Notas iniciais
Voltei! Primeiro, quero pedir infinitas desculpas por esta pausa ridiculamente demorada. Não aconteceu porque eu quis: meu computador decidiu que me odiava e resolveu morrer... Mas! Agora estou com ele de volta (após alguns mil anos) e aqui está o capítulo! Está bem grande, o que é simplesmente ótimo, uma vez que não atualizo há tanto tempo... Contudo, há uma coisa ruim em tudo isto: durante pelo menos 4 meses a partir de agora, não poderei garantir um capítulo por semana, pois vou entrar numa rotina chata e entediante, mas bonita, de estudar... Então não terei muito tempo para me dedicar a escrever, mas juro, juro que tentarei! Agora, suplico à vocês que me avisem qualquer erro! Haha... Boa leitura!

Rivaille usava o bonito collant preto e branco e ocupava o palco sozinho, realizando pequenos e simples paços enquanto Eren o observava da primeira fileira. Hanji e Erwin conversavam próximo ao palco e uma pessoa ou outra passava por ali.

Recebeu um sorriso amigável de Hanji ao lançar os turquesas a ela e pôde perceber que Erwin deixava o lugar. A morena caminhou para perto de si e sentou ao seu lado, espalmando os joelhos. Ela havia cortado a franja, mas não de maneira a esconder toda testa. Basicamente, havia cortado os fios que caíam espalhados ao lado do rosto. Ela estava muito bonita e Eren já a havia deixado consciente disto.

“Não se sente entediado em vir aqui?”

“Para falar a verdade, não.”

Hanji o ofereceu outro sorriso gentil e aguardou alguns segundos antes de voltar a falar. “Às vezes ficamos sem fazer nada por aqui, realmente, acho que é um dos motivos pelo qual recebemos algumas críticas.” Ela assistia ao amigo no palco agora.

“Críticas?”

Somos artistas. Acredito que seja normal.” Riu, voltando os castanhos para Eren.

O garoto não sabia se havia entendido o quê ela queria dizer, mas nada disse. Remexeu-se na cadeira forrada para melhor confortar-se.

“Quatro-olhos,” a voz de Rivaille veio “por que está roubando a atenção de meu namorado?” As mãos pousaram na cintura.

Hanji riu novamente, uma risadinha desta vez, e Eren encolheu os ombros, adorando ouvir as palavras do outro, por algum motivo.

“Ora, me desculpe. Mas ele é tão bonito, eu não pude resistir.” Abraçou o pescoço de Eren, fazendo-o juntar as sobrancelhas. “Acho que sinto algum tipo de atração por ele, Rivaille.”

“Han-“

“Sério, quatro-olhos?” Rivaille inclinou a cabeça.

“Hanji...” Eren pronunciou, sua voz sendo abafada pelo braço da morena. “E-eu-“

“Eren, por favor, ela não está falando sério.”

“Huh?” Fixou os turquesas na imagem da mulher quando esta o soltou, deixando que uma gargalhada invadisse o ar.

“Querido, você realmente acreditou nisto?” Hanji perguntou.

“O-o que?”

“Hanji, não faça brincadeiras com o garoto. Ele é mais lerdo do que você poderá imaginar em uma vida.”

“Hei!” Eren protestou.

“Ora, Rivaille, não fale assim. Olhe para Eren, ele é tão bonito, não pode ser tão lerdo.”

“Ele é muito bonito, sim, e há outras coisas muito bonitas nele também, e não estou falando da personalidade, se é que me entende.” Rivaille dizia em completo descaso, fazendo a amiga se divertir.

“Bem,” Hanji pôs-se de pé “preciso terminar alguns papeis para Erwin. Não façam nada de errado, hm?” Brincou antes de se despedir com um aceno.

Rivaille e Eren se encararam. “Ignore ela na maioria das vezes.” O primeiro disse, voltando para o centro do palco.

“Eu não me incomodo com as brincadeiras.”

O dançarino nada disse, apenas continuou em seus paços simples de balé. Eren adorava assisti-lo. O faria para sempre se possível. Observou-o tocar toda a sola do pé algumas vezes no chão antes de erguer-se na ponta dele, dobrando uma das pernas na altura do joelho, ficando naquela posição clássica que era, basicamente, a única que Eren conseguia pensar quando referiam-se ao balé.

Rivaille ameaçou girar, não o fazendo. Esticou os braços ao redor do corpo e descansou os dois pés no chão, respirando fundo. Voltou à posição anterior, fazendo o mesmo movimento de antes, desta vez, porém, um giro foi feito, sendo seguido por outro. Ambos lentos. Então veio o terceiro, mais rápido. Era completamente linda a maneira como ele os realizava. Os braços dobrados ao redor do corpo enquanto girava. Eren o enxergava tão entregue ao simples paço que sentia como se naquele momento, tudo o quê existia era ele mesmo e o dançarino à frente.

Esfregou os polegares nos indicadores, os punhos escondidos dentro dos bolsos de seu moletom cinza. Continuaria a assistir ao namorado se uma figura não tivesse invadido o palco. Era Gunter. Ele vestia algo semelhante ao que Rivaille usava e agora estavam conversando algo que Eren não era capaz de ouvir claramente, pois o tom em que falavam não era realmente favorável.

Escutou uma curta risada vinda de seu namorado e Gunter segurou-lhe as mãos quando Rivaille as estendeu no ar. Uma das mãos do outro dançarino descansou na cintura do menor enquanto a de Rivaille deslizou pelo braço forte do moreno até o ombro do mesmo. Eren encolheu os ombros não podendo evitar a pontada de ciúmes que agora sentia.

Assistiu-os dar alguns passos para trás, iniciando uma dança. Não sabia que tipo era, mas arriscava dizer ser tango. Ou algo muito próximo disto? Não era grande conhecedor no assunto. A dança fluía e tinha um ritmo muito bom. Ao fim dela, Gunter tomou a liberdade de fingir que deixaria Rivaille cair ao pender o corpo menor do que o seu como se fosse pegá-lo no colo. Riu ao segurá-lo com um dos braços.

“Idiota!” Rivaille deu um leve tapa no peito do moreno, pondo-se apropriadamente de pé. “Não faça isto de novo, Gunter!”

“Desculpe.” Ele coçava o topo da cabeça, parecendo se divertir com a expressão do outro.

“Eren.” Seu nome foi chamado. “Jamais seja um idiota como este aqui.”

“Pode deixar!” Sorriu abertamente. Ainda sentia o ciúme que havia crescido um pouquinho ao ver a liberdade que um tinha com o outro. Reprimiu-se mentalmente por aquilo e forçou-se a deixar de lado.

Rivaille caminhou até o limite do palco e pulou para sentar no lugar antes ocupado por Hanji. Fitou o rosto jovem por dois ou três segundos antes de lançar os cinzelados a Gunter, que ainda estava em cima do palco.

“Como tem aguentado ele?” Gunter perguntou a Eren. Seu tom ainda explicitava divertimento.

“Você aprende a levar.” Eren juntou-se à brincadeira.

Você aprende a levar?” Rivaille repetiu, os olhos fixos em Eren agora.

“Mas é claro.” O adolescente ironizou.

“Tome cuidado, Eren, tenho certeza de que tem algo aí que quer muito proteger.”

Eren riu. “Estou brincando, você sabe.” Disse a Rivaille, que ergueu uma sobrancelha antes de virar o rosto, fechando os olhos rapidamente.

“Rivaille é a rainha do drama e eu acho que agora você terá de lidar com isto, Eren.” Gunter disse, entortando a boca ao final da frase.

As sobrancelhas castanhas juntaram-se. Rivaille abriu os olhos e um pequeno sorriso torto brincou em seus lábios ao fitar o moreno no palco. Suas pernas estavam cruzadas, o quê o possibilitou de balançar um dos pés muito livremente.

“É o quê eu disse.” A voz de Gunter veio e ele apontou para Rivaille. Eren ainda sentia-se confuso.

“Gunter.” Auruo apareceu no canto do palco. “Estamos indo.”

“Ah! Claro...” Voltou a atenção aos dois sentados na primeira fileira. “Tenho que ir. Até mais, Eren.” Acenou e sumiu atrás das grossas e pesadas cortinas.

O olhar de Rivaille pairou em Eren, que tinha uma expressão patética no rosto. “Que cara é essa?”

Cara, ele conseguiu te definir em simples três palavras.” Provocou, assistindo à expressão do namorado contorcer-se em pequena confusão. “Rainha do drama.” Eren já havia presenciado o drama fingido de Rivaille algumas vezes, claro, e agora parecia que tudo fazia sentido, pois tinha um nome para dar àquele estado de humor do outro. Um nome perfeito, concluiu.

“Não me chame de cara! Grosso.” Forçou uma expressão emburrada e bateu de leve no braço de Eren, fitando o colo do garoto.

A risada de Eren tomou o ar e ele abraçou a cintura de Rivaille, os braços das cadeiras que os separavam atrapalhavam um pouco. Sorriu e respirou o cheiro do cabelo preto.

“Eren, saia.” O tom suave na voz do dançarino.

“Não.” A ponta de seu nariz deslizava pelo pescoço alvo. Escutava Rivaille resmungar seu nome e a mão dele tentava empurrar seu corpo para longe sem sucesso algum. Beijou o pescoço e o maxilar e sentiu os ombros alheios relaxarem. Rivaille havia desistido. Sorriu e continuou a distribuir beijos pela pele clara.

Os olhos do dançarino voltaram a se fechar por alguns segundos e ele tocou o rosto jovem, que descansou o queixo em seu ombro. Remexeu-se, fazendo o garoto livrar sem ombro e rodeou o pescoço do mesmo com um braço. “Não sabia que meu namorado tinha ciúmes de meus colegas de trabalho.”

O que? Não tenho ciúmes!” Assistiu uma sobrancelha fina ser erguida. Bufou. “Por que você tem de perceber tudo?” Inflou as bochechas por um momento e ocupou o ombro do outro uma nova vez, descansando sua testa ali.

“Eu não percebo tudo, Eren.” Ouviu o garoto resmungar qualquer coisa. “Quantos anos tem? Dez?” Eren ergueu a cabeça e Rivaille ficou a encará-lo. Levou uma das mãos ao rosto do garoto e o acariciou muito rapidamente. Tocou a franja castanha e crescidinha, afastando-a dos olhos claros e sentiu algo instalar-se em seu peito. Um sentimento de pequena ansiedade quando se sente muito atraído por alguém que acha muito bonito. Beijou os lábios de Eren sem pressa.

“Rivaille.” Uma voz alta veio e o beijo foi cortado.

“Desculpe, pai.” O dançarino disse, sarcástico enquanto rolava os olhos para Erwin, que encostou as costas no palco, cruzando os braços à altura do peito.

“Sinto muito, Eren,” o loiro começou “há algumas coisas que não posso permitir aqui.”

Eren sentiu suas orelhas arderem levemente por vergonha. “Claro, me desculpe.”

“Mas onde está a liberdade de expressão deste lugar?” Rivaille protestou, fingindo total indignação.

“Por que não vai para casa?” Erwin perguntou, ignorando-o. “Não há muito para fazer aqui hoje com vocês.” Referia-se aos dançarinos e atores do lugar. Era um sábado, afinal.

“Não há nada para fazer em casa, também. Erwin,” levou o dorso da mão à testa, dramatizando “por que você me odeia? Quais são os seus motivos?”

Os azuis de Erwin pousaram em Eren. “Como você tem aguentado?”

O adolescente riu e Rivaille voltou ao tom normal. “Que papeis são esses?” Pôs-se de pé e aproximou-se do maior.

“Nada de importante.” Fez uma pausa. “Sério, vá para casa.” Conferiu a hora no relógio de pulso. “São 15 e 10 e tudo o quê tínhamos para fazer aqui, já foi feito. Você nem tem de trabalhar neste sábado.”

“Você vem trabalhar em seu dia de folga?” Eren perguntou.

“Ficar em casa olhando para as paredes não está em meus planos.” Rivaille disse. “Bem, mas acho que vou para casa, mesmo.” Suspirou.

“Faça isto. E descanse.” Erwin bateu os pepeis em mãos no peito de Rivaille, que não pareceu gostar.

Após se arrumar, Rivaille e Eren rumaram para fora da academia. Os raios de Sol conseguiam atravessar as nuvens, finalmente, aquecendo-os mesmo que pouco. O dançarino procurou a chave do carro na bolsa e ao achá-la, direcionou os olhos ao adolescente e tocou-lhe o rosto.

Antes de descerem a escadaria, Rivaille segurou a mão de Eren, apertando-a sem força. Ofereceu um sorriso gentil a ele, que sorriu de volta.

“Hei, você tem nada para fazer em casa, certo?” Eren perguntou ao abandonarem a escadaria.

“Nada.”

“Nem para limpar?”

“Por que?”

“Quer ir à minha casa?”

Oh. “Seu pai não está em casa?”

“Não, mas não é por isso, por favor. Eu pensei que já que está sem algo para fazer, po-“

“Claro.” Aguardou um segundo. “Claro, Eren.” A mão voltou ao rosto do garoto, rapidamente, e seguiram para o carro.

Ao estacionarem de frente a casa, Eren sentiu-se um pouco nervoso. Era a primeira vez que Rivaille visitava sua casa e ao fim de todos os pensamentos que poderia ter, perguntava-se se haveria louça na pia ou roupas jogadas pelo chão do quarto. Não lembrava, não fazia ideia!

Deixaram o carro e Eren passou o braço sobre os ombros de Rivaille enquanto caminhavam até a entrada, livrando-o apenas para pegar a chave em seu bolso. “Por favor, não repare se tiver algo meio bagunçado.” Pediu ao entrarem.

“Pensarei sobre isto.” Rivaille tinha o tom sério apesar de estar apenas brincando com o outro.

Eren sorriu forçado e reparou que, pelo menos na sala e cozinha, não havia bagunça. Subiram a escada e algo passou por sua cabeça: Mikasa não estava em casa? A porta do quarto da irmã estava fechada e nenhum som vinha de dentro. Deu de ombros e rumou ao próprio quarto, torcendo para que tivesse colocado as meias e bermuda no cesto de roupas sujas. Pôde relaxar os ombros ao ver que não havia bagunça ali, também, a não ser o controle de videogame e capa de jogo em cima da cama mal feita.

“Ah...” Suspirou. “Ignore isto.” Apressou-se em tirar o controle e capa dali. “Estava jogando antes de ir vê-lo.”

“Que maravilhoso é namorar uma criança.”

“Não sou criança.” Eren disse, organizava o jogo em um dos nichos em sua parede. “E não é só criança que joga videogame.” Guardou o controle dentro de uma gaveta.

“Morei com Hanji, Eren, sei bem.” Se deu a liberdade para sentar na cama do garoto.

Eren entortou o lábio, mordendo-o.

“Venha cá, filho de médico.” Rivaille chamou e o garoto, que ignorou o apelido.

Eren sentou ao lado do mais velho e descansou a testa no ombro do mesmo, abraçando-lhe a cintura e um dos braços. “Hm, obrigado por vir.”

Rivaille balançou a cabeça levemente e acariciou os cabelos do garoto. “Pare de ser bobo.” Disse num tom muito calmo. Houve um breve silêncio e então pediu: “Será que pode me trazer um copo d’água?”

“Ah! Claro! Nossa, me desculpe, nem ofereci al-“

“Não se preocupe.”

Eren sorriu fraco. “Volto em um minuto.” E saiu do quarto.

Rivaille lançou os olhos pelo quarto que não era muito grande. Notou que havia um painel detrás da porta e nele, algumas fotos e papeis com coisas escritas estavam pendurados. De onde estava, pode ver que Armin, Mikasa, Jean e um garoto de cabelo curto e preto, parecia ter sardas no rosto, apareciam na maioria das fotos. Eren sorria em muitas dela. Ou fazia alguma careta.

Deu de ombros e apoiou o queixo no punho. Uma mochila estava jogava debaixo da prateleira que seguia metade da parede de cabeceira da cama, seguindo até próximo à janela, sustentando o computador, televisão, videogame e alguns livros de escola. O quarto era até que bem organizado. Escutou um praguejar ao longe e não demorou para que Eren entrasse no quarto. Ele trazia uma garrafa de suco de laranja, uma garrafa de refrigerante de 600ml, um pacote de bolacha e outro de Ruffles.

Rivaille ficou a encará-lo. “O que?” Eren disse.

“Para quê tudo isso?”

“Ora, para você... Para mim...”

Analisou as coisas que o garoto colocava sobre a prateleira e disse: “Eu não tomo refrigerante e vejo que você precisa de uma alimentação mais saudável. E a água?”

“Ah! Eu pensei que pudesse substituir a água... Uh... Vou pegar!” E antes que o dançarino pudesse impedi-lo de sair, o garoto já estava fora do quarto.

Logo Eren estava de volta com um copo e garrafa d’água. Entregou ao namorado e despiu-se do moletom que usava, pois agora sentia calor. Jogou-a de qualquer jeito em cima da cadeira do computador e esticou a camisa branca, escondendo parte do abdômen que havia sido exposto. Jogou-se na cama, encostando as costas nos travesseiros e descansando os pés calçados apenas em meias sobre o colchão. Tomou alguns goles do suco e ofereceu ao namorado, que recusou.

“Por favor,” Eren começou, “suba na cama. Não fique assim, é tão estranho.”

Rivaille abandonou um baixo suspiro e desfez-se de seus calçados. “Abra as pernas.” Recebeu um sorriso e olhar um tanto pervertidos. “Idiota, abra logo.” Disse enquanto sorria, evitando uma risada. O garoto fez como o outro havia pedido e Rivaille encaixou-se perfeitamente entre suas pernas, emitindo um som gostoso ao descansar a cabeça sobre o peito alheio.

Eren encheu os pulmões, assistindo, como consequência, a cabeça do mais velho ir para cima e então para baixo, lentamente. Sorriu, adorando ter o outro ali, daquela maneira, e o rodeou com os braços, apertando-o fraco. “Uhhn.”

“Sinto que assim ficarei com sono.”

“Uh-huh!”

“Por que está tão animado?”

“Ah!” Eren ignorou a pergunta. “Olhe isto.” Pegou o celular de cima da prateleira e desbloqueou a tela. Foi direto à pasta de imagens e procurou uma específica que queria mostrar ao mais velho. “Olhe.” Disse ao ampliar a foto.

Rivaille remexeu-se para poder vê-la e juntou as finas sobrancelhas. “Eu?” Na imagem, estava com a palma de uma das mãos sobre a testa, enquanto olhava para um pedaço de papel que não conseguia recordar o quê exatamente era seu conteúdo. Sua expressão demonstrava que estava concentrado no quê lia, então imaginou que fosse algum roteiro ou... Uma notícia de jornal, talvez? “Quando tirou esta foto?”

“Há umas duas semanas.”

“Por acaso você é algum tipo de maníaco?”

“Por que?”

“Tirou a foto para me poupar de seus olhos?”

“Como se a senhora convencida não gostasse de olhares, hm?” Brincou.

Os traços de Rivaille se contorceram, muito rapidamente, numa expressão de deboche. “Se masturba olhando para isso?”

“Não, só tenho esta...” Eren respondeu, parecendo muito distraído, muito distante.

“O que?”

“Huh? O que? Ah!” Atrapalhou-se, dando-se conta da pergunta do outro somente agora. “Claro que não!” Assistiu ao namorado erguer uma sobrancelha numa expressão desconfiada. “É sério. Estou dizendo a verdade.” Desviou o olhar. “Mas bem que você poderia me mandar algumas boas fotos, não é? Se é que me entende...” Olhou para Rivaille de canto do olho. Estava brincando, mas queria assistir à reação do outro.

“Acha realmente que eu faria isso?”

“Depende: não, porque é algo muito idiota e, sim, porque você adoraria que eu me tocasse olhando para suas fotos.”

Rivaille cerrou os dentes. Eren estava certo. “Eu te odeio.”

“Nah, odeia não.”

“Não, mesmo.” Tocou os lábios do adolescente num selinho.

Veio o fim da tarde e ambos só haviam levantado da cama para ir ao banheiro. Eren conseguiu convencer Rivaille a assistir Harry Potter, o primeiro. O dançarino nunca havia se disposto para tal, mas não viu problemas, após alguma insistência, claro, de fazer o quê o outro queria. Foi um tanto engraçado para Eren, pois o dançarino perguntou muitas vezes o porquê de muitas coisas que aconteciam no filme, sendo obrigado a explicar. Contudo, Rivaille havia ficado satisfeito logo no início, quando Maggie Smith apareceu, pois a atriz havia estado presente em seu crescimento devido ao belo trabalho.

“Podemos assistir aos outros num outro dia.” Eren sugeriu ao fim do filme.

“Não conseguirá me converter para isso, garoto.”

O adolescente riu. “Só estou sugerindo. Deixará a história apenas pelo início?” Insistia.

Pouco depois de escurecer Rivaille decidiu que precisava voltar para casa e Eren o acompanhou até o carro. "Então ." O garoto disse, descansando uma das mãos sobre o veículo enquanto olhava ao redor.

Rivaille lançou-lhe o olhar e ergueu uma das sobrancelhas muito sutilmente, sua expressão pedia que Eren falasse algo. "Obrigado por vir." O adolescente pronunciou num tom muito sereno ao fixar seus grandes turquesas no namorado.

Rivaille apenas abriu a porta do carro para logo voltar sua atenção ao outro. Acariciou o rosto jovem com os nós dos dedos e foi puxado para um beijo. "Estamos de frente à sua casa." Comentou baixo ao ter os lábios livres.

"Uh-huh." Eren não parecia ter real consciência sobre o que estava respondendo ao outro. Seus olhos tão bonitos e presos à boca que acabara de beijar.

O dançarino sorriu e passou um dos braços pelos ombros do garoto, sendo obrigado a erguer-se apenas um pouco, e então tomou-lhe os lábios uma nova vez. Ainda sorria quando o beijo morreu, muito mais sutilmente agora. O adolescente não resistiu a sorrir também e trocaram um selinho, ambos sentindo-se bobos, mas nenhum sabendo deste sentimento um do outro.

Rivaille aconchegou-se, finalmente, no banco do veículo e Eren abaixou a cabeça à sua altura. "Até mais."

"Hm," o garoto franziu os lábios. "Até mais." Repetiu. "Tome cuidado." As mãos do mais velho tomaram seu rosto num toque gentil e o beijou muito rapidamente antes de fechar a porta do carro e seguir seu caminho.

Eren observou o veículo se afastar até finalmente sumir de seu campo de visão e pousou as mãos na cintura, movendo os ombros e pescoço.

"Eren." A voz de Mikasa chegou a seus ouvidos e ele virou a cabeça rapidamente em direção ao som.

"Mikasa! Hei. Onde esteve?"

"Eren, você... Aquele homem..."

Eren sentiu-se confuso, mas suas sobrancelhas não demoraram a juntarem-se. "Mikasa." Pronunciou num tom mais urgente.

"Vocês estavam se beijando." O garoto tentou dizer algo, mas ela não deixou: "O quê ele estava fazendo aqui?"

"N- apenas uma visita. Você sabe que nos tornamos amigos." tentava recuperar a calma enquanto falava, mas a pequena gota de nervosismo em suas palavras entregava seu estado.

"Vocês estavam se beijando!"

"Mikasa, não grite!" Sussurrou, desviando o olhar enquanto gesticulava para a irmã baixar o tom de voz. "Vamos entrar." Disse, ignorando o quê a garota falava.

Sabia que Mikasa não iria de boa vontade, então, ainda ignorando-a, caminhou para dentro da casa e, como imaginou, foi seguido pela irmã, que fechou a porta sem se preocupar em batê-la sem força...

"Mikasa, será que dá para se acalmar?"

"Não, Eren, não dá. Você sabe que eu odeio aquele cara, por quê ele esta-"

Eren começa a sentir-se estressado por conta do chilique da outra. "Mikasa, pare!" Brandiu e a garota se calou pela primeira vez. "Quem não gosta dele é você. Eu não sou você. Somos pessoas diferentes: você é você, eu sou eu e eu gosto dele. Não confunda."

Mikasa recuou por um instante. "Eu acho que você gosta até demais, Eren!" Provocou.

"Você não precisa achar porque eu estou dizendo que gosto!"

A morena queria avançar em Eren e dá-lo um belo soco no rosto. "Eren-" Hesitou. "Eren... Vocês são homens." Os traços de seu rosto tão diferente do irmão contorceram-se numa angústia ensaiada.

Aquela era uma frase que Eren não esperava ouvir da irmã. Sentiu raiva e até mesmo nojo. Ela abriu a boca para pronunciar algo, mas não a deixou prosseguir. "É sério, Mikasa? Este é seu argumento. Aliás, não. Isso sequer é um argumento." Fez uma rápida pausa. "Não pode estar falando sério."

"E por que eu não estaria? Vocês são homens, Eren, homens! E eu-"

"Mikasa, cale a boca! Isso é algum motivo para eu não poder ficar com ele?" Desviou o olhar, sentindo-se extremamente incomodado. "Mikasa," fechou os olhos, acariciando as pálpebras e então voltou a fitar a irmã e cuspiu num tom ríspido: "Como você é hipócrita."

"O que?" Ela tinha as sobrancelhas juntas em confusão.

"Não era você quem fingia ser namorada da Annie? Por que tudo isto agora?"

Mikasa precisou de um ou dois segundos para responder. "Não é a mesma coisa."

"Ah, não é?" Eren salivava irônia.

"É claro que não! Jamais a beijei e jamais permitiria que ela fizesse o mesmo-"

"Mikasa," estendeu a mão na direção da irmã para que ela ficasse quieta. "Não estou dizendo para fazer isto, mas como pode ser tão falsa consigo mesma?"

"Você não sabe o quê está fazendo, Eren."

"Mas com certeza você sabe, não é? Porque você sabe tudo sobre mim." Mantinha a ironia. "Eu não esperava ter este tipo de discussão com você. Por uma razão tão idiota... Obrigado pela decepção, Mikasa. Se eu tenho algo a concluir de tudo isto é que estou com nojo de você. Eu não vou deixá-lo por sua causa, simplesmente porque não gosta dele ou porque tem um preconceito. Ridículo." Balançou a cabeça e deu as costas à garota.

"Eren!" Ela o chamou, sentindo-se um pouco desesperada. "Há quanto tempo estão juntos?"

"Por que quer saber?" Parou no começo da escada, não obtendo resposta. "Fique feliz em saber que há mais de dois meses."

"Tudo isso?"

Não era tudo isso, claro, o garoto pensava.

"O pai não sabe disso, não é?"

"Não precisa se preocupar ou fazer pirraça, eu contarei a ele." Lançou um mau olhar à garota antes de continuar a subir os degraus.

Entrou no quarto e fechou a porta, batendo-a com certa força, o quê não havia sido proposital. Livrou-se da blusa de frio e camisa que usava, jogando-as de qualquer jeito em qualquer lugar do quarto e deixou-se cair pesado sobre a cama bagunçada.

Sentia-se realmente decepcionado com a irmã. Jamais esperaria tal atitude. Raiva e tristeza misturavam-se dentro de si agora e ele afundou o rosto no travesseiro e descobriu que estava com o cheiro de shampoo de Rivaille. Aquilo foi toda a razão da calma que veio. Respirou fundo, calmamente, absorvendo cada partícula do cheiro do dançarino e então sua raiva foi esquecida quase que instantaneamente.

Mexeu-se sobre o colchão, sentindo a pele fria das costas contrastarem com o morno dos lençóis e esqueceu o que queria fazer, sentindo-se incomodado por isso. Fechou os olhos e lembrou de Mikasa. Grunhiu e forçou-se a tirar a imagem da irmã da cabeça.

Eren contou a Rivaille o que havia acontecido e disse que queria levá-lo para conhecer seu pai o quanto antes. Só precisaria falar com Grisha primeiro.

Rivaille sorriu gentil e acariciou a mão e rosto de Eren enquanto o garoto relatava os acontecimentos. Abraçou-o, por fim, quando ele ficou quieto, pois percebeu o quanto aquela briga com a irmã o havia afetado... “Vamos,” Rivaille começou “esqueça isso, meu amor.” Beijou-lhe próxima à orelha. Recebeu os turquesas brilhantes e ainda sorria gentil para o garoto, que sorriu de volta. Queria realmente confortar Eren e fazê-lo esquecer sobre o ocorrido. Então preparou um gostoso chocolate quente com queijo derretido e, na verdade, sentia um nojo terrível daquela mistura de chocolate quente e queijo... Mas Eren gostava e queria fazer Eren se sentir bem.

Meia hora depois, o adolescente estava deitado na cama confortável do namorado e este aconchegava-se entre suas pernas, descansando as costas no torso alheio. Rivaille fuçava o celular de Eren – e o único motivo era que queria mover suas mãos com algo, mas sentia-se preguiçoso – e ambos conversavam sobre algum assunto alheio, comentando algo que o dançarino achava de interessante no aparelho ora ou outra. Quando Eren não estava olhando, Rivaille acionou a câmera frontal e tirou uma foto sua e do garoto, sendo que este olhava para qualquer ponto de seu quarto.

Eren ouviu o som familiar da câmera e olhou de imediato para o aparelho nas mãos de Rivaille. “O que você fez?” Analisou a tela do aparelho por um segundo. “O que, você tirou uma foto e não me avisou! Olhe para mim, sequer estou olhando. Por que não avisou?” Perguntou, parecendo chateado.

“Disse que queria mais fotos.”

“Sim, mas... Eu não estou olhando para a câmera. Vamos lá, tire outra.”

“Não.” Rivaille disse em tom sereno. Seus olhos fixos no aparelho.

“O que? Por que não? Tire!”

Rivaille nada disse, mas ficou a encarar a foto enquanto Eren ainda insistia para que batesse uma nova. Os olhos turquesas que gostava tanto mirados para longe e a face agora tão serena do adolescente, sem vestígios de angústia como há pouco havia. Sorriu muito sutilmente e Eren não teve conhecimento deste sorriso. Então a pequena curva sumiu de seus lábios e o garoto havia parado de falar. Por um momento, pensou em excluir a foto. Fitava a face avoada do outro na imagem e tudo o que mais queria era não fazê-lo sofrer.

Eren havia dormido em seu apartamento naquele dia. Na verdade, o adolescente ainda estava dormindo. O relógio marcava 09h45 da manhã de sábado e Rivaille assistia à face calma e adormecida, os lábios entreabertos, o jeito como os fios castanhos espalhavam-se desarrumados pela testa do garoto e o movimento suave e tranquilizante de seu peito enquanto respirava tão calmamente.

Não pôde resistir a deslizar os dedos, levemente, pela face do mais novo como se estivesse apreciando uma obra com o tato. Parou no nariz, prendendo-o sem força alguma entre dois dedos. A respiração quente de Eren colidia contra a pele de sua mão e a deixava úmida e, também, quente. Seus traços contorceram-se minimamente em alguma angústia e alguns pensamentos vieram.

Não queria fazer Eren sofrer... A consequência era sentir-se mal consigo mesmo e com tantas outras coisas. O mais terrível era que gostava tanto de ter o garoto por perto! Eren era tão transparente às vezes e já conhecia algumas coisas do garoto como se fosse um cão ouvindo seu dono chegar em casa. O modo como ele andava descalço pelo apartamento quando levantava no meio da madrugada para ir ao banheiro e voltava, na maioria das vezes, com frio, para então agarrar-se a si fortemente, obrigando-o sempre a murmurar algo em resposta e remexer-se. O modo como seus olhos viajavam para longe quando estava pensando em algo que não havia lhe contado, ou então o jeito com o qual sua respiração tornava-se rápida, mas baixa, quando estava feliz por algo e não queria demonstrar demais.

Perguntava-se se o garoto conhecia algumas de suas ações como conhecia as dele, e o quê elas significavam... Um lado de sua mente desejou que ele conhecesse, outro, nem tanto... Lembrou de quando, numa noite, sentados naquele estacionamento velho, Eren lhe disse, enquanto olhava para cima: “Você percebe que, talvez, sejamos raros no Universo? Eu acho incrível conhecermos pessoas que se tornam especiais para nós, pois, sei que se vivêssemos como legítimos animais, poderíamos ter nos conhecido, mas, ainda sim, aqui, tenhamos nos encontrado dentro de tantas possibilidades.” E lembrou de como Eren olhou em seus olhos naquele momento. E, naquele momento, sentiu seu peito aquecer, pois sabia que gostava tanto do garoto, e do jeito como ele era, como via as coisas... Eren tinha uma admiração bonita pela curiosidade e Rivaille o admirava por aquilo.

Esta característica do adolescente apenas fazia com que a vontade de tê-lo por perto tornasse-se maior. Já havia encontrado uma pessoa, há muitos anos, que demonstrava fibras desta mesma característica, mas, diferentemente desta, Eren parecia muito mais apaixonado e dizia com tanta clareza e amor que Rivaille sabia que não queria que alguém como ele deixasse sua vida.

O que era triste, pois o dançarino estava tão cansado... Estava cansado de dar chances e ter de carregar a responsabilidade, sem nunca ter a própria chance. Queria manter Eren bem, apesar de achar que a infelicidade fosse necessária na vida, e aquela responsabilidade de mantê-lo feliz e manter-se por perto pesava de forma palpável em suas costas. E Rivaille não queria tais responsabilidades... Pois, mais uma vez, estava cansado... E não queria sentir-se daquele jeito de novo. E não queria não conseguir fazer as coisas. E não queria continuar infeliz pela consciência de que não retribuía os sentimentos de Eren e continuar junto com ele, sentindo que estava iludindo-o, fazendo-o feliz daquela maneira...

Sentiu como se uma agulha entrasse em seu peito e se mexesse lá dentro e apertou os olhos, cobrindo-os com as palmas das mãos. Levantou-se apressado e calçou as pantufas simples que estavam ao pé da cama. Enrolou-se numa blusa descansada no encosto da poltrona e rumou à cozinha. Precisava de uma xícara de café. Café desta vez. Após servir-se, instalou-se na sala, dobrando as pernas sobre o sofá e deu apenas um gole no café preto antes de depositar a xícara sobre a mesa de centro e estalar a língua audivelmente. As sobrancelhas juntaram-se e as pálpebras esconderam os olhos ruidosamente mais uma vez.

Tinha vontade de socar algo, ou chorar, ou xingar... Às vezes perguntava-se por quê não podia simplesmente se apaixonar e ficar bem. Mas sempre pensava em como era ser sozinho e em como doía e em como a dor o trazia companhia cálida e tranquilidade... Mas havia Eren. Não era uma questão de escolher entre o garoto ou a dor. Era a responsabilidade e cansaço...

Rivaille permaneceu sentado ali durante longos minutos. Descobriu que seu café estava frio quando decidiu bebericá-lo e fez uma careta ao deixá-lo, novamente, de lado. Passou os dedos pelos cabelos, percebendo que estavam gelados. Um som tomou o ar e, ao olhar na direção que achava que vinha o barulho, encontrou um Eren sonolento, de olhos pesados e cabelo amaçado.

Levantou-se, indo em direção ao adolescente e uma corrente de culpa o tomou por um segundo. Tocou o rosto quente com as pontas dos dedos gélidos, fazendo Eren estremecer um pouco, e sentiu-se bem ao tocar-lhe daquele jeito. Beijou-lhe as faces e disse por fim: “Bom dia.” O relógio agora marcava 10h59.

“Bom dia.” Eren respondeu num tom de voz alto, estranhando a tão calorosa recepção do outro, uma vez que havia acabado de acordar e sua cara não devia ser das melhores... “Você está bem?” Riu.

Não houve resposta. Rivaille laçou os braços ao redor do pescoço do garoto, pondo-se na ponta dos pés, mas ainda sim, puxando-o um pouco para baixo, e acariciou-lhe os cabelos como se agradecesse por Eren estar bem. “Dormiu bem?” Perguntou ao olhá-lo nos olhos.

“Sim...” Achou que seria melhor não repetir a pergunta de antes. Abraçou o corpo menor. Abraçou forte e não o soltou. O cheiro dos fios negros dançava em suas narinas e uma certa música dos Smiths começou a tocar em sua cabeça porque a música era calma e confortável e aquele momento era calmo e confortável. Manteve-se abraçado e com a canção na cabeça enquanto movia-se devagarzinho para lá e para cá como se tentasse embalar Rivaille junto à canção muda.

Guiou o dançarino até o sofá e deixou-se cair sobre o estofado com o peso dele sobre si. Ainda o abraçava e puxou o ar com força para os pulmões. Rivaille encostou a testa em seu peito.

“Rivaille,” Eren chamou “você está bem?”

“Estou.” Rivaille respondeu. Sua voz não demonstrava sequer um sinal de estar afetada.

“Mesmo?” Eren perguntou mesmo assim.

“Sim, Eren.” Encarou-o finalmente e permitiu-se sorrir fraco.

Ficaram juntos durante todo o dia e Rivaille não deixou que suas preocupações e inseguranças se mostrassem ao outro, apesar de parecer estar um pouquinho mais sentimental. Havia dito a Eren que apenas havia tido uma boa noite de sono e sentia-se bem. Também odiava mentir. E também compreendia a necessidade de fazê-lo.

Eren foi embora após as 19h e Rivaille pensou em segurar-lhe o pulso e dizer para que o desse a resposta para como poderia fazer para se apaixonar ou que apenas fosse embora... E jamais voltasse... Como se tudo tivesse sido um sonho gostoso para sonhar. Contudo, beijou-lhe os lábios e acenou enquanto a porta do elevador se fechava.

Era engraçado como alguém podia estar feliz e satisfeito com outro alguém e este outro alguém estar sofrendo por conta dos próprios pensamentos e vida e o alguém não fazer ideia disto.

Rivaille trancou a porta e olhou ao redor. Caminhou até o quarto, esfregando os polegares e pensou em ligar para Hanji ao deitar na cama bagunçada e infestada pelo cheiro de Eren, mas preferiu ficar sozinho. Odiava ter de tomar aquele tipo de decisão, apesar de tudo. Mas no fim, tomaria.

A segunda-feira veio estranhamente agradável, pois não estava quente nem frio. Estava gostoso e era um daqueles dias em que você sente vontade de sair pulando feliz pela rua como se estivesse muito contente simplesmente pela vida existir.

Eren estava sentado, folgado, na cadeira da cafeteria e Rivaille lia um livro de bolso a seu lado. A cabeça encostada em seu ombro como em muitas ocasiões. Não ficaram ali durante muito tempo, pois o mais velho precisava voltar ao trabalho. Beijaram-se e despediram-se e Eren foi para casa.

Mal estava falando com Mikasa e o tempo máximo que viu o pai durante três dias foi 4 minutos. Tomou um banho e, ao vestir-se e estar de volta ao quarto, pegou seu violão, mas não conseguiu dar-lhe atenção, pois seu celular vibrou. Era uma mensagem da operadora. Eren ignorou-a e, antes de abandonar o aparelho, lembrou da foto que, sentindo-se idiota, percebeu que não havia lembrado até aquele momento.

Não demorou a selecioná-la e ficar olhando-a por minutos... Rivaille não havia forçado alguma expressão e Eren havia adorado tudo naquela foto. Havia até mesmo começado a gostar de sua expressão distraída. Sorriu e decidiu dar devida atenção ao violão em seus braços.

Seu celular voltou a tocar às 22h24. Era Rivaille. Eren atendeu e o dançarino disse um pouco baixo: “Será que pode me encontrar amanhã?

“Claro!”

Venha depois das seis. Venha direto ao apartamento. Queria encontrá-lo em outro lugar, mas não consigo pensar em lugar melhor do que aqui...” Ele não concluiria aquela frase para o garoto como havia feito em sua cabeça.

Eren sentiu-se um pouco confuso, mas, no entanto, não questionou. “Ok.” Disse simplesmente.

Ok.” Rivaille repetiu. “Até amanhã, moleque.” Tentou.

Eren riu baixinho. “Até.” E a chamada foi encerrada.

No dia seguinte, o garoto foi para casa após a escola e, tratou de ajeitar-se cerca de uma hora antes do marcado com o namorado.

“Eren.”

Ouviu uma voz que não ouvia há algum tempo o chamar ao chegar à porta. Manteve-se em silêncio, esperando que Mikasa continuasse.

“Aonde vai?”

Eren não respondeu. Abriu a porta e saiu, balançando a cabeça negativamente.

Ao chegar ao apartamento de Rivaille, tocou a campainha e aguardou exatos 8 segundos. “Hei,” disse ao encarar o menor.

“Hei,” Rivaille imitou-o.

O garoto sorriu de canto e entrou no apartamento, não esperando para inclinar-se e segurar o rosto do namorado no intuito de beijá-lo. Contudo, Rivaille não deixou que tivesse êxito e levou as mãos e braços ao pescoço de Eren, envolvendo-o, e beijou-lhe o rosto invés dos lábios, abraçando-o forte e demorado. Sua face escondida no pescoço alheio.

Você está bem?” Eren pensou ter perguntado, quando, na verdade, nenhuma palavra abandonara seus lábios.

“Venha cá.” Rivaille disse ao desfazer o abraço e puxou o adolescente pela mão até o sofá mais próximo. Sentaram-se e encararam-se.

“Você está bem?” Eren perguntou, desta vez em alto e bom som.

Rivaille respirou e disse: “Quero conversar com você.”

Claro! Sabe que sou todo ouvidos quando precisar.”

O dançarino tentou sorrir, mas não aconteceu e ele desviou o olhar por um momento. Não diria que gostava realmente muito de Eren, não achava justo apesar de ser pura verdade. Não diria aquilo pelo menos por agora.

“Estou fican-“ Eren tentou dizer, mas Rivaille o interrompeu, olhando das próprias mãos para seus olhos.

“Eren, lembra quando estávamos nos conhecendo e eu fazia piadas infelizes com você?” Pronunciava com certa nostalgia, como se aquilo fosse uma lembrança de anos atrás.

“Você ainda faz piadas infelizes.” Riu, fazendo Rivaille rir muito baixinho.

Após um ou dois segundos de silêncio, o dançarino disse: “Eren, eu não...” O olhava nos olhos “consigo.” Concluiu.

“O que? O que não consegue?” Eren perguntou curioso.

“Não consigo levar isto à diante. Não quero levar...”

Eren sentiu-se um pouco confuso. “Do que está falando?”

“De nós, Eren.”

Então houve um pesado silêncio que foi quebrado pelo adolescente.

“Do que... Está falando?”

“Eu não consigo, Eren...” A angústia que Rivaille sentia no peito estava se mostrando em alguns traços de sua face, muito minimamente, porém. “Vamos... Vamos voltar a quando não erámos mais do que conhecidos.” Soava como uma pergunta.

“Rivaille.” Eren endireitou-se no estofado. “Rivaille.” Repetiu no mesmo tom apreensivo. “Rivaille.” Inclinou-se um pouco em direção ao dançarino. “O que está dizendo? Por que está dizendo isso? Nós estamos bem! Nós estamos bem, não estamos? Por que está dizendo isso?” Eren sentia o coração pulsar tão forte que pensou que sua garganta fosse começar a doer.

“Eren,” a expressão de Rivaille demonstrava sua dor agora “Eu não consigo retribui-lo!” Gesticulou com as mãos à frente do peito.

“Mas estamos tentando. Não estamos? Estamos tentando... Eu sei que você gosta de mim, você sabe, nós dois podemos sentir isto tão facilmente.”

“Mas não é a mesma coisa, Eren, compreenda... Eu gosto tanto de você.” Moveu-se para um pouco mais perto do garoto, sendo duro consigo mesmo e com ele ao tocar-lhe as faces. “Mas não retribuo seus sentimento à altura... E eu-“

“Eu não me importo com isso.”

“E eu não admito isto, Eren, eu já lhe disse: sobre eu estar com alguém e não poder retribui-la inteiramente. Não quero pensar que talvez eu o esteja iludindo.” As mãos pálidas ainda estavam no rosto jovem à frente.

“Você não está me iludindo. Jamais pensei isto. Não pense de tal forma...”

Rivaille fechou os olhos e meneou a cabeça por um momento. “Eu sinto tanto...” Não queria Eren longe de si, absolutamente não, mas não se sentia no direito de pedir ao garoto que não se afastasse. Estaria sendo um verdadeiro cretino se pedisse.

“Rivaille,” Eren tocou uma das mãos em seu rosto, agarrando-a firme, mas ainda deixando-a ali. “Por favor... Não faça isso. Por favor...” Seus olhos, tão grandes e lindos, estavam marejados.

Ao ver aquilo, o dançarino pareceu sofrer ainda mais e fechou os olhos e mordeu o lábio muito rapidamente. “Não sabe o quão difícil é para mim... Me manter com você e ter de arriscar não vê-lo mais.”

Eren apertou os dedos em torno da mão de Rivaille e apertou, também, os olhos. As lágrimas lavando seu rosto e seus dedos, assim como a mão do outro, de maneira que o perturbava. Isto abriu um novo túmulo no peito do mais velho, mas ele prosseguiu:

“Estou tão cansado de tentar.” Não referia-se apenas à experiência com o adolescente, mas à tantas outras... “Não sei quando a minha vez vai chegar e não sei se chegará.”

Eren não entendeu bem aquela frase e não o encarou. Estava de cabeça baixa e olhos apertados, sem conseguir evitar que lágrimas rolassem por suas bochechas e pingassem de seu queixo. Os dedos começavam a suar contra a pele da mão alheia.

“Eren,” Rivaille queria fazê-lo olhar em seus olhos, mas, de novo, não achou que estivesse no direito de obrigá-lo àquilo. “Todos, todos os dias com você foram tão bons. Maravilhosos, para ser franco. E eu adoro estar com você e esta é uma razão pela qual fazer isto agora é difícil para mim, mas é o que eu acho que deve ser feito, que é certo para o que eu penso... Pois, mais uma vez, não quero parecer estar te iludindo... Te enganando. Eu também não quero que você sofra e eu sou o maior idiota do mundo, pois eu mesmo estou lhe fazendo sentir dor agora.”

Enquanto Rivaille falava, Eren balançava a cabeça em sinal negativo, ainda sem encará-lo. “Por favor, não faça isso...”

“Eu...” Estalou a língua. “Não posso não fazer, Eren.”

“É claro que pode! Droga! Você sabe que pode... Por favor... Nos deixe tentar...”

“Nós estávamos tentando, Eren!”

“E estava tudo bem, não estava?” Finalmente, os turquesas, agora envoltos por uma leve vermelhidão, colidiram com os cinzas. “Você disse! Você mesmo disse...”

“E estava! Eu não menti. Mas... Por favor, compreenda, é diferente. Eu não aguento pensar sobre isto todos os dias: sobre quando será finalmente que conseguirei lhe retribuir ou se irei conseguir. E eu não quero esperar, não quero esperar porque estou cansado disso.”

Eren abaixou a cabeça novamente. “Não é justo. Você me fará perdê-lo por não continuar a tentar...” Fungou.

Rivaille optou por não repetir o que havia dito sobre estar cansado, uma vez que Eren não enxergaria realmente aquilo agora. “Não é justo para nenhum de nós.” E esta era uma frase que transbordava verdade.

“Então não faça isso! Rivaille, não faça... Rivaille, eu te amo! Eu te amo tanto...”

Aquela foi a primeira vez que Eren havia pronunciado tais palavras e ambos ali podiam sentir o quão sinceras elas eram, e Rivaille sentiu-se incrivelmente infeliz por não poder dizer o mesmo ao garoto.

Eren estalou a língua e chorou mais e mais e não parou. Livrou a mão em seu rosto e agarrou-se ao pescoço de Rivaille, abraçando-o forte e chorando alto em seu ombro.

O dono dos olhos cinzas sentiu uma rocha pressionar seu peito e tentar esmagá-lo. Retribuiu o abraço de Eren e o ofereceu um carinho às costas, então o garoto se deu conta de que se deixasse aquilo acontecer, jamais teria aquela carícia da qual gostava tanto, de novo, assim como infinitas outras coisas. Diante tal pensamento, não pôde controlar mais de suas lágrimas. E dentre todas as coisas, havia o cheiro. Estava presente ali, agora, e talvez, depois, não estaria mais...

“Por favor...” Pediu com a voz abafada e trêmula, assim como seu corpo. “Rivaille...”

Rivaille deixava que Eren chorasse em seu ombro e deixaria por todo tempo que fosse preciso. O som de choro, porém, o fazia remeter-se à tantas coisas... E não queria que Eren chorasse e sofresse igual já havia feito algumas vezes há tanto tempo. Escutou o garoto fungar e mantiveram-se abraçados por muitos minutos, o choro e fungar constantes sendo os únicos sons presentes.

Foi Eren quem desfez o abraço. Disse, limpando as lágrimas dos olhos, mas ainda num tom muito choroso: “Tente comigo. Tente quantas vezes precisar... Mas, por favor, tente.” Suas mãos acariciavam os dedos pálidos de Rivaille.

“Eren, compreenda...”

“Eu não quero compreender!” As lágrimas quentes e salgadas voltavam a rolar violentas pelo rosto. Rangeu os dentes e trouxe as mãos alheias até seus olhos, usando-as para escondê-los e fazendo com que ficassem molhadas.

“Me desculpe por fazê-lo vir até aqui para passar por isto.”

Então, por alguma razão, Eren levantou-se e rumou até a porta, passando o dorso da mão pelo nariz.

“Eren,” Rivaille o seguiu com os olhos e ao vê-lo simplesmente parado ao lado da porta fechada, a cabeça baixa e uma das mãos na parede, pôs-se de pé e foi até ele.

Eren não queria pensar que tivesse desistido de continuar a tentar fazer Rivaille enxergar que também poderia continuar... “Não estou suportando a ideia de um término.” Declarou ao encontrar olhos azuis-cinzelados cheios de angústia.

O dançarino ergueu a mão para tocar-lhe o ombro, mas o garoto não o permitiu. “Não.” Ele disse simplesmente.

“Eren...” Rivaille tentou novamente e, desta vez, não foi impedido.

Ugh!” Eren grunhiu ao sentir o toque leve. Os olhos apertados e a sensação de não saber o que fazer. A sensação o estava deixando nervoso. “Rivaille, por favor!” Não fazia ideia de quantas vezes já havia repetido aquilo. Limpou as lágrimas do queixo antes que pudessem cair.

“Eren, por favor, pare de insistir, não faça isso com você.”

“Você está fazendo algo comigo!” Retrucou.

“Eu já lhe expliquei... Eren, compreenda. Compreenda...! Eu simplesmente não consigo!”

“Você está desistindo de tentar!”

“Eu estou cansado de tentar! Já tentei tantas vezes, tantas... Não sabe como isto me gera raiva e me desgasta. Eu queria ser como alguns de meus conhecidos: eles conseguem simplesmente se apaixonar, mas eu não consigo! Entende? Eu não consigo... Eu não sei em que parte de minha vida isto aconteceu... Quando foi que deixei isto para trás... Eu queria conseguir, mas o que consigo é apenas peso e dor. Entenda o quão difícil isto é para mim! Eu queria- Urgh!” Fora sua vez de grunhir, pois agora, era seu rosto que as lágrimas ocuparam-se de lavar. “Tsc” Passou as mãos pelo rosto e pendeu os braços ao lado do corpo bruscamente, dando as costas a Eren apenas por um momento. Então uma das mãos pousou na cintura e ele não tentou evitar as lágrimas que vinham.

Eren já havia pensado em como seria o rosto do outro ao chorar, mas duvidou que alguma vez poderia presenciar o acontecimento. Não pôde deixar de ficar um pouco assustado e surpreendido. Entretanto, um outro sentimento o invadiu: não queria ver Rivaille chorar, descobriu. Era estranho porque, apesar de não querer mais assistir àquilo, era como se o choro do outro provasse que ele também era capaz de derramar lágrimas. Abriu a boca para dizer algo, mas nada veio.

“Eren, entende o quão complicado isto é para mim? Eu não sei lidar com isso! Eu já me envolvi com muitos homens em minha vida e alguns deles foram meus namorados e poucos foram difíceis de deixar e agora” deu ênfase ao agora “está sendo ridiculamente ruim porque...” Desviou o olhar por um segundo enquanto limpava o nariz com o dorso da mão. “De todos os homens que tive a oportunidade de conhecer ao menos um pouco, você é o mais puro. Se não for o único... E isto me encanta. Não acredito que isto seja devido ao fato de você ainda ter apenas 17 anos.” Fungou. “Quando eu disse que queria ficar com você, disse a verdade, e eu queria mesmo... Não digo no passado, mas como algo que desejo num futuro.”

“Então fique!” Eren apressou-se em dizer. “Rivaille, nós estávamos tão bem. Fique comigo...”

Os olhos de Rivaille encheram-se ainda mais e transbordaram. “Eren, pare... Pare... Eu não consigo. Eu não consigo fazer isto comigo e com você, não consigo nos manter juntos...”

Estudante e ator choravam e as lágrimas não tinham nada a ver com alguma atuação.

“É claro que você consegue.” Eren aproximou-se, segurando a face de Rivaille entre as mãos e juntando as testas. “Você já estava fazendo tão bem!”

Rivaille soluçou. “Por favor, só vá embora.”

Eren balançou a cabeça em sinal de não. “Eu não quero.” Disse com a voz ainda trêmula.

“Vá.” Os cinzelados estavam fixos nos turquesas e estavam tão perto e inchados e avermelhados e cheio de lágrimas.

Eren separou-se finalmente e grunhiu alto, gesticulando por conta da frustração que sentia. Rivaille limpou as lágrimas e observou o garoto abrir a porta e foi como se algo disse “finalmente: destruiu outro relacionamento. Finalmente fez isto!” e sentiu-se mal e com muita raiva.

O adolescente deparou-se com o pequeno corredor vazio do lado de fora do apartamento do mais velho e apertou os olhos, voltando a encarar o outro. “Eu não quero ir.”

Eu não quero que você vá. Rivaille nada disse, mas recebeu o abraço tão apertado, desesperado e necessitado que Eren o ofereceu e o abraçou com a mesma intensidade.

“Eu te amo.” O garoto disse em prantos, absorvendo todo o cheiro dos cabelos negros. “Eu não quero essa dor.”

Rivaille sabia muitíssimo bem o quanto Eren não a queria.

Então, finalmente, encararam-se e o garoto queria tanto, tanto beijar os lábios finos do outro. Sacudiu a cabeça e desviou o olhar, indo até a porta uma nova vez. “Eu vou embora.” Anunciou. “Mas acho que não vou conseguir não voltar.” Confessou baixinho.

O dançarino manteve-se quieto, mas apenas porque havia desistido de falar algo. Varreu a sala com os olhos e então disse: “Vá.”

Eren sentiu uma ponta insignificante de raiva e rangeu os dentes. Mirou os turquesas ao corredor e sentiu as pálpebras pesarem doloridas quando mais lágrimas lhe fugiram. Voltou a fitar o dançarino.

“Eren, vá!”

Ambos sentiram o peito pesar e Rivaille correu até a porta quando Eren a fechou, sumindo de sua vista, de sua vida... Sentou-se no chão, descansando as costas contra a porta branca e dobrou as pernas, apoiando os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. Pronto, seu relacionamento com Eren não existia mais e Rivaille sentia-se extremamente exausto e tinha certeza de que iria trabalhar, no outro dia, com dor de cabeça e olhos horríveis.

Levantou os olhos para a sala e a noite através das janelas e tudo o quê quis naquele momento foi cair dormente no chão e levantar apenas quando todo o mal sumisse.

Eren chamou o elevador e, por mais que limpasse o rosto e olhos, continuava a chorar. Não quis olhar para a porta fechada e quando o elevador veio, sentiu-se aliviado por estar vazio. Olhou-se no espelho enquanto descia os andares e arrumou o cabelo o melhor que pôde, odiando as pontas úmidas próximo a seu rosto. Saiu do elevador e desceu as escadas da portaria, saindo, também, do prédio, deparando-se com duas coisas: primeira, imaginou uma daquelas cenas que são famosas em filme: Rivaille viria atrás de si, dizendo para esquecer de tudo o quê havia dito e que continuaria a tentar e então o abraçaria e esqueceriam tudo juntos. Olhou para trás e sentiu-se infeliz em ver somente uma ou duas pessoas que não conhecia andando pelo corredor do prédio.

A segunda coisa foi quando olhou para cima, para o céu escuro: Eren observou como o céu estava bonito. Claro e uma nuvem aqui ou ali (gostava tanto quando, à noite, nuvens claras perambulavam o céu) e o vento fazia com que as folhas das árvores tivessem um farfalhar gostoso e as estrelas podiam ser vistas naquela noite! Então deu-se conta: estava tudo igual, todas as coisas naturais das quais admirava e amava tanto, todas estavam exatamente iguais à todas as vezes que as tinha observado existir. Enquanto isto, ele estava sofrendo tanto, sentindo um peso que jamais sentiu em seu peito e uma angústia enorme. Mas o mundo continuava o mesmo, e ele não se referia ao mundo como pessoas, mas ao mundo como o próprio planeta. O planeta, então, continuava exatamente o mesmo de quando ainda sentia-se bem e feliz porque, para o planeta e Universo, sua dor e até mesmo alegria eram indiferentes. As galáxias continuariam a vagar, o planeta continuaria a girar, o vento continuaria a correr, as folhas das árvores continuariam a balançar, as flores continuariam a nascer... Eren sentiu-se feliz, em meio a tanto sofrimento, por aquilo, mas, também, ao mesmo tempo, com um pouco de raiva.

Antes de colocar-se a caminhar até a estação, olhou para trás e contou com os olhos os 14 andares até o apartamento de Rivaille. Seus olhos voltaram a encher de água e não conseguiu contê-las, mas logo as limpou a fez seu caminho para casa.

Ao chegar, não avistou ninguém de cara, mas quando estava subindo as escadas, ouviu Mikasa.

Engraçado. Voltou cedo da casa do namorado? Sei que ainda não falou com o pai.”

Eren olhou para ela com raiva. Dentre tantos momentos, aquele, com certeza, era o pior para que a irmã fosse inconveniente. “Não estou mais com ele, Mikasa. Está feliz? Me diga como se sente. Não precisa mais se preocupar com esta coisa em relação ao pai. Não há mais nada para contar a ele.” E apressou-se em ir para o quarto.

Mikasa não pronunciou sequer uma única palavra. Havia sentido com tanta infelicidade a dor na voz de Eren e o modo como recebeu o olhar do irmão... Não havia nada que conseguiria dizer. Sentiu-se mal, porém, e não esperava por isto. Sentia-se mal pelo irmão, por vê-lo no estado em que estava, com olhos e nariz tão vermelhos e expressão tão afetada. Mastigou o lábio pensando em algo que talvez pudesse fazer, mas a única coisa que veio foi uma enorme sensação de estupidez.

Após tomar um banho demorado, Eren vestiu o pijama amassado que estava jogado na cama e deixou-se cair sobre o colchão. Ligou o notebook e viu mensagens que haviam chegado e uma coisa ou outra, mas seus olhos doíam e a luz do computador só ajudava a piorar.

Deitou a cabeça no travesseiro e, apesar da levíssima dor de cabeça que começava a sentir, pegou o celular, diminuiu a claridade, e buscou pelo fone debaixo do travesseiro. Queria sentir-se um pouco em paz, mas logo descobriu que as músicas que havia escolhido apenas o fazia lembrar e lembrar de Rivaille e do que havia acontecido e voltou a chorar. Buscou por uma das duas fotos que tinha do dançarino em seu celular – era a que ele estava sozinho – e ficou a encará-la enquanto alfinetava seu sofrimento com músicas não muito animadoras.

Ao analisar aquilo, sentiu-se um estúpido garoto adolescente que compartilhava mensagens de frustração no amor em redes sociais.

Mudou para a única foto que tinha com o mais velho e também a dedicou muitos minutos. Enquanto olhava as duas fotos, lembrava dos muitos dias e horas que havia tido com o outro e não queria acreditar que tudo aquilo havia acabado. Por mais que tivesse consciência da realidade, não queria admitir para si mesmo que agora, referindo-se a Rivaille, este era seu primeiro e ex-namorado. Logo ele...

Perguntou-se se era certo que alguém que estava apaixonado por outra pessoa ficasse simplesmente sozinho. Sabia que não era certo, nem errado, era apenas coisas que aconteciam.

Eren lembrou-se, então, de quando havia abraçado Rivaille pela manhã há dois dias atrás, enquanto Asleep, dos Smiths, tocava em sua cabeça e não demorou a selecionar esta música e deprimir-se ainda mais.

Em certo momento, parou de olhar as fotos e deixou o celular de lado. Ainda ouvia música e havia acionado a função para que somente Asleep repetisse após todas as vezes que terminasse.

Não sabia se seus olhos já haviam incomodado e doído tanto, pois não lembrava com exatidão todos os detalhes de seu sofrimento pela morte da mãe. Sentia todo o corpo dormente, com exceção da cabeça, que parecia pesada.

O relógio marcava 04h02 da manhã e Eren não conseguia dormir por duas razões: não tinha sono e seus olhos doíam. Havia relembrado tantas e tantas coisas. De quando conheceu o mais velho e jamais poderia imaginar que chegaria a ter algo com o mesmo, quanto mais se apaixonar; quando ele o chupou pela primeira vez, tomando uma iniciativa tão repentina; quando o beijou pela primeira vez; quando Rivaille havia vindo até sua casa e deitado em sua cama pela primeira vez...

Durante todo o tempo desde que havia começado a tocar pela primeira vez, Asleep ainda era a música que escutava e Eren descobriu que, estranhamente, uma pequeníssima parte de si estava gostando daquela depressão toda, fazendo-o recordar-se de algo que Rivaille havia lhe dito uma vez sobre tristeza... A dor era imensurável dentro de seu peito e ao mesmo tempo em que queria arrancá-la e esmagá-la com toda a força de sua frustração, sentia que tinha uma boa companhia.

Algo que irritava Eren era o fato de que ainda teria aula naquele dia e não queria ter de faltar, mas estava tão cansado... A única coisa que queria era dormir, mesmo sem sono, por meses e se acordasse, queria ter nada para lembrar.