Notas iniciais
Eu praticamente não tive tempo para revisar este capítulo, então, me desculpem por isto e, por favor, me avisem sobre qualquer errinho!! Bem, basicamente, muitas e muitas lágrimas... Escutem Visconde e boa leitura!

Eren não havia deixado de ir à escola. O relógio marcava 05h31 quando conseguiu pregar os olhos, mas logo acordou, às 06h17. Os olhos extremamente doloridos e um mau gosto na boca.

Sentia sono durante as aulas, porém, não conseguiu dormir por alguma razão. Seus amigos perguntavam o que havia acontecido para seu rosto estar tão péssimo e sua resposta era sempre a mesma: “fiquei acordado até um pouco antes de vir para escola, estava com um jogo novo” e todos acreditavam.

Não falou com Mikasa durante toda manhã e a encarava feio sempre que percebia o olhar alheio sobre si. Apesar de ter ido à escola e não ter dormido, apenas uma ou duas coisas foram escritas em seu caderno durante todo o turno de aulas. Eren ficava com os braços dobrados sobre a mesa e o queixo apoiado ali, olhando para qualquer ponto que não era interessante, pensando e pensando.

Ao chegar em casa, jogou-se na cama e disse para si mesmo que não iria mais chorar ainda que pensasse no que havia ocorrido. Então relembrou e sentiu raiva quando as lágrimas traíram suas palavras, molhando seu rosto. Não conseguia conformar-se de que aquilo havia realmente acontecido.

Droga, queria Rivaille de volta! Só a sensação de saber que o dançarino estava consigo e que podia tocá-lo e beijá-lo... Era tudo o que Eren precisava. Sentia-se fraco e idiota por aquela dor. Agarrou-se aos lençóis, encolhendo as pernas, e ficou a chorar. Mas algo faltava: a música que tornaria toda a situação mais insuportável, e logo os fones de ouvidos estavam presentes e Eren não lembrava de já ter se sentido tão idiota e ferido.

Perguntou-se o que Rivaille deveria estar fazendo naquele momento. Se ele estava sofrendo igual a ele ou se estava bem e aliviado por tê-lo tirado de sua vida. Eren sentiu uma pontada mais forte de raiva e, aproveitando que as fotos que havia de, e com, Rivaille estavam à mostra na tela de seu celular, as apagou e arrependeu-se no segundo seguinte, sentindo ainda mais raiva. Esta, porém, para consigo mesmo.

Cerrou o punho e bateu sem muita força no colchão. Que idiota. E continuou a chorar enquanto a imagem do outro e de certos acontecimentos não saíam de sua cabeça e a música tocava alta em seus ouvidos.

Durante as horas que passava ao lado de sua melancolia, e após desfazer-se dos fones, cansado do mesmo instrumental levíssimo, decidiu escutar algumas músicas que não ouvia, talvez, há anos, mas descobriu que não havia, exatamente, sido uma boa ideia. Apesar da sensação gostosa de saudosismo que os sons o trouxeram, uma banda em especial o fez recomeçar o sofrimento em cima de pelo menos três músicas: Ar, Diga e Lebruce. Também havia Here With Me, do The Killers, que, apesar de muitas partes não terem realmente algo a ver com sua situação e a do dançarino, outras poucas prendiam a imagem deste em sua mente. Era igual à Asleep. Talvez fosse apenas a intenção triste de perda e solidão que o fazia sofrer ao escutá-las...

Rivaille havia tomado pelo menos dois comprimidos para que sua dor de cabeça fosse para o inferno e parecia menos estressado ao chegar ao trabalho, pois a dor havia diminuído consideravelmente.

“Bom dia, Rivaille.” O senhor da portaria, Anthony, o cumprimentou.

’Dia.” Respondeu simplesmente.

“Como tem passado?” O velho perguntou como se não o visse há tempos, mas Rivaille apenas o direcionou o olhar e o ofereceu um pequeniníssimo sorriso fraco, sequer mostrava os dentes, antes de dar-lhe as costas e adentrar a sala onde seus amigos e colegas de trabalho se encontravam.

Após cumprimentar todos, parou ao lado de Hanji e disse: “Preciso falar com você.”

“Fale!”

“Venha cá.” Tocou no cotovelo da morena e ambos caminharam até o fim do corredor, longe do barulho dos outros.

“Rivaille, sua cara está horrível. Está usando maquiagem?” Perguntou, inclinando-se para enxergar melhor as olheiras escondidas por uma boa base. “Você nunca esconde as olheiras.”

Rivaille não gostou do comentário porque não queria pensar que suas olheiras estavam sempre em evidência em seu rosto. “Pare com isso, idiota.”

“O que quer me contar?”

Os cinzelados varreram o corredor rapidamente e pousaram na mulher à frente. “Terminei com Eren.”

“O que? É sério? Por qu-“ Ela interrompeu-se em meio à pergunta e estalou a língua baixinho, então abraçou o amigo. Não precisava perguntar o porquê, pois já conhecia todos os motivos de Rivaille.

O dançarino não implicou por conta do abraço que recebeu. Descansou a cabeça no peito da amiga e respirou o cheiro familiar que a abandonava.

“Ah, de novo, Rivaille...” Hanji disse em tom baixo, não podendo resistir a acariciar as costas e cabelos do outro. “Após tanto tempo... Quando foi a última vez?”

“Antes de Eld.” Rivaille respondeu, a voz abafada.

Hanji sabia que o término do relacionamento com Eld havia sido pacífico, pois ambos decidiram pelo fim. E sabia que “antes de Eld” fazia algum bom tempo... “Como está Eren?”

“Eu não sei. Provavelmente me odiando.”

“Você realmente acha isso?”

Rivaille precisou de um segundo ou dois para responder. “Não.”

Então Hanji o afastou de seu peito só à distância que precisava para encará-lo. Mastigou os lábios.

Rivaille suspirou. “Tsc, era isto que queria lhe dizer.” Recompôs-se. “Vamos entrar, tenho que-“

“Rivaille.” Hanji interrompeu-o. “Você está bem?”

“Estou normal.”

A morena sabia o que aquilo queria dizer e não era um “estou bem” ou “estou mal”. Preferiu, então, apenas acompanhá-lo de volta à sala.

Mais tarde, ainda naquele dia, pelo menos 48% das pessoas na Academia sabiam do término do relacionamento de Rivaille. Agora, ele, Erwin, Hanji, Mike e Moblit estavam sentados ao redor de uma mesa num barzinho familiar e aconchegante para todos os cinco ali.

Estava tudo bem, todos se distraíam, inclusive Rivaille. Moblit e Mike foram os primeiros a irem embora, seguidos por Hanji, que só deixou o lugar porque tinha trabalho a fazer, no entanto, jurou ao dançarino que o ligaria e o visitaria.

“Me dá uma carona?” Rivaille perguntou a Erwin quando ganharam a rua. Não havia mais muito sentido em ficar ali, uma vez que todos haviam ido embora.

“Onde está seu carro?”

“Estava com muita dor de cabeça para dirigir.”

“Então pegou transporte público?” Erwin ergueu uma sobrancelha.

“Não dá para entender a vida, Erwin, mas dá para carregar um vidrinho de álcool em gel na bolsa.”

Erwin evitou uma risadinha e balançou a cabeça lentamente. “Claro.” Disse por fim, então ambos caminharam de volta à rua da Academia e logo estavam dentro da picape marrom, muito bonita, mas que Rivaille achava desnecessariamente grande para um carro – Erwin tinha mulher e um filho e a família perfeita, como o dançarino brincava, tinha o costume de acampar, e este era o motivo pelo qual o loiro havia comprado tal carro. Dizia que era um tanto conveniente.

Não conversaram muito durante a viagem até onde Rivaille morava, pois este se ocupava mais em mexer e remexer nas coisas do carro alheio. Quando Erwin parou o veículo, porém, o silêncio continuou e ambos ficaram a assistir à rua sem muito movimento e molhada, pois havia chovido um pouco. As gotículas de água no vidro do carro davam um efeito bonito.

Erwin quebrou o silêncio. “Tome cuidado com suas decisões.”

“Por que diz isso?” Perguntou, encarando o homem ao lado agora.

“Pare de se ferir tanto.”

Huh. Seu filho tem 8 anos, não 25.”

“E eu espero que ele pense nas decisões que for tomar.”

“Acha que eu não penso nas coisas que faço?”

“Eu sei que pensa. Mas pensa demais, de modo que isto te atrapalha.”

“Você está sendo contraditório demais, Erwin. Está dizendo para eu me tornar um ignorante?”

“De maneira alguma.”

“Então o que quer que eu faça? Volte com Eren simplesmente?”

Não.”

“Então diga.”

Erwin remexeu-se no banco, voltando os azuis à rua antes de fixá-los em Rivaille e falar: “Sei que tomou a decisão que julga ser certa, Rivaille, e, para ser franco, admiro esta capacidade que tem.”

“Sabe que faria o mesmo.”

“Ou pior. Mas não é algo tão simples e eu não sei se me feriria tanto com meus próprios assuntos.”

“Porque você sabe de tudo.” Ironizou.

“Sabe que não aprovei seu relacionamento com o garoto desde o início.”

“Como se você tivesse de aprovar algo que eu faço.”

“Mas,” continuou “ainda esperava ser surpreendido e pensei que desta vez daria tudo certo. Vocês me enganaram muito bem.”

Este idiota está sendo mais duro com o garoto do que comigo, Rivaille pensou. “Por um momento, eu também pensei.” Abriu a porta do veículo, recebendo a rajada fria do vento que dançava ao lado de fora, carregando gotículas da chuva.

“Devia ter continuado com o garoto.”

“E encarando as coisas como estavam? Obrigado. Já percebeu o quanto é contraditório?”

“Você sempre foge disto.”

“Não teria aceitado ficar com ele se fugisse. Mas tenho um limite que não consigo ultrapassar, Erwin. Talvez eu possa até mesmo chamá-lo de bom senso.”

“Rivaille.”

“Muito obrigado pela carona. Não aguentaria ter de pegar transporte público à esta hora. Até amanhã.” Já estava de pé na calçada e a única coisa que teve de fazer foi fechar a porta do carro. Sequer o observou sumir dali. Atravessou a portaria e rumou direto ao apartamento. Precisava de mais um ou dois comprimidos para dor de cabeça. Não devia ter tomado daqueles copos de cerveja...

Ao entrar em casa, jogou a bolsa no chão ao lado do sofá e deixou que seu corpo pendesse sobre o estofado. Puxou a bolsa pela alça e ficou numa posição desconfortável enquanto procurava pelo celular. Não demorou a verificar se havia recebido alguma ligação ou mensagem ao pegá-lo. Suspirou aliviado ao constatar que havia realmente nada, pois temia à possibilidade de Eren procurá-lo. Não queria ter de machucá-lo ainda mais.

Deixou o aparelho de lado e remexeu-se no sofá, sentindo-se preguiçoso para ir até a cozinha buscar um copo d’água para tomar o comprimido. Odiava o gosto que ficava em sua boca sempre que tentava toma-lo sem o auxílio de algum líquido.

Cobriu os olhos com o antebraço e suspirou novamente. Não pôde evitar perguntar-se o que Eren esteve fazendo o dia todo e o que estava fazendo agora. Se o odiava ou se já o havia superado. Odiou, porém, ter se permitido divagar sobre o garoto e estalou a língua, remexendo-se mais uma vez, antes de fechar os olhos na tentativa de descansá-los.

Eren sentia-se com vontade de fazer nada. Então, contrariando suas vontades e força, resolveu arrumar o quarto. Após fazê-lo, tomou um banho e deitou. Ainda era 15h49 da tarde e odiava-se por ser tão chorão. Seu pai sempre havia lhe dito que chorou muito durante a infância e que ainda era muito sentimental. Não gostava daqueles comentários e também não se achava sentimental. Contudo, não conseguia não chorar.

Perguntava-se, vez ou outra, se aquilo, talvez, fosse devido a estar relacionado com seu primeiro namoro ou amor – que na verdade não era o primeiro amor, se contar com “paixonites” de pré-adolescente.

Cerca de 32 minutos depois, não chorava mais, mas mantinha-se deitado, fazendo nada. Pensou em estudar, assistir algo, comer... Mas estava com vontade de fazer nada, mesmo. O que era realmente estranho, uma vez que aquela vontade o guiou para limpar o quarto.

Olhou para a janela. O dia ainda estava claro, dando-o uma sensação de lentidão. Escolheu tirar um cochilo, mas então ouviu passos apressados do lado de fora do quarto e a figura de Armin surgiu de sua porta.

“Eren!”

“Armin?” Apoiou-se em um dos cotovelos.

“Eren,” o loiro apressou-se até o amigo e sentou no colchão, abraçando-o forte.

De início, Eren juntou as sobrancelhas em completo desentendimento, mas logo compreendeu o porquê de tudo e aceitou o abraço do melhor amigo. Seus olhos encheram-se de água. “Como... Sabe?”

“Mikasa me contou.”

“Tsc,” Eren estalou a língua em pura irritação. Encarou o loiro. “E o quê ela disse?”

“Disse que você e Rivaille haviam terminado e não sabia o porquê, mas que você estava mal e que não sabia o quê fazer. Eu sequer sabia que ela tinha conhecimento do relacionamento de vocês.”

“Ela não sabe o quê faze?” Estalou a língua novamente. “Ela nos viu juntos e ficou louca.” Armin manteve-se em silêncio e Eren desviou os turquesas para a janela uma nova vez, desfazendo-se do abraço. “Que droga, Armin...”

O que?”

“Não adianta que eu me pergunte o quê fiz para acabar com tudo.”

“Como assim, Eren? Você acabou com nada e sequer teve culpa, tenho certeza.”

Eren abriu a boca para falar algo, mas desistiu e apenas fungou, evitando deixar que lágrimas abandonassem seus olhos.

“Por que não me ligou ou qualquer coisa? Poxa, Eren... Não fique assim, sozinho... Conte-me o quê aconteceu, se quiser.” Então houve um silêncio e o amigo continuava com os turquesas fixos na janela até o momento em que, repentinamente, o abraçou uma nova vez. Armin pôde sentir o quentinho das lágrimas penetrando o tecido de sua camisa e umedecendo seu ombro. Manteve-se em silêncio. Não acreditou que alguma de suas palavras fosse consolar o amigo agora. Deixaria que ele chorasse por mais que, conhecendo Eren, sabia o quanto este já devia ter derramado lágrimas.

Armin ofereceu-lhe um carinho nas costas e encostou a cabeça na do outro.

“Estou me sentindo tão idiota.” Eren finalmente falou. “Quero parar de chorar, Armin, não quero mais...” Os turquesas marejados colidiram com os enormes azuis. “Me diga o que tenho de fazer.”

“Ere-“

“Você sempre sabe de tudo, não é? Sempre me diz a coisa certa a fazer mesmo que eu seja contra. Por favor, por favor...” Rangeu os dentes, agarrando o tecido da roupa alheia entre os dedos.

“Eren,” Armin prendia os ombros do amigo sob as mãos. “Me desculpe, Eren. Isto é tão particular seu... Eu não sei se eu saberia o que fazer, mas com certeza, recorreria à você. Eu sinto muito por não saber que resposta lhe dar.”

Eren não culpou o loiro. Reconhecia estar exigindo demais do outro ao pedir tal coisa. Seus ombros relaxaram um pouco.

“Eu estou aqui, com você, certo?” As mãos de Armin rumaram ao rosto do moreno, segurando-o. “Eu estou com você, Eren.” Talvez o momento fosse dramático demais. Mas julgou que aquele era o melhor modo de tentar reconfortar o outro, uma vez que nunca havia passado por tal situação, não sabendo, então, o que exatamente fazer. De qualquer forma, todas as palavras eram verdadeiras, pois Armin não conseguia enxergar a si mesmo sem o melhor amigo, logo, realmente, estaria sempre ao lado dele. Parecendo egoísta ou não.

Aquela era uma das coisas que repetia para si que nunca poderia afirmar, mas a única coisa que estava em sua mente agora era o bem estar do garoto à frente. Devia estar sendo difícil para ele, Armin não fazia ideia de qual era a sensação. Sabia o quanto Eren havia se apaixonado por Rivaille e, por mais que agisse mais pela razão do que pela emoção na maioria das vezes, não pôde evitar sentir uma leve raiva do mais velho por ter abandonado seu amigo, tendo claro que este estava louco por si.

Assistiu a Eren abaixar a cabeça ainda entre suas mãos e o ouviu fungar. O moreno deixou que as últimas lágrimas caíssem antes de limpar os olhos com os dedos, fazendo o mesmo com o nariz, passando-os rapidamente sob as narinas.

“Não sinta-se idiota, por favor.” Disse, voltando a receber o olhar choroso do outro. Varreu o quarto com os azuis e franziu o lábio. “Ainda não comeu hoje, não é?”

“Comi.” A voz de Eren quase não veio. Estava fraca e trêmula.

“O que?”

Eren precisou de alguns segundos para responder. “Pão...”

“Só isso?” Não houve resposta e o loiro balançou a cabeça levemente.

“Espere aqui um minuto, sim?” Livrou a face do outro e levantou-se, mas a mão que puxou sua camisa não permitiu que continuasse.

“Não, Armin, não vá, por favor.” Eren atropelava as palavras e Armin sentiu pena do amigo.

Segurou-lhe a mão, livrando a própria camisa. “Levarei apenas um instante, Eren. Não vou embora, não se preocupe. Irei até a cozinha.”

Eren manteve-se em silêncio e aceitou quando o outro soltou sua mão, saindo de seu quarto, finalmente.

E como Armin havia lhe dito, não demorou. Em 14 minutos estava de volta com uma bandeja em mãos, trazendo pão, ovos mexidos, frutas e suco. “Por favor, coma.” Disse ao sentar no colchão há muito confortável, mas estava acostumado. Parecia preocupado.

Eren olhou para a bandeja que o amigo trouxera e tentou sorrir. “Obrigado.” Tirou-a do colo do loiro, colocando-a sobre o próprio e não demorou a comer. Os ovos estavam muito bons e deixou Armin muito bem consciente disto. A última coisa a comer foi a banana, deixando a maçã de lado. Armin não precisava ter trazido mais de uma fruta... Não iria reclamar, sequer pensava nisto! Estava tão agradecido pelo amigo estar ali, aquela havia sido a melhor coisa que lhe havia acontecido deste o dia anterior.

“Obrigado.” Repetiu, limpando a boca com o dorso da mão ao depositar a casca da banana sobre a bandeja, que Armin retirou de seu colo para depositar em sua prateleira.

“Não agradeça.” Tirou os sapatos dos pés e encolheu as pernas sobre a cama alheia. Descansou as contas na parede fria.

E Eren queria agradecer por sua presença ali, mas apenas o direcionou o olhar e, pelo singelo sorriso que recebeu, sabia que Armin havia entendido. Observou o amigo estender uma mão em sua direção, chamando-o.

“Está melhor?” Ele perguntou.

“Acho que eu estava mesmo com fome.” Forçou uma risadinha, mas sua expressão logo voltou a murchar. “Obrigado.” Disse, pela terceira vez, baixinho, indo contra as palavras do amigo, e aconchegou-se entre o braço e dorso alheios. O cheiro de Armin era sempre o mesmo e, por alguma razão, o fazia lembrar nuvens.

O som do coração do melhor amigo pulsava confortável e pacificamente em seu ouvido. Armin o passava tanta segurança agora como jamais o havia feito, com o braço em torno de suas costas e os dedos da outra mão entrelaçados com os seus. Não sabia se o associava com uma mãe ou- Interrompeu sua linha de pensamento, abaixando o olhar em angústia.

Já o loiro, por sua vez, só podia associar Eren à uma criança triste e carente.

10 minutos se passaram em silêncio e Armin foi o primeiro a falar: “Por acaso,” ele começou “você ligou para ele, ou qualquer coisa?” Perguntou. Havia uma gota de hesitação em sua voz. Sentiu a cabeça de Eren movendo-se devagar sobre seu peito e uma melhor resposta veio logo em seguida:

“Não.” E então, foi apenas naquele momento que Eren se deu conta de que sequer havia pensado em tal possibilidade. Estava tão envolto em seu sofrimento amistoso... Contudo, não queria fazê-lo, não queria pensar em ligar para o mais velho. Percebeu um estranho medo instalar-se em seu peito. Medo de acabar ligando para ele. Medo de ser fraco. A mínima chance da tentativa deixá-lo apenas a esperar o fazia querer chorar de raiva.

Remexeu-se um pouco e respirou o cheiro de Armin, usando isto como meio para distrair os pensamentos. Muitos minutos passaram e o loiro propôs que assistissem à alguma coisa no computador. Qualquer série ou filme estava bom. Optaram por dois episódios da quarta temporada de Supernatural e passaram a maior parte do tempo naquela mesma posição em que Armin parecia proteger Eren de todas as coisas que pudesse oprimi-lo. O loiro podia, contudo, sentir, vez ou outra, o corpo do melhor amigo comprimir-se pouco. Arriscava dizer que, naqueles momentos, ele havia recordado Rivaille.

Faltando 34 minutos para o segundo – e último – episódio acabar, o moreno livrou o amigo de seu peso, assistindo-o esticar-se, ouvindo o som de estalos. Aproveitaram os minutos restantes e Armin pareceu satisfeito, pois, apesar dos tremores, Eren não apenas havia conseguido se distrair, mas havia sorrido, rido... E isto significava o mundo para o loiro.

O relógio marcava 19h11.

“Como se sente?” Armin perguntou, resistindo à vontade de correr os dedos pelos cabelos castanhos do amigo.

Eren sorriu docemente. “Me sinto um pouco melhor. Obrigado.”

Retribuiu o sorriso e pôs-se de pé apenas um segundo antes de ouvir um som na casa, ao lado de fora do quarto. Levou as mãos à cintura. “Acho que Mikasa chegou.”

Eren rolou os turquesas, mirando qualquer ponto debaixo de sua prateleira principal. Seus traços tão desanimados.

“Tenha paciência com ela, Eren.”

“Nunca pensei que fosse ser tão estúpida.”

Armin entortou o lábio. Não podia negar que uma parte de si estava, também, decepcionado com a garota. Suspirou e olhou de um lado para o outro. “Quer que eu passe a noite aqui?” Perguntou, recebendo os turquesas para si.

Ah, Eren queria... “Não precisa, Armin.” O sorriso doce voltou ao rosto jovem. Aquele sorriso, mesmo fraco, combinava incansavelmente com o garoto. “Você já fez muito por mim hoje. Vá para casa, amanhã tem aula.”

“Tem certeza? Eu posso faltar...”

Eren balançou a cabeça em sinal de sim. “Não quero me sentir pior fazendo você ter de perder aula.”

“Ora, não fale isso, Eren.”

Eren verificou a data na barra do computador e voltou o olhar a Armin. “Seu seminário não é amanhã?”

O loiro deixou escapar um som que indicava que havia esquecido completamente sobre o assunto. “Droga!

O moreno riu baixinho. “Tudo bem. Passe a noite aqui depois.”

“Desculpe por isto.”

“Não ouse se desculpar por algo assim.”

Encararam-se por alguns segundos e a seriedade do momento morreu quando os ombros de Armin penderam e este riu alto, fazendo Eren sorrir ainda mais.

“Eu já vou, Eren.” Declarou ao acalmar-se.

Eren fez um sinal com a cabeça. “Vou com você até a porta.” Desfez-se do cobertor que cobria metade de suas pernas e não se importou em andar apenas de meias. Desceram as escadas e ouviram a voz de Mikasa ao passarem pela cozinha. A garota falava qualquer coisa que não era de seu interesse a Armin. Logo estavam de pé na entrada. “Tome cuidado.” Disse.

Pode deixar. E você, por favor, se cuide.” Afagou o ombro do amigo.

Abraçaram-se apertado e despediram-se. Eren ficou parado ali até que a imagem do melhor amigo desaparecesse de seu campo de visão e esfregou as mãos nos braços, pois estava frio. Deu as costas à paisagem ao lado de fora da casa e fechou a porta atrás de si, rumando direto para o quarto.

Jogou-se na cama e, de imediato, sentiu um pouco de falta da companhia do melhor amigo. Estava deitado de costas para cima e permaneceu naquela posição até que o travesseiro em seu rosto começasse a limitar sua respiração.

Mikasa havia considerado falar com Eren, conversar. Mas não parecia ter coragem para fazê-lo toda vez que decidia sair do próprio quarto para rumar ao do irmão, pois sempre acabava recuando os poucos passos que dava. Sentia-se realmente idiota agora, após presenciar o sofrimento do outro e analisar o modo como o havia tratado. Havia sido realmente estúpida e sentia raiva de si mesma. Eren estava infeliz e não queria que o irmão sentisse-se de tal forma.

Ficou até pelo menos 1h56 da manhã considerando a ideia de simplesmente ir ao quarto do outro e tentar ter uma conversa com o mesmo, mas, no fim, não o fez. Compartilhou, porém, a infelicidade de Eren, mesmo que esta não tivesse a mesma origem, escutando-o resmungar e chorar até o momento em que decidiu parar de transitar o corredor e ir dormir, sentindo-se covarde.

Grisha estava em casa quando os irmãos chegaram da escola e aquele seria o primeiro dia que o pai passaria em casa após uma semana inteira. Às vezes Eren odiava a rotina de trabalho do mais velho. Mikasa sentia o mesmo. – Contudo, trocaram poucas palavras, como “sim, está tudo bem com a escola”, “a garota, que era do meu time, foi escalada para outro. Sabe, aquela que me fez ficar fora dos jogos...”, ou “Armin passou a tarde de ontem aqui”.

Antes de dar as costas ao pai para rumar ao quarto, escutou-o dizer: “Está com uma cara péssima, Eren, não tem dormido? Sabe que levanta cedo, pare de ficar no videogame até tão tarde.” E o respondeu com um “Certo” num tom de voz baixo, mas, falsamente, divertido.

Por volta de 15h10, Grisha avisou aos filhos que iria à casa de um conhecido e assim o fez. A casa estava estranhamente silenciosa: não havia o som de música ou TV vindo da sala ou quarto de Mikasa, assim como não havia a conversa pelo Skype ou som de videogame ou violão vindo do quarto de Eren.

Aquilo era outra coisa que Mikasa havia descoberto odiar.

Eren estava deitado, lendo um dos livros de sua prateleira e não percebeu a irmã parada em sua porta. Apenas quando esta vez um baixo som com a garganta que a notou ali.

“O que você quer?”

“Será que podemos conversar?”

“Não. Eu estou lendo.”

Ela aguardou um ou dois segundos para voltar a falar. “Por favor, Eren, é rápido.”

Eren suspirou. “Estou lendo, Mikasa.” Repetiu.

“Então pare.”

“O que?” As sobrancelhas castanhas juntaram-se.

“Eren, é rápido!” Observou o irmão abrir a boca para retrucar, mas não permitiu que ele o fizesse. “Eu só quero-“ caminhou para perto do garoto, que pareceu irritar-se um pouco mais. “Eu só quero conversar. Pedir desculpa...” Confessou.

A expressão que tomava conta do rosto de Eren manteve-se rígida por alguns segundos e então ele pareceu desistir. “Fale logo.” Disse em um tom nada amigável, sentando-se. Desculpas... Há!

A morena deu-se a liberdade para sentar na cama alheia. “Eren, eu quero lhe pedir desculpa pelo que fiz.” Uma brevíssima pausa. “Entenda, é difícil para mim- estranho...” corrigiu “Ter uma visão tão sólida de você e de repente-“

De repente o que, Mikasa? Não é isto o que aconteceu. Você simplesmente teve um olhar preconceituoso sobre mim mesmo me conhecendo e considerando até você mesma e sua amiga, não houve nada de visão sólida” fez aspas com os dedos ao pronunciar visão sólida “e-“

O que Eren dizia era verdade. “Me deixe continuar!” Ela o interrompeu.

O garoto tinha uma expressão amarrada. “Continue.”

“Me desculpe. Reconheço o quê diz e-“ segurou-se para não desviar o olhar. “Realmente... Mas, estou tentando! Estou tentando mudar meu pensamento porque, ah, Eren, eu juro a você, percebi o quão estúpida eu fui... Eu te amo e não quero vê-lo sofrer e, se você tem de passar por algo assim, quero pelo menos estar ao seu lado para lhe dar apoio e... Tentar ajudar...”

“Pare.” Eren disse, deixando a garota confusa. “Pare...” O tom de sua voz estava um tanto baixo agora e ele estava odiando tanto sentir-se tão sensível à qualquer coisa.

“Ere-“

“Ah, que droga, Mikasa! Eu estava numa boa, por que veio até aqui com essa conversa? Eu havia... Eu havia conseguido me distrair e eu estava- Urrgh!

Mikasa via-se desesperada, sem saber exatamente o quê fazer diante do irmão que derramava lágrimas.

“Não faz ideia do quão difícil tem sido para eu conseguir pensar em alguma outra coisa, me concentrar inteiramente em algo! Por que simplesmente vem até aqui e me tira disto, me fazendo ter de encarar tudo de novo?”

“E-Eren... Não... Não, não foi minha intenção. Por favor, me desculpe.”

“Pare de se desculpar! Pare...” A voz do garoto estava perturbada em meio ao choro. “Eu não quero mais... Eu não quero mais chorar...” Ao dizer isto, sentiu, estranhamente, como se traísse algo dentro de si. “Mikasa...”

Mikasa grunhiu, seu peito apertado ao ver Eren no estado em que estava. Abraçou-o fortemente, fazendo-o descansar a cabeça na curva de seu pescoço. “Me desculpe...” Sussurrou. “Me desculpe...”

“Eu o quero de volta, Mikasa.” Soluçou abafado pelo calor da irmã.

Ainda era difícil para Mikasa engolir aquilo, mas estava verdadeiramente tentando e, naquele momento, por mais que odiasse Rivaille, desejava ver Eren bem. E não importava qual era a condição.

“Não chore, Eren.” Acariciava os cabelos castanhos. “Shh

Ao decorrer de lentos minutos, Eren parou de chorar e seu soluço morreu. Continuava com o rosto escondido no pescoço da irmã e, para dizer a verdade, não queria que ela se afastasse.

O silêncio durou até Mikasa o quebrar: “Como se sente?”

“Mal.” Eren respondeu simplesmente.

Os traços no rosto da garota contorceram-se numa mistura de raiva e tristeza. “Armin disse que está com você. Eu também estou.” Apertou o abraço, gentilmente.

“Eu não quero mais chorar.” Eren repetiu quase numa súplica.

Mikasa nada disse. Sabia que aquilo seria impossível para o garoto por pelo menos algum tempo, então continuou apenas a acariciar os cabelos, alinhando-os com os dedos.

“Eu fiquei com muita raiva de você.” Eren declarou, ainda não encarava a garota.

Mikasa podia imaginar o quanto o irmão devia tê-la odiado. Suspirou baixinho. Só tinha a concordar com ele. “Eu também fiquei com raiva de mim quando percebi o quão estúpida agi com você.”

Eren remexeu-se. O silêncio voltou a reinar por dois ou três minutos. O garoto afastou-se, finalmente, do corpo da irmã, encarando-a. Ofereceu-a um pequeno sorriso gentil e afetado e recebeu outro.

O resto do dia, passaram juntos. Conversaram, redimiram-se e, até mesmo, estudaram um pouco. Quando sentiram fome, resolveram ir à cozinha para prepararem algo e ambos puseram as mãos para trabalhar. Por volta de 19h23, Grisha estava de volta e Eren fez o favor de avisá-lo que havia algo para comer em casa e que não seria necessário pedir comida. O médico pareceu animado – por mais incrível que pudesse parecer em sua mente, adorava a comida dos filhos, ainda que o garoto não soubesse realmente cozinhar.

Naquela noite, Eren conseguiu dormir mais cedo. O relógio marcava 23h47 quando sua consciência foi perdida na escuridão do quarto. No dia seguinte, Armin foi visitá-lo novamente, desta vez para passar a noite em sua casa. O fizeram no quarto de Mikasa. Os três adolescentes adoraram passar o tempo juntos e, no meio da madrugada, a morena não pode evitar jogar um travesseiro nos dois garotos que estavam deitados num colchão ao lado da cama, pois estes não paravam de falar baixinho e rir e a morena queria dormir.

Ao acordarem, havia café pronto, com pães e outras coisas. Grisha ainda estava em casa. Parecia estar tendo uma boa folga. Todos comeram satisfeitos e Eren sentiu-se bastante aconchegado por estar rodeado de pessoas tão queridas e que amava tanto. Há quanto tempo uma cena como aquela não acontecia?

Era sábado e o dia não passou rápido e foi muito bom! Os três adolescentes ficaram juntos, praticamente, todo o tempo e, quando Armin anunciou que teria de ir para casa, Eren pediu ao pai que o levasse, ignorando o melhor amigo, que dizia que não era necessário tal incomodo.

Por fim, entraram no carro: os três adolescentes no banco de trás. E cerca de 20 minutos depois, estavam de frente ao prédio onde Armin morava. Todos subiram para o apartamento, pois Grisha havia dito que estava com saudade do avô do garoto. Não demoraram, porém, e logo despediram-se – pai e filhos voltaram ao carro.

Ao passarem em frente à cafeteria, Eren deu olhada, mas não viu alguém que lhe fosse familiar. Mikasa percebeu sua mudança de humor e bateu com o ombro no seu, sem força. Então começaram a conversar sobre um professor que havia saído da escola. Grisha juntou-se ao assunto.

Eren ainda sentia-se muito triste e vazio e ainda se perguntava com frequência o quê Rivaille poderia estar fazendo em determinado momento. Ou, quando olhava no relógio, lembrava algo com o quê o ex namorado estaria ocupado àquela hora. Em um desses momentos de melancólica divagação, Jean foi quem o trouxe de volta a presente realidade.

Eren sentia-se infinitamente agradecido pela companhia e apoio dos amigos. Armin, Jean e Mikasa mostraram-se essenciais, mais do que jamais haviam feito. E Eren queria conseguir passar o restante que lhe sobrava de vida agradecendo-os e dizendo o quanto eram importantes para si.

Quando Jean ficou sabendo sobre o que havia acontecido, o abraçou, como todos haviam feito, e apenas lhe disse que tudo passaria. Aquela era uma das últimas coisas que Eren queria ouvir ou adotar como consolo para si mesmo, mas, assim como Armin e Mikasa, Jean lhe passou segurança e o ofereceu carinho, fazendo-o sentir como se aquelas palavras fossem as mais sábias que já ouvira.

Quando ficou sozinho novamente, após tantos dias, finalmente, deu atenção ao violão. Passou mais da metade da tarde apenas tocando e ganhou um sentimento muito bom de leveza.

A semana passou e Eren havia conseguido um emprego. Estava trabalhando como ajudante no lugar onde Jean estudava violão. Tinha como função limpar, trocar cordas e afinar os violões e guitarras e ajudar alguns alunos com dificuldade. Estava realmente gostando, pois, além de ter algo com o quê distrair a mente, de quebra, tinha uma grana. Uma grana que não era de seu pai.

Grisha havia ficado muito feliz, assim como Mikasa, Armin, Jean e Marco...

15 dias haviam se passado desde o fim de seu relacionamento com Rivaille e aquilo ainda o atormentava. 15 dias era um curto tempo, mas, para Eren, era longo, uma vez que sentia tanta falta do outro, do cheiro, da pele quente e macia, da voz, de como, às vezes, Rivaille sussurrava seu nome ao acordar pela manhã... Todas estas lembranças o impediam de, mesmo com a distração do trabalho, fazer seu caminho até o lugar sem fones de ouvido e raiva e solidão no peito.

O que ele teria falado sobre eu ter conseguido um emprego? Eren se perguntava. Não conseguia formar um quadro com palavras, mas conseguia, quase muito facilmente, visualizar quais seriam as ações do outro: ele sorriria sutilmente e lhe beijaria as faces, gentil. Ah, Eren queria a sensação dos lábios em seu rosto, queria saber o quê o mais velho pensaria...

Pegou o celular e considerou mandar uma mensagem a Rivaille. Iria se sentir extremamente patético e miserável se o fizesse. Mas queria. Contudo, o medo de obter uma resposta negativa ou, pior, obter nenhuma resposta, o impediria.

Abriu uma das gavetas ao seu lado – estava sentado no chão do quarto – e, pela enésima vez, ficou a encarar a palheta que havia ganhado do ex-namorado.

Argh, por que isto é tão caro?” Rivaille resmungou. Um grande pote cor de rosa com letras prateadas em sua mão – Hidratante. “Tsc.”

“Se é tão caro, compre outro.” Hanji disse.

Rivaille estalou a língua pela segunda vez. “Eu quero este.”

“Então não reclame e compre.”

Argh!” Devolveu o pote na prateleira.

Hanji riu. “Sabe que não precisa realmente destas coisas, não é?”

“E ficar com uma pele horrível? Recuso, obrigado.” Suspirou. “Vamos pagar estas coisas logo. Quero ir para casa defecar um pouco e morrer na cama.” Então rumaram até um dos caixas e o dançarino pagou a base e rímel transparente que havia escolhido – sentindo-se frustrado pelo hidratante –, enquanto Hanji levou apenas shampoo e condicionador.

Suspirou ao deixar a loja de cosméticos com a amiga e descansou as sacolas no banco traseiro do carro antes de seguir até o apartamento.

Lavar as mãos foi a primeira coisa que fez ao chegar em casa. Ao contrário de Hanji, que rumou direto à geladeira.

“Lave as mãos antes de tocar em minhas coisas.” Rivaille disse, sendo completamente ignorado.

A morena retirou uma tigelinha de gelatina com creme e abriu a porta do armário, pegando uma caixa de cereal para logo despejar os flocos na gelatina e, finalmente, buscou por uma colher em uma das gavetas, misturando as duas coisas.

Rivaille não colocou para fora da boca, em forma de palavras, o quanto aquilo era nojento e errado. Enquanto Hanji se ocupava em comer, o dançarino só conseguiu pensar em Eren. Era o garoto quem o estava salvando daquele doce maldito que grudava irritantemente nos dentes.

Sentia falta de Eren. Seria hipócrita se negasse. Mas passaria. Sabia que sim, pois tantas outras vezes o mesmo havia acontecido. Agora, diferente, porque além da ausência carnal, havia a ausência dos pensamentos do adolescente, que, na maioria das vezes, gostava de ouvir. Era como se tivesse perdido um grande amigo de muito, muito tempo. Um amigo de verdade.

Desviou o olhar por um segundo, sentindo-se incomodado por permitir que seus pensamentos divagassem sobre Eren, e secou as mãos num pano de prato. Escutou Hanji resmungar algo e procurou pela mulher, mas não a encontrou na cozinha. Seguiu até a sala e lá estava ela, folgada em seu sofá.

“Quando terá férias?” Hanji perguntou de boca cheia.

“Ainda não tenho certeza. Estou decidindo com Ian se trocamos ou não.” Juntou-se à morena no estofado, as pernas bem cruzadas e a cabeça apoiada em uma das mãos sobre o encosto do sofá.

“Odeio quando tira férias.” Hanji comentou.

“Hm,” Rivaille murmurou apenas.

A morena foi embora por volta das 18h00. Havia dito que sairia com alguns amigos e Rivaille recusou o convite que recebera para juntar-se à ela e os outros (que, muitos, não conhecia).

Enquanto lia um livro, acomodado no estofado e com a boa sensação de pele fresca após um bom banho. Sua campainha tocou desesperadamente e não pôde esperar ninguém mais a não ser por Hanji. O relógio marcava 00h07 agora.

“O quê está fazendo aqui?” Perguntou, juntando as sobrancelhas.

A morena, porém, não o respondeu. Abriu caminho e entrou no apartamento. Parecia tonta.

Rivaille fechou a porta e evitou bufar. Hanji estava claramente bêbada e sabia que, agora, teria de aturá-la.

Yay, Rivaille-“

“Alguém a trouxe até aqui?”

Nope!” Disse após sentar-se, balançando a cabeça.

Tsc. Sabe que acabará dormindo se continuar aí.” Era o que sempre acontecia quando Hanji bebia: qualquer lugar em que encostasse, dormia. “Venha, você precisa de um banho.”

Hanji não argumentou contra, embora ter sentido vontade apenas para irritar Rivaille. Pôs-se junto ao dançarino e o olhou nos olhos, rindo logo em seguida. Assistiu-o a balançar a cabeça levemente e franzir os lábios. Sentiu uma mão próxima às costelas e ambos caminharam até um dos banheiros.

Entraram e Hanji sentou sobre o sanitário fechado. As pernas largadas e as mãos pendendo no vão entre elas.

“Vamos, tire a roupa.”

Hanji cuspiu ao rir. Escutou um novo estalo de língua vindo do amigo e disse: “É tão engraçado ouvi-lo dizer isto para uma-“ riu “Mulher!”

Rivaille ignorou o comentário e a ajudou a tirar a camisa. Em seguida, ainda ignorando um comentário ou outro, livrou os fios castanhos do elástico que sempre os prendia e a ouviu resmungar. Então ela se calou e ele agradeceu mentalmente. Contudo, o silêncio não durou muito, pois logo Hanji estava cantarolando em tom baixo. Rivaille não se incomodou desta vez.

Desabotoou o sutiã da amiga e fez uma careta. Não gostava nenhum pouco de estar tocando no sutiã sujo de suor do dia todo da outra. Jogou a peça em um dos cantos do piso do banheiro.

“Ahh, que alívio.” Hanji disse ao ter os seios livres.

“Tire os óculos.” Rivaille pediu e assim a mulher fez. As sobrancelhas finas voltaram a ficar juntas ao avistar algo estranho no cabelo volumoso de Hanji. Era uma pequena folha de árvore. Retirou-a e, antes que pudesse jogá-la no lixo, recebeu o peso da cabeça da amiga em seu peito.

“O que?”

“Estou com sono...”

Rivaille nada disse. 10 segundos de silêncio se foram e agora o dançarino tinha os dedos envoltos pelos cabelos bagunçados da melhor amiga, oferecendo-a um carinho. Mais alguns segundos e então recebeu os olhos castanhos e tão estranhos sem a armação ao redor. Pensou em abrir a boca para perguntar um “o que?” uma nova vez, mas a morena foi mais rápida ao falar.

“Eu te amo.”

Um segundo de novo silêncio. “Eu sei.”

Hanji fez bico. “Não dirá que também me ama?”

“Já sabe o quê quer ouvir.”

Uhh,” mirou os olhos para o vidro fosco do box. “Chato...”

“Vá logo tomar um banho.” Deu-lhe leves tapinhas nos ombros e a empurrou, também, sem força, para fora do sanitário.

Hanji espreguiçou-se ao levantar e Rivaille não gostou muito da cena de seus seios tão a mostra. A morena ocupou-se em tirar as botas e meias, juntamente com a calça que usava. “Opa.” Pronunciou ao quase cair na primeira tentativa de correr a porta do box.

Rivaille a ajudou, arrastando a porta e mudou a temperatura do chuveiro, deixando-o em frio.

“Não, Rivaille! Frio...”

“Sim, você precisa tomar um banho gelado.”

“Na-“ Ela desistiu de falar. As mãos esfregando os braços com pelos arrepiados por conta de algumas gotas de água fria que haviam tocado sua pele quando o outro abriu o chuveiro.

“Vá logo!” Deu as costas à mulher, mas esta o chamou, obrigando-o a virar-se para encará-la. Então foi pego de surpresa pelo selinho que veio e, antes que seus sentidos pudessem processar o momento, a risada familiar encheu o ar. “Tsc, tome cuidado para não cair, idiota.”

Saiu do banheiro finalmente. Não se incomodava com os selinhos que ganhava de Hanji. Não eram frequentes e não via problema algum em aceitá-los simplesmente. Era sua melhor amiga, afinal, e assim como não tinha interesse em mulheres, a morena não tinha muito em homens.

Não demorou para que Hanji aparecesse no pequeno corredor, enrolada apenas pela toalha. Cabelos molhados jogados para trás e grudados nos ombros enquanto tremia. “R-roupa...”

Seguiram para o quarto e Rivaille a devolveu uma blusa que estava esquecida em seu apartamento e emprestou-lhe a bermuda mais larga que tinha. Ajudou-a a secar os cabelos – apenas com a toalha, pois Hanji não quis usar o secador.

Após pentear os fios castanhos da outra e oferecer-lhe algo para comer, decidiu que precisava dormir. Era 01h49 e seus olhos pesavam um pouco. Apenas um pouco. O efeito do álcool havia abandonado Hanji quase por completo e Rivaille não via a hora que isto a deixasse de vez.

Deitaram-se e dividiram o edredom. Hanji remexendo-se em demasia, deixando o dançarino um pouco impaciente. Ajeitou-se, finalmente, ficando virada para o lado de Rivaille, encarando-o.

“Vá logo dormir.” Reclamou.

“Uh-huh,” murmurou em desdém.

Os cinzelados rolaram e o silêncio, mais uma vez, fez-se presente entre os dois. Logo, sendo quebrado, mais uma vez, por Hanji, que pronunciou o nome do menor.

“Hm?” O antebraço de Rivaille cobria-o os olhos.

“Como está sendo?”

“Como está sendo o que?”

Hanji hesitou por um segundo. “Como está sendo ficar sem o Eren.”

Rivaille manteve-se em silêncio, quase não acreditava que Hanji havia lhe feito tal pergunta. Suspirou. O antebraço ainda escondia os belos olhos.

“Hm?”

“Vá dormir, Hanji.”

“Me responda.” Seu tom, agora, estava sério, mas com uma sutil gentileza.

Rivaille suspirou novamente e resmungou. Levou a mão às cegas ao rosto da melhor amiga, precisando de dois ou três segundos para encontrá-lo, e deslizou os dedos na face corada, obrigando-a a fechar os olhos e comprimir os traços.

Rivaille sentia o olhar da morena pesar sobre si. Evitou um estalo de língua e livrou os olhos do antebraço, passando a encarar a outra. “Perguntará de novo, não é?” Assistiu-a assentir com a cabeça. “Tsc, por que eu tenho de aturar você?” Fez uma pausa, desviando o olhar para as cortinas e parou no teto. “Você sabe que está tudo normal. Está tudo bem.”

“Eu sei.”

“Então por quê pergunta, idiota?” Chutou a mulher por debaixo do edredom, fazendo-a rir.

Um clima um pouco tenso caiu sobre ambos após a risada cessar, então Hanji disse: “Queria saber se algo havia mudado.”

Rivaille sentiu-se um tanto infeliz, mas logo forçou-se a esquecer tal sentimento. “Vá dor-“

“Sabe, Rivaille, eu não consigo imaginá-lo sorrindo com alguém por muito tempo.”

Os cinzelados arregalaram-se um pouco. Aquela idiota ainda estava bêbada?

“Mas eu queria poder ver.” Completou. “Porque eu sei que você evita isto por querer demais.”

“Acho que está sabendo mais do que eu mesmo.” Rivaille disse irônico.

“Acho que sim.” Forçou uma risada.

“Você e Erwin são um pé no saco.” Fez uma pausa. “Sempre que algo assim começa, eu me pergunto se dará certo, se durará, mas logo respondo, dizendo para mim mesmo que não, nada acontecerá, nada mudará.” Seu antebraço agora estava sobre sua testa e seus olhos mantinham-se fixos no teto. Suspirou. “Você sabe que eu acredito profundamente que a felicidade não é algo que todos têm de alcançar, não é um objetivo comum decretado. É apenas algo que acontece e, às vezes, as coisas não acontecem.” Moveu o ombro, ouvindo Hanji pronunciar um baixo “eu sei”. “Então está tudo bem e normal.” Concluiu.

“Está mesmo?”

“É a realidade e não adianta de nada eu tentar negá-la.”

Hanji sentiu um impulso para se desculpar, mas não o fez. “Você precisa dormir.” Disse ao amigo.

“Eu estou tentando, mas uma bêbada quatro-olhos não me deixa em paz.”

A morena sorriu e recebeu o olhar de Rivaille, que também sorriu – não um sorriso forçado. Hanji adorava aquele sorriso.

O dançarino foi o primeiro a pegar no sono apesar de Hanji sentir as pálpebras um tanto pesadas por efeito do álcool. Ficou a observá-lo enquanto respirava tão calmamente e perguntou-se o quê Eren podia estar fazendo, o quê podia estar sentindo... E sentiu falta do garoto, pois era um bom garoto e gostava de sua companhia, também. Afinal, tinham muita coisa em comum.

Eren havia prometido encontrar Armin depois do trabalho e assim o fez. Encontrou-o na catraca da estação de metrô e, invés de passarem na cafeteria como de costume, preferiram ir à uma padaria que havia sido aberta há poucas semanas na esquina da rua da estação. Compraram algumas poucas coisas e puseram-se a caminhar novamente, seguindo para o apartamento do loiro.

Enquanto caminhavam, conversavam sobre as provas que logo viriam. Eren riu e, tão normalmente como respirar, direcionou o olhar à cafeteria, pois estavam passando pelo lugar, e sentiu-se estremecer um pouquinho quando avistou Rivaille sentado ao lado de fora do prédio junto com Ian e uma garota que não recordava o nome.

Sentiu-se, então, dormente e era como se sequer acreditasse que Rivaille estava ali ou, ainda, que este sequer existia realmente! Continuou a encará-lo, achando estranho e engraçado ao mesmo tempo o fato de que o dançarino não o olhava de volta, pois não sabia que estava ali. Sentiu-se um tanto solitário e pequeno.

“Eren?” Armin chamou, mas não obteve resposta e, após assistir aos traços do rosto do amigo contorcerem-se tão sutilmente em um pequeno desespero mixado à angústia, seguiu seu olhar e encontrou, também, o dançarino. “Eren...!” Continuou a fitar o homem mais velho, que conversava com outros dois à mesa, por alguns segundos até voltar os azuis ao amigo. “Eren,” tocou-lhe o braço. “Vamos embora. Eren.” Puxou-o sem força e, finalmente, recebeu os turquesas tristes.

Eren abriu a boca, mas nada veio de sua garganta. Escutou Armin repetir o “vamos” e deu dois passos junto com ele, fitando, agora, o chão. Estava desconcertado. Ao colocar-se de volta a andar, não pôde evitar direcionar o olhar, mais uma vez, ao dançarino e estremeceu novamente, sentindo seu coração pulsar mais rápido, pois os cinzelados estavam sobre si agora.

Apesar do doído peso que os olhos de Rivaille tiveram sobre si, não queria parar de fitá-los. Enquanto os lentos passos que dava o deslocava de um ponto para o outro da calçada, aqueles cinzelados o acompanhavam e aquilo era, querendo ou não, torturante.

Armin percebeu isto e, novamente, seguiu seu olhar, encontrando com Rivaille. Sentiu raiva do dançarino e pena do melhor amigo. Então observou Eren desviar o olhar, o quê o surpreendeu um pouco, e então assistiu à face de Rivaille tornar-se um pouco confusa para logo as sobrancelhas curvarem-se em algum infeliz sentimento quando, finalmente, tirou os olhos de cima de Eren.

Os passos tornaram-se mais rápidos e logo atravessaram a rua. Eren não resistiu a dar uma última olhada em direção à cafeteria, mas Rivaille estava concentrado em algo sobre o próprio colo, ou apenas estava de cabeça baixa.

Xingou-se mentalmente e xingou, também, o dançarino. Sentiu raiva de si e, também, do mais velho. Quis chorar, mas os olhos sequer lacrimejaram.

Não demorou a ser acolhido pelo quentinho do elevador e encostou-se ao espelho, descansando a cabeça também ali. Fitou a luz artificial e fitou Armin, que já o encarava.

“Você está bem?” O loiro perguntou.

Eren não respondeu.

“Eren-“ o elevador parou e logo as portas se abriram para que um homem entrasse. Armin decidiu esperar que estivessem em casa para falar e foi a primeira coisa que fez ao instalarem-se em seu quarto. “Eren, você precisa esquecê-lo.”

Eren balançou, levemente, a cabeça em sinal de sim.

“Estou falando sério. Eu não sei como isto deve ser, mas suponho que um tanto irritante e difícil. Não quero que tenha de ficar passando por isto.”

“Eu queria tentar.” A voz de Eren veio finalmente.

“Então tente! Ah, Eren, por favor... Por favor, tente...”

O moreno ofereceu um bonito sorriso ao loiro. “Obrigado.”

“Não agradeça...” Suspirou.

“Obrigado.” Repetiu e riu, fazendo Armin franzir os lábios e menear a cabeça.

Mas era pior do que Armin poderia imaginar, Eren pensava, pois, apesar de querer desfazer-se daquele sentimento que havia se tornado um tanto incomodo, não queria ao mesmo tempo e, para isto, havia uma explicação: sentia como se traísse a si mesmo e, até a Rivaille, se decidisse abandonar aquilo de vez. Havia outra coisa também, e esta, para Eren, era a pior de todas: a sensação de que tudo voltaria ao normal estava constantemente presente em sua mente e, ao pensar em abandonar o amor pelo outro, era como se suas chances fossem embora de vez, porque... E se Rivaille o quisesse de volta? Não teria mais o sentimento para retribuí-lo e ficaria com tanta raiva... Então tinha de manter aquilo consigo até que as coisas se resolvessem! Certo...?

Ah, Eren sentia-se confuso e contraditório ao pensar nestas coisas. Sentia que não estava sendo justo consigo e que absolutamente não merecia isto.

“Pare, Mikasa!” O adolescente ria alto enquanto a irmã imitava, comicamente, Annie discutindo com o atendente do mercado que tinham ido para comprar sucos.

A morena riu ao parar de se mexer tanto. “É sério, eu fiquei com dó, e você sabe, eu não fico com dó das pessoas.”

“Ah, assim até parece que você é muito foda, não é?” Brincou.

Meu querido,” Mikasa rolou os olhos, brincalhona “você sabe que eu sou.”

“Menos, Mikasa.”

“Ah,” Mikasa tinha uma das mãos sobre a barriga e respirou fundo. “Preciso de um banho.”

“Fez a pesquisa?”

“Ah! Ugh! A pesquisa...!”

Eren riu. “Faça a pesquisa.”

“Farei!” E saiu às pressas da cozinha.

O garoto ainda pôde ouvir a voz da irmã pronunciando algo – que não conseguia entender – ao pai na sala antes de seus passos pesados e apressados tomarem a escada.

Tomou um copo d’água e rumou para o quarto. Fechou a porta e manteve a janela aberta. Arrumou alguns livros da escola sobre a prateleira e jogou alguns papeis amaçados no lixo antes de suspirar cansado e deitar de costas na cama. Claro que a primeira coisa em que pensou foi Rivaille e no que havia acontecido mais cedo.

Aquela tinha sido a primeira vez que o encontrara desde que haviam terminado. Cerrou os olhos e pensou em se sentar, mas continuou deitado. O modo como os olhos de Rivaille haviam pousando sobre si o remetia à algumas coisas e o fazia pensar no quão estranho era se envolver com alguém tão normalmente e, depois, passar por uma situação tão ruim.

Suspirou, sentindo-se muito triste e, também, sentindo muita falta de Rivaille. A ausência do peso alheio afundando o colchão ao lado de seu corpo, oferecendo-o calor e calma o presenteava com uma vontade insuportável de bater-se.

Remexeu-se sobre o colchão e encarou a parede fria. Sentia tanta falta do cheiro de Rivaille e, outro dia, enquanto andava para o trabalho, tinha certeza de ter sentido o perfume que o dançarino usava ao passar por alguém. Havia odiado aquilo. Era como se apenas Rivaille tivesse permissão para ter tal cheiro e, além disso, o fez lembrar do outro ainda com mais intensidade...

Apertou as mãos entre as pernas dobradas e afundou o rosto no travesseiro. Até quando aquilo iria durar? Os olhos cinzas e intimidadores de Rivaille ainda ocupavam sua mente, agora, porém, turvos e parcialmente escondidos pela franja espalhada pela testa. As bochechas um pouco coradas e os lábios vermelhos e entreabertos. A voz chamava por seu nome entre gemidos abafados. Ah, o garoto sentia falta daquele tipo de visão, é claro...

Apertou os olhos por alguns momentos e moveu, muito minimamente, as mãos presas entre as pernas. O cheiro e calor que imaginava em Rivaille e os dedos pálidos perdendo-se em seu cabelo castanho, bagunçando-o, puxando-o... A voz que pedia por mais e a cabeça sendo lançada para trás com um par de cinzelados escondidos por pálpebras... A mão de Eren deslizou para dentro da calça folgada do pijama – Nem sempre usava cueca para dormir – Tocou a ereção já bem formada, sentindo-se envergonhado consigo mesmo, mas ao ter os dedos sobre o membro sensível, soltou um gemido baixinho, que foi abafado pelo travesseiro.

Os movimentos contínuos logo vieram e a imagem de Rivaille em sua cabeça tornava-se apenas mais e mais prazerosa de apreciar. Os dedos ficaram mais ágeis e agora os cinzelados tão belos e impuros caíam diretamente em seus turquesas.

Eren não tardou a gozar, abafando um grosso gemido de sua garganta ao afundar o rosto no travesseiro. Seu peito pesava e sua respiração parecia escassa. Esperou que estabilizasse e então moveu os dedos pegajosos e ficou a encarar a parede. Piscou e seus olhos lacrimejaram nervosamente. Logo estava chorando.