Notas iniciais
Mais para uma conversinha de amigos.

Seu boletim não era ruim, contudo, ainda não se sentia satisfeito com o próprio desenvolvimento em química e geografia (mais em química, pois tinha um ótimo conhecimento em história e isto o ajudava em diversos assuntos da outra matéria).

“Bertholdt tem ótimas notas em química, Eren. Pergunte a ele se pode te ajudar.“ Connie disse, balançando para frente e para trás na cadeira.

“Não nos falamos muito.” Franziu os lábios.

“Ele é legal. E também, ele fala com a sua irmã, então, de uma forma ou de outra, tenho certeza de que ele não recusaria.”

“O quê tem a ver o fato de ele falar com Mikasa?”

“Eu não sei. Talvez ele te ajude por ser amigo dela.”

“Não quero que ele me ajude por conta de um motivo desses.”

“É você quem sabe, Eren.”

Eren suspirou e deitou a cabeça sobre os braços. Não estava com fome, mas sabia que se não saísse para comer algo, mais tarde, no meio de alguma aula que não poderia abandonar, se arrependeria.

“Ah, Armin, por favor, vamos parar com isto.”

“Não foi você quem me pediu ajuda?”

“Eu sei, mas,” fez uma careta “não estou me sentindo no clima e quase nunca estudamos química. Estranho...“

“O quê é estranho?”

“Quase nunca estudamos química e agora que estamos estudando apenas esta matéria, é estranho.”

“Eren, o quê?” O loiro franziu a testa.

“Nah, esqueça. Mas, sério, por favor, hoje não.”

“Eren.”

“Armin.” Pronunciou de forma manhosa e esticou os braços sobre as pernas dele.

“Eren, sai. Tem certeza de que quer parar por aqui?”

“Sim.” Livrou as pernas do amigo. “Desculpe.”

“Tudo bem.”

Eren puxou o violão de cima da cama enquanto observava Armin fechar o livro de química do terceiro ano. “O quê quer ouvir?” perguntou, ganhando os grandes azuis.

“Vai mesmo parar de estudar para tocar violão?”

Os traços do rosto de Eren contorceram-se numa nova careta. “Sim? Ok, não.”

Armin suspirou e Mikasa adentrou o quarto iluminado apenas pela luz que atravessava a janela. A garota entregou uma pequena tigela com salada de frutas para o loiro e o irmão. Armin agradeceu e ela sentou no chão, as costas encostadas à cama e as pernas dobradas.

“Legal você estar aqui hoje, Armin.” Mikasa disse antes de levar um pedaço de maçã à boca.

“Sim. Me desculpem por não visitá-los com mais frequência e fazê-los ter que ir até minha casa.”

“Não se desculpe, Armin.” Eren disse. “Sabemos que não gosta de deixar a casa vazia para quando seu avô chegar. Não se preocupe.”

“E também, não nos incomodamos de ir até lá.” Foi a vez de Mikasa falar.

Um sorriso atravessou os lábios de Armin. “Obrigado. Vocês são incríveis.”

“Não consigo saber pelo quê.” A garota disse e todos riram, mudando o assunto para a nova temporada de uma série, que sairia no próximo mês.

Logo terminaram de comer suas saladas de fruta e não fizeram muito após isto: Eren tocava violão, observando a irmã e o amigo conversando. Mikasa os deixou a sós cerca de uma hora depois, dizendo que tinha trabalhos da escola para fazer.

“Eren, o quê queria me contar?” Armin perguntou.

“Ah,” Eren descansou o violão sobre a cama, mas manteve a palheta entre os dedos. “Ele dança pole dance.” Disse em tom baixo, mas, percebendo a expressão confusa no rosto do loiro, continuou. “Rivaille. O cara da cafeteria que trabalha na academia, Armin.”

“Ah, me desculpe. Ainda não estou acostumado com o nome. Aliás, ele é francês?”

“Eu não sei, por que?”

“O nome. É francês.”

Eren ergueu as sobrancelhas por um momento e Armin voltou a falar. “Isso não importa. O que você estava dizendo?”

“Sim, ele... Dança pole dance.”

Armin riu. “Você está sério?” E Eren fez que sim com a cabeça. “Wow.” Uma pausa. “Isso foi... Inesperado.”

“Sim.”

“Mas como você soube? Ele te disse?”

“Ele dançou para mim.”

“O quê?” Armin pareceu um pouco aturdido.

“É...” murmurou. “Armin,” fez uma pausa, levando os dedos até as temporas “você é meu melhor amigo desde criança, me conhece como ninguém. Diga que tenho certeza da minha heterossexualidade.”

Armin franziu as sobrancelhas. “O quê quer dizer, Eren?”

Os turquesa alcançaram os azuis, apreensivos, e o garoto falou, recuperando o tom baixo: “Em todos aqueles pornôs que já assisti, nunca vi um olhar tão sexy como o dele, Armin. E ainda, o modo como ele faz alguns movimentos. Ele é super flexível, sabia? Ugh!”

“Whoa, Eren, calma.” Gesticulou, observando o amigo esconder o rosto nas palmas das mãos. “Lembro de você me dizer que ele fica bem em roupa justa.” Eren murmurou algo e Armin continuou. “Eren, sabe que nunca tivemos problemas em admitir que outros caras são bonitos.”

“É, eu sei. Mas não é este o problema.”

“E qual seria?”

Fez uma careta e hesitou antes de falar. “Eu fiquei excitado por causa dele.”

Armin abriu a boca, mas disse nada durante alguns segundos. “O-kay.” Pronunciou pausadamente. “Você está falando sério?”

“Por que eu inventaria algo assim?”

“Uh... Ele... Viu que você estava...?”

“Não.”

Armin suspirou. “E como conseguiu esconder?”

“Eu realmente não quero falar sobre isso.”

Ambos ficaram em silêncio, mas logo a voz do loiro fez-se presente. “Acredito que talvez você esteja apenas se confundindo, Eren.” A expressão no rosto do outro pedia para que continuasse. “Digo, nós realmente nunca tivemos problemas em admitir que outros caras são bonitos. Talvez você o tenha achado bonito demais?”

“Eu fiquei excitado por causa de um cara, Armin.”

“Pensei que não quisesse tocar nesse tópico.”

“Uhh.”

Armin riu. “Acho que não deve se preocupar com alguma coisa, Eren. Quero dizer, admito que fiquei surpreso por... Isso. Mas se está te incomodando, tente não pensar sobre, esqueça.” O outro concordou. “Só uma coisa, Eren: por que ele dançou aquilo para você?

Eren explicou o porquê ao amigo, sendo chamado de idiota em algum momento enquanto ainda falava. Ao final da conversa, concluíram que tudo não passava de uma “atração momentânea” e Eren agradeceu ao outro por escutá-lo. “Sentia que ia explodir se não te contasse.”

“Sabe que vou usar isso para infernizar você, hm?” Armin disse, arrumando os pertences dentro da mochila.

“Não faça isso.”

“Estou brincando, claro, Eren.” Riu.

“Aonde foram depois?”

“Pra um estacionamento abandonado. Não precisa fazer essa cara. Tinha algumas pessoas além de nós dois, não exatamente com a gente, mas...” deixou a palheta cair no chão. “Ficamos conversando.”

“Eren, acho melhor você tomar cuidado com esse homem.”

“Ele só está tentando ser legal.”

“Pode até ser, mas ainda sim. Ele pode ser alguém perigoso.”

“Certo, esqueça isso. Adivinhe o quê terminei.” Escolheu abandonar o assunto e Armin cruzou os braços. “O livro que seu avô me deu. Rápido, não?” vangloriou-se.

“Devia estudar mais o quê não entende invés de ficar lendo um livro que já leu antes, Eren.”

“Você faz isso.”

“Mas eu não estou com problemas em química e geografia.”

Eren fez bico, dizendo que não eram “problemas”, mas sim o fato de estar insatisfeito com o próprio desempenho nas tais matérias.

Logo Armin anunciou que teria de ir para casa e Eren e Mikasa fizeram questão de acompanhá-lo até a estação de metrô. “Desculpe não ter podido ficar mais tempo com você, Armin.” A garota dizia. “Disse que tinha uns trabalhos da escola para fazer, huh? Sinto muito.”

“Imagine, Mikasa, eu entendo completamente. Não quero ser a culpa do seu mau desenvolvimento na escola.” Lançou o olhar a Eren, que pegou a piada.

Despediram-se na catraca da estação e os irmãos deixaram o lugar quando a imagem do loiro sumiu de seus campos de visão.

“Somos muito idiotas por fazermos isto.” Eren dizia em meio ao riso. Estava acompanhado de Armin e Jean. O loiro havia deixado o notebook em cima da mesa de madeira para mostrar vídeos de detonados editados para os amigos.

“Eu precisa que vissem isto, sinto muito.” Armin disse, pausando o vídeo.

“Cara, seis, Jaeger, seis.” Jean agarrou o tecido da camisa de Eren enquanto falava, fazendo sinais com os dedos. “Seis parceiros mortos.” Ria por conta do detonado que há pouco assistia.

Os três adolescentes tomavam suco e comiam qualquer porcaria, sentados na mesa de costume, no lugar de costume. “Vamos deixar esta parte da cafeteria totalmente reservada para vocês.” O segurança do lugar brincou mais cedo, ao chegarem no local.

“Pois é, nem você faz isso.” Eren respondeu a Jean. “Vou comprar mais suco.” Avisou após dar fim ao líquido amarelado. “Alguém quer?”

“Ah, Eren, por favor.” Armin pronunciou e puxou a própria mochila no intuito de pegar o dinheiro. “Traga mais um para mim, por favor.” Entregou a quantia a Eren.

“Jean?”

“Não.”

Eren deu de ombros e afastou-se para logo entrar no prédio. O cheiro gostoso de café invadindo suas narinas e a música ambiente alcançou seus ouvidos. Duas pessoas estavam na sua frente para fazer o pedido. Pensou em comprar algo para comer e lançou sua atenção ao mural de preços pendurado na parede atrás dos atendentes. Não que precisasse realmente consultá-lo.

Uma pessoa até sua vez de fazer o pedido e tirou a atenção do menu para dar dois passos à frente. Virou a cabeça para poder observar as mesas do lado de fora através do vidro, mas um tufo negro tomou seus olhos e sentiu sua garganta travar por um segundo. “Rivaille! Que susto!” Riu nervoso e abandonou um suspiro, observando o outro fechar os olhos por um instante. “Como está?”

“Bem.”

Mais uma vez, esperou pela pergunta que não veio. “Desculpe, não tinha percebido você aqui.” Rivaille disse nada e Eren começou a se perguntar como o humor dele funcionava.

“Eren, a fila.”

“A-ah, desculpe...” dois passos à frente e o atendente já familiar riu baixinho antes de perguntar qual seria o pedido. “Só um minuto.” Pediu ao homem do outro lado do balcão. “Vai pedir o café de sempre?” Perguntou a Rivaille.

“Sim.”

“Me deixe pagar para você.” Observou a expressão alheia mudar. “Você me pagou um BK outro dia, me deixe pagar pelo seu café agora.”

Um sorriso brincou nos lábios de Rivaille e as sobrancelhas curvaram-se. “Cavalheiro.” Disse, num tom zombado. “Lembro-me de ter insistido em me devolver o dinheiro logo depois.”

Eren abriu a boca, mas nada disse. Havia esquecido daquele detalhe. “Ainda sim, me deixe pagar.” Insistiu.

Rivaille exalou uma risadinha. “Claro, por que não?”

“Obrigado! Café preto, hm?” E fez os pedidos ao atendente, que logo os registrou, informando o valor. Retirou do bolso da calça o dinheiro que Armin havia dado e procurou pelo seu no outro bolso. Não gostava de usar carteira, o volume causado o incomodava. Retirou certa quantia, mas ao verificá-la, percebeu que não era suficiente. Enfiou a mão no bolso novamente, procurando pelas notas, mas aquilo era tudo o que tinha.

O atendente repetiu o valor e Eren tateou os bolsos da frente, encontrando apenas o celular. “Eren?” Rivaille chamou.

“Acho que deixei o resto do dinheiro dentro da mochila. Vou buscar, é rápido.” Deu as costas ao menor, mas este o impediu de continuar, segurando seu braço.

“Cobre o café separado, por favor.” Rivaille pediu ao atendente, que concordou.

“Não.” Eren pronunciou em tom baixo. “Eu ia pe-“

“Acha mesmo que eu ficaria aqui esperando?”

“Mas eu ia pagar...” Escutou o homem atrás do balcão informar o novo valor que deveria ser pago. Estalou a língua e entregou o dinheiro. Logo recebeu a nota fiscal juntamente com os dois copos de suco.

Deu espaço a Rivaille e esperou até que ele confirmasse seu pedido e pagasse. “Me desculpe.” Pediu, sem graça.

Um suspiro pesado. “Devia prestar mais atenção antes de se oferecer para pagar algo para alguém.”

“Desculpe. Não imaginei que tinha deixado o dinheiro na mochila.”

O nome de Rivaille foi chamado e logo a xícara de café preto estava em suas mãos.

“Prometo que prestarei atenção numa próxima vez.”

“Oh, terá uma próxima vez para isso?”

Eren torceu os lábios, desviando o olhar por um momento.

“Seus amigos não estão esperando por você?”

“Ah, estão sim. Você está sozinho de novo, quer sentar com a gente?”

“E ser obrigado a ouvi-los tagarelar? Não, obrigado.”

Cerrou os olhos. “É só um convite.”

“Pois eu recuso.”

“Ugh.” Preferiu não insistir em mais palavras com o outro e rumou para fora do prédio. “Aqui, Armin.” Disse, entregando o copo de suco ao amigo ao voltar à mesa.

Armin agradeceu e Eren sentou ao seu lado, bebericando o líquido doce. Jean avisou que iria ao banheiro e logo não estava mais ali. O garoto de fios castanhos apoiou o queixo sobre a mão. Sua vontade no momento era ser capaz de entender a mudança de humor de Rivaille, mas não achou que conseguiria. Contudo, o dava um ponto. Afinal, o havia feito passar por um pequeno momento de vergonha. Franziu o lábio, sentindo-se tão idiota quanto qualquer coisa. Que vergonha.

“Eren!” escutou uma voz feminina o chamar e piscou duas vezes. Era Hanji. Ela estava de pé ao lado de sua mesa, o sorriso animado sempre no rosto largo. “Como está?” ela perguntou.

“Hanji. Estou bem, e você, como vai?”

“Muitíssimo bem. Quem é este? Seu amigo?” perguntou, olhando para Armin.

“Ah, sim, meu melhor amigo. Armin.” E o loiro a cumprimentou educadamente.

“Rivaille está lá dentro.” Informou.

“Ah, sim, eu sei. Ele não me esperou.” Riu. “Bem, vou entrar. Foi ótimo encontrar você.” Acenou para os dois adolescentes e os deu as costas.

Eren explicou ao loiro que Hanji era amiga de Rivaille e que trabalhavam juntos. Disse, também, qual era a função da morena na academia. Não havia terminado de falar quando Jean voltou. Não se deu o trabalho de parar, porém.

Armin havia guardado o notebook e os três apenas conversavam agora. Falavam sobre Skyrim, e os melhores amigos descobriram o quão ruim Jean era no jogo. Claro que o moreno não aceitou ser chamado de “mau jogador” e logo sua expressão não muito amigável estava presente em seu rosto. Foi a vez do loiro relatar sobre o próprio save. Os traços emburrados ainda estavam na face de Jean, o que fazia Eren recordar do porque o provocavam, dizendo que “não sabia brincar”.

A noite já havia caído e junto com ela, o vento gelado. Eren pediu emprestado, novamente, o moletom de Armin antes de deixar o apartamento, mas o loiro o entregou um suéter azul escuro. Não reclamou. Sequer havia algo para reclamar, na verdade. Sempre gostou dos suéteres do amigo.

Passava do outro lado da rua da cafeteria em rumo à estação. As luzes do lugar ainda estavam ligadas e pessoas ainda estavam presentes, mesmo que poucas. Retirou o celular do bolso ao parar próximo à faixa de pedestres, o sinal ainda estava verde para carros. Verificou o horário e uma mensagem que havia recebido. Logo o sinal estava vermelho para os veículos e pôde atravessar a rua. Seus olhos ainda estavam fixos no aparelho, uma vez que ainda digitava a resposta. Seu corpo foi parado bruscamente e sentiu uma pressão nos ombros. Os turquesas arregalaram-se ao erguer a cabeça. “H-Hanji!”

“Eren! Eren, Eren” ela repetia, fazendo-o ficar preocupado. “Que bom que te encontrei! Você mora por aqui? Ah, não importa! Escute,” atropelava as palavras, deixando Eren confuso agora “o que fará no domingo?”

“Eh? N-nada, eu acho... Por que?”

Hanji deu um pulinho e Eren olhou ao redor. “Que bom! Nah, Eren, aceita sair comigo?”

Recuou um passo. “O que?” Não sabia se havia entendido realmente. Por que a outra o chamaria para sair?

Hanji riu. “Não é nada disso. Tenho que ir à casa de Rivaille neste dia, mas não quero ir sozinha, entende? Ele está um pouco... Estressado e não quero ser a única a aguentar.” Choramingou.

E aí teria que aguentar o mau humor do outro?

“Mike ia comigo, mas teve de cancelar porque surgiu um compromisso importante e Erwin também estará ocupado, sairá com o filho. Enfim, acho que entendeu que não há mais ninguém, além de você, é claro, para ir comigo.”

Era óbvio o quê a morena esperava ouvir como resposta. “Eh, Hanji... Eu não sei, não... O quê tudo isso tem a ver comigo?”

“Absolutamente nada, mas é uma ótima coincidência tê-lo encontrado aqui agora e Rivaille te conhece.”

“Por que não inventa que surgiu um compromisso?”

“Nahh, Eren, por favooor.”

Eren fez careta e suspirou, relaxando os ombros. Não queria ter que estar na presença de Rivaille enquanto este estivesse estressado. Não queria passar seu domingo ao lado de alguém que, provavelmente, não o trataria muito bem.

“Ereeen.”

“Hanji, eu não-“

“Me perdoe por pedir que desperdice o seu domingo por minha causa, mas, por favor.”

“Tá, tá, tudo bem.” Estalou a língua, desistindo.

Hanji fez uma pequena comemoração e o abraçou apertado. “Obrigada, Eren! Que bom que te encontrei aqui.”

“Você está mimando ele ou é só a minha impressão?” Perguntou quando a morena finalmente o livrou do abraço.

“Nah, não é mimar. Mas eu gosto de estar ao lado dele apesar de tudo.” Riu nervosa.

Se gostava de ficar ao lado dele, por que não ia sozinha? Ugh.