Let The Flames Begin
10 Capítulo 10
Notas iniciais
Havia esquecido completamente de que tinha marcado de ir à casa de Jean no domingo. Passariam parte do dia tocando violão. Era o que haviam marcado para fazer. Bom que ele havia sido compreensível quando inventou que teria de ir embora mais cedo para passar um tempo com o pai. 15h40 era o horário que teria de encontrar com a morena na catraca da estação de metrô próximo à cafeteria. Imaginou que poderia esperá-la ali mesmo, na estação perto da casa de Jean, uma vez que Rivaille o havia deixado lá duas vezes. Talvez ele morasse perto. Enviou uma mensagem à mulher, perguntando se era uma boa ideia esperá-la ali. Havia pegado o número dela no dia em que recebeu o convite.
A resposta não demorou a chegar: “Eren, que bom que não esqueceu do nosso compromisso. E, sim. Perfeito, pois Levi mora há poucos minutos daí.”
Ótimo. Agarrou a alça da capa do violão e guardou o aparelho de volta no bolso após avisar à outra que já estava esperando. O relógio da estação marcava 15h28. Hanji chegou às 15h50.
“Desculpe pelo pequeno atraso, Eren. Sequer tenho uma desculpa para te dar.”
Colocou o punho de frente à boca e tossiu, balançando a cabeça. “Tudo bem, não foi grande coisa.”
“Me desculpe mesmo assim.”
Deixaram a estação e os olhos apertaram por conta da luz. Eren seguia ao lado de Hanji. “Desculpe por fazê-lo ir a pé. Meu carro está na oficina.”
“Não, tudo bem. Não me incomodo em andar.”
Hanji sorriu. “Ele não mora longe.” Informou. “E esse violão? Você toca?” reparou.
“Ah, isso. Sim. Havia me esquecido que tinha marcado com um amigo para tocarmos hoje...”
“Ah, querido, você cancelou com ele? Mil perdões. Por que não me avisou?”
“Não, não. Consegui ir até a casa dele, sim. Deu para tirar um bom som.” Uma pausa para arrumar mais confortavelmente a alça sobre o ombro. “Meu amigo mora aqui perto também, por isso mandei a mensagem.”
“Fez muito bem, Eren, seria uma droga se você tivesse de ir até a cafeteria e voltar metade do caminho.”
Eren concordou e o resto do caminho foi feito ao assunto de Final Fantasy II e III. Não fazia ideia de que a morena também gostava de videogames, mas, ao parar para pensar mais tarde, viu que era um pouco óbvio o gosto por RPG, já que ela gostava de Senhor dos Anéis. Ou estava apenas julgando.
Não sabia quantos minutos havia levado, mas não demoraram para chegar à uma grande portaria de um condomínio um tanto luxuoso. Hanji foi até o porteiro e pediu para que ele avisasse a Rivaille que havia chegado. “Só esperarmos um pouquinho.” Ela disse, sorrindo para Eren.
“Como é grande aqui. E bonito também. Deve ser bem caro. Ele é rico ou algo assim?”
“Rivaille é bem de vida. Conseguiu com o próprio trabalho. Maravilhoso, não?”
Com certeza era. Não sabia qual era a história de Rivaille, mas especulou não ter sido sempre de muito luxo, afinal, aquilo havia sido conseguido com seu próprio esforço, sim?
“Contudo,” Hanji voltou a falar “sei que, apesar de não parecer, este condomínio não é tão caro assim. Levi não quis gastar muito com moradia, só quis ficar bem, confortável etc.”
“Hanji, Rivaille sabe que estou com você?”
A morena não pareceu escutar sua pergunta, uma vez que o porteiro a chamou, destravando o portão. “Podem subir.” Ele disse.
Recebeu o sorriso de Hanji e sentiu a mão dela segurar seu punho. “Vamos?” Atravessaram o portão branco, subindo uma pequena escada. Havia um gramado bem aparado, que trilhava os caminhos para dentro do prédio e para trás deste, onde descobriu ficar a piscina. Logo adentraram as portas de vidro que davam ao térreo e seguiram até o elevador.
“Hanji,” Eren chamou “Rivaille sabe que estou com você?”
“Eh, não exatamente.” Ela respondeu, desviando o olhar para um grande espelho que havia em uma das paredes do andar.
“Hanji.” Eren deu um passo em direção à mulher e então o barulho que lembrava um tilintar de sino, tomou os ouvidos e as portas do elevador se abriram.
“Eren, venha, venha.” Um segundo e os dois estavam dentro do elevador.
Eren a observou apertar o botão que indicava ao 14º andar e as portas se fecharam. Uma piada um tanto sem graça surgiu em sua mente, mas preferiu insistir na pergunta: “Hanji, como pôde não avisar a ele que eu viria com você?”
“Não se preocupe, Eren. Levi não irá te matar ou expulsar ou coisa assim. Fiquei tranquilo.” A morena disse, sem olhá-lo nos olhos.
Bufou e torceu o lábio. Além de ter que aguentar o mau humor do outro, chegaria de surpresa? Maravilha. Pendeu a cabeça pro lado e fechou os olhos. Não gostava da sensação que dava em seus ouvidos ao que o elevador ganhava altura. Agradeceu mentalmente quando sentiu seu peso voltar ao normal. As portas voltaram a abrir e ambos ganharam um pequeno corredor com uma porta à esquerda e outra à direita.
“Venha, é aqui.” Hanji chamou, caminhando em direção à porta que ficava à esquerda, abrindo-a apenas um pouco.
“Está aberta?” Eren perguntou.
“Rivaille deixa destrancada quando sou eu, Erwin ou Mike quem vem visitá-lo.”
Estava logo atrás da morena quando esta deu curtos passos para dentro do apartamento e anunciou: “Rivaille, cheguei!”
Sentiu um frio na barriga quando escutou certa movimentação em alguma parte dentro do lugar. Mesmo que Hanji tivesse dito que o outro não o expulsaria, sentia um pouco de pavor da ideia. Afinal, o humor do dançarino não era algo fácil para entender. Pelo menos, não para si. Isto o fazia se perguntar como Rivaille e a morena podiam ser amigos, uma vez que as personalidade pareciam tão diferentes.
Hanji adentrou completamente o lugar, gesticulando para que Eren a acompanhasse. “Limpe os pés.” Ela pediu, apontando para o tapete ao pé da porta, e o garoto logo o fez.
“Até que enfim chegou, quatro-olhos.” A voz de Rivaille fez-se presente juntamente com ele, que limpava as mãos num pano de prato. Uma sobrancelha arqueou. “Eren?”
“Uh, oi.” Acenou, olhando-o por cima do ombro de Hanji. A morena o deu espaço e, com um educado “licença”, passou por ela.
“Trouxe o Eren comigo.” Ela falou, como se não fosse óbvio, e fechou a porta.
Rivaille manteve-se em silêncio por alguns instantes e então, um suspiro o abandonou. “Espero que tenha limpado os pés antes de entrar, Eren.” E o deu as costas.
Os turquesa foram direcionados para Hanji e esta sorriu gentil. “Parece que o humor dele melhorou.” Ela comentou.
“Esperem aqui, eu já volto.” Rivaille avisou, atravessando a porta que levava à cozinha.
Hanji tocou o braço de Eren, guiando-o até um dos sofás. Duas grandes janelas na parede onde ficava a televisão. Uma delas estava fechada pela cortina creme e a outra iluminava o lugar com a luz do dia. Os olhos de Eren fixaram-se na segunda enquanto retirava, cuidadoso, o violão das costas e o encostava ao estofado. Hanji sentou no outro sofá. Não sentiu-se muito confortável por não ter a morena sentada ao seu lado, mas nada disse.
“Quer beber algo, querido?”
“Não, obrigado.”
“Tem certeza, Eren?” Rivaille perguntou ao voltar.
“Sim.” Cruzou os dedos entre as pernas e observou enquanto o outro sentava ao lado da morena. Sentia como se estivesse sendo avaliado pelos dois e isto não o agradava nem um pouquinho.
“Foi isso o quê quis dizer com ‘carreira na música’?” Rivaille apontou para o violão ao lado do adolescente enquanto formulava a pergunta.
Franziu a testa por um segundo, tentando recordar quando havia dito aquilo, mas não demorou para que lembrasse. “Ah, sim.”
“Por que trouxe isso?”
“Estava na casa de um amigo antes de vir para cá. Tínhamos marcado de tocar. Não se preocupe, não o tirarei da capa enquanto estiver aqui.”
Rivaille nada disse e Hanji choramingou: “Mas eu queria ouvir.”
“Posso tocar para você numa outra ocasião, Hanji.” Eren a consolou. O grande sorriso de volta ao rosto feminino.
“Não a mime, Eren.”
“Não estou.”
“Pare de ser chato, Rivaille.” Hanji disse, remexendo dentro de sua bolsa. “Aqui, a revista que me pediu.” Estendeu o conjunto de páginas ao homem, que o pegou sem proferir qualquer palavra de agradecimento. Hanji continuou a remexer dentro da bolsa.
“Está tudo bem, Eren?” Rivaille o perguntou.
“Está, por que?” Franziu a testa.
“Quer comer algo?”
“Pegue.” Hanji intrometeu-se, entregando um estojo preto ao homem.
Rivaille agradeceu à morena antes de voltar de dirigir-se a Eren. “Quer comer alguma coisa?”
“Não, obrigado. Não se preocupe comigo, uh.”
O dono dos cinzelados deu de ombros e Hanji falou: “Não esqueci o pen drive desta vez. Onde está o computador?”
“Quarto de hóspedes.” Respondeu simplesmente.
“Certo. Vai demorar um pouco para instalar, mas enquanto isso, posso dar uma olhada na ideia de roteiro que havia me falado.”
“Bem lembrado.” Disse, levantando-se, largando a revista e o estojo sobre o sofá. Caminhou até a estante debaixo da televisão acoplada à parede e puxou uma gaveta. Retirou uma pasta fina. “Está tudo aqui. São poucas páginas. Não está finalizado.” Informou ao entregar para Hanji.
A mulher já estava de pé quando falou: “Certo. Eren, fique aqui com Rivaille. Vou editar uma coisas para ele e revisar isto aqui.” Ergueu minimamente a pasta em mãos. Rumou para um pequeno corredor ao lado da sala e sumiu ao entrar na primeira porta.
“Vou preparar um chá.” Rivaille informou. “Pode esperar aqui se quiser.”
“Ok.” Respondeu, optando por ficar na sala. “Posso tocar?” perguntou antes que o outro pudesse entrar na cozinha. “Sei que disse que não o tiraria da capa, mas-“
“Aposto que Hanji praticamente o obrigou a vir aqui.” Fez uma careta, que Eren achou estranhamente bonita. “Claro. Fique à vontade, desde que não suje ou bagunce nada.”
Por um momento, pensou ser brincadeira do outro. “Mesmo? Quero dizer, não incomodará você ou os vizinhos?”
“Se ia fazer essas perguntas, por que pensou em tirar o violão, pirralho?” Observou Eren abrir a boca para argumentar, mas foi mais rápido. “Acho que o prédio é grande e as paredes são grossas o suficiente para que não ouçam.” E seguiu para cozinha.
Eren pensou em deixar o instrumento onde estava, mas decidiu tirá-lo da capa, dobrando-a logo após alcançar a palheta. Afinou o violão, batendo em algumas cordas. Ainda não sentia-se completamente confortável para fazer um som mais alto. Devia apenas guardar o instrumento. Posicionou os dedos sobre três casas e raspou a palheta nas cordas, repetindo o movimento por alguns segundos.
“Eren,” Rivaille havia voltado e estava ao seu lado agora.
Parou de tocar no mesmo instante em que a voz do outro havia chegado a seus ouvidos. Droga, não devia ter tirado o violão da capa.
Os traços finos contorceram-se por um instante e Rivaille mordeu o lábio rapidamente. “Space Oddity?”
Eren balançou a cabeça, confirmando o nome da música e um pequeno sorriso apareceu no rosto pálido. “Você escuta David Bowie?” O mais velho perguntou, sentando ao seu lado, as pernas cruzadas sobre o estofado.
“Minha mãe gostava muito. Eu meio que cresci escutando. Não sou tão fã como ela era, mas gosto.”
“Era?”
“Ela faleceu.” Explicou.
Esperou dois ou três segundos para voltar a falar. “Sinto muito.”
“Tudo bem, não se sinta mal. Faz tempo já.” Os turquesa fitavam o instrumento entre os braços.
Um meio sorriso gentil estava nos lábios de Rivaille, mas Eren não o viu. A mão pálida alcançou os fios castanhos e acariciou sem demora. A atenção do adolescente estava em si agora.
“Hm, não precisa ficar todo mole por conta disso.” Disse, um sorriso desajeitado no rosto.
Rivaille meneou a cabeça para o lado e rolou os cinzelados nas orbitas. “Vamos lá, toque.”
Eren voltou a posicionar os dedos, formando o acorde necessário e então o som das cordas preencheu o cômodo. Seus olhos arregalaram quando o outro começou a cantar. Não esperava que ele o fizesse, pensou que apenas queria escutar. Disse nada, porém. Havia acabado de descobrir que Rivaille cantava muito bem. A voz um pouco grossa, mas suave agradou a seus ouvidos. Estavam no último trecho antes do refrão quando Eren murmurou num tom que ainda demonstrava surpresa: “Você canta muito bem.” Recebeu um sorriso. O quê mais ele sabia fazer? Mesmo, tinha uma voz incrível. Chacoalhou os cabelos duas ou três vezes com este pensamento em mente.
Havia se encarregado de fazer a segunda voz, mas cantou o refrão junto com Rivaille, mesmo que num tom muito mais baixo. Seus olhos estavam fixos na imagem alheia, observando-o sorrir entre a letra da música. Os cinzelados não desviavam de si. Imaginou que ele estivesse realmente aproveitando o momento.
O homem bateu as mãos para satisfazer a parte em que estavam na música, mas foi interrompido pelo som da chaleira antes de repetir o ato. “Ugh.” Resmungou, pondo-se de pé no intuito de retornar à cozinha.
Eren deu fim à música e achou melhor esperar pelo outro ali mesmo. Alguns minutos se passaram e ainda fazia o mesmo dedilhado desde que havia resolvido apenas esperar, e finalmente, Rivaille voltou. “Tome.” Ele ofereceu, entregando-o uma xícara contendo chá e sentou.
Agradeceu, deixando o violão de lado e a palheta sobre uma das pernas. Pelo cheiro, era erva doce. Bebericou o líquido claro após assoprá-lo. Lambeu os lábios. “Você canta muito bem.” Repetiu.
“Obrigado.” Foi a vez do menor agradecer.
“Teve aula?” Eren perguntou.
“Hmm,” uma pausa para descansar a xícara no pires “sou formado em artes cênicas,” Eren cerrou os olhos, tentando adivinhar o quê exatamente era aquele curso. “mas me aprofundei no teatro lírico.”
Certo, sabia do que se tratava o teatro lírico. “Teatro?”
“Sim, artes cênicas.”
Juntou as sobrancelhas, sentindo uma pontinha de confusão. “Você é ator?” O observou balançar a cabeça em sinal positivo enquanto sorvia do chá. “Mas... Pensei que fosse dançarino?”
“Também. Dança faz parte da programação do teatro, mas foi outra coisa na qual me aprofundei. Não sabia que iria gostar tanto desta parte.”
O quê mais ele sabia fazer? “Incrível.” Eren comentou. “Você é a primeira pessoa que conheço que é formada nessa área.” Um pensamento familiar estalou em sua mente: Rivaille não era alguém que parecia fazer coisas daquele tipo. Não lhe parecia flexível o suficiente para atuar, quem diria para dançar. Sem mencionar que o cara cantava, uh.
“Me conte sobre seu interesse em tocar violão. Alguma razão especial?”
“Na verdade, não. Há anos que toco. Acho que meu interesse surgiu quando entrei na adolescência.”
“Por causa de bandas?”
Eren riu, concordando. “Mas foi uma boa escolha, ter começado a tocar. Eu gosto muito.”
“Você toca muito bem.” O garoto também não estava esperando pelo elogio. “Não errou nenhum acorde.”
“Muito obrigado.” Ficou em silêncio enquanto o outro bebericava o chá, mas logo voltou a falar. “Eu gostaria de te ouvir cantar novamente.”
“Quem sabe não tem a sorte de assistir a uma peça lírica na academia, hm?”
Entendeu que Rivaille não cantaria mais e preferiu não insistir, por mais que quisesse ouvi-lo outra vez. Lembrou da xícara ainda em mãos e a levou à boca. Seus olhos varriam lentamente a sala. A decoração não era exagerada como teria pensado. Alguns cinzeiros estavam espalhados sobre a mobília. “Você fuma?” Perguntou.
“Não mais.” Respondeu, não demonstrando muito interesse.
“Não mais?”
Rivaille limpou a garganta antes de prosseguir falando. “Parei de fumar quando entrei na faculdade. Não podia afetar a voz.” Uma pausa rápida e então concluiu: “E ainda não posso.”
Tentou criar uma cena em que o outro estivesse com um cigarro entre os dedos. Nada poderia ter combinado tanto com a imagem dele. “Por que manteve os cinzeiros?”
“Decoração.” Exalou uma risada desgostosa. “Joguei alguns no lixo. Estes são os que mais gosto, preferi deixá-los como decoração.”
“Eu nunca fumei.” Comentou.
“Eu não perguntei.”
Eren fez uma careta. “Só estou falando.”
Rivaille apoiou o rosto na mão e abandonou um suspiro. “Nunca fumou?” Eren balançou a cabeça em sinal negativo. “Não é grande coisa. Dependendo do cigarro que você fuma, o gosto é bem ruim... Os que têm algum sabor diferente são enjoativos.”
“Então por que fumou?”
Desviou os cinzelados. “Me acalmava... Às vezes sinto falta da queimação na garganta, o cheiro nos dedos... Ugh, o cheiro é horrível. Nunca me agradou.”
“Um tio meu fuma.” Comentou com a imagem de Hannes em sua cabeça. “Deve ser horrível para a mulher dele.”
“Cheiro e gosto?” Falou, num tom baixo. “Como disse, o cheiro é desagradável. Entretanto, não posso negar que o gosto de nicotina misturado ao beijo de alguém, hm, é uma ótima combinação.”
Eren dizia nada. Sentiu um espasmo no indicador enquanto ouvia a última frase pronunciada pelo outro. Nunca havia beijado alguém que fumasse, não fazia ideia de como era. “Nunca beijei alguém que fuma.”
Rivaille deu fim ao chá, ganhando uma expressão zombeteira. “17 anos... Na sua idade eu já havia feito algumas boas merdas.” Colocou-se de pé. “Pena que deixei de ser fumante. Poderia te mostrar como é.” Seu tom havia mudado para um pouco provocativo.
Os turquesa oscilaram. Logo ouvia a risada de Rivaille tomar o cômodo. “Não faça essa cara. Estou brincando, claro. Terminou o chá?”
Piscou duas vezes. “A-ah, ainda não.”
“Termine antes que esfrie.” E rumou à cozinha uma nova vez.
Bebericou do chá e se deu conta de que a curiosidade do gosto de cigarro havia se instalado em si. Não gostava do cheiro também. Lembrava de sempre pedir para Hannes não fumar em sua presença. Se deu conta, também, de que era um tanto chato com o tio de consideração. Fez uma careta. Não demorou para que seu chá tivesse fim. Levantou-se e logo fazia companhia ao mais velho.
“Hei, terminei.”
“Deixe na pia.” Rivaille pediu.
“Nah, tudo bem. Eu lavo.”
“De maneira alguma. Não quero que uma criança faça bagunça na minha cozinha apenas para lavar uma xícara. Deixe aí.”
Os turquesa rolaram. “Rivaille, será que pode, por favor, não me chamar de criança? E não farei bagunça alguma.”
Um estalo de língua. “Eren, não. Se não deixar a xícara dentro da pia, eu juro...”
“Ah, tá bom, certo.” Desistiu, depositando a porcelana onde o outro havia pedido. No instante seguinte, Rivaille ocupou-se em lavar a xícara. Passou os dedos pelos fios castanhos e encostou-se ao gabinete, observando-o. “Você tem um apartamento bem legal.”
“Vocês dois.” A voz de Hanji fez-se presente. “Levi, já revisei os papeis. Estão ótimos na verdade. Quase não precisou de reparo.” Ela informou.
“Sobre o quê são?” Eren quis saber.
“Qualquer coisa que não te interessa.” Rivaille implicou, já secando a porcelana.
“Nah, Levi está escrevendo uma peça.” Respondeu. Tomou a xícara das mãos do outro, que rolou os olhos.
“Sério? Que legal.”
“Ele só está treinando, digamos assim.” Hanji falava enquanto servia-se do chá.
“Será que eu posso ler?”
“Claro! Seria ótimo, Eren!”
“Não, não pode.” Rivaille intrometeu-se. “Esqueceram que ainda estou aqui? Hanji, pare de responder a tudo que o garoto pergunta e, Eren, não. Você não pode ler.”
Eren bufou. “Não seja tão chato.” Recebeu um olhar de poucos amigos.
“Ah, não se preocupe, Eren, vamos marcar qualquer RPG algum dia e então te contarei sobre o quê é o roteiro.” Hanji provocou.
Uma risadinha. “Claro. Menos Final Fantasy II, por favor.”
“Ora, mas por que?” Choramingou.
“Calem a boca os dois.” Rivaille voltou a falar. “Eu não mereço ter que escutar a conversa nerd de vocês e, ah, Eren, eu não acredito que é um sem vida igual a Hanji.”
A mulher riu. “Não somos sem vida. Muito pelo contrário, o videogame nos possibilita ter várias vidas.”
“Meu deus, Hanji, não acredito que disse isso. Essa piada foi horrível.” Eren ria, uma de suas mãos sobre a boca.
“Argh,” Rivaille resmungou. “Sumam daqui agora.” Mas foi o primeiro a abandonar a cômodo. Os outros dois o seguia e Hanji contornou seu ombro com um dos braços.
“Não fique assim, Levi.” Uma pausa, livrando os ombros alheio. “Ah, Eren, eu pude ouvi-lo tocar. Você toca muito bem.”
Eren agradeceu, sentindo-se um pouco sem graça. Logo todos estavam sentados no estofado macio. Hanji avisou que ainda não tinha terminado com as edições que estava fazendo em certos arquivos do computador de Rivaille e cerca de duas horas depois, nuvens escuras ocupavam o céu e Eren preocupou-se, uma vez que não havia levado guarda-chuva. Informou que iria para casa e Hanji insistiu que ficasse. “Outro dia, quem sabe.”
“Nada disso. Rivaille emprestará um guarda-chuva para você. Não se preocupe.”
Lançou os turquesa ao homem sentado ao seu lado, mas ele parecia concentrado demais na nova xícara de chá entre as mãos. “Não é, Rivaille?” Hanji o cutucou.
“Não é o quê, quatro-olhos?”
“Empresta um guarda-chuva ao Eren?”
“Se eu não fizer isto, você não ficará quieta. Tenho outra opção?”
“Certo, então. Eren, você fica. Também não quero que volte sozinho à estação.”
Percebeu que não tinha certeza se lembrava do caminho de volta. Não havia prestado atenção quando o fez, estava bastante focado na conversa com a morena. “Ok.” Pronunciou baixo e direcionou, novamente, os turquesa para Rivaille, recebendo um meio sorriso cansado enquanto ele balançava levemente a cabeça.
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