“É sério, eu voltaria sozinho sem nenhum problema.” Eren dizia pela segunda ou terceira vez, sentado no banco de passageiro de um Prius 2012 preto.

“Não sou irresponsável a ponto de deixar uma criança sozinha à esta hora.”

“Não sou criança. Já pedi para não me chamar assim.”

Rivaille o olhou de esguelha, mas logo voltou à estrada. “Pare de reclamar, saco. Estou te dando uma carona, faça pelo menos o favor de ficar quieto.”

“Mas,” Eren juntou as sobrancelhas “todos pareciam tão animados. Não queria que saísse cedo por minha causa.”

Um suspiro. “Quase nobre de sua parte, Eren.” disse sem encará-lo “De qualquer forma, aquela quatro olhos irritante não iria te levar até a estação. Ou até a sua casa, porque, confie em mim, ela o levaria até mesmo ao seu quarto. Hanji ainda tem trabalho a fazer naquele lugar. Agora, por favor, fique quieto.”

Eren franziu o lábio, resolvendo fazer como o outro havia pedido. Abraçou a mochila no colo e fixou o olhar nas luzes do lado de fora do carro. Sorriu mínimo ao lembrar do apertado abraço que recebeu de Petra quando a parabenizou pela dança. Era uma moça realmente gentil. “Todos foram muito legais comigo.” comentou e logo voltou ao silêncio, que, também, não durou muito. “Eu realmente gostei da apresentação. Vocês são ótimos.”

Rivaille exalou uma risadinha. “Obrigado, mas duvido que já tenha assistido à alguma outra peça para poder dizer isso, apesar de eu concordar.”

Eren rolou os olhos. “Será que pode ser menos chato e... Convencido?”

O homem riu novamente, freando o veículo num sinal vermelho. Cruzou os braços junto ao peito. “Obrigado.” repetiu, soando realmente sincero agora e fitou os turquesa.

“Faz muito tempo que você dança? Aliás, quantos anos tem?” Eren perguntou.

“Você não cansa de falar?”

“Não gosto de silêncio.”

Um breve suspiro. “Sim e 25.”

Eren falaria algo mais, mas os cinzelados voltaram à frente e as mãos pousaram no volante. A luz no semáforo estava verde. Seus dedos brincavam com o cinto de segurança enquanto os olhos mantinham-se no perfil bem moldado do outro. A linha do maxilar era perfeita. O mesmo podia ser dito do formato do nariz. Era capaz de notar a saliência de alguns osso sob o tecido negro da camisa e da pele branca. Os olhos rumaram para onde sabia ficar as costelas e seguiram até a cintura, mantendo-se lá. Recordou a vestimenta justa que contornava belamente curvas no corpo ao lado e sentiu a ponta de suas orelhas queimarem, mas ao pensar em como queria voltar a vê-lo trajado num collant. Irritou-se, porém, com o fato de sua vergonha estar se manifestando mais frequentemente do que nunca.

“Chegamos.” a voz de Rivaille o arrancou dos pensamentos.

“A-ah... Ok.” soltou o cinto que o prendia e agarrou a maçaneta “Obrigado por me trazer. E, ah, por tudo também. Foi bem legal.” um sorriso tímido mostrava-se em sua face.

“Certo.”

Abriu a porta do veículo e, já de pé na calçada, voltou a falar: “Até mais? Uh, obrigado de novo.”

“Suma logo daqui, criança.”

Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas do garoto, junto com a vontade de reclamar.

“Está tarde, Eren, vá logo.” Rivaille pediu em tom baixo e calmo, fazendo Eren desistir de falar qualquer droga que havia pensado e fechar a porta do Prius, despedindo-se novamente.

Logo o carro seguia caminho pela avenida e não viu o porquê de não entrar na estação de metrô. Rivaille o havia deixado na estação próximo à casa de Jean, ou seja, apenas uma parada antes da sua. Conferiu a hora na tela do celular, 00h11.

Os olhos abriam relutantes. Imaginou já ser tarde quando seus sentidos finalmente trabalharam. Tateou debaixo do travesseiro a procura do celular. Confirmou o horário quando o alcançou, mais de duas horas da tarde. Fechou os olhos novamente. Não sentia vontade de dormir mais, mas não queria sair da cama. O som do ventilador de teto o fazia sentir ainda mais confortável sob as cobertas.

Os turquesa mostraram-se outra vez e Eren deslizou um seguimento qualquer na tela do aparelho para desbloqueá-lo. Pasta de música e Disorder. Joy Division estava sempre bom. Deixou o volume baixo, não queria perturbar o som do ventilador. As pálpebras pesaram, pedindo por um cochilo, que não recusou.

Quando os olhos voltaram a abrir, descobriu que seu cochilo havia levado quase duas horas. O aparelho ao lado do travesseiro já não tocava mais. Suas pálpebras ainda pesavam e decidiu sair logo da cama para não correr o risco de se entregar a outro cochilo. Os pés tocaram o chão frio e o guiou para abrir a janela do quarto, os olhos apertando diante a forte luz do dia. Logo rumou ao banheiro. Não demorou para que todas as necessidades matinais fossem concluídas. Queria tirar o gosto do enxaguante bucal da boca e algum cereal não era má ideia, apesar do gosto que seria inicialmente amargo.

Mikasa estava sentada no chão da sala, cortando página de revista e Eren não fazia ideia do por quê. “Bom dia.” disse ao passar por detrás do sofá, seguindo para cozinha.

Bom dia?” a garota falou.

Alcançou uma tigela redonda e a caixa de cereais juntamente com o leite. “Cadê o pai?” perguntou, despejando os flocos adocicados na tigela.

“Foi na casa do tio Hannes.”

Hannes era um velho amigo da família. Não era realmente tio, mas tinham o costume de chamá-lo assim vez ou outra devido o tempo que o conheciam. O homem havia observado Eren crescer e não foi diferente com Mikasa. Era uma boa pessoa. Fora o habito de beber, que o garoto de cabelo castanho costumava reclamar algumas vezes, era uma boa pessoa. Havia cedido horas e horas de seus dias à família quando Carla, a mãe dos garotos, faleceu. Eren sempre iria agradecê-lo por esta e muitas outras coisas.

“Que você tá fazendo?” o garoto perguntou, sentando-se no sofá. A televisão estava ligada e passava algum seriado, que não conseguiu reconhecer.

“Nada.” ela respondeu e Eren franziu a testa “Vou fazer uma coisa pra Sasha.” disse.

“Hm.” murmurou e concentrou-se em mastigar o cereal na boca. Ainda não havia descoberto o nome da série que era transmitida, mas não sentia-se a fim de perguntar à irmã. Os dois ficaram em silêncio, Mikasa com seu trabalho manual e Eren, com sua tigela de cereal sobre o colo.

Alguns minutos e a voz da garota fez-se presente uma nova vez: “Não vai me contar como foi seu dia ontem?” perguntou sem tirar os olhos das páginas e tesoura em mãos.

Hm? Ah, foi bem... Divertido?”

“Hm?”

“Foi legal.”

Os castanhos focaram nos turquesa. “Não gosto daquele homem, Eren. Ele não fez nada com você, huh?”

“Claro que não, Mikasa. Pare de agir como se fosse minha mãe. Todos me trataram muito bem lá.” Eren disse e Mikasa cerrou os olhos. “Aquele lugar é enorme, sabia? Muito bonito, também.”

“Eu sei. Já passei na frente com o Armin.” a garota comentou e fizeram uma pausa até ela voltar a falar, querendo saber o quê Eren havia achado da peça. Sua expressão amenizou quando o outro relatou que Rivaille o havia levado até a estação de metrô. “É o mínimo que ele tem que fazer.” Mikasa implicou e Eren rolou os olhos.

Já era fim de tarde quando a garota anunciou o fim de seu trabalho com os recortes, e a tigela, agora vazia, ainda descansava no colo do adolescente. Ambos puseram-se de pé, Mikasa jogaria os restos de revistas e papeis picados no lixo e Eren lavaria a tigela de cereal.

Os irmãos estavam sentados no chão do quintal dos fundos. O sol sumia lentamente enquanto o garoto tocava no violão algo que a outra havia pedido. A cabeça da morena descansava em seu ombro e ela cantarolava baixinho. Ainda estava vestindo o pijama e com certeza não o usaria quando fosse a hora de ir para cama. “Por que você não canta invés de só cantarolar?”

“Sabe que odeio cantar. Sou péssima nisso.”

Eren interrompeu os acordes para coçar o nariz. Sentiu falta do peso em seu ombro e logo a voz da irmã chegou até seus ouvidos. “Eren, ainda lembra Speed of Sound?”

Ahn...” ele torceu o nariz, fazendo uma careta. ”Calma.” posicionou os dedos sobre as cordas “Acho que é alguma coisa assim?” e começou com o dedilhado.

Mikasa endireitou-se ao seu lado, animada, cruzando as pernas. “É isso.”

“Acho que lembro, sim, todo o resto.” disse, parando de tocar.

“Continua. Gosto dela só no violão.”

“Você vai cantar?”

“Não!”

Eren riu e manteve o sorriso no rosto. Reposicionou os dedos e recomeçou a música. Não era fã de Coldplay, mas a irmã gostava e vez ou outra o pedia para pegar alguma música da banda para tocar para ela. Por que você não aprende a tocar?, a perguntou uma vez. Não tenho paciência, Eren, foi a resposta.

Antes de sair do dedilhado, disse: “Se você cantar, canto com você.”

“Eren, sabe que odeio cantar.”

“Porque você não canta bem.” brincou, interrompendo os acordes novamente “Também não gosto de cantar, você sabe. Mas sabe, também, que gosto quando canta enquanto eu toco.”

Mikasa rolou os olhos. “Tá, vai logo.”

“Vai cantar?” Eren perguntou com surpresa na voz.

“Tsc, vai logo, Eren!” e pela terceira vez o som de Speed of Sound alcançava os ouvidos.

Logo o dedilhado era abandonado e as vozes juntavam-se às notas. Cantaram até metade da segunda parte, quando Eren parou, sem querer, para coçar o nariz novamente. Desistiram da música e Mikasa levantou para ligar a luz do quintal, uma vez que o sol não mais iluminava o lugar. Sentou de frente para Eren, quando voltou. As pernas ainda cruzadas.

Não demorou até que Grisha anunciasse sua chegada e aparecesse para os filhos, dizendo ter comprado comida chinesa. Os adolescentes seguiram o pai até a cozinha e após dizerem o quanto estavam com fome e lavarem as mãos, voltaram a sentar no chão do quintal, desta vez acompanhados do médico. Este havia dado a ideia de comerem do lado de fora.

“Obrigado por vir comigo, Eren.” Armin dizia.

“Nah.”

Cada um carregava uma caixa de papelão que continha alguns livros já gastos. O avô de Armin os doaria à Academia de Artes de Shiganshina e os garotos faziam-lhe o favor de levá-los até lá.

“Não sabia que seu avô tinha uma coisa com a academia.”

“Não é bem uma coisa. Ele doa alguns livros às vezes. Só isso.”

Chegaram finalmente à grande escadaria que levava à entrada do prédio. Logo a subiram e Eren reconheceu o senhor sentado ao lado da entrada. Aproximaram-se, Armin foi o primeiro a falar. Entregou um papel ao velho e informou que estava lá a pedido do Sr. Arlelt. Eren havia pensado em falar com o velho, mas não fez, pois ele não parecia recordar-se de si. Não o culpou.

Varreu os olhos pelo lugar, memorizando-o uma nova vez. Ainda matinha a caixa nos braços enquanto o amigo conversava com o mais velho. Os turquesa fixaram-se na porta que havia entrado dias atrás e imaginou se Rivaille e os outros estariam lá, o que poderiam estar fazendo.

“Eren.” Armin chamou sua atenção. “Me dê a caixa.”

“Ah,” passou a caixa para os braços do outro, que a entregou ao senhor, para que ele verificasse o conteúdo assim como havia feito com a primeira. Observou o amigo escrever algo num pedaço de papel e entregá-lo ao velho logo em seguida.

Os olhos seguiram até a grande entrada do lugar e avistou Rivaille. Sua mente estalou e ele sussurrou um “já volto” para Armin. Correu em direção ao homem, que não demorou para encará-lo. “Ei.” pronunciou ao aproximar-se o suficiente.

“Ei.”

Eren franziu o lábio. “Está tudo bem?”

Sim? O que faz aqui?”

“Ah, meu amigo veio trazer uns livros que o avô dele doou. Estou só ajudando.” informou apontando para Armin por cima do ombro.

Rivaille disse nada. Seus olhos pareciam um tanto cansados e Eren tinha certeza que sabia o quê eram olheiras. “Você está bem mesmo?”

O cinzelados não estavam mais em si, olhavam qualquer coisa que estivesse do lado de fora. “Estou. Estou cansado, só isto.” respondeu, voltando os olhos para Eren agora.

Pensou ser verdade, o que Rivaille dizia, pois não era apenas seu rosto que mostrava cansaço, mas, também, sua voz. “Muito trabalho?”

Alguns segundos e então a resposta: “Mais ou menos. Só estou cansado, Eren.” As sobrancelhas juntaram-se, fazendo com que o garoto hesitasse em perguntar se ele tinha certeza de que era só aquilo.

Rivaille arrumou a alça da bolsa no ombro e espreguiçou-se. Descansou os pulsos sobre os ombros de Eren após abaixar os braços e abaixou a cabeça. Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas do garoto.

“Não olhe para mim, estou horrível.” Rivaille disse.

Não sabia se tinha entendido realmente, mas nada fez. Procurou Armin com o olhar e este parecia estar escrevendo algo em um novo papel.

“Desculpe, estou mesmo cansado. Não dormi muito bem.” e os pulsos abandonaram os ombros alheio.

“Não, tudo bem.”

Um suspiro pesado o abandonou. “Seu amigo parece estar voltando e eu tenho que ir.” disse, olhando por cima do ombro de Eren, que mirou os turquesa na direção de Armin. “Até mais, criança.”

“Já pedi que-“

Os cinzelados rolaram. “Tá bom, tá bom. Tchau, Eren.” acenou, não esperando que o garoto pudesse se despedir apropriadamente.

Eren observou enquanto o homem passava ao lado de seu melhor amigo sem sequer olhá-lo. Logo Armin estava parado de frente para si, uma expressão interrogativa.

Encolheu os ombros, não sabia o quê o outro esperava ouvir de si.

“Então são amigos, hm?” Armin brincou.

“Só quis ser educado, Sr. Arlelt.” ironizou.

“Esfriou ou é impressão minha?” o loiro perguntou ao abandonarem o lugar.

“Não é impressão.”

“Então, Eren,” começou, o tom em sua voz um tanto sugestivo “quando será que terei a oportunidade de ver o cara vestindo um collant, seduzindo você?”

“Meu deus, Armin, cale a boca!” empurrou o amigo, fazendo-o rir alto. “Não devia ter contado nada para você.”