

Acordaram em torno das 18h11. O dono dos turquesas havia custado a pegar no sono, mas sentia-se satisfeito ao acordar.

“Tire esta coisa do ombro. Deve ser pesado.”

“Ah, um pouco.” Eren livrou-se da alça da capa de seu violão.

“Pode colocar em qualquer lugar.” Rivaille disse.

“Ok.” Descansou o instrumento ao lado do sofá e seguiu o namorado até a cozinha.

“Tome.” O dançarino disse, entregando-lhe um copo d’água.

“Obrigado.” Eren bebeu o líquido tão rápido que sentiu que engasgaria. Entregou o copo ao mais velho e sentou à mesa, desamassando a camisa que vestia.

“De onde vem com tanta pressa?” Rivaille quis saber. Puxou uma cadeira para que pudesse sentar ao lado do mais novo.

“Estava na casa de Armin. Começou a chover logo depois que te liguei. Estou sem guarda-chuva.” Riu. “Ainda bem que não me molhei muito.”

“Por isso está com esse rosto nojento de suor e água? Ew.”

O garoto riu novamente e curvou-se para capturar os lábios do namorado, que tentou detê-lo. Sorria, divertido, enquanto o beijava e recebia leves tapas no rosto. O mais velho resmungando entre o contato.

“Eren, que nojo!” Rivaille reclamou ao partirem o beijo. “Gosto de sal, urgh.” Passou as costas da mão nos lábios e escutou a risada do adolescente.

“Não pode estar tão ruim assim.” Lambeu os próprios lábios, sentindo um gosto muito leve de sal. “Vou lavar o rosto.” E assim o fez, voltando para o mesmo lugar de antes ao sair do banheiro.

O som de chuva dava um ar mais confortável a tudo. Rivaille não gostava de chuvas, na verdade. “Estavam tocando? Você e seu amigo.” Quis saber.

“Sim.”

“O loiro baixinho também toca?”

“Não. Mas ele gosta de ouvir, às vezes. Ele é um pouco mais alto do que você.”

Rivaille ofereceu uma expressão rígida antes de desviar o olhar para as próprias coxas e então voltou a Eren, segurando-lhe as mãos. Suspirou. Gostava tanto da companhia do garoto. Não queria que fosse só mais uma coisa que desse muito errado e chegasse a um fim. Queria preservar a companhia, mas sabia, claro, que relacionamentos não duravam para sempre. Estava cansado.

Ainda perguntava-se se o outro não se incomodava, realmente, com o sentimento não retribuído. Sentia-se quase mal demais. Levou as mãos ao próprio rosto e o garoto enrolou os dedos, tocando suas bochechas com as pontas, que percebeu estarem mais calosas do que o normal. “Seus dedos estão mais ásperos do que de costume.”

“Ah... Troquei a corda do violão depois de um bom tempo... Deve ser por isso.” Explicou.

Rivaille fechou os olhos e poucos segundos depois aceitou o novo beijo que lhe foi oferecido. “Muito melhor sem o gosto nojento de suor.”

Eren sorriu. “Isso me faz imaginar como seria beijar minha irmã após um treino no clube. Digo, não eu, claro, mas algum louco. Ela sua bastante quando joga. Acho que é normal.”

O nojo espalmado no rosto de Rivaille diante do assunto o fazia querer rir. “Me pergunto se os peitos dela não incomodam durante o jogo ou treino.”

“O que ela pratica?”

“Vôlei.”

“Ela usa uma proteção.”

“Ter peitos deve ser estranho.”

“Você é aleijado de peitos?”

“Não foi isso o que quis dizer.” Fez uma pausa. “Peitos grandes... De mulher. Deve ser ruim em dias quentes.”

“Eren, eu gosto de pênis e tenho nojo de suor, por que eu sinto que algo neste assunto não está certo?”

Eren pareceu pensar por um momento e então fez uma careta um tanto engraçada. “Desculpe.” Pareceu estar pensando em algo novamente. “Mas Mikasa não tem peitos grandes.” Provocou o outro, recebendo os traços mais emburrados do mundo. Riu. “Nunca peguei em peitos.”

“Ah, meu deus, Eren, por que ainda está falando disso?“ Uma pausa. Suspirou. “Peça para Hanji deixar que toque nos seios dela. Garanto que não haverá problema.”

“O-o que?” Sentiu as pontas das orelhas aquecerem um pouco, pois sua mente havia feito um retrato da cena não existente.

Houve um silêncio e quanto Rivaille achou que o garoto não falaria algo mais, a voz deste veio, destruindo suas esperanças. “Você já fez sexo com mulher?” Perguntou com real curiosidade.

As sobrancelhas finas juntaram-se muito levemente. A pergunta foi um tanto inesperada. “Sim.”

Oh. “E como foi?”

“Depende de como estamos falando.”

Foi a vez de Eren juntas as grossas sobrancelhas. “O que quer dizer?”

“Quando adolescente,” Rivaille começou “tive uma experiência de uma noite com uma garota que conheci. Quis desistir logo no primeiro momento, mas, por alguma idiotice, continuei. Foi horrível. Ah, horrível.” Encolheu os ombros apenas um pouco para logo relaxá-los.

“Ela fez algo errado?”

“Como algo errado, posso dizer que era o fato de ela ter uma vagina?” Seu tom era de sarcasmo.

Mais uma vez, a risada do adolescente fazia-se presente. “Acho que é isso o que garotas têm.”

Uh! Nojo... Ao menos, me deu mais certeza de que aquilo não é para mim. Diga a sua irmã para não ser lésbica ou uma bissexual, por favor, é um conselho.”

A risada vinha alta e longa desta vez. “Você é incrível.” Então franziu os lábios por um instante. “Do modo como falou, pareceu que essa não foi a única experiência que teve com mulheres.”

“E não foi.”

“Ma-“

“Deixo para contar esta parte num outro dia.”

“O que? Por que? Estou curioso.”

“Os tópicos peitos, suor e sexo com mulher já foram suficientes por hoje, Eren.”

“Você não gosta de peitos?”

Rivaille revirou os olhos e os ombros penderam brutamente. “Esteticamente, e dentro de roupas, acho bonito, pois proporcionam uma bela silhueta, mas todo o resto em torno de seios... Ah, não. Fique quieto por um instante, por favor.” Apressou-se em pedir.

O assunto desnecessário teve seu fim e poucas horas mais tarde, após beijos e mãos, Rivaille usava as pernas para abraçar a cintura do adolescente, fazendo-o ir mais fundo dentro de si. Eren estava um pouco mais esperto.

As férias chegaram a seu triste fim e Armin e Jean não haviam conversado. O assunto havia sido escondido e Eren pensou em como certas coisas que aconteciam podiam balançar nossa vida de alguma forma e depois serem simplesmente deixadas de lado, esquecidas. Ainda que um esquecimento forjado. Também não tocou mais no assunto com os amigos. Talvez eles não quisessem falar sobre o ocorrido. Não iria contra.

Seu relacionamento havia completado um mês e estava feliz com isso. Satisfeito com o andamento e, claro, com sua atual vida sexual ativa. Contudo, agora tinha uma pesquisa de geografia para fazer. Professores que, antes mesmo de desejar bom dia, pediam pesquisas eram os que mais cansavam Eren.