Agradeceu antes do senhor alcançar o interfone, apertou os dedos na alça da bolsa e não fez questão de olhar ao redor. O cenário já estava bem registrado em sua cabeça. Não demorou para que o mais velho o pedisse para esperar, que alguém já viria buscá-lo. Agradeceu novamente e, óbvio, esperou. Não era como se tivesse alguma outra opção válida. Três ou quatro minutos se foram até que Hanji aparecesse.

Logo fez seu caminho pela porta já familiar, mas entraram numa segunda, que levava às escadarias que o público não tinha acesso. “Rivaille está um pouco ocupado, por isso não pôde vir buscá-lo. Mas não se preocupe, levarei você até ele.” A morena disse, sempre sorridente. Pensou ter subido pelo menos três lances de escada quando finalmente ganharam um corredor. Uma porta foi aberta e Rivaille a atravessou. Parecia apressado. Estava vestindo uma espécie de leg branca, que revestia parte de seu pé e apenas isso. O dorso desnudo.

“Rivaille!” Hanji o chamou.

Eren não sabia se deveria acenar quando o homem mirou os cinzas para si, ou se mantinha-se quieto. Escolheu a segunda alternativa. Um aperto em seu pulso e foi puxado em direção à porta aberta.

“Desculpe se demorei.” Ela disse.

“Preciso de café. Vá comprar para mim.”

“O que?” Riu. “Também estou ocupada, Levi, v-“

“Escute aqui, quatro olhos,” aproximou-se da morena, fazendo com que Eren recuasse um passo “por sua culpa, estou tendo que fazer isto hoje. Você me encheu de trabalho apenas pelo fato de eu estar aqui. Faça o favor de dar alguma utilidade à sua vida e vá me comprar um café.”

Um momento de silêncio antes da voz de Hanji ocupar o ar. “Bem! Está entregue, Eren. Fique aqui com Levi enquanto vou até a cafeteria.” E deu-lhes as costas, voltando à escadaria que esteve momentos atrás.

Eren esperou que a mulher sumisse de seu campo de visão para finalmente falar. “Não acha que foi um pouco duro com ela?” Não houve resposta. “Eh-“

“Venha.”

Seguiu Rivaille, entrando na sala consideravelmente grande. O interior era claro e um espelho revestia uma das paredes inteira. Haviam poucos moveis: um pequeno sofá branco, uma mesa (havia um notebook em cima), três cadeiras e um conjunto de cabides com algumas roupas e bolsas penduradas. Uma coisa em particular chamou sua atenção: um mastro de ferro no centro da sala.

“Tire a bolsa. Pode pendurar ali.” Apontou para os cabides. “Parece que terá de esperar um pouco até que possamos fazer algo. Aquela quatro-olhos doente me deu trabalho justo hoje.” Disse, irritado.

Eren se livrou da alça que atravessava seu peito e a pendurou em um dos cabides.

“Desculpe por isto.”

“Pelo quê está se desculpando? Lembro de ter dito que não teria nada de especial para fazer aqui. Está tudo bem.”

Rivaille o encarava, as duas mãos na cintura. Eren sentou em uma das cadeiras e entrelaçou os dedos entre as pernas. “Então,” começou “quê trabalho é esse que tem de fazer?”

O menor se aproximou da barra de ferro antes de responder. “Concluir quatro movimentos aqui.” Tocou o objeto à frente.

Eren franziu a testa e perguntou o quê já sabia ser a resposta. “O quê é isso?”

“Pole dance.”

“Você... Dança isso?”

“Não é ‘isso’.” Deu ênfase à última palavra e Eren não sabia se o tom ofendido em sua voz era fingimento ou não. “Faz parte da arte.” Olhava com quase admiração para o mastro.

Ele realmente dançava aquilo? Sério? Já havia achado estranho o fato de dançar balé, e agora isso. E além do mais, um homem... Certo, o mesmo pensamento havia lhe ocorrido no primeiro momento em que a informação sobre a atuação no balé penetrou seus conhecimentos, mas... Era ignorância sua ou apenas mulheres realizavam aquela dança?

“Eu pensei que você fosse bailarino?”

“Não pense que a palavra se limita apenas ao balé.”

Eren pensou por um momento. “Por que tem uma coisa dessa aqui?”

“O dono do lugar – o velho que estava ao lado de Erwin na noite da peça – é um tanto excêntrico. De certa forma, isto é bom, pois temos muitos setores diferenciados aqui. Ele diz que liberdade de expressão é tudo, que a arte pode possibilitar isto e que não se permitirá ir contra esta regra. Admito que é um dos motivos pelo qual aceitei trabalhar aqui. Gosto e apoio a ideia dele.” Fez uma pausa, descansando as costas nuas na barra vertical e cruzou os braços. “Há alunos aqui, você já sabe, e abrir espaço para ensinar também foi uma ideia do velho.”

“E o quê é ensinado aqui?”

“Não é óbvio? Música, dança, teatro, pintura...”

Torceu o lábio antes de repetir “Você dança isso? Digo, o pole dance.”

“Aposto que posso fazer uma ótima demonstração com qualquer música ruim que escolher.”

As sobrancelhas juntaram-se por um momento. “Sério? Eu pensei que apenas mulheres faziam isso-“

Os cinzelados rolaram para o topo das orbitas. “Assim como pensou várias outras coisas erradas, não?”

Desconforto. “Hm,” olhou ao redor e uma ideia lhe tomou a mente. “Qualquer música?” desenhou um meio sorriso no lábio.

Rivaille arqueou uma sobrancelha, estranhando a repentina mudança no tom de voz do outro, mas logo sorriu esnobe. “Qualquer música.”

Eren enfiou a mão no bolso da calça, buscando pelo celular. Rumou direto à pasta de música quando o alcançou. Descobriu que não havia sequer pensado numa música em especial antes de abrir a boca, mas rolando o screen pela lista de títulos, logo um chamou sua atenção. “Aqui.” Disse, estendendo o aparelho para que o outro pudesse ver.

Rivaille aproximou-se e segurou o celular, a sobrancelha erguendo-se novamente. “Madness? Sério, Eren?”

“Você conhece? Você disse qualquer música.”

“Huh.” Caminhou até a mesa com o notebook e puxou uma cadeira para sentar-se, as pernas cruzadas. Buscou por um cabo USB dentro de uma pequena caixa preta ao lado do computador e logo conectou o aparelho a ele. Levantou-se após selecionar a música e fitou o garoto. Nenhuma palavra foi pronunciada e o som já familiar aos ouvidos de Eren tomou conta da sala.

Enquanto a sílaba era repetida, Rivaille caminhou até o mastro e circundou-o com as mãos. A batida começou e ele enroscou uma das pernas, girando duas vezes em torno da barra vertical. Manteve a perna na mesma posição enquanto ondulava o torso nu no instrumento de dança. Não demorou para que as costas voltassem a ter contato com o mastro e, com um sorriso zombeteiro, passou a se exibir ao garoto.

Aquela ideia ainda era um pouco estranha para Eren, mas assistia atentamente ao outro, seus punhos fechados sobre os joelhos. Seus olhos fizeram contato com os cinzelados. Quando eles haviam se tornado mais densos do que o normal?

O nome da música foi pronunciado pela segunda vez e, com isto, Rivaille o deu as costas, deslizando pela barra. Seus olhos foram pegos pela curva das nádegas do homem e sentiu suas bochechas aquecerem. Limpou a garganta, fazendo um barulho rude, mas baixo. I have finally seen the light, e Rivaille estava de pé novamente. Fechou os olhos e entreabriu a boca. Uma mão passou rapidamente pelo torso, parando próximo ao pescoço. Os cinzelados voltaram a se mostrar e miraram diretamente os turquesa, causando um pequeno arrepio na nuca do garoto.

Finalmente, um movimento que Eren esteve esperando para vê-lo realizar: Rivaille segurou com firmeza na barra e ergueu-se um pouco mais de um metro do chão. Um giro e no momento seguinte, estava de cabeça para baixo. Como conseguia ter tanta força? As pernas espalharam-se, dando ao garoto toda visão de sua virilha. Mas logo deslizou até tocar o chão, juntando as duas pernas. Apoiou um pé no mastro, esticando-se para um novo giro e o finalizou ao conseguir altura.

Fez uma espécie de “estrela” ainda no ar e Eren arregalou os olhos, aquilo havia sido incrível. As pernas voltaram a abrir e ao que o nome da música era pronunciado pela quarta vez, Rivaille deixou que o corpo caísse lentamente, ainda segurando na barra, claro. As pernas tocaram o assoalho ainda abertas e mais uma vez Eren surpreendia-se. Não pode, porém, deixa de fazer uma leve careta. Aquilo devia doer! Lembrou que a irmã sabia fazer tal movimento, cujo não recordava o nome, mas sabia que era algo estranho de se pronunciar. Mas por que pensar em Mikasa? E ainda, como o outro conseguia ser tão flexível?

Ele se recompôs e começou a andar em passos curtos ao redor do mastro. Parou de frente ao garoto e descansou as costas na barra. Os olhos fecharam-se por um instante e a mão voltou ao torso, acariciando-o lentamente desta vez. Um sorriso torto, que Eren ainda não havia presenciado, tomou conta do rosto pálido e um dedo traçou um caminho entre o queixo e o lábio inferior.

Eren sentiu um pequeno tremor no pé da barriga. Os azuis permaneciam caídos sobre si de forma erótica, que jamais teria imaginado, e aquele sorriso... Aquele sorriso com certeza havia sido proposital. Não? O solo havia começado e no mesmo instante, Rivaille ganhou impulso e firmou as duas mãos no instrumento. O corpo foi erguido pela força exercida. Ele rodava em torno da barra sem sequer tocá-la uma única vez, tampouco, o chão. Abraçou o objeto com as pernas, mas não deu fim aos giros.

Quando os finalizou, estendeu um dos braços numa pose que lembrava um dos passos de balé. Livrou o mastro de sua outra mão e agora segurava-se apenas com as pernas. Jogou o corpo para baixo e Eren podia ver as marcas das costelas sob a pele agora esticada. Talvez fosse pelo desenho do corpo... Músculos tímidos e abdômen definido – nada exagerado –, que não tirava a beleza da dança pelo fato do outro ser homem. Ou talvez estivesse apenas sendo ignorante. As mãos voltaram a agarrar a barra e as pernas a abandonaram. Os pés voltaram ao assoalho.

Quando a voz de Matthew se fez presente, Rivaille passou a sibilar a letra e começou a acariciar o mastro, sem tirar os olhos de cima de Eren. Expecting you to care – passou uma mão pelo rosto e fez um movimento ondular com a cintura. Um dígito traçou seu lábio inferior. As notas aumentaram e o garoto percebeu as sobrancelhas finas juntarem-se antes do corpo magro ser abaixado.

Uma expressão de dor tomou conta dos traços finos, os olhos fechados e os lábios entreabertos. Abriu as pernas e deslizou uma mão até a virilha. Mordeu o lábio enquanto as coxas separavam-se um pouco mais. Eren engoliu em seco e toda a cena foi diretamente para seu membro.

Rivaille abriu os olhos, lançando-os ao adolescente, que os recebeu tão intensos como se fossem navalhas. Sibilou Come to me, seu olhar penetrando os turquesa. A mão antes na virilha, chocou-se contra o assoalho. Os traços de dor minimizaram ao que engatinhava em sua direção agora. As costas arqueadas majestosamente. Eren juntou as pernas como opção para tentar esconder a ereção que havia ganhado. Suas orelhas estavam em chamas.

O outro parou na metade do caminho e ergueu o torso, acariciando o próprio peito e cabelos enquanto fingia cantar a última parte da música. Levantou o corpo de forma sensual e voltou para perto do mastro abraçando-o com uma das pernas. Pendeu o corpo para trás, dando um meio giro para logo abaixar a cintura, oferecendo uma ótima visão da silhueta de suas curvas. Especialmente de suas nádegas. No instante antes da música acabar, fez um último espacate e a franja lhe cobriu os olhos.

Dois ou três segundos de silêncio e Eren ouvia a saliva percorrer sua garganta. Observou Rivaille pondo-se de pé e, para sua sorte, quando receberia os cinzelados, Hanji entrou na sala.

“Levi. Levi, trouxe seu café.” Ela disse. “Tome.” Estendeu o copo com tampa para que Rivaille o pegasse. “Preciso entregar alguns papeis à Nanaba. Mais tarde passarei aqui para ver como estão as coisas e talvez ficar um pouco para conversar.”

“Ninguém aqui está a fim de ouvir você tagarelar, quatro-olhos.”

Hanji riu. “Eren,” os castanhos agora sobre o garoto “está tudo bem, querido?”

“H-huh?” sentiu suas mãos começarem a suar. “Estou bem.” Suas mãos agora descansavam sobre a ereção escondida pela calça, tudo para conseguir disfarçar algo que antes não estava ali.

“Tem certe-“

“Onde infernos comprou essa droga, Hanji?” Rivaille esbravejou, roubando a atenção da morena.

“Eh... Talvez não tenha sido numa cafeteria mais próxima daqui.”

Eren sequer deu atenção à discussão que ocorria em sua frente. Tentava pensar em algo que fosse capaz de fazer sua ereção desaparecer. Sua mente vagou entre coisas como louça suja e o cheiro de roupa suada de sua irmã depois de um dia no clube.

“Até mais, Eren.” Escutou a voz de Hanji, mas quando ergueu o olhar para encará-la, a morena já não estava mais na sala.

“No quê está pensando, garoto? Acorde.”

“Desculpe...”

“Você está mesmo bem?” uma sobrancelha erguida.

“S-sim. Não se preocupe. Acho que estou com fome, só isso. Me desculpe.”

Rivaille estalou a língua. “Vamos sair para comer alguma coisa.”

“O que? Não, não. Não se preocupe. Estou bem. Não quero atrapalhar o seu trabalho.”

“Fique quieto e vamos logo. Preciso de um café decente.”

Eren havia passado um pouco mais de uma hora ao lado de Hanji. A morena o havia oferecido sua companhia enquanto Rivaille ensaiava os movimentos que havia citado mais cedo. Não a ajudou em trabalho algum, como havia pensado que teria de fazer. Pelo contrário: passaram a maior parte do tempo vendo coisas que não precisavam em suas vidas na internet. Vídeos. A pior parte era que os vídeos que a mulher o mostrava conseguiram lhe arrancar altas risadas.

Gostava da companhia de Hanji. Desconsiderando os abraços com força exagerada e gritos repentinos que o assustavam, realmente gostava da companhia da morena. Havia ido ao Burger King, que não era longe da academia, e sentia-se satisfeito (mesmo que a fome tivesse sido apenas uma desculpa).

Quando Rivaille apareceu, usava um jeans preto apertado, camisa cinza e jaqueta de couro preta. A bolsa de alça pendurada no ombro e botas de cadarço nos pés. Avisou a mulher que já havia terminado com o trabalho e que não tinha mais nada para fazer ali.

Eren despediu-se de Hanji e vestiu sua jaqueta ao sair do prédio ao lado do outro. Esfregou as mãos nos braços. Não estava frio, na verdade. Um vento gostoso bagunçava seus cabelos ao que a luz do sol partia.

“Aonde vamos?” perguntou, afundando as mãos nos bolsos da jaqueta.

“Qualquer lugar. Aonde quer ir?”

“Qualquer lugar.” Riu baixinho.

Caminharam pela rua ao lado da academia e finalmente chegaram ao carro do mais velho. Logo estavam aquecidos dentro do veículo. “Tenho uma ideia de onde podemos ir.”

Eren não perguntou sobre o lugar. Encostou as costas no banco de passageiro e ficou a olhar o movimento na avenida enquanto inalava o cheiro de carro limpo. Passaram em um mercado para comprar chá e refrigerante no meio do caminho.

“Não ouse comer dentro do meu carro.” Rivaille disse quando Eren pegou um pacote de salgadinho de dentro da bolsa.

Entraram numa rua não muito movimentada e o veículo seguiu para um estacionamento abandonado. A noite já mostrava-se completa e poucas nuvens estavam espalhadas pelo céu. “Chegamos.” Rivaille anunciou, desligando o carro.

“Onde é aqui?” perguntou finalmente.

“Um estacionamento abandonado. É agradável, apesar de ser um local abandonado, e é ao ar livre, o quê é realmente bom.”

Eren soltou o cinto de segurança e Rivaille colocou a cabeça para fora da janela, voltando a falar. “Há pessoas aqui.”

“Isso é ruim?”

“Depende do modo como você encara.” Voltou completamente para dentro do carro e desfez-se do próprio cinto. “É comum que haja pessoas aqui. Depois de ser abandonado, podemos dizer que se tornou um tipo de parque para hippies, casais, fumantes etc.” Alcançou a bolsa e sacola com as compras após fechar as janelas, e abriu a porta do veículo. “Vamos.”

Eren o acompanhou. Havia um extenso gramado mal iluminado além de uma das extremidades do estacionamento. Caminharam em silêncio até lá e o garoto pescou um grupo de quatro pessoas ao longe. Um pequeno brilho vermelho na escuridão, deviam estar fumando, pois, junto com a pequena luz, veio o som abafado de tosse.

“Vamos sentar ali.” Rivaille apontou e logo seguiram até o lugar.

Eren descobriu que, quanto mais para dentro do gramado do estacionamento, menos iluminação encontraria. Era algo bom, de certa forma, pois as luzes não atrapalhavam ao olhar para cima, observando o céu limpo, salpicado de estrelas.

Sentaram no gramado e o garoto observou enquanto o outro espreguiçava-se. “Poucas nuvens no céu. Ótimo.” Rivaille disse, mirando os cinzelados para cima. Um sorriso mínimo tomou seus lábios.

Eren juntou os joelhos e cruzou os braços sobre eles, apoiando o queixo. Observava os brilhos na escuridão.

“Pegue.” A voz de Rivaille o chamou atenção e este o ofereceu a latinha de refrigerante.

“Obrigado.”

Os olhos do homem voltaram à escuridão. O som rápido de gás e Eren logo sorvia do refrigerante. Alguns minutos se foram. Os únicos sons que chegavam aos ouvidos do garoto eram o de tosse, abafado pela distância, o vento tocando a grama alta e folhas nas árvores e o líquido, que partia da latinha para sua garganta.

“Pensei que não gostasse de silêncio.” Rivaille disse, os orbes ainda fixados no céu.

“Acredito que há momentos em que ele é necessário.”

“Oh,” os cinzelados finalmente caíram sobre o garoto “em que rede social leu isso?”

“Hein? Nenhuma...”

Rivaille exalou uma risada rápida e bebericou o matte gelado.

“Você gosta de Muse.” Não foi uma pergunta, mas o garoto logo arrependeu-se de ter pronunciado.

“Eles são bons.” Uma pausa. “Sei que está morrendo de vontade de dizer que foi um pirralho idiota e que, ah, sim, qualquer música foi maravilhoso.” Zombou.

Qual era o problema do senso de humor dele? “Você é meio egocêntrico, não?”

Um sorriso torto. “Me reconheço naquilo que sou bom.” O sorriso se foi e os dedos alisaram os fios negros. “Não é como se fosse algo ruim. Nos esforçamos demais para fazermos direito coisas que queremos... Até mesmo as que não queremos. O mínimo que podemos fazer por nós mesmos no final, é reconhecer que conseguimos ser bons, mesmo que qualquer idiota te critique. Sempre há imbecis.”

“Devo assumir que já foi criticado pelo seu trabalho?”

“Huh,” outro gole. “Por diversas coisas... Eu acho.”

Abriu a boca, mas pensou novamente e mudou o quê iria falar. “Você foi incrível. A dança. Como consegue? Exige que tenha força e flexibilidade e, bem, você não parece ser muito forte.”

Rivaille arqueou a sobrancelha. “Me explique como posso encarar isso como um elogio.”

“Desculpe. Não foi o quê quis dizer. É que... Você é bem magro. Não creio que alguém pensaria que é forte. Mas acho que as forças são diferentes.”

Uma risada tomou o ar. “Você confunde as palavras, Eren, já te falaram isso?”

“Huh?” franziu o lábio antes de continuar. “Acho que sim...” ficou em silêncio por um momento, observando o outro brincar com o lacre do copo de chá. “Você foi ótimo. Quero dizer, a dança. Foi ótima.” Atrapalhou-se um pouco, fazendo Rivaille rir novamente, mais contido desta vez.

“Obrigado, Eren.”

“Aquela coisa, como chama? Aquilo que fez com as pernas? Deve doer...” a expressão contorceu numa careta.

“Está falando do espacate? Nah, você se acostuma depois de um tempo até não doer mais.”

Não demorou para que dessem fim à suas bebidas. Rivaille jogou a latinha e o copo dentro da sacola do mercado, poria no lixo depois. Os minutos passavam e a conversa sobre qualquer coisa ia junto. Eren respondia algumas perguntas feitas pelo outro, coisas referentes à escola. “Já sabe o quê quer fazer?”

“Ainda não. Meu pai acha que acabarei seguindo na carreira de músico, mas eu discordo, apesar de considerar, às vezes.”

Rivaille fez menção de dizer algo, mas a brisa gélida que tocou as peles o impediu. Foi a vez de Eren perguntar. “Por que escolheu a dança?”

“História longa história.” Brincou, tomando a liberdade de descansar a cabeça no ombro do garoto. “E vai parecer meio gay.”

“Ah, você com a cabeça no meu ombro não é nenhum pouquinho gay.” Eren riu e conseguiu tirar uma risadinha do outro, também, mas recebeu um fraco soco no braço.

Jogou a bolsa debaixo da prateleira onde ficava seu notebook, videogame e bagunças, e sentou-se de forma desajeitada na cadeira do computador. Pendeu a cabeça para trás e pressionou um pé no chão para que pudesse balançar a cadeira. Um suspiro. Sentia-se cansado e a ideia de um banho o enchia de preguiça, mesmo que fosse necessário. Fechou os olhos.

Não era como se não quisesse pensar naquilo.

Deslizou lentamente uma das mãos sob o tecido da camisa, descansando-a próximo à cintura e a imagem de Rivaille curvando-se, explicitando certas curvas de seu corpo, voltou à sua mente. A cena das mãos percorrendo a pele perolada até a virilha e coxa tomava conta de seus pensamentos agora. Ah, aquela imagem não lhe saía da memória. A expressão sofrida e a boca entreaberta.

Umedeceu os lábios. Sua outra mão trilhando um caminho até a própria coxa. Conseguia ouvir a música, que não estava sendo realmente tocada. Nunca havia percebido o tom sugestivo que ela podia ter. Talvez tenha sido uma péssima escolha de som.

Os cinzelados voltavam a atingi-lo como navalhas e um gemido baixinho abandonou sua garganta. O misto de desinteresse e sedução no rosto do homem o fez sentir novamente um arrepio gostoso na nuca. O dedo próximo ao lábio e aquele sorriso. Eren pressionou de leve as unhas contra a própria pele e a mão em sua coxa subia de encontro à ereção presente outra vez, apertando o volume ao alcançá-lo. Outro gemido baixo.

A expressão de dor, o lábio mordido e a mão ousada entre as coxas redondas estavam lá e os dedos atrapalhados desfaziam os botões e zíper do jeans azul escuro que vestia. Um arranhão foi deixado na cintura e logo pôde sentir o contato direto com o membro quente. Esteve esperando por aquilo durante boa parte de seu dia e sentia-se quase um idiota. Fechou a mão em torno da ereção, massageando, e Rivaille engatinhava em sua direção, o sorriso torto ainda no rosto do homem.

Imaginou como seria se o outro não tivesse parado no meio do caminho, se o tivesse alcançado, ficando entre suas pernas. Imaginou os dedos alheio fazendo o trabalho de desabotoar sua calça e os lábios finos umedecendo-se para o que viria a seguir. Mordeu o próprio lábio na intenção de conter um gemido. O nublado dos olhos de Rivaille em si enquanto o chupava era uma bela visão, mesmo não sendo real. O olhar um tanto erótico estava grudado à sua mente. “Tsc.” Passou as unhas curtas pela pele do abdômen, muito levemente. As costas nuas arqueavam-se, oferecendo-lhe o desenho curvo das nádegas na calça justa.

Era uma pessoa horrível. Logo um suspiro pesado foi abandonado e Eren estalou a língua ao se dar conta de que teria de tomar um banho e colocar sua camisa para lavar. “Droga.”